Rachel levou um susto ao despertar. Ficou preocupada com Santana e a primeira atitude dela foi querer correr para ajudar a colega. O ímpeto a fez cair da cama. Ficou confusa. Como era possível estar no parque num momento e no outro no próprio quarto? Ainda vestia as mesmas roupas, mas suas mãos estavam lavadas. Talvez tivesse imaginado coisas. Talvez tivesse batido a cabeça. Sentou no carpete e procurou raciocinar. Lembrou-se de cada detalhe daquela noite. Viu o mascarado correr atrás de um homem que atirou e o acertou. Mesmo assim o nocauteou e o imobilizou. Depois saiu do percurso do asfalto, que era iluminado, e foi cambaleante até as árvores. Foi lá que Rachel o encontrou. Melhor: a encontrou. Era Santana. Que pediu para ligar para um número no celular e requisitar ajuda. Dois mascarados chegaram minutos depois e um deles tinha uma luz azul que saía das mãos. Foi isso que se lembrava.

Pensou que talvez tudo tenha sido produto da imaginação. Era possível ser um sonho com tanta riqueza de detalhes? Talvez não. Procurou por evidências. O sapato dela estava meticulosamente ao lado da cama. Era estranho: ela e Kurt sempre deixavam os sapatos à porta da sala e circulavam pela casa com um chinelo de dedos próprio para tal. Os sapatos estavam sujos de terra. Era o indício número um. Procurou pela bolsa, colocada em cima de uma cadeira. Vasculhou o conteúdo e aparentemente estava tudo ali: carteira, documentos, dinheiro, e o spray de pimenta. Aquilo era estranho porque que ela se lembre o tubo ficou pelo chão. Em nenhum momento ela se preocupou em colocar aquilo de volta. Essa era a evidência número dois. Por último, verificou as roupas. A jaqueta estava pendurada no cabideiro de chão. Examinou o jeans e viu manchas de sangue na ponta da manga. O tecido estava úmido, inclusive. Sabia que o sangue não era dela.

Seja como for, alguém tentou encobrir os fatos da noite anterior e ela apostava que foi algum mascarado. Pegou roupas frescas e tomou um banho. Olhou para o relógio. Eram quase sete da manhã. Esperou por Kurt. Ouviu movimentação no quarto do amigo, então, finalmente, ele apareceu junto com Adam.

"Bom dia, Rach" – o amigo disse normalmente.

"Bom dia, Kurt e Adam."

"Acordou disposta hoje. Até já tomou uma chuveirada."

"Posso fazer uma pergunta?"

"Sim."

"Como cheguei aqui."

"Pela porta!" – falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo – "Falando nisso, desculpe por ter furado contigo. Mas que bom que arrumou uma carona com um colega seu de trabalho. Foi realmente um alívio, Rach. Juro que eu apaguei e só acordei quando você entrou em casa."

"Mesmo?"

"Mesmo... Rach, está tudo bem?"

"Não tenho certeza."

"Do que não tem certeza?"

"As coisas estão... confusas agora."

Ela precisava tirar aqueles acontecimentos a limpo e Kurt não seria o sujeito que ajudaria, ou mesmo Adam, que fazia cara de abobado. Os três se dirigiram à faculdade comunitária para mais um dia nas respectivas classes. Rachel, porém, trapaceou: deixou o prédio da faculdade e correu para pegar o primeiro ônibus que fosse em direção ao campus universitário. Conferiu na pequena agenda o endereço pretendido. A paranóia com controle e organização quase sempre lhe rendia benefícios. No caso, tinha endereço e telefone de todos os integrantes do grupo teatral naquelas páginas.

Edifício Steverson, apartamento 308 – residência de Mercedes Jones e Santana Lopez.

Bateu à porta uma, duas, três vezes. Ninguém. Bateu uma quarta vez e esperou. Quando pensou em pegar o celular na bolsa, a porta se abriu revelando uma pálida Santana Lopez.

"Berry?" – ela resmungou.

"Obrigada por atender, Santana" – entrou sem pedir licença.

O dormitório não passava de um quarto grande com duas camas de solteiro. Havia uma escrivaninha, uma pequena estante, um computador, armário, alguns cartazes na parede, um frigobar, ou seja, tudo que é clichê (e necessário) dentro de um dormitório. Um lado estava arrumado. O outro lado, Rachel presumiu, deveria ser o de Santana a julgar pela cama remexida.

"O que faz aqui?" – perguntou enquanto fechava a porta. Sentia fraca demais para permanecer em pé e dar uma de durona. Sentou-se na própria cama e aguardou explicações.

"Eu sei que você é o vigilante mascarado. Ou pelo menos um deles" – Rachel disparou e Santana ficou ainda mais pálida.

"O quê?" – procurou dar uma última cartada e se fazer de desentendida.

"Você foi baleada ontem a noite."

"Você enlouqueceu de vez, Berry?"

Rachel não estava com paciência para joguinhos. Ela avançou em Santana, que não resistiu e caiu de costas contra o colchão. Em seguida teve a blusa levantada pela cantora. Havia uma cicatriz no mesmo lugar em que deveria haver um ferimento.

"Sei que sou irresistível, mas não precisa forçar a barra" – forçou um sorriso.

"Cala boca, Santana. Você foi baleada ontem a noite e pare de agir como se não soubesse do que estou falando. Estou angustiada aqui. Preciso de explicações..."

Santana levantou o tronco e sentiu-se tonta com o esforço. Ela curava rápido, mas não poderia abusar. Rachel viu a dificuldade da colega e a amparou.

"Aqui" – empurrou os pés de Santana para cima da cama e a ajudou a encostar-se à cabeceira. Pegou a manta e cobriu até o ventre. Santana terminou de se aninhar mais uma vez. Rachel pegou a cadeira e a colocou ao lado da cama. Pronto. Agora podia ouvir as explicações.

"Do que você se lembra?" – Santana suspirou.

"De você levar um tiro daquele sujeito e depois cair entre as árvores. Eu te socorri e liguei para um número no seu celular. Você estava muito mal... ainda está, para ser franca. Então chegaram dois mascarados, sendo que um deles tinha uma luz azul saindo das mãos. o outro colocou a mão na minha cabeça e eu dormi. Acordei no meu quarto, na minha cama, com as minhas mãos lavadas quando elas deveriam estar sujas de sangue. O seu sangue" – enfatizou a última frase.

"Interessante" – Santana franziu a testa.

"Sim, muito interessante."

"Interessante porque se lembra. Isso não deveria acontecer."

"Está sugerindo que um dos vigilantes tentou arrancar essa memória de mim?" – Santana acenou – "O que são vocês?"

"É uma longa e complicada história."

"Tenho a manhã inteira."

"Não é tão simples. Não é algo que deva chegar ao conhecimento das pessoas."

"Do jeito que vocês agem e pelas notícias das últimas semanas, diria que é tarde demais."

"Ainda assim, há identidades que precisam ser protegidas, segredos. Coisas que nos dão segurança para caminhas na cidade, estudar em paz. Você não deveria se lembrar do que aconteceu, mas já que se lembra, não pode contar para mais ninguém, Berry. Você vai ferrar com a minha vida e de outras pessoas caso abra a boca. Neste momento, principalmente com a minha vida."

"Eu não vou contar a ninguém. Nem a Finn ou a Kurt. Prometo. Mas eu preciso saber."

"Você já sabe demais."

"Ainda assim, tenho dúvidas. Não estou te pedindo para que me mostre o grande quadro. Só me diga o que posso saber dentro daquilo que descobri ao te ajudar."

"O que quer saber?"

Rachel parou por um instante e pensou: o que gostaria de saber? A lista era imensa, mas procurou condensar os itens.

"Você é um vigilante mascarado?"

"Sim."

"Quantos você são?"

"Não vou responder."

"Você patrulha pela cidade em busca de criminosos?"

"Também."

"Você me salvou do estuprador?"

"Sim."

Rachel silenciou-se por um instante enquanto digeria a informação. Nem em um milhão de anos ela poderia prever que aquela garota pudesse salvá-la de qualquer coisa. O senso comum era de que Santana a empurraria de uma ponte ou da beira de um precipício se tivesse a oportunidade. Viu a vigilante se ajeitar na cama. Parecia sentir dor, estava fraca. Rachel não entendia como aquela figura que não era muito maior que ela pôde mandar um sujeito para a UTI e ainda carregá-la nos braços por quase um quilômetro.

"Aquela pessoa da luz azul nas mãos, aquilo era um super-poder ou algo neste sentido?"

"Talvez."

"Foi o que te curou?"

"Foi o que me salvou. Como vê, não é que eu fosse sair dali dando cambalhota. Eu perdi muito sangue e o meu corpo ainda precisa de descanso. Estou toda dolorida, principalmente no lugar em que levei o tiro. Mas não se preocupe Berry: eu saro rápido."

"Esse é o seu super-poder? Resistência? É por isso que conseguiu me carregar por uma longa distância?"

"Também e eu sou mais forte que uma pessoa normal."

"Como o Super-Homem?" – Santana estava surpresa. Nunca esperou ouvir qualquer referência geek sair da boca de Rachel Berry, por mais comum e banal que fosse.

"Nem tanto. Como vê, eu não ou de aço, não voo, não tenho visão de raio-x, sopro gelado, raios quentes não saem dos meus olhos..."

"Santana!"

"Ok" – ela sorriu e depois gemeu de dor. Deu-se um pouco e tempo para continuar – "Eu sou uma pessoa bastante forte. Mais do que aqueles caras gordos e barbudos que movimentam uma carreta por alguns metros para aqueles programas de TV. Num dia bom, posso correr mais rápido do que o Usain Bolt e manter essa velocidade por muito mais do que 100 metros. Também sou mais resistente e curo relativamente rápido de ferimentos e fraturas."

"Você é como Buffy Summers então?"

"Mais ou menos isso. Estou impressionada por você saber ao menos o básico da cultura pop, Berry."

"Ah, por favor."

Rachel abriu um sorrisinho. Santana tossiu e isso a trouxe de novo para a realidade do estado que a colega se encontrava. Resolveu se inclinar e estender as mãos para tocar no rosto da outra. Sentiu a temperatura. A pele estava fria.

"Você deveria se agasalhar melhor" – Rachel levantou-se e foi insolentemente até ao armário do quarto em busca de mais um cobertor – "E se alimentar" – disse enquanto pegava uma segunda manta. Abriu e a jogou em cima da colega – "Seu corpo precisa se recuperar desta anemia e há sopas à base de beterraba que poderiam ajudar. São industrializadas, mas o sabor é tolerável."

"Mesmo?" – tentou soar indiferente.

"Isso é sério, Santana. Eu posso comprar algumas latas de sopa se quiser. É só me indicar o mercado mais próximo. Também posso fazer alguma coisa em casa e pagar um entregador..." – foi interrompida com batidas à porta e ficou apreensiva.

"Se quiser pode atender por mim, Berry. Não há nada de anormal nisso."

A cantora acenou e abriu a porta para a colega. Deparou-se com uma mulher bonita de longos cabelos castanhos, com luzes nas pontas. Usava uma roupa justa e curta demais para a temperatura do dia.

"Quem é você?" – perguntou insolente.

"Ra... Rachel Berry."

"Santana está aí?" – não esperou a resposta e foi logo entrando no dormitório. Deparou-se com a vigilante dentada e coberta. A reação foi de puro ciúme. Avançou em Santana e puxou-lhe as mantas – "Vocês estavam transando?"

"Não!" – Rachel respondeu de imediato, claramente intimidada – "Tenho nada com Santana. Juro."

"Oi Jenny" – Santana sentou-se na cama totalmente indiferente à atitude da outra – "Jenny, essa é Rachel, minha colega e de Mercedes do teatro."

"Olá Jenny" – Rachel ainda estava nervosa com o encontro – "Então você é amiga de Santana?"

"Namorada" – disse ainda com a postura armada e predadora.

Santana bufou com a palavra. Não era namorada. Jenny era uma transa corriqueira, apesar da outra moça não encarar os fatos como tal. As duas tiveram sim um namorico no início da faculdade quando Santana era uma caloura e a outra cursava o segundo ano. Mas Jenny logo se revelou possessiva ao passo que a vigilante queria viver outros relacionamentos. O romance terminou e permaneceu assim por vários meses. Certo dia, durante uma festa, as duas voltaram a se encontrar sexualmente, mas Santana não queria compromisso e procurava deixar isso claro sempre que possível. Assim permaneciam desde então: Jenny sabe das conquistas ocasionais da vigilante, chega a se declarar solteira, mas age sempre como uma namorada ciumenta (e se declara como tal) quando as duas estão juntas ou mesmo em meio de outras pessoas.

"Então Rachel" – Jenny a encarou – "O que faz aqui?"

"Caso não tenha notado" – Santana interferiu com a voz autoritária – "Eu estou gripada, doente e Rachel teve a gentileza de vir aqui fazer uma visita e me passar alguns recados e notas do ensaio que perdi."

"Você deve ser muito prestativa, Rachel" – Jenny disse carregada de ironia.

"Bom, Santana, já estava mesmo de saída. Desejo melhoras" – pegou a mochila e saiu do dormitório. Não achava que era tão certo deixar a colega fragilizada e doente daquele jeito com uma predadora. Bom, também não era problema dela.

Saiu do edifício sem ser vista por ninguém conhecido. Mercedes, Tina e Artie estavam em classe naquele instante, assim como ela também deveria estar na faculdade comunitária. O restaurante em que trabalhava não ficava longe do campus e, de repente, certas coisas fizeram sentido. Imagine um triângulo do tipo eqüilátero. Imagine que uma das pontas ficasse o restaurante, a seguinte em sentido horário ficasse o campus universitário e o seguinte fosse o bairro em que Rachel morava. O miolo do triângulo era o parque urbano, relativamente grande com áreas privadas de iluminação pública. Esse era o mapa simbólico daquela região. Era natural que Santana circulasse por ali, portanto.

Rachel usou justo o parque para ir trabalhar. Eram dez horas da manhã, mas e daí se já tinha perdido as aulas e ela não queria ficar à toa até as quatro, horário em que entrava. Poderia acumular alguns créditos para o banco de horas. Andar pelo parque pela manhã era infinitamente mais agradável do que pela noite. A estranha que ligava a saída da universidade para a saída próxima ao restaurante era diferente do trecho que usava para chegar em casa. Pouco passava por ali, por isso as coisas lhe pareciam ser novas, como por exemplo, era naquele lado que funcionava nos limites do parque um museu e, mais adiante, havia um campo de softball.

Chegou ao trabalho sob olhares curiosos de alguns colegas que não a esperavam ali tão cedo. Sem querer abrir discussões, trocou de roupa, colocou o uniforme, e foi trabalhar pelas gorjetas do dia tão necessárias para se pagar as contas de casa e à mensalidade da faculdade. Quando teve uma oportunidade, falou com a menina que anotava os pedidos para entrega. Do próprio bolso, pagou por uma salada de beterrabas que havia de opção na casa e um risoto de frango. Pediu para que a comida fosse entregue no apartamento 308 do edifício Steverson no campus universitário aos cuidados de Santana Lopez.

...

"Vamos lá, galera" – o diretor Schuester bateu palmas – "Mais uma vez. Puck, pare de se esconder no fundo do palco e Santana, mais energia dessa vez."

"Sem direito a água?" – Quinn reclamou.

"Vamos lá, Quinn. Mais energia na movimentação. Nas marcações."

Era um grupo de quatro atores que encenariam o número com Panis ET Circenses. Santana, Quinn, Puck e Mike voltaram para as marcações iniciais e recomeçaram.

"Eu quis cantar/ minha canção iluminada de sol/ soltei os panos sobre os mastros no ar/ soltei os tigres e os leões nos quintais/ mas as pessoas na sala de jantar..."

Mike tomava a frente.

"São ocupadas em nascer..."

"E morrer" – havia nesse instante um movimento de dança complicado para alguém com o corpo dolorido como o de Santana. Mas ela procurou não demonstrar dor. Passava três dias do episódio do tiro, era sexta-feira, e ela procurava retomar a vida normal apesar do incômodo.

"Mandei fazer/ de puro aço luminoso punhal/ para matar o meu amor e matei/ as cinco horas na avenida central/ mas as pessoas na sala de jantar..."

Dessa vez era Puck que tomava a frente, como um Arlequim.

"São ocupadas em nascer..."

"E morrer"

Santana suspirou e fez um esforço para fazer o solo.

"Mandei plantar/ folhas de sonhos no jardim do solar/ as folhas sabem procurar pelo sol e as raízes procurar, procurar."

Ficou aliviada por ter conseguido cantar perfeitamente, mas o incômodo continuava, o corpo ainda não teve tempo de se recuperar por completo. Sorte de que ela era ela e tinha amigos com dom de curar. Ser resistente a ajudou a durar o suficiente para a cavalaria chegar. Fosse uma pessoa comum, teria morrido. No entanto, mesmo ela precisaria de mais repouso. Mas Santana era cabeça dura suficiente para decretar que um dia de repouso seria suficiente.

Na última parte da canção, os atores tinham de correr e cantar numa espécie de caos que se instaurava no palco com a aproximação de policiais.

"Mas as pessoas da sala de jantar/ essa pessoas da sala de jantar..."

Santana vacilou e esbarrou no palco. Só não caiu porque se apoiou em Mike, quase o derrubando também.

"Santana!" – o diretor gritou – "Está tudo bem?"

"Estou sim, Schuester. Só um pouco baleada hoje" – o comentário fez Rachel cuspir a água que bebia da garrafa. A atriz principal engasgou e recebeu tapinhas nas costas do namorado sentado na poltrona ao lado – "Talvez se eu puder ser poupada por hoje..." – a universitária cogitou esperançosa. O plano era ir até o fim, mas começou a se sentir fraca e cansada.

"Tudo bem" – disse o diretor – "Finn, Mike, Puck, Artie, Kurt e Matt" – convocou – "Vamos fazer aquela cena dos rapazes."

Enquanto os homens ganharam o palco, Santana desceu em direção às poltronas e foi até onde estavam Mercedes e Brittany.

"Está bem?" – Mercedes perguntou preocupada. A amiga estava com baixa energia durante todo o dia ainda mais do que ontem.

"Preciso de cama, só isso."

"A gente pode combinar com alguém para dar carona a Artie e ir embora agora mesmo."

"Pode ser."

Santana sentou-se ao lado de Brittany e assistiu Mercedes resolver o problema. Não levou mais do que cinco minutos e logo a dupla saía rumo ao estacionamento sob o olhar atento de Rachel. Era um desafio para a cantora, e frustrante, saber sobre a dupla identidade de Santana, a origem do mal-estar, e fingir saber nada a respeito. Não podia sequer conversar com ela porque pareceria estranho frente aos outros, mas anotou mentalmente que deveria, talvez, ligar mais tarde para saber se estava tudo bem. Acompanhou as duas colegas com os olhos, franziu a testa e resmungou.

"Algum problema, Rachel?" – Quinn chamou a atenção da colega que parecia mais inquieta que o normal.

"Nenhum" – forçou um sorriso – "O ensaio está demorado hoje e estou cansada."

"Nem me fale" – relaxou um pouco mais na poltrona – "Aquela baixinha já me pediu para ir embora duas vezes" – apontou para Beth.

"Considerando a quantidade de vezes que ela já correu entre as poltronas..." – soltaram risadinhas tensas. Tudo parecia tenso para Rachel – "Você conseguiu a matrícula na classe especial da escola?" – em escolas elementares havia a oferta de turmas que ficavam além das classes regulares por causa dos pais que trabalhavam até mais tarde. Quinn tinha dificuldade de sair correndo da livraria e geralmente pegava Beth com meia hora de atraso.

"Consegui desconto de 50% para ela ficar a hora extra. Já é alguma coisa."

"Que bom."

Rachel bem que tinha vontade de ajudar os colegas em dificuldade, mas ela vivia com os bolsos apertados. As únicas pessoas que conhecia entre os colegas e amigos que gozavam de alguma sobra financeira era Brittany (porque morava com os pais), Finn, que tinha poucos gastos, e Kurt, que ainda ganhava uma mesada do pai. Olhou mais uma vez para fora do teatro. Àquela altura Santana e Mercedes já tinham ido embora.

Ao final dos ensaios, decidiu dormir na casa do namorado pela primeira vez desde o ataque. Finn era outro que parecia tenso e Rachel pressupôs que a causa era ela. Não estava errada, mesmo assim não deveria sentir-se culpada por tal. Mas queria amenizar de alguma forma. Ela era a namorada que zelava por seu homem e sabia que Finn não gostava de ficar muito tempo sem transar. Pelo menos era assim desde o momento em que se tornaram sexualmente ativos.

"Você tem certeza?" – Finn perguntou depois de uma sessão pesada de beijos na cama.

"Tenho" – retirou o sutiã e depois a saia junto com a calcinha.

Finn removeu a calça, o membro já ereto. Trocou carícias, lambeu-lhe os mamilos e trabalhou a entrada com o dedo. Rachel ficou tensa. A última pessoa que colocou a mão ali foi Howard Battes. Procurou respirar fundo e relaxar. Aquele era o namorado dela, Finn Hudson, o sujeito que era adorado pela pequena comunidade em que circulavam, enteado de um dos conselheiros municipais mais queridos e favorito à reeleição. Ele jamais a machucaria. Ainda assim, não era tão simples.

O namorado percebeu que a excitação de Rachel não era como a esperada e tentou alguns truques, como lamber algumas vezes a entrada do sexo. Ainda desconfortável, Rachel procurou ganhar tempo. Segurou gentilmente o pênis do namorado, trabalhou com as mãos e com a boca. O gozo não demorou. Ela nunca gostou muito daquele gosto, mas engolia, lambia e fazia parecer que era ambrosia. Finn adorava e acreditava nela. Isso não o fez desistir, no entanto. Voltou a tocar-lhe, penetrou-a com o dedo e tentou coordenar a estimulação feita com uma mão enquanto se masturbava com a outra para ficar novamente pronto.

Uma vez ereto pela segunda vez, posicionou-se e penetrou. Rachel lhe pareceu mais apertada do que o costume, mas era uma impressão causada pela lubrificação menor.

"Tão apertadinha" – começou a se movimentar para dentro e para fora – "Adoro sua bocetinha. Tão perfeita para o meu pau. Só minha. Toda minha" – Finn às vezes gostava de conversas sujas durante o sexo quando se sentia confiante. Intensificou os momentos enquanto Rachel gemia cada vez mais alto – "De quem é essa boceta."

"Sua... só sua" – dizia entre os gemidos.

"Você é louca pelo meu pau. Uma vadiazinha que adora ser martelada assim."

"Sim... adoro."

Ele gozou pela segunda vez. Ela fingiu o orgasmo. Não que isso acontecesse com freqüência. Às vezes, quando a imaginação estava fluida e ela atacava o próprio clitóris durante o sexo, acontecia. Rachel, no entanto, achava que as coisas eram assim mesmo. Nunca teve experiência com outras pessoas para saber se Finn era bom ou ruim de cama. A realidade é que ele era ruim. O importante era que se sentia confortável com ele. Finn a respeitava e era carinhoso. A conversa suja só acontecia em tais momentos entre as quatro paredes, portanto, parou de se importar de ser chamada de cadela, por exemplo, toda vez em que ficava de quatro.

Finn acordou com o barulho do chuveiro. Rachel sempre gostava de tomar um banho pela manhã antes de qualquer atividade. A noite anterior foi classificada como incrível por ele e o ajudou a tirar o pensamento de certas coisas que o afligia. O assunto do justiceiro, por exemplo. Era como se naquela manhã, de repente, ele se importasse menos, apesar da curiosidade em saber a identidade.

"Bom dia" – Rachel inclinou-se na cama para beijar o namorado antes de vestir-se.

"Bom dia, Rach" – abriu largo sorriso – "Bom te ver mais disposta."

"Você teve uma grande responsabilidade nisso" – o beijou mais uma vez, massageando o ego do namorado.

"Quer que eu te busque no trabalho hoje? Ou prefere Kurt?"

"Eu posso pegar carona com a minha colega" – Finn acreditava piamente na história que uma colega lhe deu carona no dia m que descobriu a dupla identidade de Santana Lopez.

"E se essa menina tiver outros planos?"

"Então eu ligo para você" – o beijou mais uma vez antes de terminar de se vestir.

O acordo parecia ser bom para Finn. Ele deixou a namorada em casa, onde passou parte da manhã antes de desculpar-se para sair. Sabia que não deveria fazer isso, mas não resistiu. Ligou para o número de Santana.

"Quem é?" – atendeu uma voz mal-humorada. Rachel levou um susto com o tom agressivo, mas lembrou-se que era possível que Santana não tivesse o número dela gravado no celular.

"Olá Santana, aqui é Rachel."

"Rachel?" – o tom era confuso.

"Rachel Berry, do teatro."

"Eu sei, mas... porque me ligou?"

"Queria saber como está" – ouviu um suspiro do outro lado da linha seguido de uma breve pausa.

"Melhor. Obrigada. E não tive a chance de agradecer pelas saladas de beterraba, embora espero sinceramente que não me envie mais comida, principalmente beterrabas. Você não precisa fazer isso."

"Eu sei... eu sei... só quis ajudar. Eu te devo uma..."

"Me deve nada. Mas se quer pensar nesses termos, estamos empatadas neste jogo. Você me ajudou a escapar naquele dia, certo?"

"Você vai voltar às ruas hoje?"

"Eu não sei. Também não te diria caso fosse."

"Por quê?"

"Não é da sua conta."

"Acho que não deveria se arriscar tanto. Não é necessário se há outros" – Santana não respondeu e Rachel suspirou. Como era difícil se comunicar com alguém que não poderia se abrir e conversar normalmente – "Hoje é o dia em que eu canto no restaurante" – ela fechou os olhos. Mal acreditava no que estava por fazer – "Eles servem caldos no bar, a comida é ótima, e o caldo de feijão é rico em ferro."

"Você está me chamando para um encontro? O que o seu namorado pensaria disso?"

"Não é um encontro e você tem namorada."

"Jenny? Deus me livre dessa praga."

"Bom, se quiser, apareça."

Rachel desligou o telefone ainda sem acreditar no que acabou de fazer. Ela praticamente paquerou Santana Lopez por telefone. O que estava acontecendo com ela? Nunca foi de fazer isso com ninguém, de dar liberdade a nenhuma outra pessoa fora do grupo mais seleto de amigos.

De qualquer forma, Santana Lopez não apareceu. Finn, no entanto, chegou ao restaurante à tempo de ver a namorada cantar uma versão jazzística de Fullgás.

"Meu mundo você é quem faz/ Música, letra e dança..."

Finn esperou terminar o expediente e a namorada concordou ir para casa dele. Rachel terminou a noite de quatro sendo chamada de cadelinha. Era a tal intimidade.