Pequeno ensaio sobre máscaras

Por Mercedes Jones

A sociedade ainda está em choque com a morte brutal de Gale Black, assassinado aos 15 anos após roubar uma lata de cerveja de uma loja de conveniência. Segundo testemunhas, o menino foi abordado ainda próximo ao estabelecimento comercial, ainda sob o som dos protestos de Rick Charleson, o caixa, por um homem que usava máscara de tecido preto. Gale não teve chance quando foi surpreendido não por palavras de ordem, mas com um golpe de bastão de madeira na cabeça. Um tão certeiro e violento que racharia o crânio e provocaria o grave edema, causa da morte do adolescente. A gratuidade do evento nos chocou e nos fez sentir próximos à família Black. O jovem Gale não é um adolescente qualquer, um número estatístico sobre os indicies de violência da cidade. Ele tornou-se tão próximo que choramos e vestimos o luto.

A arma do crime foi deixada no local. Não foram encontradas ainda evidências que identifique o criminoso, mas a polícia da cidade abriu ordem de prisão e trata o autor mascarado como um foragido da polícia. Embora nossas autoridades trabalhem arduamente para esclarecer este e outros casos e aponte para um culpado, a pergunta que faço aqui é quem é o culpado? Logicamente existe um autor, mas ele foi inserido dentro de uma entidade estabelecida de mascarados. Um ladrão de residências pode usar uma máscara de tecido preto. Assim como um ladrão de carro, um militante em um protesto, um torcedor no estádio de futebol, e até mesmo o sujeito ou sujeitos que usam o artefato para fazer justiça com as próprias mãos, até mesmo aquele que pega pequenos criminosos e os amarra em postes para a polícia (e a justiça) assumirem. Todos esses, independente de quem seja, não importam os motivos, estão foragidos.

A questão é, estamos todos nós um pouco foragidos também? Pois usamos máscaras invisíveis a todo instante para nos adequar em falsidades sociais e nos esconder em conversões. Nossas máscaras invisíveis servem para serem usadas em nossa total conveniência. Na segurança de nossa máscara invisível, mas plena, apontamos, manipulamos e julgamos certos de nossa alta moralidade. Afinal, mostramos nossos rostos, mesmo que nossos peitos estejam fechados.

Mas ironicamente são as pessoas que vestem a máscara que revelam a transparência de seus caracteres. Falo daquele que rouba, que mata e que também salva. As notícias do último mês nos levam a crer que há sim essas três espécies de mascarados e é preciso ter cuidado para não colocar no mesmo pote quem tenta colaborar com a justiça e quem usa de tal artifício para dar vazão a todas as falhas de caráter e aos seus objetivos obscenos.

Duas semanas atrás, eu e colegas passamos por uma experiência peculiar. Ao entrevistar a ativista social Angelina McCullen com o fim de fazer um especial para esta publicação, fomos surpreendidos por três mascarados integrantes de gangues. Sim, mascarados. A vizinhança percebeu a movimentação estranha e, de repente, estávamos em meio a uma briga de gangues sendo que uma tinha objetivo de silenciar uma vida. Felizmente, os mascarados invasores se assustaram com a quantidade de pessoas na casa e com o rápido certo da vizinhança que impediram que um massacre ocorresse envolvendo, inclusive, uma criança de nove anos. Dois cerca de duas horas, vivemos o terror da apreensão enquanto as gangues dialogavam e a polícia acompanhava tudo a uma distância segura. Foi um quarto mascarado que resolveu o impasse e salvou a todos nós. Ele entrou na casa, nocauteou integrantes de ambos os grupos e nos libertou. A polícia encontrou na casa três pessoas desacordadas que se encontram presas e respondem a um processo criminal neste momento. Como vê, todos usavam máscaras: três para o mal, um (meus amigos afirmam que eram dois) para salvar. A pessoa que nos salvou, seja lá quem for, saiba que serei eternamente grata.

Não defendo o crime, eu o repudio como todo cidadão responsável e com algum senso de decência. O criminoso que matou Gale precisa ser pego. Mas o perigo da generalização está presente. A população deposita ódio em alguém que se tornou uma entidade. Por trás desta máscara pode estar um inocente, um herói, que pode pagar pelos atos de destruidores. Investiguem as evidências em mãos: roupas, sapatos, altura e peso aproximado, etc. Há o registro de uma câmera de segurança, afinal. Peguem esse cara. Mas não inicie uma cruzada sangrenta em cima de uma suposição.

O diretor Schuester terminou de ler sob aplausos do elenco. Alguns entusiasmados, outros por educação. Artie, por exemplo, ovacionou a melhor amiga pelo texto e pela iniciativa. Era o que Mercedes poderia fazer para ajudar publicamente os vigilantes: com um artigo. Outros aplaudiram por educação. Finn e Kurt estavam neste grupo por desgostarem da figura do vigilante, apesar o salvamento de Rachel. Puck era outro, mas porque não tinha opinião formada a respeito, e o mesmo valia para Quinn. Ela que ainda não imaginava que o próprio namorado fazia parte do grupo. Sequer sabia que havia um grupo envolvido para começar.

"Mercedes, por que decidiu escrever esse artigo?" – Schuester gostava de às vezes fazer pequenas entrevistas com os atores. Era uma forma de mostrar interesse e valorizá-los.

"As notícias sobre a perseguição do vigilante me incomodavam. Eu fui salva por esta pessoa e não acredito que o mesmo que teve tanto cuidado no meu resgate foi capaz de uma violência gratuita e descabida. Simplesmente não faz parte do padrão. Não pretendo impor a minha opinião a nenhum de vocês, mas quero provocar uma reflexão."

"Muito bem" – Schuester puxou novos aplausos – "Pessoal, agora vamos nos concentrar em construir a unidade da peça. Chega de ensaio de cenas, vamos começar as peças juntas. Em suas posições."

Era um alívio para Santana o grupo entrar na fase final dos ensaios. Ela não agüentava mais as exaustivas marcações e repetições de uma mesma cena. Havia dias em que ela ou outros sequer ensaiavam porque os ensaios ficavam presos num determinado ponto. Ao menos em tais ocasiões Emma dispensava o resto para evitar o tédio. Ainda assim, fizeram apenas um ensaio com a movimentação geral. Uma acelerada para fixar entradas e saídas. Nesses momentos, o tempo passava depressa aos olhos de Santana. Os intervalos eram lentos, no entanto. Era quando Finn e Rachel trocavam pequenas carícias, como abraços, dedos entrelaçados, selinhos nos lábios. Apenas um comportamento normal de um casal em público. Nada além disso.

Mas, para Santana, tudo passou a ter dimensões maiores. O selinho era visto como um beijo molhado. O abraço era sempre longo demais e ela sentia vontade de dissolver a cola que fazia a mão deles grudarem. Não queria admitir para si mesma que era ciúme o que sentia, muito menos que estava atraída por Rachel Berry. Seria o fim. Finn Hudson? Quem? Suspirava. Era apenas um sujeito com quem Rachel se relacionava há um milhão de anos. O beijo que trocaram na noite anterior? Nunca existiu. Ao menos era assim que Rachel parecia encarar. Evitava, inclusive, trocar olhares com a estudante de arquitetura. Então ela se encostava mais no namorado e procurava focar nas atividades.

"Vamos repassar Pois É uma última vez antes de finalizar, ok?" – Schuester bateu palmas para chamar atenção do elenco – "Rachel, Santana e Mercedes. Em suas posições."

A cena consistia nas três sentadas no chão palco a refletir sobre os acontecimentos prévios da peça. Então Rachel suspira e começa a cantar à capela.

"Pois é/ fica o dito e o redito por não dito/ e é difícil dizer que foi bonito/ é inútil cantar o que perdi."

Mercedes assume a segunda estrofe.

"Taí/ Nosso mais que perfeito está desfeito/ e o que me parecia tão direto/ caiu desse jeito sem perdão."

Santana era a próxima. Ela encarou Rachel e cantou lindamente.

"Então/ Disfarçar minha dor eu não consigo/ dizer: somos sempre bons amigos/ é muita mentira para mim."

Eram apenas versos da canção. Ninguém ali os escreveu. Tratava-se de um clássico do Chico Buarque e nada além. Não foi a primeira vez que o trio passou a cena e ensaiou a música. Mas a relação entre duas das integrantes mudou. O clima mudou, a química mudou. Os versos cantados por Santana passaram a fazer sentido de um modo todo particular, apesar da luta interna dentro de cada uma. Amizade de Rachel? Ela nunca a teve antes. Mas isso passou a existir e, sem querer, evoluiu para algo mais. Não que elas desejassem. Santana teria ficado feliz em nunca conversar civilizadamente com Rachel, e esta não teria se importado de permanecer distante de alguém provocador como a colega de elenco. No entanto, as duas estavam ali, passando uma cena de carga emocional, intimista, um dia após terem trocado um beijo inoportuno. Rachel tinha um namorado que observava tudo da lateral do palco. Santana tinha Jenny ou quem ela se empenhasse em conquistar na semana.

Rachel continuou a canção.

"Enfim/ hoje na solidão ainda custo/ a entender como o amor foi tão injusto/ pra quem só foi dedicação."

As três encerravam a cena cantando juntas.

"Pois é..."

Os colegas de aplaudiram. Como não quando acabaram de ver uma grande cena com as três vozes mais fortes e bonitas do elenco feminino? Rachel aproveitou o momento de diva, foi até a frente do palco e se curvou. Um gesto que irritou as outras duas por diferentes razões. Mercedes não acreditava como aquela menina podia ser tão petulante. Santana estava simplesmente irritada com ela mesma, com a situação dos vigilantes, e com Rachel Berry.

"Dê mais dois passos, Berry. Assim você pode se jogar nos braços do público. Seria uma cena e tanto se você fizesse isso agora já que está tão movida pelo momento."

"Gostaria de vir comigo, Santana?"

"Prefiro me divertir vendo você se estrebuchando e morrendo."

"Meninas!" – Schuester gritou procurando acabar com a breve discussão – "As três foram excelentes, mas gostaria de corrigir alguns detalhes, se me permitem."

Houve mais uma repetição para aperfeiçoar a execução da cena em si, como uma entonação, a gesticulação e pequenos outros detalhes que faziam diferença. Não que William Schuester fosse um diretor exigente e perfeccionista. Era só um cara normal de uma cidade pequena com sonhos grandes. Ele também não tinha muito que reclamar uma vez que o talento dele estava à altura do lugar em que se encontrava. Se fosse pensar bem, aquele elenco também estava em bom lugar. O que falar do desempenho de uma Mercedes Jones, Brittrany Pierce ou mesmo de Finn Hudson, que não tinham cacoete para atuar? Puck, Matt e Mike eram atores medíocres nos melhores dias. Santana, Artie, Kurt e Blaine eram bons, mas não para grandes espetáculos. Se Schuester e Emma apostassem em dois nomes seria Rachel Berry em palcos de musicais e Quinn Fabray em peças dramáticas. A primeira tinha toda a ambição do mundo, mas não a beleza que abria portas. A segunda tinha o padrão de beleza correto, mas nenhuma ambição em seguir tal carreira.

Santana queria ser a primeira a sair do teatro naquela noite. Não tinha obrigações a não ser com os estudos da faculdade. Talvez pudesse tirar proveito da agenda vaga e visitar Jenny. A garota podia ser uma carente emocional irritante, mas era boa de cama e muito flexível. Pela raiva que sentia de Rachel, o primeiro impulso era ir atrás de um pouco de sexo casual e conforto. Por outro lado, era Jenny e como mau-humor em que se encontrava, Santana talvez não suportaria a presença da outra pelos próximos dias.

Quis correr e deixar todo mundo para trás, mas não podia. Não quando tinha de dar carona para Artie e Mercedes, que discutia algo com o diretor. Isso oportunizou testemunhas à contra-gosto o beijo trocado pelo casal de namorados no estacionamento.

"Por que vocês não vão para casa se enfiar na cama de uma vez por todas?" – Santana cuspiu o veneno.

"É o que pretendo fazer" – Finn disse parte para provocar e parte porque passar a noite com Rachel fazia parte dos planos.

"Vamos Finn" – Rachel estampou o sorriso largo – "Quanto antes, melhor."

Finn dirigiu com meio sorriso no rosto. Quando Rachel demandava urgência era porque a noite prometia ser boa, que talvez acontecesse algo mais do o papai-mamãe debaixo dos lençóis que era mais recorrente. Não que não fosse satisfatório na visão do mecânico. A chegada à quitinete foi entre beijos e porta sequer foi trancada. As mãos dele tinham livre acesso ao dela. Era tão fácil e tão bom quando ele podia simplesmente pressionar a mão nos seios, morder o pescoço e tocar o sexo dela sem precisar ser cavalheirismo. Era muito bom quando simplesmente era sujo.

Retirou a calcinha da namorada, levantou a saia e a sentou sobre a mesinha de canto. Rachel o ajudou a abrir o botão da calça e descer o zíper. Pronto. Finn estava dentro.

"Forte" – ela gritou e o namorado correspondeu.

Antes que gozasse, Finn mudou de idéia. Se a noite era selvagem e suja, então Rachel não se importaria em virar o corpo. Ela apoiou as mãos na parede e sentiu novamente a penetração. Não mais na vagina. Duas, três, quatro estocadas fortes e o assunto estava resolvido. Finn respirou fundo, retirou-se e deu um beijo no pescoço da namorada antes de dar alguns passos para trás e sentar-se na cama.

"Está bem?"

"Ótima" – Rachel sorriu.

Sentia-se tão culpada pela traição, que estava disposta a fazer o namorado feliz. Retirou o restante das roupas fazendo uma dança preguiçosa. Então ajoelhou-se entre as pernas e inclinou-se. Tentou a todo custo não pensar em mascarados enquanto dava prazer ao parceiro.

Na calada da noite, Finn e Rachel não era o único casal a se deitar e trocar momentos íntimos. Mercedes pediu o quarto para passar a noite com David. Significava que Santana teria de pedir para ocupar o saco de dormir no dormitório de Artie. Ou era isso ou era Jenny. Ou poderia colocar um sorriso na cara de pau e bater a porta de alguma conquista anterior. Não estava com espírito nem para uma coisa e nem para outra. Sabia que estava proibida, que os tempos eram perigosos, mas fazer aquilo a fazia bem, lhe dava paz. Além disso, bastaria evitar estar no mesmo ambiente do chefe por alguns dias e tal pensamento não chamaria a atenção dele. Ninguém precisava saber.

Pegou a mochila ao sair do dormitório, trocou de roupa no lugar de costume, escondeu a mochila. Lá estava o vigilante com a jaqueta jeans, a calça larga, o tênis marrom e a máscara. Como se sentia à vontade com o uniforme informal. Colocou alguns lacres no bolso e saiu pelas ruas em uma ronda pelas sombras como era de habito. A noite não era particularmente fascinante. Por vezes era triste dependendo de onde ia. Às vezes observava do alto de um prédio garotas e garotos de programa que faziam ponto na Avenida Aox, famosa pelos bares e casas noturnas. Não mexia com eles. Nem com os embriagados ou drogados. Mas ficava de olho para ver se não faziam uma besteira contra alguém, ou se sofriam agressões. Havia uma cracolândia na cidade, mas Santana não intervinha nos dependentes e nem no traficante que ficava por ali. Não quando aquelas pecinhas a levariam ao traficante maior: este sim valeria a pena surrar antes de entregá-lo a polícia.

Num movimento rápido, impediu que um cara que havia bebido demais fosse atropelado. Saiu de cena tão depressa que não deu tempo de alguém gritar porque o vigilante assassino apareceu. Percorreu a avenida Brown. Havia patrulhas por ali e Santana não tinha negócios com os policiais. Precisava evitá-los a todo custo. Subiu num prédio e decidiu se deslocar por cima. Ela era uma estudante de arquitetura e urbanismo. Estudou toda aquela região com afinco. Conhecia as características dos edifícios da região, as distâncias padronizadas, os recursos, os caminhos.

Era uma boa sensação correr, saltar e aterrissar. Correr, saltar e aterrissar. Por ser mais forte e mais rápida que o comum, saltava distâncias maiores em que pessoas prudentes se arriscariam naquelas condições. Dois quarteirões além das patrulhas, ainda do alto do edifício, num beco, observou um homem ser arrastado por outros dois enquanto um terceiro observava. Aquela seria uma execução se não fosse pela ação do vigilante mascarado. Santana não sabia das razões que levaram o homem ser arrastado para morrer. Pouco se importava com elas naquele instante. Desceu o prédio usando as escadas de emergência num movimento impressionante e aterrissou em cima de um dos atiradores. Foi rápida o suficiente para atacar o segundo. Agarrou o pulso do homem, quebrou algum osso e a arma caiu no chão. O terceiro tentou correr, mas ela o alcançou e o nocauteou antes que ele chamasse pela polícia ou chamasse a atenção de mais alguém. A vítima observou tudo com olhos arregalados.

"Mu...mu...muito obri.. brigado" – o homem literalmente se mijou e Santana sem a máscara teria feito uma observação ácida. Mas a entidade mascarada não falava a não ser se fosse absolutamente necessário. Santana o empurrou e pegou a carteira no bolso. Olhou a identidade. Edward Hemon. Devolveu a carteira e fez sinal para que o sujeito se mandasse.

Amarrou o pulso dos três agressores e os prendeu num poste quando a vítima já estava longe. As armas foram deixadas com eles e agora cabia a polícia investigar. Subiu novamente no edifício e observou a movimentação de um ponto seguro. Pessoas notaram os homens e chamaram as viaturas. Apesar das armas de fogo estarem bem ali ao lado, a polícia não pareceu se importar. Estranhou ainda mais quando os homens de terno mencionaram o prefeito e foram soltos. Ficou intrigada e irritada. O que homens do prefeito estariam fazendo num beco para assassinar um homem? Era algo que merecia investigação.

Julgou que aquela noite foi o suficiente e, pelas sombras, voltou para o lugar que costumava esconder a mochila com as roupas "civis" nos limites do campus. Assim que apanhou a mochila levou um susto ao ser surpreendida por alguém. Entrou em posição de combate e em seguida relaxou.

"Artie!" – gritou sussurrando para o amigo voador e retirou a máscara – "Não tem medo de levar um soco por essas?"

"Tenho sim!" – disse com o humor habitual – "Se eu não me engano, o chefe foi muito claro em proibir as patrulhas" – encarou a amiga ainda com o uniforme.

"Eu ouvi" – Artie flutuou ao lado da amiga com os pés a poucos centímetros do chão. Daquela maneira daria a impressão de caminhar ao lado. Santana tirou a jaqueta e enfiou as roupas na mochila. – "Hoje eu impedi uma execução de um tal de Edward Hemon. Precisamos pesquisar."

"Edward Hemon, como o professor Ed. Hemon?"

"Professor?"

"Ele é um pesquisador muito conhecido na minha área. Trabalha na prefeitura."

"Mesmo? Por alguma razão, ele deve ter aborrecido alguém lá dentro para ser empurrado para um beco para ser morto com um tiro na cabeça."

"Queima de arquivo?"

"Como eu vou saber? Esse sujeito é familiar a você, não a mim. Vai que ele comeu a mulher de alguém? Talvez tenha se recusado a fazer algo sujo ou roubou informações. Quem sabe? Você é o cara da equipe de investigação" – Santana disse em tom amargo.

"Vamos dar uma olhada" – encarou a amiga – "Mas me diz aqui: o que deu para você descumprir ordens diretas?"

"Talvez pelo mesmo motivo que levou você a voar por aí."

Artie acenou e aceitou a resposta. A questão não era simplesmente ter poderes. Havia a necessidade física de todos em usá-los de alguma forma. Santana ficava inquieta se passasse muitos dias sem fazer uma atividade física mais exigente, assim como Artie ficava ansioso quando passava muito tempo sem voar ou flutuar. Matt morava sozinho num apartamento e para ele era simples usar a telecinésia.

"Posso te fazer uma pergunta mais pessoal?" – Santana acenou para o amigo – "Você não parece feliz."

"Deveria após tudo que aconteceu?" – Santana respondeu ríspida.

"Não. Não mesmo. Mas algo me diz que isso vai além do nosso grupo. Por um acaso tem a ver com o fato de você ter se aproximado de Rachel Berry nessas últimas semanas?"

"Rachel Berry?"

"Eu não sou burro, San. Aqueles almoços grátis que você recebeu na semana que levou o tiro vieram do restaurante que ela trabalha e todos nós sabemos que você a salvou de um estupro, não de um assalto."

Santana sentou-se num banco público assim que Artie alcançou a cadeira de rodas. Artie e Mercedes eram as pessoas que ela mais confiava naquele mundo e era hora de eles souberem a verdade.

"Não comente com mais ninguém do grupo, promete? Nem mesmo com Mercedes. Se ela for saber, que seja por mim."

"Você sabe que pode confiar."

"Rachel não perdeu a memória no dia em que ela me ajudou com o tiro."

"O quê?" – Artie levantou-se da cadeira, para sentar-se imediatamente antes que alguém o visse – "Ela tem algum tipo de resistência a poderes mentais ou algo assim?"

"Por que você não faz uma pergunta que eu possa responder? Eu não sei, ok? Mas eis o fato: Rachel Berry sabe que eu sou uma vigilante, que eu a salvei do estupro, que há outros, e que temos poderes. Ela não desconfia de vocês, pelo menos eu acho que não. Também me prometeu não revelar a minha segunda identidade e ela tem cumprido esse compromisso."

"Isso é grande, San. Rachel Berry? Puxa! Não é o mesmo de Mercedes descobrir."

"Não, não é."

"Então ela é a razão do seu péssimo humor hoje."

"Em parte. Ontem eu saí para acompanhá-la e a gente discutiu" – decidiu ocultar a parte do beijo. A informação anterior já era suficientemente grande para Artie – "Rachel consegue me tirar do sério e sequer pede desculpas. O pior é que ela faz centenas de perguntas, quer saber de coisas que ela sabe que não posso revelar. É frustrante ter de mantê-la próxima."

"Por que não disse ao chefe que ela resistiu ao poder dele? Talvez ela tenha um poder também e não saiba."

"Rachel Berry ser treinada e potencialmente integrada? Por deus, não! Já basta o fato de que Quinn Fabray pode se tornar uma de nós. E se Rachel realmente resistir ao poder dele? Por mais que o nosso chefe seja um cara decente, tenho medo de ele interpretar isso como uma ameaça."

"Você não confia no nosso chefe?"

"Há uma razão de eu evitar ficar ao alcance da telepatia dele. Não gosto de ter pessoas revirando minha cabeça."

"Ele não faria isso."

"Tenho direito a ter reservas."

"O chefe tem reservas quanto a você também."

"Ótimo. Mas o fato é que é melhor deixar Rachel longe disso."

Artie acenou. Chegaram até ao dormitório e Santana lamentou mais uma vez ao ver o sinal na porta de "não entre". Suspirou. Era tarde demais para bater a porta de Jenny e encarar o dormitório que cheirava a chulé de Artie parecia ser a única opção.

No dia seguinte, Quinn acordou ansiosa. Levantou-se e fez toda a rotina pela manhã. Foi ao banheiro, vestiu-se, preparou a refeição para a filha e esse era o momento em que a pequena Beth costumava acordar, mesmo sendo um sábado. Ela abraçava a mãe e ganhava beijinhos. Não muito depois, Matt tocava à campainha. Antes, ele dava um beijo no rosto de Quinn, mas agora lhe era permitido os lábios. O carpinteiro verificou no que poderia ajudar, mas em geral as tarefas dele eram para o pós-café. Em outras palavras: ajudar a lavar os pratos.

"Hoje nós vamos passear aonde?" – Beth perguntou animada.

"Vamos à casa de um amigo do tio Matt" – Quinn explicou.

"Lá tem piscina?" – perguntou cheia de expectativa.

"Lá tem um quintal bem bonito, uma televisão enorme e, o mais importante, vídeo-game!" – Matt respondeu e fez cosquinha na garotinha.

Em pouco tempo, os três estavam prontos a caminho da residência de Martinez. Não era o local de treinamento dos vigilantes. Em geral, o grupo usava a academia após o término das atividades. Era o local onde Artie podia voar e flutuar à vontade, que Brittany passava de lá para cá fazendo estrelinhas e saltos morais: era uma ginasta nata. Era onde Santana tentava acertar Grant, que conseguia desviar de todos os golpes. Em que Matt levantava pesos com o poder da mente e com os braços.

Quinn não era uma vigilante. Não ainda. Era só alguém que começaria a descobrir como controlar os poderes e isso seria feito ali, na casa de Martinez. Os três foram recebidos por Holly. Ela, sempre animada e despojada, tratou de distrair Beth enquanto os dois jovens adultos subiram as escadas para encontrar com Martinez no mezanino. Holly era defensora pública da cidade e sabia que o marido treinava pessoas com dons especiais, mas não que ele organizou uma rede de vigilantes.

"Quinn!" – ganhou um abraço do, por hora, instrutor – "Fico feliz por ter realmente aceitado treinar."

"Eu quero ver até onde isso leva."

"Claro. Sente-se" – puxou um banco e Quinn se posicionou em frente a uma mesinha com uma vasilha de água e termômetros – "Vamos começar com o básico. Primeiro gostaria de medir a sua temperatura."

Ela acenou. Colocou o termômetro debaixo do braço e quando este apitou, marcava 36°C.

"Ótimo. Você tem uma temperatura um pouco abaixo da média, mas ainda normal" – Martinez observou – "Agora vamos fazer o seguinte: quero que você encoste os dedos na água e tente esfriar."

Quinn acenou. Esperou que Martinez anotasse a temperatura da água antes de mergulhar os dedos. Martinez colocou novamente o termômetro debaixo do braço dela e pediu concentração.

"Procure relaxar primeiro e então concentre-se em esfriar a água" – ouviu a voz do instrutor dentro da cabeça – "Respire fundo e tome o seu tempo."

Quinn respirou fundo e visualizou congelando a água que envolvia a ponta dos dedos. Sentiu as ondas de energia percorrer pelo corpo até sair pela ponta dos dedos e procurou manter o processo. Quando abriu os olhos após ouvir um estalo alto viu Matt boquiaberto à frente. A água que ela tocava estava em processo de congelamento.

"Interessante" – Martinez disse ao conferir os termômetros – "Seu corpo agora está com 34°C e a água de 19°C agora está com 1°C. Como está se sentindo?"

"Bem!" – Quinn estava impressionada com ela mesma.

"Importa-se se eu medir a sua pressão?"

Não havia o menor problema e quando Martinez fez o procedimento sorriu.

"Pressão sanguínea perfeitamente normal. Como se sente?"

"Bem" – Quinn ergueu uma sobrancelha – "Sinto realmente bem, na verdade."

Recebeu um beijo no rosto do namorado antes de ser convidada a repetir o processo. Quinn tinha muitas dúvidas quando a si mesma e a própria capacidade. Antes tinha tanta vergonha de si, fazia tanto para se reprimir e não deixar transparecer a anomalia. Naquele momento, fazendo testes e vendo Martinez anotar tudo num caderno, apesar do caráter de experimento, ela se sentia realmente bem. Era maravilhoso não precisar se esconder.

Ao final da manhã, depois de também assistir impressionada Matt fazer malabarismos com objetos usando só o poder da mente, Quinn reuniu-se novamente com a filha, que estava feliz por brincar com o cachorro e jogar vídeo-game. Aquela parte do dia foi tão boa que nem se importou quando Martinez sorriu acanhado e desculpou-se por ter sair para resolver uma pequena urgência.

"Como foi que descobriu Martinez mesmo?" – Quinn perguntou no carro já à caminho de casa.

"Eu vim parar nessa cidade por causa dele. Para treinar com ele."

"Treinar o quê, tio Matt?" – Beth perguntou curiosa.

"Boxe" – respondeu.

"Mamãe vai começar a treinar boxe também?"

"Oh não, sua mãe é muito mais ágil. Ela vai treinar caratê."

"Eu posso treinar caratê também?"

"Daqui a alguns anos, quem sabe? Será bom para você chutar o traseiro dos garotos que te incomodar."

"Matt!" – Quinn deu um tapinha no ombro do namorado.

Martinez anotou todos os resultados dos testes que fez com Quinn Fabray. Ele estava positivamente impressionado com o potencial. Ainda não tinha visto ninguém com tal poder nos anos de experiência em que se aproximou de pessoas dotadas com ele, não apenas os vigilantes. Definitivamente ele iria integrá-la, mas com cautela. Arrumou-se depois do almoço e passou na academia. Era sábado e dia que muitos dos vigilantes gostavam de passar por lá para conversar e treinar um pouco. Ele fazia questão de comparecer, em especial quando sentia que os comandados poderiam fugir ao comando. Encontrou Artie, Mercedes, Brittany e Grant por lá. Matt iria passar o resto do dia co a namorada e era compreensível a ausência dela. Mas e Santana?

"Quem é Ed Hemon?" – perguntou já capturando o pensamento dos comandados.

"Ele era chefe do departamento de informática da prefeitura" – respondeu Artie – "Santana o salvou ontem de ser assassinado e hoje de manhã passamos na casa que ele morava, mas ele já não estava lá."

"Ele saiu da cidade" – Grant completou – "E parecia estar com muita pressa."

"Além disso" – continuou Mercedes – "Hemon era um amigo pessoal de Angelina. Assim como o garoto que morreu foi um colaborador dentro dos projetos de inclusão que ela toca."

"Então eu vou ter uma boa conversa com minha velha amiga Angelina" – pensou para si.