Rachel subiu ao palco, como era a rotina de todo sábado, e sorriu para os músicos da banda. Posicionou-se no centro do palco e olhou para o pianista. Um aceno e a música começou para cantar uma pequena tolice pop.

"Não estou disposto a esquecer seu rosto de vez, e acho que é tão normal/ Dizem que sou louco, por eu ter um gosto assim: gostar de quem não gosta de mim/ Jogue suas mãos para o céus e agradeça se acaso tiver alguém que gostaria que estivesse sempre com você/ Na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê."

Olhou para o público enquanto cantava e depois para o bar. Finn não estava no lugar habitual. O namorado não disse se iria ou não buscá-la, e Rachel também não se pronunciou a respeito, sobre seus desejos. Ela estava no lugar que mais se sentia confortável em todo o universo, cantando algo bobo num arranjo sofisticado demais para a tolice da canção. Ainda assim, aqueles poucos versos a fazia bem. "Gostar de quem não gosta de mim". Quem nunca teve um amor platônico. Sequer tinha certeza do que sentia. Amor platônico? Talvez não amor, mas definitivamente platônico era a ordem do dia.

Flagrou a pessoa que povoava os pensamento bem ali no bar. Assim que terminou o número, em vez de voltar às mesas, foi rapidamente ao bar.

"Uma menina disse que os caldos que serviam no bar deste restaurante eram ótimos."

"Com certeza" – Rachel sorriu – "Um pouco salgados para o bolso de um universitário duro, mas acredito que é uma comidinha que vale à pena experimentar."

"Meu estômago concorda contigo."

"Que sutileza."

"Nunca discuta com o estômago."

Rachel não compreendia bem o que a amiga queria dizer. O que Santana não havia explicado para Rachel é que força, velocidade e resistência acima do normal implicava num metabolismo peculiar. Em outras palavras, a vigilante era boa de garfo.

"Você... vai ficar por aqui?"

"Posso te dar uma carona, se quiser."

"Está de carro?"

"Por carona entenda, companhia até a sua casa."

Rachel sorriu e sinalizou positivo. Não demoraria tanto assim para encerrar o expediente. Foi a última a cantar, a banda estava no pequeno palco finalizando o último trecho do set-list e as mesas começavam a ficar vazias. Em uma hora se encontrava no vestiário colocando o uniforme no armário no jeito para ser usado novamente no almoço uma vez que o estabelecimento funcionava até as três da tarde no domingo. Segunda-feira era dia de folga.

Encontrou a colega do lado de fora do restaurante em trajes diferentes daquele em que estava. Não é que Rachel reparasse, mas com certeza Santana não vestia uma calça jeans folgada, uma jaqueta larga e tênis pesado, de caminhada em mata, no bar. Era uma espécie de uniforme padrão dos vigilantes, até onde Rachel testemunhou. Só faltava vestir a máscara de tecido preto.

"Arrumou uma cabine telefônica para trocar de roupa?" – brincou quando as duas começaram a caminhar em direção ao parque.

"Eu subi no telhado."

"Deixa de brincadeira."

Não havia brincadeira.

"Então... porque decidiu aceitar o meu convite agora?"

"Fiquei curiosa."

"Não deveria guardar segredo e me manter longe?"

"Eu não estou te envolvendo. Isso aqui se chama fazer companhia. Vou te levar até o seu prédio e depois cuido dos meus negócios."

"Há muitos negócios para ser resolvidos?"

"Isso não é da sua conta, Berry."

"Eu li o jornal ontem. O vigilante mascarado prendeu um ladrão de carros, mas a polícia continua furiosa."

"Evito acessar aos noticiários."

"Por quê?"

"Não sou narcisista."

Rachel revirou os olhos. Conhecia Santana bem o suficiente para saber que a garota podia ser arrogante e narcisista. Pelo menos era essa postura que adorava dentro do grupo teatral: cheia de si e disposta a atacar os colegas nas menores brechas. Os integrantes originais eram as vítimas favoritas, em especial a própria Rachel e Finn. Nem mesmo Tina, colega na universidade, escapava dos insultos peculiares.

"Como pode ser tão forte?" – a pergunta soou aleatória – "Você consegue levantar coisas mais pesadas que eu."

"Não vai querer que eu derrube uma árvore ou erga uma rocha só para fazer demonstrações idiotas. Ou quer?"

"Você pode?"

"Depende da árvore e da rocha" – pegou uma pedrinha à beira do asfalto e a jogou para cima – "Viu! É uma rocha."

"Não, é uma pedra e isso não é demonstração."

"Errado, eu disse que depende da rocha e uma pedra é uma rocha, mesmo que um fragmento. Areia um dia já foi rocha também."

"Agora vai querer me dar aulas de geologia?"

"Longe disso, embora aprecie o assunto."

"Não vai me dizer que fez coleção de pedras quando era criança."

"Mais ou menos. Eu tinha uma coleção de desenhos de casas e gostava de usar purpurina para fazer contornos e detalhes."

"Casas? É por isso que faz arquitetura?"

"Minha mãe é corretora de imóveis e, das vezes quando não tinha babá, ela me levava para o trabalho. Eu adorava entrar nas casas à venda, em correr pelos cômodos. Depois, quando chegava em casa, tentava lembrar como elas eram por dentro e por fora. Foi assim que a minha coleção começou. Meus primeiros desenhos de plantas pareciam mais encanamentos malucos" – sorriu e Rachel sentiu um conforto estranho em ouvir tal história. Era o tipo da intimidade desejável que buscava: leve o suficiente para que memórias do tipo pudessem ser divididas. A cantora valorizou ainda mais o momento porque sabia que Santana não era de contar tais lembranças – "Você sempre quis ser cantora?"

"Desde quando me entendo por gente. Meu pai Leroy é publicitário e se especializou em compor jingles. Como ele passava mais tempo em casa do que meu outro pai, me ensinava coisas sobre música: o básico do piano, em como ler uma partitura, a cantar no tom certo. A vontade de seguir uma carreira artística de lazer tornou-se uma meta de vida. Pedi para os meus pais me colocarem em aulas de canto, dança, teatro, tudo que pudesse dar vazão a essa veia que achava que tinha."

"Achava?"

"Não tenho tanta certeza disso. Pelo menos, não desde que recebi a carta de rejeição da escola de artes da metrópole."

"Você não é uma dançarina muito boa. Até eu consigo ser melhor e eu só danço em festas."

"Muito obrigada pelo apoio."

"É verdade. Você tem movimentos decentes, mas nada de extraordinário. Não é como Brittany e Mike. Sua atuação é bem normalzinha. Faz bem as cenas de comédia, mas força a barra nas de drama. Quinn nunca recebeu treinamento formal e faz melhor. A garota tem instinto."

"Diz que você quer chegar a algum lugar..."

"A gente vê que você é especial quando começa a cantar. Que deus me perdoe por ousar dizer isso, Rachel Berry, mas quando está em cima do palco cantando, tem o poder de fazer as pessoas esquecerem. Te ouvir é um privilégio porque é onde você verdadeiramente coloca a sua alma."

Rachel sorriu lisonjeada. Um arrepio bom percorreu pela espinha e sentiu o coração ficar aquecido. Ou talvez fossem as bochechas que ficaram rubras. Seja como for, a sensação era ótima e ela sentiu estranha felicidade. Segurou na mão de Santana, a fazendo desacelerar a caminhada e arriscou-se num beijo no rosto. Santana ficou surpresa e grata com o gesto. O conforto e o aquecer do corpo era uma sensação mútua. As duas trocaram olhares e ambas começaram a se inclinar para aproximar os rostos. Porém, por mais clichê que soasse, o celular de Santana tocou. Levou a mão até o bolso baixo da calça e atendeu. Rachel a observou trocar poucas palavras com apreensão.

No momento seguinte, sentiu ser puxada pelo braço.

"Calma!" – reclamou e tentou se libertar para desacelerar o passo – "O que houve?"

"Eu prometi que levaria você em segurança até a sua casa, e vou cumprir. Só que a gente vai fazer o resto do caminho andando rápido" – estavam a poucos metros do final do parque e chegar ao edifício de Rachel era um pulo.

"Mas Santana..." – Rachel travou mais uma vez – "Talvez eu possa ajudar."

"Ah claro!"

Santana retirou a máscara do bolso da calça, a vestiu e pegou Rachel no colo. Se na primeira vez o "transporte" foi delicado, num momento de trauma, agora era apressado e desconfortável por causa do movimento da corrida. Achou impressionante que a vigilante conseguia correr com ela no colo àquele ritmo de velocista. Praticamente foi arremessada em frente ao edifício. Precisou se apoiar na parede para não cair. Olhou adiante na rua e a vigilante continuava a correr em direção a uma das saídas obscuras.

Santana continuou a correr em direção ao destino chamado. Quando encontrava um veículo médio ou grande, como ônibus, caminhão ou uma van, pendurava-se na traseira e pegava a carona clandestina para depois saltar e buscar outro que fosse na direção desejada. Neste movimento, entre corridas e caronas, levou sete minutos para chegar ao destino: uma área da periferia da cidade. Circulou a área para identificar a situação. Ao que parecia, havia tensão em frente à casa de Angelina, uma das líderes comunitárias mais proeminentes da cidade. Procurou não ser vista, ligou o celular, precisava achar a van preta que conhecia muito bem. Era o ponto de referência.

Encontrou o veículo duas ruas dali, mais elevadas devido à formação do bairro em uma encosta. Os companheiros também mascarados estavam observando o problema.

"Tem três bandidos na casa de Angelina" – Santana ouviu a explicação – "Mercedes está lá dentro também como refém. A casa está cercada por alguns caras da gangue do bairro e há uma viatura da polícia com dois oficiais participando das negociações à distância."

"Mercedes está lá dentro? O que diabos ela foi fazer na casa da Angelina a essa hora?"

"Era uma matéria" – o companheiro respondeu – "Mas isso não vem ao caso. Os outros estão vindo, o chefe está vindo, mas existe uma brecha agora. Vocês dois estão comigo?"

"Você é o gênio aqui" – Santana acenou.

"Você e Matt limpam a área para que eu e o voador possamos entrar. Se eu assobiar, Matt entra."

"Por que Matt?"

"Porque você é como um elefante numa joalheria."

"Ok" – Matt sinalizou – "Vamos nessa. No três..."

Os dois dispararam entre os quintais alheios. Em dia de confusão, as famílias se recolhiam, fechavam as janelas e se dirigiam a locais que consideravam mais seguros. O hábito de uma situação de medo era uma vantagem para os dois da linha de frente. Matt sinalizou para Santana para ela entrar pelo outro lado. Acenou. Posicionou-se numa sombra e andou cautelosamente até os limites do perímetro em risco. O que era o problema: Angelina, a líder comunitária, estava dentro de casa com Mercedes e Bruce, o colega jornalista que fazia a tal reportagem especial para o curso. Angelina tinha ainda um filho adotivo de nove anos que também estava lá dentro.

A área periférica da cidade é alvo de disputas entre diferentes gangues, mas o trabalho social desenvolvido por Angelina era uma espécie de campo neutro. Alguém teve a idéia de enviar três pessoas infiltradas para dar fim à vida da ativista. Mas esses três não contavam serem vistos e nem que ela tivesse em companhia de jornalistas. Serem mortos não estava nos planos daí a tensa negociação ser estabelecida.

Santana viu o primeiro se aproximar. Esperou o momento certo para avançar e nocautear. Foi bem sucedida. Matt, viu que a posição de Santana era interessante e que o primeiros dos cinco que faziam guarda caiu. Ele usou o poder que tinha, telecinese, para emburrar outro na direção da colega vigilante. O membro da gangue não soube que força invisível o empurrou e nem conseguiu pensar a respeito porque no segundo seguinte estava desacordado. Santana sinalizou. Pegaria os outros dois e Matt o último. Um, dois, três. Avançaram silenciosamente. Santana cuidou de um o mais rápido que pode e precisou ser ainda mais rápida para derrubar o segundo. Primeiro deu uma rasteira e em seguida um soco. Matt teve a vida mais facilitada. Primeiro, desarmou o membro da gangue usando a telecinésia e, em seguida usou mais uma vez o poder para deslocar o homem e poder atingi-lo em cheio.

Não precisaram fazer sinal algum. Santana olhou para cima e lá estava o voador carregando o gênio para entrar na casa na janela do segundo andar. O gênio recebia tal apelido porque ele era um dos desenvolvedores dentro da empresa de tecnologia aos 24 anos e vivia inventando máquinas e aplicativos, como o usado nos celulares dos vigilantes que impediam rastreamento de ligações. Além de ser naturalmente um nerd, o gênio tinha a capacidade de fazer leituras precisas de movimento, poder que o tornou um campeão de artes marciais, até descobrir que, na verdade, estava inconscientemente trapaceando. Era como um Peter Parker sem a força aranha ou a capacidade de subir pelas paredes.

O voador, o deixou em uma das janelas no segundo preciso, segundo os cálculos do gênio. Ele entrou na janela enquanto os companheiros aguardavam um sinal além de ficarem a postos para derrubar qualquer um que resolvesse circundar a casa. Lá dentro, o gênio andou silenciosamente. Em vez dos tênis pesados que Santana ou Matt usavam, ele vestia tênis próprios para taekwondo: eram leves e silenciosos. Dois dos bandidos estavam na sala com os reféns. O outro estava em guarda na cozinha, certamente intrigado com o súbito silêncio. O gênio desceu as escadas saltando no vão para não ser visto. Calculou o tempo certo para correr até a cozinha e se esconder atrás do balcão em oposição ao homem armado. Aquela era uma casa muito bonita e de certa forma luxuosa para a vizinhança, pensou. Pegou um espelhinho e a zarabatana com tranqüilizantes que trazia consigo. Um, dois, três, num movimento rápido saiu da posição e assoprou a arma. O membro da gangue sentiu a picada no pescoço. A substância agia rápido. Ficou sonolento e foi a oportunidade para o gênio golpeá-lo sem fazer barulho. Um a menos. Faltavam dois armados. Precisaria de Matt.

Abriu a porta da cozinha e assobiou. Matt atendeu quase que imediatamente. Ah, os tênis de elefante. Santana os usava por achar que era parte do estilo. Matt os usava porque eram úteis na construção civil. De um jeito ou de outro, não serviam à sutileza que a situação pedia. O gênio elaborou um plano em segundos. A ação teria de ser simultânea. Fez gestos e sussurrou o mais baixo que podia, então posicionou-se. Um, dois, três, Matt fez barulho na cozinha. Atraiu um dos bandidos e isso possibilitou para que o gênio entrasse na sala. Um tiro foi disparado. As pessoas em frente à casa se agitaram. Felizmente pegou em ninguém. No minuto seguinte os reféns, incluindo Mercedes Jones, saíram pela porta da frente enquanto os vigilantes corriam pela porta dos fundos. Missão cumprida.

Os três retornaram à van e encontraram o restante da equipe. Ou quase. Palavras não precisavam ser ditas naquele instante. Simplesmente entraram no veículo e deram o fora dali. Matt retirou a máscara assim que pegou o volante. Estava eufórico.

"Isso foi demais. Foi demais!" – repetia.

"Pegamos eles!" – comemorava Santana.

"Um trabalho em grupo perfeito" – Artie comemorou.

"Só vamos ver o que o chefe vai dizer" – Grant retirou a máscara. Ele sempre buscava controlar a euforia.

O Matt vigilante era Matt Rutherford, integrante do teatro amador, junto com Santana e Artie, que era conhecido como "voador". Ironicamente, o homem preso a uma cadeira de rodas era capaz de voar e flutuar, embora fizesse isso com o corpo numa posição vertical e não horizontal como o Super-Homem ou a Mulher-Maravilha. Ainda assim era maravilhoso poder sair da prisão da cadeira sempre que ninguém estava por perto olhando. O gênio atendia pelo nome de Grant Fish, filho de um grande advogado da cidade.

Matt dirigiu a van até um pequeno edifício próximo ao setor industrial. Ele estacionou na garagem interna e os integrantes desceram do veículo para o interior do prédio. Um carro sedã parou logo atrás. As pessoas seguiram para o térreo onde ficava um salão que parecia mais uma academia de boxe com um ringue, sacos de areia e alguns aparelhos de musculação.

"Isso foi uma insanidade" – o chefe disse assim que encontrou-se na segurança das paredes com os comandados.

"Deu tudo certo" – Santana sorriu.

"Mas poderia ter saído tudo errado. Sei que Grant é o líder em campo, mas não numa situação assim. Não quando Angelina estava envolvida" – o chefe continuou a bronquear.

"E Mercedes" – Artie frisou.

"Agimos dentro da janela aberta" – Grant se justificou – "O plano foi perfeito, apesar de improvisado. Até mesmo a fera aqui fez tudo certo" – se referiu a Santana, que não gostou do apelido.

"Ainda assim, cautela. Vocês estão saindo à mão nesses dias e se essa ação desse errada, poderia colocar todos nós em risco. Ou não pararam para pensar a respeito?"

"Saindo da mão por culpa de Santana" – Matt defendeu-se – "É ela que está procurando publicidade."

"O que adianta a gente se dispor a ser um grupo de super-heróis se não for para combater a escória?" – se justificou.

"Porque nós temos as nossas trincheiras e você precisa respeitar isso de uma vez por todas" – o chefe bronqueou e silenciou-se.

Encarou a equipe que tinha em mãos. Grant Fish, o prodígio que conseguia fazer leituras de movimentos e antecipá-los. Ele foi o primeiro aluno seguido e Matt Rutherford, o menino dotado de telecinésia que veio à cidade especialmente para encontrá-lo e ser treinado. A doce Brittany Pierce, a terceira aluna que tinha o dom de curar, mas não se ressuscitar como ela tentou fazer uma vez com o gato de estimação. E os alunos mais recentes: Santana Lopez, dotada de força, resistência e velocidade acima do normal, e Artie Abrams, o menino que voava... na vertical por causa da paralisia. Havia ainda Mercedes Jones, a vigilante que não usava máscara dotada de poder algum, mas era uma aliada cheia de destreza capaz de fazer investigações que ajudavam no trabalho do grupo.

Tantas personalidades, tantos ímpetos e uma delicada harmonia que impedia de tudo sair fora à mão. E estava quase saindo à mão.

"O episódio de hoje pode repercutir de forma indesejada, por isso todos estão em regime de silêncio, o que significa não ir às ruas, entendeu, Lopez?"

"Sim senhor" – disse sem realmente sentir vontade de cumprir a ordem.

"Mas e as investigações?" – Grant tomou a palavra – "Um atentado à vida de Angelina pode estar relacionado a algo sério, a uma queima de arquivo, talvez."

"Não é o que me parece" – o chefe pensou – "De qualquer forma, vou orientar para que Mercedes descubra informações" – viu aceno de todos – "Hoje foi uma noite longa e salvamos algumas vidas. Vão para casa e nos reuniremos em outra ocasião."

A notícia da libertação da líder comunitária pela ação de pelo menos um vigilante repercutiu na imprensa no dia seguinte. Mercedes Jones, por exemplo, ficou até alta madrugada prestando depoimento à polícia e atendendo pedidos de colegas jornalistas que pediam informações exclusivas. Ela própria recolhia algumas para si. Mas o que todos estavam alvoroçados não era pela ameaça à vida de Angelina ou pelo suposto confronto de gangues. O Mascarado e as possíveis motivações era o principal mistério que dividia opiniões. Algumas pessoas encaravam a figura como a do justiceiro que a cidade precisava. Outros especulavam que ele agia de acordo com uma agenda obscura, provavelmente política. De um jeito ou se outro, a figura passou a ser procurada pela polícia. Muitos ladrões comuns que cometiam crimes usando máscaras de tecido preto foram capturados e interrogados. Os falastrões se diziam ser os justiceiros, mas facilmente eram desmentidos. Nada mais frustrante para o chefe da polícia.

"Eu não aguento esse cara" – Finn resmungou enquanto ele e a namorada ouviam a notícia no rádio do carro. Ele foi buscá-la no trabalho para levá-la a uma feira de botânica patrocinada pela prefeitura. Era de bom tom que os conselheiros municipais e família prestigiassem. Pelo menos esse foi o pedido de Carole ao filho.

"Antes você gostava da ideia do vigilante. Agora odeia. Não te entendo" – Rachel comentou.

"É um arrogante."

"Como pode estar tão certo?"

"Eu apenas sei" – Finn desconversou – "Tomara que a polícia baixe a crista deste cara."

"Esse cara me salvou" – Rachel bronqueou.

"Salvou mesmo?" – Finn se irritou – "Esse tal vigilante deixou aquele cara te tocar e te violar antes de fazer alguma coisa."

"Quem disse que ele ficou olhando e esperou o segundo exato para evitar? Você não estava lá, Finn. Quem é você para tirar tais conclusões?"

"Não deveria defendê-lo com tanta veemência, Rachel. Ele não é um justiceiro de verdade."

"Fala como se o conhecesse."

"Talvez eu tenha trocado uma ou duas palavras com ele."

"Quando?" – Rachel ficou surpresa.

"Um dia ele me abordou" – Finn apertou as mãos contra o volante – "E me menosprezou."

Rachel silenciou-se. Santana seria bem capaz de menosprezar Finn. Ela já fazia isso regularmente a cada ensaio no teatro amador. Agiria assim também na forma de vigilante? Por quê? Esteve com ela na noite anterior. Viu o momento da tal ligação que fez Santana se agitar e vestir a máscara. O noticiário revelou a razão: foi salvar a vida de uma moça que trabalhava na periferia da cidade (essa era a visão de Rachel) e que Mercedes Jones estava envolvida. Será que Santana e Mercedes tinham uma relação além de companheiras de dormitório?

Quando chegaram à feira de botânica, com destaque para o cultivo de orquídeas, Rachel abraçou Carole e andou lado a lado com a sogra durante um bom pedaço do trajeto. O assunto a entediava e na primeira oportunidade, escapuliu e disse que iria comprar uma água com o vendedor que instalou uma carrocinha em frente. Comprou uma garrafinha, mas não retornou à exposição de imediato. Olhou para o celular. Não queria ligar, mas o ímpeto em saber era mais forte. Afastou-se das pessoas e discou o número.

"O que foi Berry?"

"Quando você se encontrou com Finn?" – a pergunta deixou Santana confusa.

"A última vez foi no ensaio da sexta. Você estava lá também. Não se lembra?"

"Eu digo, com uma máscara."

Houve um silêncio ao telefone, mas Rachel podia ouvir a respiração do outro lado da linha.

"Santana" – pressionou.

"Está sozinha? Ouço um ruído."

"Estou na rua, em frente ao galpão de exposições indo para o campo de golfe. Não tem ninguém próximo a mim, fique tranquila. Eu não te trairia."

"Não fui eu" – disse hesitante.

"Mas você sabia que isso tinha acontecido?"

"Sim."

"Eu preciso de uma explicação."

"Vou resumir a história, Berry. Seu namorado foi até a casa de Howard Battes armando de uma soqueira e um taco de baseball com o intuito de terminar o que eu comecei. Nós descobrimos e antecipamos. Mas não fui eu quem o confrontou e o impediu."

"Finn nunca faria isso" – Rachel ficou furiosa – "Ele não bateria num homem recém saído de um hospital. Que, aliás, foi parar lá por sua causa. Finn não bateria num homem incapaz de se defender."

"Eu sei o que fiz, Berry, e tenho a minha consciência para me julgar. A questão é: você conhece o seu namoradinho tão bem para colocar a mão no fogo? O que eu te disse é verdade. Agora se você acredita ou não é problema seu."

Desligou o telefone. Rachel estava furiosa. Tentou ligar novamente, mas Santana não mais a atendeu. Tomou a água, respirou fundo, fingiu um sorriso e voltou à companhia do namorado e da sogra. Eles também já estavam de saída: cumpriram o compromisso social após posar para algumas fotos que seriam publicadas na coluna social local.

Na caminhonete, a caminho do cinema, Rachel rompeu brevemente o silêncio.

"Posso te perguntar uma coisa?"

"Claro."

"Se você estivesse lá, naquele dia... se você tivesse visto aquele homem em cima de mim. O que teria feito?"

Finn olhou rapidamente para a namorada e uma sobra pousou sobre o rosto quando voltou a prestar atenção no trânsito.

"Eu o teria matado."