O justiceiro mascarado atacou novamente. Na noite do último domingo, o casal Jane Pectrovick (22) e Robert Lewis (21) foram presos junto a um poste em downtown junto com duas armas não registradas, e quase sete mil dólares em dinheiro. O casal teria roubado uma loja de conveniência e um bar naquela noite. Ambas ocorrências foram registradas pela polícia ainda na noite de domingo. O casal infrator aparece nas câmeras de segurança da loja de conveniência. Além disso, ambos foram reconhecidos pelo caixa do bar e o dono da loja de conveniência. Jane relatou que ela e o companheiro foram abordados por uma pessoa com o rosto coberto, que os imobilizou e os prendeu junto a um poste. A jovem teria se impressionado com a força e agilidade do mascarado devido à facilidade com que foram imobilizados e presos.
Ao que tudo indica, o mascarado teve uma noite ocupada. Dylan Frampton (26) foi amarrado junto a um poste e achado na manhã de domingo com o cartaz de "traficante" e portando cem comprimidos de êxtase. Apesar de o homem negar, foram encontradas no apartamento de Dylan cinco quilos de pedras de crack, dois quilos de cocaína, dez quilos de maconha e mais 200 comprimidos de êxtase. Uma testemunha que prefere não se identificar disse que o senhor Frampton era o principal fornecedor de drogas dentro do campus da universidade.
Apesar do aparente serviço público, a polícia reitera que a população também deve denunciar o paradeiro do justiceiro mascarado. "As pessoas podem achar que o tal justiceiro é um herói, mas ele não é alguém qualificado para tal. Essa pessoa está infringindo a lei, cometendo crimes, como agressões, e deve responder por esses atos", reiterou o chefe de polícia Carl Burke. O senhor Howard Battes (33) entrou com uma ação formal contra o vigilante após ser espancado e amarrado a um poste sob a acusação de ser um estuprador. Não há queixas contra o metalúrgico ou ocorrências que comprovem tal acusação.
Finn leu o jornal da terça-feira e tinha sentimentos contraditórios a respeito das ações do justiceiro mascarado. Sobretudo após o breve e frustrante encontro na noite de sábado. Foi como se o justiceiro tivesse rindo da cara dele por ter a capacidade de se meter nos negócios dele e ainda humilhá-lo numa briga totalmente injusta (ao menos era assim que Finn gostava de pensar), para depois ainda ter tempo de cuidar de um traficante. Que metido. A admiração se transformou em raiva e desdém logo no primeiro encontro.
Olhou para o carro que deveria consertar. Trabalhar com tanta coisa em mente era complicado. Ele precisava fazer alguns confrontos, a começar por Artie. Algo dizia que o colega deficiente físico tinha alguma relação com o justiceiro, porque ninguém mais soube de Howard Battes e do endereço. Como é que o mascarado pôde tê-lo achado e deixado o bilhete no carro? Artie era a ligação, mas ele ainda não teve a oportunidade de confrontar o colega no teatro. A começar pelo cancelamento do ensaio da segunda-feira. Também não conseguiu o encontrar no campus quando passou por lá pela manhã.
"Oi Finn, o que foi?" – Kurt atendeu ao telefonema.
"Você pode me fazer um favor hoje?"
"Depende. O que é?"
"Você pode pegar Rachel no trabalho hoje?"
"Tudo bem. Pego ela sim."
"Valeu irmãzinho. Fico te devendo um favor."
"Mais um entre tantos."
Finn sentiu-se revigorado com o compromisso estabelecido por si mesmo. Trabalhou no carro ao longo do expediente e fez as ligações necessárias para a namorada e para o técnico de futebol americano dizendo que não poderia ajudar no treinamento. No fim do dia, tomou um banho e foi em direção ao campus da universidade. Estacionou a caminhonete e andou em direção ao dormitório do colega. Apertou o interfone e ninguém atendeu. Desta vez não desistiria tão fácil. Sentou-se num dos bancos de concreto e esperou pacientemente.
Artie entrou no campo de visão de Finn quase uma hora depois. O cadeirante estava acompanhado de Mercedes e de um jovem que ele nunca tinha visto antes. Era um cara de cabelo castanho enrolado, jeito de nerd, pelo menos um palmo mais alto que Mercedes. O jovem se chamava David Mills e havia emplacado um início de namoro com a jornalista, não que o mecânico fosse se importar com tal informação. Ele estava nem aí para a vida particular de muitos dos colegas do teatro. Ele se lixava para Mercedes, Artie, Santana, Matt, Quinn, Brittany e Mike. A fidelidade dele estava com Rachel, Kurt, Tina, Puck, Schuester e Emma. Essa era a turma dele.
"Olá Finn?" – Mercedes abordou o colega num misto de estranhamento e surpresa – "O que faz aqui?"
"Olá para vocês" – deu um meio sorriso – "É que eu vim aqui procurar Artie para discutir um projeto e eu não tinha o telefone dele, só o endereço... será que a gente poderia conversar?" – olhou diretamente para o cadeirante.
"Claro! Aqui ou você vai querer subir ao dormitório?"
"A gente pode subir" – um lugar reservado era o enfrentamento que Finn queria fazer.
"Falou!" – Artie sorriu para a amiga – "Vejo vocês dois mais tarde e se puderem deixar Santana do lado de fora, seria um sarro" – provocou.
"Quer saber" – a diva abriu um sorriso – "Adoraria instalar uma câmera na porta do meu dormitório só para ver a cara de Santana de quando ela chegar e encontrar o quarto com o nosso código de ocupado."
Finn entendeu nada do que se passava e nem se importava. Despediram-se no elevador, quando Mercedes e o novo namorado ficaram no terceiro andar. Artie e Finn teriam mais um pela frente. Uma vez na segurança o dormitório, Artie sorriu para o colega e gesticulou para que sentasse na cadeira, mas Finn recusou. Andava de um lado a outro como um animal inquieto.
"Em que posso ajudá-lo?"
"Sábado, quando eu te procurei para achar um endereço."
"O que tem?"
"Você disse para mais alguém o que fizemos?"
"Devo ter comentado. Por quê? Era algo sigiloso?"
"Você poderia fazer um esforço e se lembrar com quem comentou?"
"Mercedes e Santana para começar."
Finn bufou. Ele procurava um homem pelo menos um palmo mais baixo, porém muito habilidoso e certamente com treinamento em artes marciais. Considerou possível aqueles três universitários conhecerem alguém assim, mas não imaginava como seria possível que uma das meninas fosse comentar com uma terceira pessoa, provavelmente o alvo, sobre um plano que ele não revelou. A não ser que Artie estivesse escondendo algo. Havia duas opções na mente de Finn: a primeira seria uma abordagem mais enérgica. A outra mais apelativa. Talvez tivesse mais chances com a segunda. Puxou uma cadeira e sentou-se à frente de Artie e entrelaçou os dedos.
"Esse cara, Battes, foi quem assaltou e agrediu Rachel" – Finn observou atentamente a reação de Artie e ficou ainda mais decepcionado com a reação genuína de surpresa do colega – "Eu peguei o endereço para acertar algumas coisas com esse sujeito. Bom, eu não consegui, fique sossegado, mas então uma coisa muito estranha aconteceu: esse cara, o justiceiro, me impediu de me aproximar da casa de Battes. Não apenas isso: ele sabia exatamente o que eu queria fazer. Acontece você foi a única pessoa que sabe que eu pedi tal informação. O único que sabia que eu, de alguma forma, procuraria Howard Battes."
"E você acha que eu decifrei todo o seu plano a partir de um pedido comum e contei para o vigilante mascarado?"
"Pensei em milhares de coisas, Artie. Não leve para o lado pessoal, mas... eu achei que você tivesse uma relação estreita com esse cara."
"Caso eu conhecesse, você iria pedir uma audiência?" – agora o tom foi carregado de ironia.
"Eu..." – Finn levou as mãos à cabeça. Estava frustrado e cansado.
"Escute Finn, eu comentei isso com as meninas quando estávamos em meio a um grupo de colegas. Conhecemos muita gente aqui e essas pessoas que conhecemos se relacionam com várias outras que sequer imaginamos."
Rachel ainda tinha pesadelos à noite, além da insônia. Ela dizia não ter medo, mas não queria andar até a esquina da própria rua sem companhia. Isso o matava. Não estava sendo fácil para Rachel superar a raiva e o trauma do quase estupro, assim como não era para Finn estar ao lado dela para dar suporte quando ele próprio tinha vontade de socar uma parede e quebrar os ossos da própria mão.
"Esse cara tentou estuprar Rachel" – Finn desabafou sobre o verdadeiro motivo pela primeira vez desde o incidente – "O tal justiceiro a salvou em cima da hora. Mas ele não a salvou de ter insônia e pesadelos à noite."
"Não sabia" – Artie se aproximou e colocou a mão no ombro do amigo em sinal de conforto – "Sinto muito quanto a Rachel e é uma pena que eu realmente não possa te ajudar sobre a identidade desse tal justiceiro. Eu tinha ouvido falar dele do noticiário, claro, mas eu não faço idéia de quem seja ou das ligações que possa ter."
"Tudo bem" – Finn esfregou as mãos no rosto como um despertar após o desabafo – "Ando tão estressado que gostaria de descontar em qualquer pessoa ou coisa. É difícil ver a minha namorada sofrendo e poder fazer absolutamente nada" – levantou-se e ainda desconcertado procurou a porta – "Olha, será que você poderia deixar esse assunto só entre nós? Não comente isso com Mercedes e Santana. Principalmente Santana. Ela é uma cretina cínica."
"Ela é uma das minhas melhores amigas e garanto que não é nada do que você pensa ser" – disse imperativo.
"Desculpe... só peço esse favor. Pode ser? Rachel não ia gostar em saber que eu andei espalhando a verdade por trás da agressão."
"Claro" – acenou com seriedade – "Fique tranqüilo, ok?"
"Valeu... bom... preciso ir."
Finn saiu derrotado do dormitório do amigo. Não estava inteiramente convencido da inocência dele, mas não havia nada que pudesse fazer naquele instante a não ser investigar com cuidado e cautela. Foi para casa frustrado. Estava certo de que Kurt buscaria Rachel no restaurante e ao menos isso era uma tranqüilidade.
Não foi bem assim que aconteceu. Kurt cochilou enquanto assistia um filme com Adam, um interesse amoroso que estudava na classe dele na faculdade comunitária, e perdeu a hora. Rachel esperou o amigo por meia hora, deixou recados no celular dele e de Finn. Nada. Viu o último colega se despedir e atravessar a rua. Não se atreveria a pedir carona ao patrão. Do jeito que era, pensaria que poderia se aproveitar da funcionária, como meses atrás, num caso em que uma colega pediu demissão quando ele exigiu uma transa para depois acusá-la de flertar e tentar seduzi-lo. As pessoas poderiam ser escrotas dessa forma e Rachel achou melhor não dar abertura alguma.
Viu-se sozinha. O parque estava a poucos metros e a caminhada por ele não passava de um quilômetro até o apartamento em que morava. Costumava fazer o trecho em poucos minutos e até o dia do ataque, não tinha receio. Queria voltar a ser assim. Olhou em direção à área verde cercada de urbanidade. Tinha um spray de pimenta na bolsa e sentiu muito medo. Queria ter novamente a coragem. Queria ter novamente a normalidade. Pensou uma, duas, três vezes. Respirou fundo. Deu um passo para além da calçada e atravessou a rua. O spray de pimentas estava em mãos. Segurava o tubo com força. Andava mais depressa que podia e entrou no parque onde tudo aconteceu.
Precisava enfrentar o medo. Era uma questão de honra. Sabia de todos os riscos da travessia antes mesmo do ataque. Mesmo assim aquilo nunca foi problema. Não, ela precisava estar ali.
Procurou pensar em uma das canções favoritas.
"Gosto muito de ter ver, leãozinho/ caminhando sob o sol/ gosto de você, leãozinho/ para desentristecer, leãozinho/ o meu coração tão só/ basta eu encontrar você no caminho/ Um filhote de leão, raio da manhã/ arrastando meu olhar como um imã/ o meu coração é o sol, pai de toda cor/ quando ele doura a pele ao léu."
O pai Leroy costumava cantar a música quando era pequena. Isso a lembrava dos momentos felizes da infância, de quando ia ao parque brincar, das noites de pizza e jogos de tabuleiro, das sessões de vídeo do fim de semana. Rachel sentia falta dos pais. Tinha as chaves de casa, mas o orgulho a impedia de entrar na própria casa e pedir desculpas por ser uma turrona, por ter ficado ao lado de Finn e ter rompido a relação com os pais por causa do namorado. A música, naquele instante, transformou-se num mantra para encarar os medos.
O parque estava vazio, como sempre. Nada de anormal considerando o horário. Mas Rachel viu algo diferente. Ouviu algumas vozes. Era como se tivesse acontecendo uma briga por ali. Apertou o tubo de pimenta em ficou preparada, apesar da tremedeira. Uma pessoa atravessou o caminho correndo, fugindo. O perseguidor revelou-se segundos depois. O perseguido parou, apontou uma arma e atirou. Ainda assim o perseguidor o alcançou e o acertou num golpe certeiro. O perseguidor usava uma máscara. Ele amarrou os pulsos do homem nocauteado. E afastou-se dali cambaleante. Levou a mão ao abdômen e conferiu. Andou de volta as árvores. Foi quando Rachel teve o impulso de segui-lo.
Correu o mais rápido que pode e encontrou o mascarado a ponto de vê-lo cair próximo a um pinheiro. Aproximou-se com cautela e ali, na penumbra da lua minguante parcamente auxiliada com os postes de luzes da pista de asfalto que circundava o parque, viu o mascarado em respiração ofegante com uma das mãos no abdômen. A bala o atingiu. A aproximação de Rachel gerou reação no mascarado, que tentou se levantar, mas foi em vão.
"Calma" – andou devagar – "Calma. Estou aqui para ajudar."
Rachel ajoelhou-se ao lado do mascarado e retirou a mão fraca dele de cima do ferimento. A jaqueta estava molhada de sangue. O mascarado tentou colocar a mão no bolso baixo da calça, mas faltava-lhe força e coordenação. A cantora entendeu e colocou a mão no bolso. Havia um celular.
"Você quer que eu ligue para alguém?"
"177. Diga que estou no parque..."
Rachel discou o número.
"San?" – uma voz que não lhe era estranha atendeu.
"Meu nome é Rachel Berry... San foi gravemente ferido no parque St. James próxima a saída da rua Wales. Ele precisa de socorro urgente."
"Ok" – desligou.
San perdia sangue. Era uma bala. Rachel precisava fazer alguma coisa. Estava trêmula, mas tinha de ajudar. Abriu o zíper da jaqueta jeans e deparou-se com um corpo feminino, ofegante, que lutava pela própria vida. Pressionou o ferimento. O pai médico lhe dera algumas noções de primeiros socorros e ela sabia que era necessário pressionar ferimentos. O toque gerou desconforto. Paciência. San respirava irregularmente. Quem estivesse do outro lado da linha, que chegasse o quanto antes. Pensou que a máscara dificultasse e talvez San precisasse de menos obstáculos possíveis. Não era correto violar o segredo da identidade, mas Rachel agiu na melhor das intenções. Levantou a máscara até libertar a justiceira daquele tecido. Não acreditou no que descobriu. San era de Santana Lopez. Ninguém menos do que a colega implicante do teatro. A garota que, apesar de bonita e sexy, Rachel a considerava intragável. Nem em um milhão de anos ela poderia associar tais identidades.
"San?" – disse ainda chocada.
"Rachel..." – tossiu sangue e gemeu de dor. Não conseguiu completar a frase.
"Aguente firme, ok? A ajuda vai chegar a qualquer momento" – ficou mais empenhada em pressionar o ferimento.
"Os caras..."
"Não pense em bandidos agora. Precisa se preocupar em poupar energia."
"Frio..."
"É a perda de sangue. Mas vai passar. Aguente, Santana, por favor. Não morra nos meus braços. Não agora que tenho um milhão de perguntas em minha mente."
Rachel sentiu alguém se aproximar. Mais de uma pessoa. Olhou para trás e viu duas pessoas: ambas vestiam máscaras iguais a de Santana. O que diabos? Aquilo seria uma organização secreta ou algo nesse sentido? Um dos mascarados retirou as luvas e puxou a blusa encharcada de Santana para cima enquanto o outro a puxou para trás pelos ombros.
Uma luz azul tênue saiu das mãos do mascarado junto a Santana. Rachel não estava louca. Não havia aparelhos ali, só a mão. Não era um filme de ficção científica, de paranormalidade ou de extra-terrestres. Era vida real e o mascarado emitia luz azul pelas mãos. Santana respirou mais ofegante, acelerado, o coração de Rachel disparou pela enésima vez naquela noite e, de repente, ela sentiu muito sono. A visão escureceu.
