Artie adorava a vida universitária. No alto dos recém completos 20 anos, o jovem respirava realizações dentro de um ambiente em que tinha respeito. Ele não era bonito, atraente ou másculo, apesar dos braços fortes e do corpo sadio que o uso da cadeira ajudava a manter. Mesmo assim tinha algum apelo entre a população feminina, diferente do que acontecia durante os quase longínquos anos escolares em que era alvo dos valentões da escola. As pessoas podiam chamá-lo de perdedor porque era um sujeito numa cadeira de rodas, que usava óculos de aro grosso, cursava engenharia de rede, e estagiava na grande empresa de tecnologia da cidade. Um nerd, um alvo. Mas ele sabia que era especial e que fazia coisas extraordinárias.

Aproveitava a manhã de sol debaixo do edifício Steverson, um dos locais que abrigava dormitórios da universidade. O mesmo onde também moravam suas melhores amigas: Santana Lopez e Mercedes Jones. Uma pena que ele não desfrutava da companhia das duas naquele instante, mas imaginava que Santana deveria ter traçado a tal líder de torcida bonitona que ela cortejava há alguns dias. Ou quem sabe Mercedes se acertou com David Mills, do Desenho Industrial. Ele próprio estava de olho numa colega, uma vizinha de apartamento que era uma gracinha. Artie estava na universidade e era tempo de viver a juventude. No primeiro ano, descobriu o prazer do sexo livre com uma colega de curso. Pouco depois de entrar no teatro amador, pensou que poderia ser algo mais que um namorico. Não passou disso. Talvez ela não tenha lidado bem com as particularidades em namorar um paraplégico.

"Oi Artie" – o jovem voltou-se a voz conhecida, porém surpreendente. O cadeirante colocou a mão na testa para se proteger do sol e olhou para cima. Lá estava o jovem excessivamente alto com um sorriso acanhado no rosto que fazia parte da peça. Se fosse no teatro, Artie não estranharia a aproximação, mas Finn Hudson nunca o procurou antes no campus. Nunca nem o chamou para tomar um refrigerante no bar na esquina da rua do teatro após um ensaio.

"Finn?" – ele estava legitimamente chocado – "O que... você está de passagem por aqui?"

"Na verdade eu vim falar contigo" – o jovem alto parecia nervoso.

"Mas... você nem sabia onde moro."

"Eu tenho o telefone de Mercedes e ela me disse... isso se não for um problema."

"Não, claro que não. Você quer conversar aqui ou..."

"Aqui está bom!" – o gigante colocou as mãos nos bolsos ainda em sinal de desconforto – "Você é bom em coisas de computador e eu queria saber se você poderia me ajudar a encontrar o endereço de uma pessoa."

Artie não tinha certeza do que pensar a respeito. Os dois se encararam e Finn parecia mesmo ansioso por uma resposta positiva.

"Bom... você já tentou no Google?"

"Não sou muito bom com essas coisas."

"Nem com o Google?"

Finn não respondeu e pela expressão que fez Artie decidiu que não era oportuno questionar ou confrontar. Tinha, no entanto, o poder de dizer sim ou não. A curiosidade o fez decidir pela primeira opção.

"O meu computador está no meu dormitório."

O dormitório Steverson era um dos mais baratos fornecidos pela universidade. Os apartamentos eram pequenos e os banheiros coletivos. A realidade dos alunos que o habitavam era de pais que economizaram a vida inteira para conseguir pagar a faculdade do filho, hipotecas, pouco dinheiro no bolso e muita esperança no futuro. A mãe de Artie, por exemplo, era uma secretária em uma empresa com sede em outro estado. O pai tinha um açougue. O pai de Santana era taxista e a mãe trabalhava como corretora de imóveis. O pai de Mercedes Jones era dentista e a mãe vivia a fazer artesanatos para vender nas feiras livres do fim de semana na cidade em que nasceu.

Em comum, os três foram alunos destaques em suas respectivas escolas e estudavam na universidade graças a uma bolsa de estudo. Mas o aluguel e a manutenção deles na cidade não era responsabilidade da instituição. Era aí que entrava as parcas economias que os pais reuniram durante uma vida. Artie comprou o próprio computador depois de inúmeras aulas particulares que ministrou. Mercedes comprou a discografia completa de Tim Maia cortando a grama da vizinhança. Santana vestia-se bem graças aos inúmeros bicos que fez enquanto ainda estava na escola, como entregar panfleto, ser babá e até ajudar a tia nos bicos extras que arrumava como horista – uma versão de diarista.

Eram três realidades distintas de um Finn Hudson, que teve tudo que sempre quis e só soube o que era pagar as próprias contas quando decidiu morar sozinho após se formar na escola. Não que Finn fosse um garoto mimado. Talvez fosse um pouco, mas de fato a realidade dele era distinta de um Artie, tal como as motivações.

Subiram pelo elevador até ao quarto andar (Santana e Mercedes moravam um andar abaixo). Artie dividia o dormitório com Phillip, mas os dois não eram próximos. O colega de quarto estava ausente, o que gerou uma situação menos tensa. Artie pegou o computador em cima da escrivaninha e pediu para o colega pegar uma cadeira para sentar ao lado.

"Muito bem, de quem é o endereço que você precisa achar?"

"Howard Battes" – Finn olhou atentamente para o rosto de Artie em busca de alguma reação quanto ao nome, mas pela neutralidade do colega parecia que ele era ignorante quanto a identidade do vilão que atacou e quase estuprou Rachel no parque.

"Achar o endereço de uma pessoa é relativamente fácil" – ele começou a trabalhar no computador – "O Google é um primeiro bom caminho. Mas quando o buscador não fornece tal informação, uma alternativa é recorrer ao serviço de listagem telefônica da cidade" – falava enquanto digitava – "As informações costumam ser públicas e se a pessoa tiver um estabelecimento comercial ou mesmo um telefone fixo, podemos encontrá-la. A não ser que ela solicite confidencialidade..." – alguns toques na tela – "O que não foi o caso do seu amigo" – pegou um pedaço de papel e começou a anotar o endereço – "943 West Crossland Street" – antes de entregar o papel, sentiu-se no direito de perguntar – "O que vai fazer com essa informação?"

"Esse sujeito mandou consertar o carro na oficina, saiu sem pagar pelo serviço e deu um endereço falso para cobrança" – Finn sorriu nervoso – "Fique sossegado que eu não vou bater à porta desse imbecil. Só quero mandar a cobrança para o lugar certo."

"Ok. Boa sorte então no juizado de pequenas causas."

"Como?"

"É por onde se manda esse tipo de cobrança, certo?"

"Ah sim, claro!" – estendeu a mão para o colega – "Mais uma vez muito obrigado pela ajuda."

"Disponha."

Finn saiu do dormitório suando frio. Ele embolou o papel que anotou o endereço e o socou no bolso. Verdade que o justiceiro mascarado quebrou o safado, mas Finn tinha a necessidade de fazer o dele por tudo que o bandido havia feito com Rachel. Entrou na caminhonete e respirou profundamente. Precisava de um plano. Não poderia simplesmente sair e bater à porta do sujeito para socá-lo ali mesmo em plena luz do dia com a vizinhança inteira de testemunha. Sobretudo por se tratar de um bairro pobre e populoso. Além disso, ele tinha de comparecer a um almoço com a família e Rachel.

Ligou o carro e seguiu para a casa dos pais. Rachel e Kurt iriam juntos e todos se encontrariam por lá. A casa de Burt e Carole era um bonito sobrado num bairro de classe média da cidade. Apesar de ter o próprio canto, Finn gostava de ir à casa dos pais só pelo conforto de sentar na poltrona favorita dele na sala, poder ver os canais a cabo e tomar uma latinha de cerveja bem gelada. Deu um beijo carinhoso na mãe e cumprimentou o padrasto assim que chegou. Mas Finn não estava bem. Pensamentos obscuros o impedia de apreciar a companhia harmoniosa.

Rachel e Kurt chegaram próximos à hora em que o almoço costumava ser servido. Os homens sentaram-se à mesa e conversaram brevemente enquanto Rachel e Carole colocavam os pratos. Tudo tão naturalmente patriarcal que ninguém fazia mais observações sobre a dinâmica caseira. Rachel deu um beijo de leve nos lábios do namorado antes de sentar-se ao lado dele. Burt fez uma brevíssima prece e logo começou a conversar com o enteado sobre a situação do time da escola classificado para a fase estadual da liga. Procuraram não entrar nos méritos da agressão sofrida por Rachel: o assunto, mesmo fresco, ainda era doloroso demais para a velha amiga da família. Mesmo assim, Burt garantiu que colocaria a segurança na cidade em pauta no próximo encontro do conselho, mesmo sabendo que assaltos aconteciam todos os dias numa cidade daquele tamanho.

"Você vai me ver hoje?" – Rachel sentou no colo do namorado após o almoço.

Sábado era dia das apresentações das garçonetes e Rachel costumava ser a atração mais esperada entre os freqüentadores do restaurante. Ela não estava satisfeita com a pequena atenção que recebia uma vez por semana em cima de um pequeno palco, mas dentro das condições em que vivia, era alguma coisa em que não podia desprezar. Teatro musical não era tão popular assim na cidade.

"Pensei em fazer algo especial" – ela insistiu para tirar o namorado no mundo interior de pensamentos em que ele se encontrava.

"Claro que vou" – deu um meio sorriso.

"Obrigada" – Rachel segurou o rosto do namorado com delicadeza para beijá-lo.

Rachel estava pronta para ir trabalhar. Apesar de adorar Burt, a história com Carole não era tão inspiradora. Tratava bem a sogra, fazia o jogo dela, mas não necessariamente era a companhia preferida. A verdade é que sentia falta de casa em momentos familiares como aquele. Lembrava-se de ajudar um pai a fazer o almoço enquanto cantavam peças de musicais e de propaganda. Leroy era um publicitário que se especializou em compor jingles. Hiram era médico homeopata especialista em acupuntura. Foi por causa dos ensinamentos do médico que a filha tornou-se vegetariana, algo que Finn e os sogros raramente lembravam.

Olhou para o namorado que comentava sobre o jogo que assistia na televisão. Finn não parecia certo. Estava tenso. Rachel o conhecia o suficiente para perceber certos detalhes. Queria saber a razão. Despediu-se dos sogros e pediu ao namorado para que a deixasse no restaurante. Suspirou como se estivesse cansada ao sentar-se na caminhonete.

"Está bem?"

"Um pouco dolorida."

"Você deveria desacelerar, Rach. Dar mais tempo para se recuperar."

"Ao contrário, Finn. Preciso mais que nunca recuperar a minha confiança o quanto antes. Não é possível viver com medo até das sombras. Não quero isso para mim. Eu nunca fui uma mulher medrosa e não serei agora por maior que tenha sido a violência que sofri."

"Eu sei" – suavizou a voz – "Nunca duvidei da sua força interior."

Finn deixou a namorada no trabalho e voltou para a quitinete. Deitou-se na cama e olhou fixamente para o endereço anotado no papelzinho amassado. Odiava que a namorada estivesse passando por tais provações. E tudo por culpa de um escroto que decidiu arrumar uma grana assaltando pessoas num lugar escuro e fazendo sabe-se mais o quê. Queria fazer melhor do que o vigilante mascarado: ele iria acabar com a raça daquele sujeitinho de uma vez por todas. Abriu uma gaveta do guarda-roupa e tirou de lá uma soqueira antiga que ele ganhou de Puck ainda na época da escola. Olhou no canto do quarto e experimentou o peso do taco de baseball. Finn nunca jogou o esporte na escola, mas gostava dos acessórios. Experimentou um boné preto e curvou a aba. No escuro seria difícil de identificá-lo, apesar de que a intenção de Finn era fazer com que o desgraçado do Howard Battes se lembrasse muito bem dele. Olhou para os equipamentos na cama e decidiu que teria o encontro depois de deixar Rachel em casa após o trabalho.

À noite, depois das oito horas, tomou um rápido banho, se arrumou e desceu para ver a namorada cantar. Finn era conhecido por todos os funcionários. Assim que chegou à porta, a recepcionista o cumprimentou e disse que havia espaço no bar, mas que se apressasse, pois a casa estava ficando cheia. Ele sentou-se no lugar cativo onde tinha uma boa visão do palco. Rachel estava circulando entre as mesas com uma bandeja em mãos. Ela anotava os pedidos e depois corria para pegar outros. Servia graciosamente aos clientes e depois corria para entregar a conta pedida numa terceira mesa. O trabalho era contínuo. Até que em determinado momento o gerente subiu ao palco junto ao pianista, o baixista e o baterista (um trio de jazz). Rachel, como sempre, foi a primeira convocada. Ela graciosamente entregou o pedido em uma das mesas e ainda com a bandeja em mãos, subiu ao pequeno palco. Como de hábito, tirou o avental, sorriu para os músicos e acenou. Eles começaram um ritmo alegre e sofisticado sob aplausos discretos.

Rachel foi até ao microfone e soltou a voz suave e extremamente afinada.

"Olha, está chovendo na roseira/ que ó dá rosa, mas não cheira/ a frescura das gotas úmidas/ que é de Luisa/ que é de Paulinho/ que é de João/ que é de ninguém/ Pétalas de rosa carregadas pelo vento/ um amor tão puro carregou meu pensamento/ olha um tico-tico mora ao lado/ e passeando no molhado/ adivinhou a primavera."

Elis Regina era a ídolo de Rachel. A aspirante adorava a técnica da cantora e mesmo com o amplo domínio da respiração e da voz, tinha capacidade de quebrar a música, chorar sem perder a afinação, de ser raivosa ou suave e manter o poder o fascínio. Elis era uma cantora que sabia usara a extensão poderosa da voz quando era apropriado, sem exageros. Não precisava gritar no meio das canções para dizer que era boa. Tal coisa ela tinha a capacidade de fazer até no sussurro.

Quando Rachel terminou de cantar, os aplausos tímidos do início se transformaram numa força uníssona no restaurante após a linda interpretação. Normalmente, desceria do palco em seguida, o trio de jazz tocaria alguns sets instrumentais de ambiente e o gerente chamaria outra garçonete para cantar. Desta vez, após expressivos aplausos, Rachel foi convidada a cantar mais uma canção. Ela foi pega desprevenida. Normalmente preparava duas músicas no rodízio, mas como planejava sair mais cedo, combinou apenas uma com o trio de jazz. Viu que algumas pessoas estavam à espera e ela só tinha uma letra em mente. Uma que pululava e refletia pensamentos sombrios que desesperadamente procurava ocultar para que as pessoas ao redor e que se importava não fossem dragadas com ela. Por outro lado, era uma grande canção e a música também tinha o papel de dar vazão aos sentimentos.

Voltou-se para os colegas do trio e conversou rapidamente com eles. Trabalhavam juntos tempo suficiente naquele restaurante para Rachel ter o mínimo de intimidade. Ela conhecia o estilo deles e o repertório. Voltou à frente do palco e havia certa expectativa, inclusive pelo moço alto ao bar. Rachel não quis trocar olhares com o namorado. Não naquele momento. O suave piano começou a música e Rachel fechou os olhos, deixando a melodia fluir.

"Ontem de manhã quando acordei/ olhei a vida e me espantei/ eu tenho mais de vinte anos/ eu tenho mais de mil perguntas sem respostas/ estou ligada num futuro blue/ os meus pais nas minhas costas/ as raízes na marquise/ eu tenho mais de vinte muros/ o sangue jorra pelos furos/ pelas veias de um jornal/ eu não te quero, eu te quero mal."

A mudança de temática entre as apresentações surpreendeu alguns dos clientes à mesa. Mesmo assim, a interpretação forte e sentida de Rachel despertou admiração. Ao fim da música, sob aplausos contundentes, Rachel saiu do palco sem agradecer aos músicos como costumeiramente fazia. Foi direto ao banheiro dos funcionários para secar as lágrimas. Não queria lavar o rosto porque arruinaria de vez a maquiagem.

"Está tudo bem?" – uma colega de trabalho perguntou.

"Está sim" – Rachel forçou um sorriso – "É a coisa o assalto que ainda está na cabeça... mas vai passar."

"Deveria falar com o chefe e pedir para ir embora. Não passou a semana muito concentrada e vai fazer besteira se continuar assim. Aproveita que o seu namorado está aí."

A colega de Rachel tinha um ponto: ela estava tão sentida com a interpretação reveladora que se desconcentrou do trabalho, do foco das coisas. Conversou rapidamente com o chefe, que concordou em liberar a funcionária. Rachel passou a situação do atendimento para outro colega. Mesa 25 poderia pedir o prato principal, mesa 20 estava a espera do pedido e mesa 19 deveria pedir a conta a qualquer momento. Foi ao vestiário, tirou o uniforme. Nunca a sensação de vestir as roupas regulares foi tão boa. Foi até ao bar e abraçou o namorado à espera.

"Para a sua casa?" – Finn perguntou e Rachel confirmou. Ela queria a própria cama e, de preferência, o namorado a abraçando pela noite.

Assim que chegaram de frente ao prédio, Finn a surpreendeu. Disse que precisava passar em um lugar antes, mas que voltaria ainda naquela noite para ficar com ela.

"Mas..." – Rachel tentou protestar ainda dentro do carro.

"Questão de meia hora, ok?" – forçou um sorriso – "Só vou buscar uma coisa na casa de um colega meu."

"Ok?" – Rachel sentia que algo estava fora do lugar – "Entendo, apesar de que eu realmente preciso de você."

"Meia hora!" – Finn estava determinado.

"Por favor!"

"Meia hora" – disse mais pausado.

Rachel encarou o namorado e cruzou os braços.

"Então eu vou contigo."

"Rach" – Finn estava ficando desesperado – "Eu adoro a sua insubordinação, mas não vai dar. Não agora."

"E o que você vai ter de fazer tão sério que eu não possa ir junto?"

Não havia resposta boa suficiente, mesmo assim, Finn não desistiria e resolveu apelar.

"Você confia em mim?"

"Claro que sim."

"Então confie agora. Em meia hora eu vou abrir a porta do seu quarto e vou dentar ao seu lado."

Rachel finalmente saiu da caminhonete, mesmo que a contragosto. Finn esperou a namorada abrir a portaria e subir. Suspirou aliviado ao ligar ao carro e foi em direção ao endereço escrito no papel amassado. Em dez minutos, estacionou a caminhonete numa rua próxima. Tratava-se de um bairro residencial mal iluminado de casas pequenas. Muitas delas tinham cerca de metal para separar-se área do vizinho. Àquela hora da noite havia pouco movimento. Ele colocou a soqueira, vestiu um casaco escuro, colocou o boné preto e pegou o taco de baseball. Andou determinado até a rua em questão. Ficou alguns minutos parado diante de uma casa térrea azul de jardim mal cuidado e um GM na garagem com pelo menos 10 anos de uso. Havia uma tênue luz acesa e Finn pensou que talvez Howard estivesse acordado vendo televisão. Ele respirou fundo e decidiu fazer uma abordagem estilo John Wayne.

No entanto, sentiu uma pressão no pulso e no segundo seguinte estava sendo puxado por alguém com uma máscara de tecido preto, como a de um assaltante. Ficou impressionado com a pegada forte. Se esse era o tal mascarado vigilante, era uma surpresa. Passado o choque, Finn tentou resistir e se soltar. Conseguiu num movimento de braço, mas o mascarado rapidamente voltou a segurá-lo, desta vez usando técnica de torção, e continuou a arrastá-lo para o lugar onde havia deixado o carro. Numa última tentativa, Finn pegou o bastão e o bateu com toda a força que podia no vigilante. Acertou o ombro e parte do braço. Lamentou por não ter sido na cabeça. Porém o movimento funcionou e ele foi mais uma vez liberto.

"Não pode fazer isso" – o mascarado disse numa voz um tanto quanto estranha, porém masculina.

"Eu vou lá acabar com algo que você não teve a competência de fazer" – apontou o bastão para a o vigilante – "Eu vou matar aquele cara e se você tentar me impedir, mato você."

"Aquele sujeito está desempregado e desesperado porque não consegue pagar nem o supermercado da família. Ele cometeu um crime, verdade, mas confie em mim quando digo que ele não é um sujeito perigoso. Acredite. Ele já teve o que mereceu."

"Isso não é você quem julga."

"Por um acaso você é o juiz?"

"Sou eu quem tem um taco em mãos."

Na luta franca, apesar de Finn ter um taco e ser mais alto, ele perdia. Tentava acerta o mascarado que se esquivava com facilidade e aplicava contragolpes desconcertantes, como se brincasse. A estratégia parecia fazer o gigante se cansar. E com o passar do embate, Finn já não tinha mais pernas ou braços para continuar. Ajoelhou-se no asfalto sem fôlego, desarmado e humilhado.

"Quem é você?" – perguntou quase às lágrimas.

"Um amigo" – o mascarado respondeu.

"Se fosse meu amigo me deixaria fazer justiça."

"Rachel vai ficar bem."

Ouvir o nome da namorada da boca do mascarado encheu Finn mais uma vez de fúria.

"Fique longe dela. Seja lá quem você for, fique longe dela. Se você se aproximar dela outra vez, juro que te mato. Eu juro!"

"Não faça promessas que não possa cumprir."

"Eu cumprirei essa. Você é meu inimigo de hoje em diante."

"Tudo bem, eu aceito. Só vá para casa ficar com a sua garota. Você não tem negócios aqui, acredite."

Frustrado, Finn voltou à caminhonete e dirigiu de volta ao apartamento que Rachel dividia com Kurt. Entrou em casa e viu a namorada deitada encolhida na cama. Em silêncio, ele tirou a camisa e os sapatos e deitou-se ao lado dela, abrigando o corpo pequeno de Rachel contra o dele conforme o prometido.