Mercedes jurava que teria de algemar Santana à cama. Pensou melhor. Se a amiga podia entortar barras de ferro, provavelmente arrebentaria a corrente de uma algema com facilidade. Talvez correntes com um cadeado grande. Só assim para mantê-la no quarto para não desobedecer a determinação do chefe em não vestir a máscara. Mas parecia que a vigilante tinha uma comichão que a levava às ruas quase todas as noites para caçar ladrões e bandidos que encontrasse. Foi perseguindo um grupinho de assaltantes que levou um tiro noutra noite. Ao menos não estava amarrando ninguém mais a um poste.
Sempre que patrulhava até tarde, Santana perdia a primeira aula por não conseguir acordar. Mercedes era o contrário. Não vestia a máscara, não tinha super-poderes. Ou melhor, talvez a astúcia e o poder de articulação fossem seus dons especiais. Ela adorava as manhãs, tinha hábito de acordar cedo, arrumar a cama, ler as manchetes, conferir e-mails e se arrumar para mais um dia na faculdade de jornalismo. Só então, quando já estava vestida e com a mochila preparada, que ela tentava acordar a companheira de quarto.
"Caraca, mais quinze minutos."
"San, em quinze minutos você precisa ir à aula."
Santana abriu os olhos e resmungou alto antes de se descobrir. Costumava dormir de camiseta folgada e velha e short de pijama, sem calcinha. Mais nada. Mercedes já se habituou com as parcas roupas de dormir da amiga. Foi uma vitória conquistada com muita discussão que a vigilante vestisse alguma coisa. A outra opção era a completa nudez. Ainda se lembrava do susto que foi ainda nas primeiras semanas de faculdade. As duas se conheceram, estabeleceram regras. Coisas como nada de namorados ou transas casuais naquele quarto sem que o outro conceda, nada de festas ali dentro, nada de música (especialmente alta) depois das dez da noite, nada de uma pegar coisas emprestadas da outra sem avisar antes, nada de fumar, nada de se masturbar enquanto o outro estivesse presente mesmo que dormindo. Eram termos justos.
Numa bela manhã de um dia quente, Mercedes acordou surpreendida com Santana esparramada na outra cama e completamente nua. Foi constrangedor. A nudez seguiu-se por mais alguns dias. Santana argumentava que não gostava de apertos e culpava a mania de chutar os cobertores no meio da noite por acordar tão exposta. Um dia a jornalista decidiu colocar um basta: nada de dormir pelado. Santana resmungou. Isso fez com que Mercedes compasse um monte de shorts de tecido leve e elástico fino e presenteou a amiga. Se a calcinha apertava, que vestisse ao menos os shorts. Eram leves e folgados. Santana aceitou em nome da boa convivência. Mercedes e ela eram boas companheiras de quarto e sabiam que deram muita sorte com o sistema de seleção. Em geral, os companheiros de quarto calouros se atracavam e ocorria um intenso troca-troca nos primeiros meses.
"Eu perco a primeira aula" – a vigilante resmungou e Mercedes virou os olhos.
"Problema é seu. Vou nessa, Satan."
Sorriu ao fechar a porta ouvindo um segundo resmungo alto. Como era de costume, encontrava Artie (e agora o namorado David Mills) no refeitório para o café da manhã no edifício ali próximo ao dormitório. Adorava servir o prato farto, apesar dos protestos de David, adepto ao vegetarianismo. Mercedes era sim uma mulher acima do peso, mas ela estava bem de saúde. Não tinha diabetes, colesterol e nem pressão alta. Não fazia exercícios no sentido clássico, mas se movimentava bastante na faculdade e no jornal, além dos ensaios no teatro. Também tinha toda a atividade secreta extracurricular da qual estava envolvida. Então, sim, ela se permitia comer bacon no café da manhã e panquecas com mel.
"Você vai ao ensaio hoje à noite?" – perguntou David.
"Não perderia o ensaio de hoje por nada neste mundo" – Mercedes respondeu e recebeu um olhar de aprovação do melhor amigo.
"O que vai acontecer de interessante?" – o namorado ficou intrigado.
"Lembra que te falei de Finn Hudson? Até mesmo Schuester se cansou dos ensaios ruins e resolveu fazer adaptações na peça para encaixar um personagem novo, principal, que pudesse cantar direito tudo que Hudson não consegue. A apresentação desse novo cara é hoje."
"Há um excesso de veneno aqui" – Artie procurou relativar – "Finn ainda é importante para o grup braço direito do diretor. Pode não ser um bom cantor ou ator, mas joga em equipe, diferente de certas divas."
"Só porque eu me acho melhor que Rachel Berry? Ela só tem o papel feminino principal por ser branca e magra."
"Schuester não é um racista, Cedes. E Rachel Berry está nesse grupo desde o início."
"Mas aí é como se lealdade fosse levado mais em conta do que o mérito. Eu canto melhor que Rachel."
"Eu diria que há um empate" – Santana surpreendeu ao aparecer no café da manhã sentou-se na mesa com a habitual quantidade absurda de comida. Mercedes a odiava por isso: era injusto ela não poder comer muito, ao passo que Santana era capaz de mastigar a todo instante sem engordar – "Vocês cantam muito, mas ela é melhor atriz."
"Você anda defendendo Rachel nesses dias. É estranho" – Artie observou.
"Você é estranho" – resmungou.
"De qualquer forma, hoje vamos ensaiar o meu solo" – Mercedes sorriu ansiosa e bateu palmas – "Tim Maia..." – e fez high five com o amigo.
"Espere..." – David puxou pela memória – "Achei que a sua música fosse da Nara Leão."
"É, mas a voz da diva aqui não cabe naquele sussurro. Tim Maia é mais a minha cara. A gente alterou um pouco a letra para caber no contexto da peça, mas acho que vai dar tudo certo."
"Na verdade, Weezy aqui quase comeu a cabeça de Schuester para cantar ao menos uma que ela gostava" – Santana dedurou.
"Foi para o total bem da peça."
Mercedes fez uma careta de desdém que provocou risos nos outros dois. Quando Tina apareceu, Artie aproveitou para "pegar uma carona" com a companheira de curso e de teatro, deixando a diva um pouco às sós com o namorado. David era um sujeito curioso e interessado na vida da namorada que, por sua vez, procurava abastecê-lo de histórias da família, amigos, de como era a vida dela na cidade natal, de como ajudava a mãe a fazer artesanato pra vender na feira livre o fim de semana. Foi uma infância boa aos olhos da jovem mulher: teve alguns amigos, não foi popular na escola, mas isso não a impediu de aproveitar o que lhe era oferecido. E contou das experiências nos shows de talento e no grupo teatral da escola.
A paixão pelo jornalismo nasceu por um acaso. Uma amiga apavorada em conseguir aceitação nas melhores universidades disse que atividades extracurriculares e trabalho voluntário eram levados muito em conta. Mercedes só tinha o teatro e pensou que isso e as boas notas talvez não fossem suficientes. Procurou outras atividades disponíveis e encontrou uma vaga no jornal da escola. Pensou que fosse lidar com os assuntos culturais, mas como é tradição, os novatos de uma redação de jornal ou entram na rádio patrulha ou escrevendo a agenda cultural do caderno dois. O jornal da escola tinha a versão da rádio patrulha. Os novatos tinham de fazer matérias sobre a limpeza da escola, brigas que aconteceram e a posição do diretor em relação aos acontecimentos. Às vezes tinha de cobrir eventos que ninguém mais queria, como uma reunião pública do conselho escolar.
Mas para a própria surpresa, Mercedes não apenas passou a gostar do trabalho que ninguém mais queria como criou formas de torná-lo mais atraente para o leitor. A editora, a professora de redação, deu carta-branca a criatividade da entusiasmada aluna. Valeu à pena. Mercedes fez um bom portfólio e ainda ganhou um prêmio estadual de redação jornalística concedido à alunos do high school. Conseguir uma bolsa parcial na universidade foi outra vitória conquistada pela jovem jornalista. A única frustração é que as pessoas a conheciam mais o seu nome do que sua aparência e, principalmente, sua voz.
Foi a perspicácia investigativa que fez Mercedes descobrir o segredo de Artie. Achou incrível que o colega aparentemente preso a uma cadeira de rodas podia voar. Mais ou menos na mesma época ela descobriu o segredo de Santana, quando flagrou a colega erguendo um móvel no dormitório do amigo como se fizesse esforço algum. Chegar até o grupo dos vigilantes não foi tão difícil a partir deste ponto, mas em vez de levá-los à luz, achou excitante a possibilidade de ajudar nas investigações, como uma integrante valiosa que não precisava necessariamente vestir uma máscara. Apesar de não ter voar, ter super anormal ou telecinésia, Mercedes se sentia uma igual.
É claro que ser amiga próxima de Santana e Artie, principalmente, trazia algumas vantagens. Ela já teve o prazer de fazer um pequeno voo com o amigo, e era a colega de quarto quem carregava todas as coisas pesadas para ela, como na vez quem que Mercedes pediu para colocar a mala dela cheia de arquivos e bugigangas em cima do armário. Aquela mala deveria pesar um 60kg com as coisas dentro, mas Santana a ergueu como se fosse nada e a guardou no local indicado.
Bem que Mercedes gostaria de confiar em David o suficiente para poder falar da parte oculta do cotidiano dela. Mas jurou jamais revelar a ninguém e sob nenhuma circunstância sobre o grupo. Todos juraram, apesar de Santana relativamente ter burlado tal norma ao confiar em Rachel. O que ela poderia fazer? O chefe deveria ter apagado as lembranças da diva irritante, mas algo aconteceu para Rachel resistir e lembrar. Santana, por sua vez, preferiu manter tal informação para si.
"Posso assistir ao seu ensaio hoje?" – David perguntou quando iam abraçados para as classes.
"Eu iria adorar!"
O celular dela tocou. Era a linha segura. Mercedes sorriu para o namorado e se afastou três passos para atender.
"Sim?"
"Mercedes, há uma movimentação diferente na polícia ao nosso respeito nesses últimos dias. Ficou sabendo?"
"Sim, fiquei" – olhou para o namorado e recuou mais alguns passos – "Você pode conversar daquela outra forma?"
A linha caiu.
"Quem era?" – David ficou curioso por causa da reação diferente da namorada ao telefonema.
"Uma fonte para a matéria que estou escrevendo sobre aquele incidente que passei com Angelina" – mentiu – "Mas a ligação caiu" – passou o braço na cintura do namorado e ele fez o mesmo.
Entrou na classe, sentou-se na cadeira e rabiscou na caderneta os nomes de alguns contatos que poderiam contar sobre a movimentação suspeita da polícia.
Do lado oposto da cidade, Quinn tinha algumas tarefas a concluir. Aproveitou o pouco movimento da livraria para arrumar o estande de livros em promoção, tirou o pó e depois fez o atendimento de uma cliente que procurava um bom livro de receitas sem glúten. Sorria ao ouvir as pequenas histórias das razões por trás daquela procura. No caso da moça, o marido foi proibido pelo médico e ele ainda estava muito bravo com a notícia. Nem tanto por não poder comer mais pão, waffles e panquecas normais. O problema é que cerveja tinha glúten.
Indicou um livro para outro cliente que não sabia o que levar por ser um desses leitores que compram mais pela sinopse do que pelo gênero ou autor. Depois encarou mais alguns bons minutos de espera quando viu Matt entrar. Diferente de Rachel, ele apenas acenava para Quinn e ia direto ao café que existia dentro da livraria. Uma colega de trabalho, que ficava no caixa do café, sempre olhava para Matt de cima embaixo porque das vezes que ele buscava a colega no trabalho, estava com as botas de operário, ou às vezes se esquecia de tirar a tira fluorescente de segurança. Achava um ultraje que um negro da construção civil entrasse num café como se fosse um cavalheiro. Uma boba que se recusava a ver que ele era sim cavalheiro dentro das limitações que tinha. Matt sempre pedia um café expresso, um pedaço de torta e lia o jornal enquanto esperava Quinn sair do expediente. Como isso era irritante aos olhos de um racista. O que a mulher pensaria se soubesse que aquela era a primeira vez em que Matt buscaria Quinn na livraria na condição de namorado?
Nesse meio, Rachel entrou na livraria. Dessa vez passou apenas por um olá amigável.
"Hoje vou sair um pouco mais cedo" – Quinn sorriu – "E minha carona já está esperando por mim."
Rachel olhou na direção apontada pela colega e viu Matt sentado à mesa. Os dois acenaram de longe. A cena era rara, mas não incomum aos olhos de Rachel uma vez que Matt e Quinn sempre iam juntos aos ensaios.
"Tem idéia de quem seja o ator novo que o Schuester vai apresentar?" – Rachel tentava sondar essa informação desde o último ensaio quando Finn foi mal mais uma vez e esgotou a paciência.
"Nenhuma, Rach" – a jovem apenas acenou – "Sabe que não conheço muitas pessoas nesta cidade além do trabalho, do teatro e dos meus vizinhos. Mas se quer a minha opinião, se fosse por mim, acabaria com o personagem de Puck, que não é tão importante e o deixaria assumir esse novo papel."
"Você não gosta mesmo do Noah" – Rachel especulou. Não sabia que o status de relacionamento entre Quinn e Matt havia mudado.
"Ele é grosseiro e cheio de si, mas sabe atuar e canta parecido com Finn. Um pouco melhor até."
"Eu quis dizer... gostar" – Quinn ficou séria e balançou a cabeça. As investidas de Puck, em vez de lisonjear, incomodavam – "Verdade que ele tenta ir para a cama com todas as garotas que vê, mas é um bom amigo."
"Você é quem convive com ele há mais tempo. Você diz." – o tom áspero pegou Rachel de surpresa. Achou corretamente prudente não insistir no assunto.
"Bom... como está Beth?"
"Está bem" – Quinn sempre sorria ao falar da filha – "Vou buscá-la na escola assim que sair daqui. Aliás, ela todo dia pergunta se você veio me visitar para deixar os biscoitos dela."
"Bom saber disso! Aliás, acabo de me lembrar de uma coisa" – entregou o pacote com dois cookies para a vendedora.
"Por favor, existe uma cota de açúcar semanal para a minha filha. Não extrapole."
Rachel acenou e se despediu da colega acenando para Matt ao longe mais uma vez. Quinn olhou para o relógio. Precisava bater o ponto e foi para a área dos funcionários retirar o uniforme e encerrar o expediente. Quando surgiu novamente na loja com o vestido, o casaquinho e o sapato de sempre, fez questão de ir até Matt e o beijou para desgosto e total surpresa da colega do café.
"Vamos?" – os dois entrelaçaram os dedos e saíram após um rápido aceno de Quinn.
Buscaram Beth na escola e os três almoçaram um sanduíche na rua, para deleite da pequena. Deixaram a menininha com uma vizinha de prédio, a mãe de Patricia. É que naquele dia Quinn concordou em ver o chefe. Sequer sonhava que o homem em questão coordenava o grupo de vigilantes mascarados. Por hora, para Quinn, ele era apenas o sujeito que ensinou Matt a lidar com os poderes.
Foram até uma casa de dois pavimentos num bairro de classe média. Não era uma residência rica, apesar de grande. Havia um carro popular na garagem, uma árvore logo à frente e um jardim bem cuidado. Quinn respirou fundo e Matt segurou a mão gelada da namorada.
"Vai dar tudo certo."
Ela acenou e desceu do carro. Os dois não precisaram bater à porta para serem atendidos. Isso era algo natural para Matt porque ele sabia que se tratava de um telepata e intuitivo, mas Quinn ficou surpresa. Lá estava ela diante de um homem muito bonito por volta dos 40 anos, feições latinas, corpo forte, tatuagem no braço.
"Matt!" – deu um abraço no antigo discípulo.
"Martinez" – ele voltou-se para a namorada – "essa é Quinn Fabray, de quem eu falei."
"Quando você me disse sobre ela, não mencionou o fato de ser tão bonita. Entrem, por favor."
Quinn deparou-se com uma sala brejeira, com um jogo de sofá bonito, muitas lembrancinhas de viagens e porta-retratos de Martinez com uma moça loira que deveria ter a mesma idade dele. Também havia fotos de um rapaz mais jovem que lembrava a mulher.
"Essa é a minha esposa, Holly" – ele apontou para os porta-retratos que chamaram a atenção de Quinn – "E o garoto é o meu enteado."
"Oh" – Quinn ficou vermelha – "É uma família muito bonita, senhor Martinez."
"Sim, obrigado. Vocês aceitam uma água? Talvez um chá de ervas?"
"Eu estou legal" – garantiu Matt.
"Muito obrigada, senhor Martinez" – respondeu Quinn ainda pouco à vontade e nervosa.
"Então..." – ele relaxou no sofá e cruzou as pernas – "A que atribuo essa boa visita?"
Sabia muito bem a razão da visita, mas acreditava que precisava fazer Quinn tomar a palavra. Até porque se ela falasse, ficaria mais calma e confiante. Quinn olhou para o namorado que respondeu com um aceno encorajador.
"Matt é uma pessoa especial" – ela começou olhando para os dedos das próprias mãos – "E quando ele me mostrou o quanto isso também envolvia um lado... diferente... disse que talvez eu fosse... como ele. Eu não sei o que sou, senhor Martinez, de qualquer forma, ele disse que o senhor o ajudou a desenvolver o dom dele e a controlar isso. E que talvez o senhor poderia me ajudar também..."
"Matt realmente é um cara especial" – abriu um sorriso confiante – "Quando eu o encontrei, era só um garoto amedrontado com um poder incrível em mãos. Mas não vamos falar o seu amigo, Quinn. Posso te chamar de Quinn, certo? Conte-me de você. O que a faz pensar que também tem um dom especial?"
"Eu não sei se é especial ou mesmo se é um dom. Quando eu fico nervosa, minhas mãos ficam frias. Ficam... realmente frias. Gélidas. Não só as minhas mãos... meu corpo..."
"Quando isso começou a acontecer?"
"Na puberdade. Quando fiquei grávida, o esfriamento cessou, mas depois da amamentação, voltou e continua a ser a mesma coisa: basta eu ficar apreensiva que começo a esfriar. Matt disse que eu poderia controlar isso e até fazer mais, e que o senhor é um ótimo professor."
"Posso pegar na sua mão, Quinn?" – hesitante ela acenou e estendeu a mão para o homem mais velho – "Eu gostaria que fechasse os olhos e não se assuste com a voz que vai ouvir dentro da sua cabeça. Sou eu falando contigo. Sou um telepata. Um limitado, mas que posso conseguir te ajudar caso me permite."
Quinn a olhou assustada, encarou mais uma vez o namorado em busca de conforto. Matt a encorajou mais uma vez. Ela acenou para senhor Martinez e fechou os olhos.
"Concentre-se na minha voz, Quinn" – ela abriu os olhos assustada com a invasão. O coração estava acelerado e, de repente, a mão esfriou – "Relaxe. Eu sinto o seu poder. Ele está agindo, mas é preciso que você deixe o seu corpo ser ele mesmo. Não se reprima" – Quinn procurou relaxar. Tentou confiar na voz reconfortante dentro da cabeça, apesar do modo ser um tanto quanto bizarro. Ela nunca imaginaria que telepatas fossem reais – "Continue assim. Libere o seu corpo. Deixe ele ser."
Quinn respirou fundo e procurou relaxar o máximo possível. Sentiu uma onda de energia passar pelo corpo e ela lhe era agradável. Era como se sentisse uma onda de choque que saia do topo da cabeça, ressonava por todo corpo e saía pelas mãos.
"Abra os olhos, Quinn."
Ela obedeceu e quando deu por si, a mão dela estava coberta por uma fina camada de gelo, como se a umidade do ambiente tivesse se condensado ali. E o fato mais interessante é que Quinn podia sentir o frio, mas ele não a afetava. Pensando bem, o frio nunca a afetou. Certa vez, quando tinha 13 anos, precisou correr para fora da casa a fim de pegar o teimoso do cachorro que havia escapado em direção à neve. Pegou o animal e o colocou no colo. Uma mulher passava em frente à casa naquele instante e ficou chocada ao ver a garotinha sem um casaco de frio e com os pés descalços sobre a neve. A moça, que nem a conhecia, deu-lhe uma bronca sobre riscos de ficar exposta e a jovem Quinn correu para dentro de casa. O corpo estava gelado, os pés quase congelados, mas ela não se sentiu mal ou mesmo alterada. Ao contrário, era confortável. Quando comentou o que sentia a melhor amiga da época, a outra garota a olhou como uma aberração. Quinn se retraiu.
"Desculpe" – sacudiu as mãos e as colocou debaixo das axilas.
"Não se desculpe, Quinn" – Martinez sorriu, apesar de estar esfregando as mãos para voltar a ter o aquecimento – "Você tem um dom extraordinário. No entanto, precisa trabalhar nele não apenas para o controle, mas para compreender até onde pode chegar e, assim, descobrir suas utilidades. Quando mais você souber sobre o seu dom, melhor."
"E você realmente pode me ajudar?"
"Posso tentar. A gente pode se encontrar duas vezes por semana, que tal?"
"O senhor estaria disposto?" – ela arregalou os olhos.
"Claro! Matt e eu ainda trabalhamos em algumas coisas, você pode vir com ele e depois marcamos um dia para trabalharmos às sós."
Quinn refletiu. Queria aprender mais, porém ficar às sós com Martinez não era uma idéia tão atraente para alguém naturalmente fechada e desconfiada.
"Não sei se é possível duas vezes por semana. Tenho a minha filha e arrumar gente para ficar com ela não é tão simples."
"É só trazê-la até aqui. Temos espaço nessa casa, ela pode brincar com o cachorro, jogar vídeo-game. Isso não será problema, Quinn. Muito pelo contrário."
"Eu costumo vir aqui aos domingos no final da manhã" – Matt disse – "E domingo a livraria não abre..."
"Então, talvez uma vez por semana eu venha junto com Matt" – Quinn condicionou – "Contigo é mais fácil e eu não crio tantos problemas por causa do meu trabalho e Beth."
"Claro!" – Martinez concordou – "Será um prazer, Quinn. Espero te ajudar da mesma forma que auxiliei Matt. E acredite, ele mostrou ser extraordinário."
Quinn saiu animada da casa de Martinez. Matt foi a primeira pessoa a aceitá-la como ela realmente era. E agora se sentia ainda melhor com a possibilidade de controlar e fazer uso do poder que tem. Ela nunca, em sua vida, imaginou poder congelar. Estava curiosa também do quanto de coisas a mais seria capaz.
Martinez observou o novo casal sair de carro e depois voltou a se concentrar em algumas prioridades. Enquanto arrumava um jantar para esperar a chegada da esposa, pegou celular e o colocou na viva-voz.
"Mercedes. Alguma novidade sobre aquelas investigações?"
"Olá chefe. Nenhuma novidade sobre Angelina ainda. A polícia trata o caso como um desentendimento de gangues. Mas penso que há outra coisa interessante: hoje recebi o telefonema de uma das minhas fontes que alertava sobre um plano em andamento para reverter a imagem dos vigilantes. Mas as minhas fontes não souberam dizer o que é. Tudo está sendo trabalhado na cúpula da corporação à sete chaves."
"Interessante" – nessas horas que Martinez lamentava por ser um telepata tão limitado. Ele só conseguia projetar ou ler pensamentos se tivesse contato visual com a pessoa e a manipulação tornava-se eficaz apenas quando ele a tocava. Tentou de inúmeras vezes ler pensamentos de pessoas que conhecia, mas que estava fora do campo visual dele. Não foi possível – "Santana está desobedecendo minhas ordens expressas, correto?"
"Não acho que seja só por isso, chefe. E San está quieta" – Mercedes disse uma meia verdade – "Acredito que a reação da polícia vem por conta dos casos em que prendemos os pedófilos e do resgate na casa de Angelina. A polícia foi duramente criticada por não ter administrado uma situação de seqüestro de uma líder comunitária. Os vigilantes começaram a ter uma imagem melhor, as pessoas enxergam o grupo como uma solução. Não me admira que exista um plano de contenção."
"Conversei com um dos meus amigos lá dentro, mas ele não sabe de nada. O plano deve fazer parte da alta cúpula da polícia. Precisamos ficar atentos e por isso reforço ainda amais a necessidade de não irmos às ruas. Será que você pode transmitir tal recado para Santana?"
"Claro, chefe. E eu concordo."
"Ok, continue trabalhando, Mercedes."
O chefe desligou. Tinha mais ligações a fazer. Assim como Mercedes. A jornalista procurou falar com as fontes confiáveis que tinha na polícia e com outras paralelas. Realmente ninguém soube informar sobre planos. O que ela entendia é que todo quadro tratado dentro da cúpula máxima da corporação policial era prioritário. Logo, manchar a imagem dos vigilantes e torná-los um alvo em vez de uma benção recebida pela população poderia ser uma prioridade. Como e quando se pensa em executar tal plano era um mistério.
No dormitório, ela se arrumava para ir ao ensaio. Santana estava pronta também. Rabiscava um bloco de notas. Não era talentosa para desenhar, mas conhecia a técnica. Era suficiente para desenhar projetos arquitetônicos.
"O chefe conversou comigo hoje" – disse escolhendo uma blusa.
"Ele está preocupado com o lance da polícia vir atrás da gente?"
"Está sim" – viu que Santana estava relaxada pintando o desenho – "Você não parece preocupada."
"Vai adiantar estar? Você e Grant são os detetives da turma. Talvez Artie. Enquanto vocês esquentam a cabeça com isso, eu e Matt nos preocupamos em fazer as patrulhas. E às vezes Grant quando pedimos o favor. Então é isso."
"Você é uma acomodada."
"Talvez" – ela olhou para a mochila. Ficou tentada.
"Sabe que não pode."
"Não vou patrulhar. Não hoje."
"Não até segunda ordem, San. Eu sei que é impulsiva, mas não é irresponsável."
Logo Mercedes estava arrumada e a dupla desceu para esperar Artie e David. Foram para o ensaio e foram os últimos a chegarem ao teatro, como de costume. Encontraram Rachel aquecendo a voz. Quinn bronqueando com Beth para ela ficar quieta, além de o resto interagir aqui e acolá. O diretor Schuester chamou todos ao palco para apresentar um garoto jovem, relativamente atraente, de sobrancelhas grossas e que vestia suspensórios. Santana coçou a língua para não comentar algo nefasto.
"Pessoal, conversei com Finn e nós entramos num consenso sobre os ajustes."
"A verdade é que eu sou uma droga" – Finn tomou a palavra – "Gosto de cantar, mas atuar é difícil... e dançar."
"Isso é fato, porque você parece uma orca encalhada se debatendo quando dança."
"Santana!" – Rachel chagou atenção e só ganhou risadinhas em resposta.
"Este é Blaine Anderson. Ele é um dos jovens mais talentosos que conheço e está no grupo de teatro da escola. É um sênior e ele aceitou vir aqui fazer um teste para vocês. Finn e eu fizemos uma audição prévia e tenho certeza de que vão adorar este garoto."
"Mas isso já está decidido?" – Rachel esbravejou e Finn baixou a cabeça – "Como você não me disse nada a respeito?" – sentiu-se traída porque o namorado e o diretor a excluíram por completo de tal decisão. Eles deveriam ser uma equipe, correto: ela, Finn, Schuester e Emma. Depois com Tina e Puck.
"Acho que isso não é hora de discutir... talvez devêssemos ouvir Blaine" – Finn disse sem-jeito e com uma humildade que nem mesmo ele sabia que tinha.
O elenco se ajeitou nas poltronas, menos Quinn, que ficou para passar uma cena com o novo garoto. O consenso foi de que Blaine saiu-se melhor do que o esperado. De fato, era um talento. O diretor Schuester foi o primeiro daquele grupo a identificar as habilidades do garoto. Ele o viu cantar no clube de música da escola e ficou positivamente impressionado. Além disso, Blaine tinha o perfil adequado para o personagem: era jovem, poderia usara ingenuidade à serviço, conseguia trabalhar coreografias simples com facilidade e cantava bem. O propósito era levar o resto do elenco à aceitação do elemento extra que faria parte dos ensaios um tanto quanto em cima da hora. Blaine se concentrou a música começou e ele entoou.
"Sobre a cabeça os aviões/ Sob os meus pés os caminhões/ aponta contra os chapadões meu nariz/ Eu organizo o movimento/ eu oriento o carnaval/ eu inauguro um monumento no planalto central do país/ viva a bossa,sa,sa, viva a palhoça, ça, ça, ça, ça..."
Foi a primeira vez desde que começaram os ensaios que o elenco ouviu a música ser interpretada corretamente. Até mesmo no momento trava-língua da musica ficou bem fluída com o novo garoto. Ganhou aplausos no final e a aceitação.
Depois da apresentação do extra, que tornou-se menos dramática do que se pensava, a não ser para Rachel Berry, que realmente ficou magoada, os atores voltaram a ensaiar e a marcar a cena em que a peça ganhava um pouco mais de cores, como Mercedes insistia em dizer. Na visão dela, Tropicália era branca demais e precisava desse balanço.
Ela mesma não era uma atriz muito boa, mas quando se dirigiu ao palco para encarar a platéia imaginária, mostrou a potência da voz.
"Já virei calçada maltratada/ e na virada quase nada/ me restou a curtição/ Já rodei o mundo quase muda/ no entanto num segundo/ esse chamado veio a mão/ já senti saudade/ já fiz muita coisa errada/ já pedi ajuda/ já dormi na rua/ mas lutando atingi o bom senso/ lutando atingi o bom senso/ a imunização racional."
Foi uma interpretação maravilhosa com alterações sutis de uma canção feita por influência de uma seita que Tim Maia se viu envolvido e que resultou num dos discos mais sensacionais da música brasileira: a fase Racional, que depois foi renegada pelo genial, mas jamais esquecida. Algo possível somente pelas mãos de um cara sem igual. Mercedes sabia que a seita existia e havia alguns sujeitos de branco entregando panfletos em dias de feira livre. O espetáculo não poderia ficar caracterizado pela história paralela do artista, por isso a troca de algumas palavras que tiravam a música da onda racional e transportava a melodia para o propósito teatral.
Mercedes saiu aplaudidíssima. Era isso de que estava falando quando implicava com Rachel Berry e do fato de poder cantar melhor, mesmo quando negava para si mesma de que Rachel, além da preferência física do diretor (branca, pequena, geniosa e briguenta), era melhor atriz. Só não era melhor do que Quinn, que não era protagonista porque não conseguia competir no canto. E num musical, ter voz é fundamental.
No final dos ensaios, enquanto todos pegavam seus pertences para ir embora. Rachel se aproximou discretamente de Santana.
"Você está usando os brincos que te dei" – Santana estava de costas para Rachel e não pôde ver o sorriso discreto no rosto da colega.
"São brincos bonitos" – ela virou-se e procurou agir indiferente.
"Você vai... fazer aquele negócio hoje?"
"Não. Até alguém como eu precisa de descanso."
"Rachel?" – Finn chegou e interrompeu o diálogo – "Podemos ir?"
"Depende. Você discutiu mais alguma coisa com o diretor e vai me manter segredo?" – cruzou os braços e voltou-se para o namorado enquanto Santana aproveitou a oportunidade para se afastar.
