"Mais café?" – Quinn franziu a testa para Matt de uma maneira que ele achava adorável.
"Gostaria sim, obrigado."
Tornou uma espécie de tradição para Matt: subir dois andares do edifício para tomar café da manhã com Quinn Fabray. Ele tinha 23. Ela 21. Conheceram-se há dois anos quando ela mudou-se para o prédio, mas Matt tinha a impressão que a conhecia por uma vida inteira. Quinn estava com uma garotinha nos braços, Beth. Tinham nada além do que duas bagagens e dois colchões recém comprados numa loja próxima. O aluguel não era dos mais caros naquela cidade. Estavam próximos a área da periferia, e os apartamentos eram pequenos, do tipo em que a sala e a cozinha eram uma coisa só e havia dois quartos muito pequenos com um banheiro entre eles. Matt se ofereceu para subir com os colchões. Então Beth reclamou que estava com a barriga vazia. Quinn olhou o vizinho com terrível constrangimento. Tudo que tinha na bolsa para a filha era um suco de caixinha e metade de um pacote de biscoitos. Foi a deixa para que oferecesse às duas um leite quente com achocolatado e um sanduíche de presunto e queijo. Refeição dos deuses para uma faminta Quinn.
Matt chegou à cidade dois anos antes. A família ouviu dizer que havia um professor que sabia lidar com pessoas com habilidades especiais e passou a notícia ao filho mais jovem de três. Foi quando ele conheceu o chefe. Mudou-se para cidade e estava ansioso para lidar com os poderes, que algumas vezes lhe fugia a mão e resultava em pequenas tragédias. Como no dia em que "empurrou" o irmão mais velho e este quebrou o braço no impacto contra a porta. Começou a treinar e, para manter-se independente na cidade, fez um curso técnico de carpintaria. Foi contratado meses depois por uma empresa de construção civil.
O teatro aconteceu depois de conhecer Quinn Fabray. Um garoto distribuía panfletos numa esquina no centro da cidade e Matt pensou que seria uma boa atividade para fazer junto com amiga. Ele não cantava ou atuava bem, mas sabia dançar. Tinha participado de um grupo de street dance na adolescência. Ela dissera certa vez que participou do grupo de teatro da escola antes de engravidar aos 16 de um garoto popular. Seria perfeito. Sobretudo quando procurava aproveitar cada momento com ela. Certo dia admitiu para si que a amava. Depois se declarou.
Uma lástima para que ela o recusou no primeiro e no segundo pedido de um encontro. O que mais intrigava Matt não foram as recusas em si, mas o fato que Quinn era uma garota tão bonita quanto era solitária. A justificativa das respostas negativas nunca era a existência de outra pessoa, de outro interesse. Com o tempo, Matt aceitou a condição de que era apenas um amigo. Ele tomava café na casa dela em algumas manhãs, depois deixava Beth na escola e Quinn num ponto próximo à livraria antes de seguir para a obra em que trabalhava. Estava feliz assim, já que era tudo que Quinn lhe poderia oferecer.
"Tem filmes ótimos em cartaz no cinema" – comentou enquanto devorava o prato com cereal e banana – "Vai estrear aquela comédia que eu te falei a respeito neste fim de semana."
"Estou tão desatualizada para essas coisas" – Quinn bebericou o leite.
"Não gostaria de ir ao cinema? A última vez que assisti a um filme no cinema foi na vez em que levamos Beth para ver aquele desenho."
"Eu não sei, Matt."
"Não é um encontro. Estou propondo a minha melhor amiga neste mundo para que me acompanhe numa tarde no shopping para ver um filme e comer hambúrguer depois. Nada além disso. E a babá de Beth é por minha conta."
Quinn encarou o amigo. Tinha olhos cansados e melancólicos demais para uma garota tão jovem.
"Matt, eu não sei..."
"Oras, hoje é feriado. A não ser que você tenha algum compromisso, qual o problema em se divertir um pouco?"
Quinn permaneceu em silêncio e terminou o copo de leite. Matt acenou e levantou-se da mesa sem terminar a xícara de café. Sentiu-se um panaca por ser um esperançoso até quando tudo que pensava era em amizade.
"Até mais, Quinn."
"Espere!" – ela disse com urgência – "Eu não recusei."
"Então?"
"Lembrei daquele filme de aventura que está em cartaz. Sabe que gosto mais desses do que dessas comédias grosseiras."
"Você manda" – Matt abriu um sorriso.
"Ligue para a babá. Diga para vir às quatro. Pode ser?"
Matt acenou e deixou o apartamento. Uma vez sozinha, Quinn colocou as louças usadas na pia e iniciou a rotina doméstica. Lavar, arrumar, passar... Colocar em dia o trabalho que não conseguia realizar durante a semana, com ir à lavanderia.
"Beth!"
"Sim, mamãe!" – a garotinha respondeu do quarto.
"Coloque o sapato que nós vamos à lavanderia."
"Posso levar minha boneca nova?" – ela correu até à sala e arregalou os olhos esperançosas. Era algo que sempre fazia Quinn sorrir e acalmar o coração. Beth era tudo na vida dela.
"Pode sim, meu bem."
Não levou muito tempo para mãe e filha atravessarem a rua até a lavanderia mais próxima. Mais uma atividade na rotina sem-graça de Quinn Fabray. Ela já saia de casa com as roupas separadas, colocava as moedas na máquina, assim como os produtos de limpeza. Esperava todo o processo assistindo um pouco de televisão enquanto Beth ficava entretida no próprio mundo interior com os brinquedos. Isso quando não via outras crianças que chegavam também acompanhadas dos pais. Geralmente eram pessoas mais velhas que a princípio fizeram expressões de espanto quando Quinn dizia que era a mãe da garotinha, não a babá. Depois, a vizinhança se habituou em ter a mão solteira e solitária com a menininha na barra da saia transitando pelo comércio local, pela lavanderia e pelo parquinho.
Era uma rotina muito melhor do que a que Quinn vivia na idade natal. Os pais a expulsaram de casa por causa da gravidez, mas verdade seja dita: eles já a havia rejeitado bem antes. O namorado jogador de futebol americano na escola tentou fazer a coisa certa. Mesmo sem casar oficialmente, colocou Quinn dentro da própria casa apesar dos pais dele detestarem a nora. Ela tornou-se uma esposa que era constantemente traída e humilhada, mas que agüentava calada. Precisava daquelas pessoas pelo menos até se graduar.
Chegava da escola, fazia os trabalhos, cuidava de Beth e se deitava com o namorado. Nos primeiros meses após o nascimento da filha, ele ainda a tocava com carinho. Fazia juras e criava histórias de como seriam uma família feliz e próspera. Que jogaria no time universitário e enquanto Quinn faria negócios para aprender a gerenciar tudo que ele conquistaria. As traições começaram e Quinn fingia não ver porque precisava daquele teto. Passou o tempo e o namorado parecia ter enjoado dela, não tinha paciência com a filha e acusava Quinn de ser um empecilho. No entanto, em certas noites, a mandava abrir as pernas porque ao menos isso ele teria de ter o direito. O toque já não era carinhoso e várias foram as ocasiões em que ela simplesmente virava o rosto, fechava os olhos, e o esperava terminar. Não demorou a ser chamada de frígida. Quinn sorriu com o apelido. Achou pertinente.
A família do namorado não era a mais amorosa. Tratavam Beth como uma princesa e Quinn como um poste com a lâmpada queimada, portanto, sem utilidade, mas que estava sempre ali, atrapalhando. Certo dia, o namorado recebeu a carta de rejeição da universidade e negativas sobre ter chance num time universitário. Quando Quinn recebeu a carta de aceitação em uma importante universidade, apanhou. Ela não deu o rosto a tapa livremente. A questão era que o namorado era fisicamente mais forte. No descontrole, o maior segredo que ela guardava, uma das razões para a própria família a ter descartado to facilmente, se manifestou.
Arrumou as malas no mesmo dia sob acusações de que era uma aberração. Sequer participou da própria formatura. Não tinha dinheiro para estudar, mas escolheu outra cidade para recomeçar. Uma em outro estado, bem longe dali. Talvez tivesse sorte. Aceitou os 500 dólares retirados das economias da única amiga que tinha, dinheiro que foi somado às economias que conseguiu economizar as escondidas do namorado e sua família. Foi suficiente para comprar passagens de ônibus, dois colchões vagabundos e garantir o primeiro mês do aluguel num lugar habitável mesmo que barato.
A família do namorado entrou na justiça com um pedido de guarda. Mas Matt, comovido com o drama da vizinha que conhecia há algumas semanas, pediu um favor ao Grant Fish que, por sua vez, acionou o pai advogado. Quinn recebeu a guarda provisória e teria de provar perante a justiça que poderia sustentar a filha. Conseguiu o emprego na livraria e fazia faxina pela vizinhança para complementar a renda. A guarda definitiva chegou após o período de provação.
Por tudo isso que Quinn tinha medo de se envolver romanticamente com alguém. Ela gostava de Matt, de verdade. Não sabia se era amor de amigo ou de amante, mas definitivamente havia uma centelha. Lembrava-se com certo amargor da época em que o amigo namorou uma garota por alguns meses. O ciúme foi incômodo.
Quinn procurou afastar os pensamentos ruins de sua mente. Terminou de lavar a roupa e voltou para casa com Beth ajudando carregar algo muito pesado: a sacola que estava a caixa de 1kg de sabão em pó, já aberta e metade consumida. Ela sorria quando a menininha reclamava do peso e fazia gestos como se estivesse fazendo um grande esforço com os bracinhos. Como uma boa mãe, Quinn preparou um almoço saudável para a pequena: cozinhou cenoura e batata, abriu uma lata de lentilha e grelhou filé de frango. Tudo bem temperado e preparado com apresso. Beth comeu quase tudo que estava no prato, o que era um sucesso na cartilha de Quinn.
Depois de arrumar a cozinha, brincou um pouco com a filha (ela fazia questão disso) antes de se arrumar para o cinema. Francamente, mesmo não sendo um encontro oficial, no fundo Quinn encarava como um e ela tinha certeza que Matt também. Ficou insegura. Desde que chegou à cidade, tudo que tem feito é recusar homens. Barrou com ímpar habilidade os avanços de Noah Puckeman, de um colega de trabalho, e de um dos vizinhos. Mas agora, no íntimo, ela não queria mais barrar. Não Matt.
"Está bonita, mamãe" – Beth a observada de arrumar – "Faz tempo que você não colocava uma roupa bonita para sair."
"Acha que o tio Matt vai gostar?"
"Acho" – Beth pareceu pensativa – "Por que eu não poso ir junto?"
"É um programa de adultos, docinho."
"Mas você diz que os ensaios no teatro também são para adultos e às vezes eu vou."
"É que esse é um programa de adulto diferente."
"Você vai beijar o tio Matt?"
"O quê? Beth!"
"Eu já vi Rachel beijar Finn um monte de vezes. E teve um dia que eu vi Jane beijando o namorado dela" – Jane era a babá. Nada mais que uma adolescente que morava no mesmo prédio e ganhava alguns bons trocados ajudando Quinn.
"Rachel e Finn são namorados. Jane é uma garota crescida o suficiente para ter um namorado. Matt e eu não somos namorados e por isso a gente não se beija."
"Por que você não quer ser namorada do tio Matt?"
"Beth" – Quinn pausou um pouco a maquiagem – "Por que todas essas perguntas agora?"
"Porque todas as mães das minhas amigas têm maridos ou namorados. Só você que não tem."
"E você gostaria que eu namorasse o tio Matt?"
"Acho que sim. Ele é legal comigo e às vezes me dá presentes. E teve aquela vez que ele comprou sorvete para mim quando a gente desceu escondido para o parquinho porque eu queria brincar e você não me deixou sair."
"É mesmo?" – Quinn levantou uma sobrancelha.
"Ops" – ela levou as mãos à boca – "Tio Matt disse que eu não podia contar porque você ia ficar zangada."
"E o que vocês fizeram nesse parquinho?" – ficou tensa.
"Ah, eu brinquei com Patricia enquanto o tio Matt ficou conversando com a mãe dela. Eu não gosto da mãe da patrícia. Ela ficava passando a mão no braço do tio Matt toda hora."
Hilary Berson, a mãe de Patrícia, é uma divorciada que mora no quarto andar. Trabalha como recepcionista de uma clínica e é famosa pelos seios fartos: algo que não hesita em mostrar por meio de decotes generosos. Quinn não se importava com ela, mas depois de tal informação, passou a não gostar.
Terminou de se maquiar e esperou a chegada de Jane. Logo depois, Matt bate à porta. Ele ficou surpreso ao ver Quinn tão bem arrumada, a ponto de deixá-la sem jeito. Logo ele que estava com o tradicional jeans camisa social e sapato esportivo.
"Acho que exagerei" – Quinn disse desconfortável.
"Não, está ótima! Vamos?"
Desceram as escadas (o elevador do prédio vivia em manutenção) e entraram no velho carro de Matt em direção ao shopping Center da cidade. Escolheram o filme de aventura que Quinn disse querer assistir. Dividiram a pipoca, o refrigerante, e quase no fim da sessão entrelaçaram os dedos da mão. O gesto provocou um arrepio bom na vendedora: fazia muito tempo que não permitia sequer tal carinho. Caminharam de mãos dadas olhando as vitrines das lojas porque não sabiam exatamente o que fazer. Ambos estavam nervosos, mas as mãos só se desgrudaram quando sentaram no restaurante para comer o hambúrguer prometido.
"Estou adorando esse feriado" – Quinn comentou na saída do shopping e segurou novamente a mão do amigo.
"Temos o dever de repetir então."
"Com certeza" – sorriu quando Matt abriu a porta do carro para ela.
"Vamos para casa ou você gostaria de passar em algum outro lugar?"
"Casa."
Os pensamentos de Quinn se perderam quando, de repente, houve uma batida de carro no cruzamento. Matt desceu para verificar se os envolvidos estavam bem. O homem do Honda Civic desceu irritado porque o sinal estava verde para ele. Não aparentava estar ferido. O homem mais franzino e idoso que avançou o sinal vermelho desceu do carro com certa dificuldade.
"Está bem senhor?" – Matt se aproximou junto com mais algumas pessoas. O homem parecia ter se machucado com o impacto.
"Está bem o caramba. Olha o que esse desgraçado fez?" – o homem mais forte avançou irritado sobre o culpado.
"Desculpe. Eu virei para o lado e não prestei atenção no sinal. Desculpe."
"O senhor acabou de estragar o meu feriado. Acha que desculpas bastam?"
"Não posso fazer nada além de pagar pelo conserto."
Frustrado, o senhor do honda civic empurrou o motorista desatento. Matt tentou entrar no meio para apartar, mas recebeu um soco no rosto. Quinn, que estava por ali, gritou e tentou puxar o amigo para que ele não revidasse. O que surpreendeu Matt não foi o nervosismo do homem, muito menos o soco que levou, mas as mãos incrivelmente geladas de Quinn. Não era o gelado de alguém nervoso. Era gelado de alguém que ficou dez minutos com a mão no gelo e depois pegou na pele de outra pessoa. As pessoas apartaram o princípio de briga e Matt foi afastado dali. Quinn ainda segurava o braço dele com uma mão incrivelmente gelada. Quando ela percebeu, arregalou os olhos e o soltou. Deixou uma marca passageira.
"Vamos para casa, por favor!" – estava tão nervosa que se tremia.
Matt acenou e os dois voltaram para o carro. Ele dirigiu em silêncio até ao bairro em que moravam e não pôde deixar de reparar no súbito acuamento de Quinn. Ficou preocupado com a amiga. A experiência lhe dizia que havia algo mais e que talvez a amiga não tivesse idéia de como lidar.
"O que está acontecendo, Quinn?" – ele perguntou assim que estacionou o carro.
"Nada..." – virou o rosto – "Eu só fiquei nervosa com a briga."
"Quinn" – Matt procurou ser cauteloso – "A sua mão..."
"Ela costuma ser bem fria mesmo."
"Mas ela estava quente mesmo com todo o ar condicionado na sala de cinema."
"Já disse que a briga no trânsito me deixou nervosa. Será que a gente pode superar o assunto?"
Matt percebeu que não iria ganhar a confiança dela apenas com palavras e considerava os dois próximos suficientes para poder se revelar. Havia a clara política de em não revelar o segredo sob nenhuma circunstância. Ninguém, fora do grupo, poderia saber das habilidades especiais. Absolutamente ninguém. Mas Quinn podia ser do grupo e ele tinha absoluta confiança nela.
"Melhor a gente descer..."
"Espera!" – Matt usou a telesinésia para trancar a porta do carro. Quinn arregalou os olhos e prendeu a respiração como se fosse gritar no segundo seguinte – "Quinn" – ele disse com ponderação – "Eu preciso te contar uma coisa. Um segredo sobre mim. Mas você precisa me prometer ouvir bem e ficar calma. Posso confiar?"
"Você..."
"Olha!" – ele disse firme, procurando manter o controle da situação – "Eu sei que há pessoas que nascem com alguns dotes especiais. Não entendo como ou por que, mas elas existem."
"Eu não sei do que está falando" – disse na defensiva – "Você deve ter lido gibis demais" – e riu nervosa.
"Talvez" – Matt pegou as chaves do carro e colocou as colocou na palma da própria mão. Lentamente, as chaves começaram a flutuar e a se movimentar em direção a Quinn, que estava ainda mais perplexa – "Demorou um bocado para eu ter esse tipo de controle. Eu saí da minha cidade natal porque eu costumava provocar alguns incidentes, como derrubar uma tábua encostada na parede em cima de alguém sem mesmo encostar um dedo nela. Tudo porque ficava nervoso. Minha família ficou preocupada. Primeiro da igreja. Mas quando a igreja não ajudou, ouviram falar de um professor especialista no assunto que mora nesta cidade. Foi por isso que vim para cá. Eu tenho um dom. Mas assim como todas as pessoas que também tem um dom especial, é preciso treino para aprender a lidar com eles. É preciso treinamento. É preciso perder o medo."
"Eu... eu não tenho nenhum problema..."
"Quem disse que isso seja um problema?"
Quinn encarou Matt e pensou por um instante.
"Esse sujeito que te ajudou ainda mora nessa cidade?"
"É. Ele ajudava duas pessoas a lidar com essas questões especiais quando eu apareci. Desde então, nunca mais derrubei coisa sem realmente querer ou provoquei acidentes. Ainda não posso dizer que tenho 100% do domínio e do meu potencial, mas estou chegando lá."
Quinn respirou fundo e relaxou. Limpou algumas lágrimas do rosto antes de encarar Matt. Timidamente, ela voltou a pegar na mão do amigo. Estava fria. Mas o fato curioso era que ela passou a esfriar ainda mais.
"Isso começou na adolescência. Meus pais me levaram a um médico porque a minha temperatura corporal era sempre mais baixa que a média. Mas não descobriram nada de errado. Meu pai dizia que eu era amaldiçoada. Quando fiquei grávida, achei que estivesse curada disso porque eu nunca mais consegui esfriar quando ficava nervosa. Só durou até eu deixar de amamentar Beth. Comecei a esfriar de novo. Você conhece a história do pai de Beth, que ele não era um sujeito legal. Mas quando eu morava com ele, vivia como se fosse a mulher dele. A partir do momento que as coisas mudaram e eu deixei de sentir desejo, deixei de gostar, as coisas esfriavam também lá em baixo."
Matt estava boquiaberto e, de repente, começou a gargalhar.
"Não tem graça!" – Quinn ficou chocada.
"Desculpe, Quinn, mas tem sim!"
Ria ainda mais forte e o som contagiou a vendedora. Talvez tivesse um pouco de graça. Quinn se lembrou das caretas que o pai de Beth fazia quando introduzia o pênis, dava algumas poucas estocadas e a xingava porque estava gelada e ele perdia o tesão. Deixaram de ter relações. Quinn não sabia o que era ter sexo há quatro anos.
"E os esfriamentos?" – Matt voltou a conversar depois de se acalmar.
"Acontece com alguma frequência quando fico nervosa... mas não tem ninguém para tocar em mim para conferir a não ser Beth."
"O que ela diz?"
"Ela não se importa, acho. Ou deve pensar que é normal."
"Você não tem vontade de descobrir o potencial que tem com tal poder? Esse meu amigo poderia ajudar."
"Eu não sei, Matt. Teria que pensar primeiro."
"Certo" – destravou a porta do carro – "De qualquer forma, sempre que precisar conversar a respeito, saiba que pode contar comigo. Você não precisa se esconder e mim."
"Obrigada" – limpou mais algumas lágrimas – "Esse foi um grande encontro" – forçou um sorriso.
"Achei que não fosse um encontro" – Matt provocou.
"Terminou por ser um."
"Encontros geralmente terminam com um beijo" – arriscou.
Encarou o amigo. Ela umedeceu os lábios antes de pressioná-los contra os de Matt. Foi um beijo rápido, porém doce e significativo para Quinn, que há muito não tinha a sensação estranha pelo corpo: o arrepio prazeroso. Talvez ela gostasse mesmo do amigo.
"Beth me espera" – ela saiu do carro e Matt também.
"Te vejo amanhã?"
"Você sempre toma café comigo antes de trabalhar. Por que mudar?"
...
A vida voltava ao normal para Finn. Ao menos o sábado dele foi espetacular. Rachel estava mais tranqüila e dormia melhor. Se ela ainda tinha pesadelos, eles não eram tão ruins a ponto de fazê-la acordar molhada de suor. Rachel, inclusive, arrancou aplausos durante a apresentação dela no restaurante com uma música alegre e poética. Até mesmo a sombra do justiceiro mascarado estava mais amena. O encontro com o indivíduo era empurrado para o passado e tudo que ele queria fazer naquele instante era aproveitar um pouco mais do dia. O restaurante fecharia naquele domingo até quarta-feira para reparos e manutenção na cozinha e dedetização. Seria como um feriado prolongado na visão dos dois.
No domingo de manhã, após uma boa noitada de amor, Finn passeava abraçado com a namorada pela feira livre mensal da cidade. Pararam numa barraquinha que vendia instrumentos de percussão rústicos de alguns conhecidos. Finn sempre foi um sujeito musical, mas a quitinete dele não comportava uma bateria. Olhou os bongôs, uma caixa de segunda mão, um cajón, não se interessava pelos pandeiros e timbales. Deu mais uma olhada na caixa e lamentou por ter vendido a bateria. Foi por uma boa causa: ele usou o dinheiro para viajar com Rachel no ano anterior. Mas tinha saudades de tocar.
"Por quanto você faz essa caixa?" – perguntou.
"Por 75" – Finn se interessou.
"Já tem comprador?"
"Ainda não."
"O que acha, Rach?" – analisou o instrumento. Rachel era uma ótima cantora e arranhava um pouco de piano, mas só.
"Parece que está em bom estado."
"Está em excelente estado..."
Enquanto Finn analisava o instrumento, Rachel olhou para uma barraquinha de bijuterias próxima dali. Avisou ao namorado que iria dar uma olhada enquanto ele negociava a caixa.
"Fique à vontade" – disse a vendedora e provável artesã.
Experimentou alguns anéis, mas se interessava de verdade pelos brincos. Pegou alguns, experimentou o peso.
"Esse não fica tão bom" – surpreendeu-se ao ouvir uma voz conhecida, porém inesperada para aquele momento – "O outro fica melhor."
Rachel olhou para Santana e franziu a testa. As duas passaram a semana inteira de ensaios se evitando após a discussão ao telefone. Mas a verdade é que Rachel sentia falta da atenção da vigilante e vice versa. Olhou para o lado. Algumas barracas dali Finn testava instrumentos musicais e estava concentrado demais nisso. Rachel voltou-se para Santana e arrumou a postura.
"Tem certeza?" – procurou ser casual – "Esse também é bonito."
"É sim, mas não combina contigo. Você se veste mal, como uma bibliotecária de um bizarro filme pornô japonês, mas usa bijuterias discretas e tem essa corretinha sem-sal no pescoço com o nome do gigante bobão. Parece até uma coleira. Esse brinco é sexy, para mulheres que sabem do próprio nariz. Não sei se esse é o seu caso, Berry. Já este outro brinco é para moças discretas e comportadas. São para as boas meninas que obedecem aos namorados e se tornarão esposas dedicadas. Definitivamente esse é o seu caso."
Rachel olhou a vigilante no usual vestido curto ajustado ao corpo, a bota de salto e a jaquetinha. Os cabelos estavam soltos e bem penteados. No rosto, uma maquiagem leve, mas com o batom preponderante. Definitivamente feminina e sexy. Santana exalava poder dentro de uma áurea predadora. Era muito diferente da jovem em roupas masculinizadas de vigilante, com os cabelos amarrados, que transmitia a sensação de segurança e honestidade, mesmo com a máscara de tecido no rosto.
"Moça, quanto ficam esses dois?"
"Quinze."
Rachel pegou o dinheiro na bolsa e o entregou em troca das bijuterias. Pegou o suposto brinco sexy e o guardou. Entregou o discreto a Santana.
"Um presente. Talvez esteja na hora de eu ser um pouco mais dona do meu nariz e você mais comportada."
Santana aceitou o presente com expressão perplexa.
"Obrigada."
"Ganhando presentes de garotas, Santana?"
Ouviram uma voz feminina por trás. Era Jenny, que logo ficou ao lado da estudante e a abraçou pela cintura, como se marcasse o território. Rachel olhou a cena e ficou desconcertada. Era o efeito provocado sempre que via Santana com a garota.
"Você se lembra de Rachel Berry, certo?" – Santana apresentou – "Ela faz parte do grupo de teatro que eu freqüento com Mercedes e Artie."
"Rachel!" – Finn foi até a namorada e segurou a mão dela. Encarou as duas jovens à frente. A velha conhecida ele procurou ignorar. Já a outra era uma mulher sexy aos olhos dele – "Ei Santana."
"Ei Franketeen... Bom, nós já vamos. Obrigada pelo presente, Rachel."
"Disponha."
As duas passaram pelo casal e seguiram o caminho. Rachel olhou para trás à tempo de ver Santana e Jenny entrelaçando os dedos.
"Que presente?" – Finn a chamou de volta à realidade.
"Um brinco de bijuteria que comprei. Ela chegou de surpresa e deu uma daquelas opiniões típicas. Achei por bem dar o brinco a ela. Só isso" – voltou a abraçar o namorado – "Conseguiu fazer negócio com a caixa?"
"Fiz sim. Volto para pegar depois que sacar o dinheiro do banco."
"Legal" – sorriu para o namorado.
Em outro bairro da cidade, enquanto Beth brincava no parquinho com outras crianças sob o olhar atento de uma vizinha, Quinn olhava fixamente para a própria mão. Matt fez algumas demonstrações do poder dele naquela manhã e tentou persuadi-la da necessidade em aprender a se controlar. Quinn procurou esfriar a própria mão deliberadamente. Não conseguiu. Estava quase convencida que talvez fosse bom não saber controlar tal poder. Não imaginava que utilidade poderia ter a não ser esfriar rapidamente um suco sem precisar colocar na geladeira antes. Do que estava mais convencida era em dar uma chance a Matt. Após uma leve discussão, Matt segurou Quinn pela cintura e a puxou para um beijo apaixonado. Ela se esquentou.
