A vigilante se viu cercada. A única alternativa de escapar era para cima e ela não pensou duas vezes. Subiu uma escada de emergência e foi em direção ao telhado. Tentava se movimentar o mais rápido possível, pois quatro perseguidores estavam próximos. Houve um disparo de alguém do solo. Mais outro e mais outros. Os tiras não estavam de brincadeira. A ordem era capturar vivo ou morto. Preferencialmente morto para evitar despesas com julgamento. Tudo que a vigilante poderia fazer era continuar a correr em ziguezague, saltar, aterrissar e voltar a correr em direção ao próximo edifício até chegar o momento de descer. Os policiais não desistiam e a vigilante rezava para que a mira continuasse ruim. O ziguezaguear a atrapalhava, mas como facilitar o trabalho deles? Não tinha tal luxo.
Boa coisa que a polícia não tinha helicópteros disponíveis para uma chamada daquela. Sem perder tempo, pulou mais um edifício. Não era um salto complicado até para uma pessoa comum. Por isso mesmo, se arrependeu por não ter ido ao outro lado e saltado os cerca de três metros do beco que distanciava um edifício do outro. Ali sim teria levado vantagem.
Olhou para trás e viu que um policial estava mais próximo. Dois seguiam mais atrás. Ele atirou, e a vigilante foi obrigada a se proteger atrás da porta de acesso interno. Ouviu palavras de ordem e mais disparos. Ficar ali atrás da barreira não era opção, entrar significaria arriscar a vida de outras pessoas e acumular processos caso saísse viva. O agente mais próximo se preparou para saltar e os outros logo acompanhariam. Correu em linha reta. Pulou mais um prédio. O próximo era mais desafiador. Correu em linha reta, ganhou velocidade e saltou. Os agentes ficaram atordoados. Era humanamente impossível. Na confusão dos tiras, ganhou distância.
No fim do quarteirão, não houve remédio a não ser descer. Havia duas patrulhas acompanhando e a vigilante precisava desesperadamente de uma solução. Analisou a geografia do lugar. Calculou que se pulasse em direção aos fundos do prédio, poderia tentar alcançar uma escada de incêndio e ganhar tempo em relação às patrulhas. Saltou. Como desejava ser o Homem-Aranha naquele instante. Conseguiu alcançar as ferragens. O impacto foi grande, fez barulho. Mas conseguiu se segurar e depois deixou-se cair três andares. Por sorte o poder também envolvia resistência.
O tornozelo sofreu com o impacto. Não sabia o que aconteceu, mas era certo de que não dava mais para manter o ritmo. A dor era forte, aguda. Mancava. Mas a vigilante não podia parar. Atravessou a rua na frente da patrulha, entrou no beco à frente. Pulou a cerca, entrou noutro beco. Atravessou novamente a rua e sumiu em outro beco. Conseguiu desviar as patrulhas, por hora. Era uma situação provisória. Subiu novamente uma escada de emergência e ganhou o telhado. De cima observou com cuidado a movimentação da polícia. Eles não desistiram. Pulou para o prédio dos fundos. Outro salto de metros, mas sem perseguidores desta vez. Caiu rolando no telhado. Bateu as costelas. O tornozelo latejava. Precisava parar para respirar ou não agüentaria.
A boa notícia é que ela conhecia aquele prédio e a rua. A vigilante não teria como chegar em casa ilesa naquelas condições. Estava mais lenta e poderia ser presa. Precisava de um porto provisório de emergência. Pulou dois prédios à esquerda e deu um salto grande para alcançar o próximo. Mais dores. Desceu as escadas de emergência até ao terceiro andar. Forçou a janela do apartamento e entrou. Encontrou um jovem conhecido lá dentro, que iria reagir e gritar. Precisou resistir à dor para alcançá-lo dominá-lo e impedir que ele gritasse. Usou força bruta, mas foi bem sucedida.
No segundo seguinte, a outra moradora do apartamento arregalou os olhos e levou as mãos à boca. Não gritou.
"Solta ele!" – ordenou alto.
A vigilante soltou, levantou uma das mãos e com a outra praticamente implorou por silêncio.
"Rachel!" – Kurt disse em pânico depois de ser atacado – "Chama a polícia agora!"
"Não... não!" – Rachel disse enfática, apesar do nervosismo – "Espere."
"Esperar?" – Kurt gritou quase histórico – "Tem um bandido na nossa sala..."
Kurt foi silenciado num golpe de esquerda. O soco atingiu-lhe o queixo e o desmaio veio de imediato. Rachel deu um pulo para trás, horrorizada com a súbita violência. A vigilante olhou pela janela. A polícia estava na área. Ela fechou as cortinas diante de uma colega paralisada. Foi diante do jovem desacordado, amarrou-lhe os pulsos com o lacre e procurou algo para tampar a boca. Encontrou o pano de prato na cozinha. Servia.
"Não pode fazer isso com ele!" – Rachel protestou – "Desamarre-o."
"Ele vai me entregar" – ouviu a voz abafada de Santana por causa da máscara.
Rachel considerou por um minuto e sim, Kurt seria capaz. Pegou uma fita adesiva que estava no quarto dela e tapou a boca do amigo. Era melhor do que o pano de prato. Enquanto isso, as sirenes estavam altas e a polícia rondava aquele quarteirão em busca do vigilante.
"No que você se meteu?" – Rachel olhou pela janela da sala. Estava furiosa.
"Eu parei um assalto e acabei sendo perseguida" – sentou no chão, encostando-se à parede. Mas não retirou a máscara. A dor no tornozelo estava forte e não se surpreenderia se tivesse fraturado ou mesmo quebrado uma costela.
"Está ferida?"
"Não" – a voz dela não disfarçava a dor. Rachel levou as mãos à cintura sem acreditar – "Acho que só torci o tornozelo. Nada grave."
"Como?" – como não recebeu resposta, achou melhor nem saber – "Você tem de tomar mais cuidado."
"Eu só preciso retomar o fôlego e esperar a polícia ir embora."
"Vou pegar gelo."
Kurt despertou da pancada. Ficou um pouco confuso. Estava deitado no chão da sala e quem o nocauteou foi o tal vigilante assassino. Percebeu que estava com as mãos amarradas e a boca atada. Gemeu e chamou a atenção do vigilante. Ali próximo. Mas este também não se mexeu. Estava apenas ali, sentado ao chão encostado à parede. Gemeu mais alto ao ver Rachel adentrando a sala com um saco de gelo. Sentou-se e a amiga parou diante dele.
"Kurt, se você é meu amigo, de verdade, você não vai fazer nada, não vai gritar, esbravejar ou fazer escândalo. Será que eu posso confiar em você?" – o jovem acenou. Rachel então removeu a fita.
"O que você pensa que está fazendo?" – ele bronqueou – "Esse cara é perigoso. É um assassino!"
"Está enganado!" – Rachel disse dura antes de voltar a atenção a vigilante.
Kurt observou fascinado Rachel encostar a mão em uma das pernas. O vigilante acenou. Ela desamarrou o cadarço e retirou o pesado tênis com cuidado. Sem retirar a meia, aplicou o saco de gelo. A vigilante acenou mais uma vez, como se agradecesse. Rachel, alheia a observação do melhor amigo, enfiou a mão debaixo da jaqueta e apalpou as costelas. Provocou reação quando pressionou no lado direito, logo ao final da caixa torácica.
"Eu não estou acreditando nisso" – esbravejou e ganhou a atenção da melhor amiga – "Como você pode cuidar de um sujeito perigoso?"
"Esse sujeito perigoso me salvou uma vez, lembra?" – Rachel respondeu seca.
"Não quer dizer que você tenha alguma dívida."
A vigilante rolou os olhos por trás da máscara. Suspirou e tentou se levantar, mas resmungou alto. O sangue estava frio e o incômodo aumentou.
"O que está fazendo?" – Rachel voltou a atenção para a outra. A vigilante apontou para a janela – "Vai sair agora?" – cruzou os braços.
A vigilante ficou em pé e pegou a bota. Calçou e fechou os olhos por causa do latejar.
"Não!" – Rachel a impediu antes que tivesse a chance de amarrar o cadarço – "Não está em condições de ir embora com tantas patrulhas pelas ruas."
"Se ele quer ir, você deveria permitir, Rachel."
A vigilante terminou de se recompor, calçou novamente o tênis com dificuldade e foi em direção à janela. Procurou ignorar a dor, mas não conseguia disfarçar o mancar.
"Não ouse sair desta sala" – Rachel meteu-se no caminho e a vigilante a empurrou para o lado – "Não!" – ela tentou insistir e segurar a vigilante pelo braço, mas foi novamente empurrada. Desta vez com mais força.
Saltou a janela que arrombou minutos antes e desceu as escadas procurando aliviar o peso sobre o tornozelo. Ainda às sombras, viu a movimentação policial pelas ruas. Mas as patrulhas se dirigiam para a rua seguinte e essa seria a oportunidade de ir embora. Uma nova patrulha entrou na rua e os agentes estavam com janelas abertas segurando lanternas. A vigilante esperou atrás de um tonel de lixo e calculou uma distância segura para atravessar a rua. Ela tinha de chegar ao parque. Tirou a máscara e a jaqueta. Sentiu a brisa fria da noite pousar à pele agora protegida apenas por uma camisa preta sem manga. Levantou a tampa do lixo com cuidado e jogou a roupa lá dentro. Puxou o elástico que prendia o cabelo e o colocou em um dos bolsos. Esperou a polícia sair da rua antes de deixar as sombras e voltar a caminhar nas ruas como Santana Lopez.
Mancando, tentou apressar o passo até o parque. Só conseguia andar por causa da força e resistência sobre-humana. Pensou seriamente em acionar Brittany. Bastava um toque no celular para a cavalaria se arrumar. Mas lembrou-se do que o chefe dizia em só pedir ajuda a curandeira em caso de real necessidade, como no dia em que foi baleada. O poder de Brittany requeria muita energia e não era legal esgotar a colega por nada. Apesar de a torção no tornozelo e a dor na caixa torácica não ser exatamente um arranhão.
"Entra nesse carro!" – ouviu uma voz de comando. Era Rachel, que tomou o carro do amigo e a alcançou na entrada do parque.
Santana não pensou duas vezes e sentou-se no banco de passageiros.
"Por que você saiu daquele jeito?" – Rachel bronqueou.
"Kurt me entregaria num segundo. E ele não estaria errado" – Santana soava cansada.
"Pode ser..." – suspirou e depois respirou fundo – "Para onde quer que te leve?"
"Mercedes está no dormitório com o namorado dela. Talvez Artie possa me dar o chão."
"Artie?"
"Ele mora no mesmo prédio que eu, e nunca faz perguntas."
"Mas dessa vez ele vai perguntar, Santana. De jeito nenhum que alguém não vá ser minimamente curioso ao ver um amigo entrar mancando e com expressão de dor. E você deveria ir ao hospital agora. Ou procurar aquele seu amigo que faz as curas."
"Posso ir ao hospital. Mas não hoje. A polícia não sabe que eu torci o tornozelo ou machuquei as costelas, mas não quero arriscar. Não agora. Seria coincidência demais."
"Não faz sentido você passar a noite em dor."
"Não tenho escolha. Amanhã eu vou ao hospital. Garanto. Hoje preciso de um lugar para passar a noite."
"Eu conheço um lugar em que você pode passar a noite de forma confortável e não vai ter de responder perguntas. Quer dizer, eu terei, mas isso será problema meu."
"Ainda prefiro Artie. Para quê complicar? Você me deixa lá e cai fora. Volte para Kurt antes que ele faça alguma besteira."
"Meu pai é médico. Homeopata, mas um médico que pode dar uma olhada em você e te passar algum medicamento."
"Seu pai? Como nunca ouvi falar dele? Aliás, eu nunca ouvi você falar uma vírgula da sua família, o que leva a entender que vocês não são muito próximos. Então como posso confiar?"
"Você confia em mim?"
"Sim" – Santana disse sem pensar direito e fechou os olhos lamentando em seguida.
"Então deixa o meu pai dar uma olhada."
"Rachel..."
"Viu, você até já se acostumou a me chamar de Rachel em vez de Berry!"
Santana começou a acreditar que talvez Rachel tivesse mesmo um poder: o de conseguir tudo que queria. Resignou-se e aceitou a proposta da colega.
"Já que você vai me levar a casa dos seus pais, acho que isso me dá o direito de perguntar: por que você nunca fala deles? Pelo menos até agora?"
"Eu rompi com eles anos atrás por causa de Finn."
"Eram contra o seu namoro?"
"Sim e não. Quer dizer, eles não gostam de Finn, mas o tolerava. Até o dia em que soube que não tinha sido aceita para a Escola de Artes da metrópole. Finn propôs casamento e os meus pais o acusaram de ter torcido contra mim. Disseram que ele era medíocre e queria arruinar o meu futuro, etc, etc, etc. Foi uma briga feia. Saí de casa depois da discussão e fui morar com Kurt. Obviamente recusei o pedido de casamento de Finn. Não era o momento. Não seria legal casar com duas pessoas que amo tão magoadas por isso, e eu com eles. Não fazia sentido."
"Oh!" – Santana franziu a testa – "E você está todo esse tempo sem falar com os seus pais?"
"Falo por telefone algumas vezes. Mas desde o dia em que saí de casa que não os vejo."
"E você está me arrastando diretamente para esse drama familiar? Que maravilha!"
"Você precisa de um médico, certo? Meu pai é o único médico que conheço com disponibilidade. Além disso, na casa deles você poderá ter uma propriamente uma cama para descansar."
Rachel parou o carro em frente a uma casa branca de dois pavimentos. Era um lugar bonito, bem cuidado e definitivamente cheirava a dinheiro. A vigilante entendeu que a colega deve ter sido muito corajosa para abrir mão de tal conforto para ter uma vida de luta e privações financeiras.
"Você poderia me esperar um pouco aqui?"
Santana acenou e observou a colega sair do carro com receio. Definitivamente aquela não era uma boa idéia. Fazer o quê? O tornozelo e as costelas latejavam e ela precisava de algum atendimento. Olhou o relógio do carro. Dez minutos de conversa lá dentro. Pensou em ouvir um pouco de música. Apenas canções românticas àquele horário.
"Pra você guardei o amor que nunca soube dar/ o amor que tive e vi sem me deixar sentir sem conseguir provar/ sem entregar e repartir/ Pra você guardei o amor que sempre quis mostrar/ o amor que vive em mim vem visitar sorrir, vem colorir solar/ vem esquentar e permitir..."
Fechou os olhos. Gostava daquela. Do contraste das vozes. Era estranhamente como era agradável a segurança dos vocais de Nando Reis e da estranheza que Ana Cañas provocava ao acompanhá-lo. Foi uma canção que o ex-Titãs fez para uma ex-namorada. A idéia era gravar um disco com uma temática única. Terminou por virar outra coisa, mas Pra Você Guardei o Amor permaneceu. É a única canção do disco que não tem a participação da banda e foi feita num dueto.
A porta da casa abriu-se novamente ao final da música. Não sabia dizer se a coincidência era boa ou ruim. Rachel estava acompanhada de um homem alto que usava óculos. Ele sorriu incerto ao abrir a porta do passageiro.
"Olá Santana. Meu nome é Hiram, sou pai de Rachel."
"Boa noite senhor Berry" – disse sem jeito.
O homem a ajudou a sair do carro e a levar para dentro da casa. Santana não se surpreendeu ao entrar na casa e se deparar com um lugar de decoração elegante. Estava numa sala de três ambientes, sendo que em uma delas se destacava o piano preto de calda. Um tão lustroso que parecia um espelho. Havia outro homem, mais baixo, que se identificou como Leroy.
"Deixe-me ver isso" – Hiram desatou o laço do tênis e tirou o calçado com o máximo de cuidado. Franziu a testa ao retirar a meia. O lugar estava bem inchado – "Consegue movimentar o pé?"
"Mal, mas consigo" – Santana fez um esforço acompanhado de uma careta. Conseguiu mover para cima e para baixo algumas vezes.
Hiram continuou a examinar o local.
"Não creio que tenha alguma coisa quebrada aqui. Talvez tenha trincado algum ossinho ou machucado bastante os ligamentos no esforço que você fez. Só dá para confirmar com exames. O que podemos fazer é o tratamento com gelo e te dar alguns analgésicos e um antiinflamatório. Seria irresponsabilidade dar algumas agulhadas sem um diagnóstico preciso. Sinto muito não poder fazer mais que isso, Santana. Sou homeopata, mas há situações emergenciais que a minha especialidade não atende. Essa é uma delas. Não neste estágio."
"Está tudo bem. Agradeço pela atenção."
O homem acenou.
"Rachel, querida. Talvez você possa me ajudar a preparar um balde de gelo e água fria para a sua amiga enquanto seu pai arruma o quarto de hóspedes."
Santana agradeceu mais uma vez. Em alguns minutos lhe foi oferecido um chá junto com os medicamentos e alguns bolinhos de chocolate. Estômago quente para um tornozelo imerso em água com gelo. Ótimo contraste.
"Então, Santana, o que você faz?" – Leroy perguntou.
"Estudo Arquitetura e Urbanismo na Universidade, senhor."
"Por favor, corte o senhor."
"Ok, senhor Berry."
O homem sorriu e balançou a cabeça. Talvez não houvesse um bom remédio para tais formalidades.
"Rachel disse que você faz parte do teatro" – Leroy continuou a tentar socializar, mesmo que ainda estivesse pouco à vontade com a estranha. Ao menos aquela estranha causou a volta, mesmo que breve, da filha que só tinha oportunidade de ver de longe ou quando ia ao teatro amador em dias de temporada. Ele se lembrava de Santana de lá, da última peça que foi apresentada, mas não faria tal observação para não se entregar.
"Sim. Eu conheci a filha de vocês lá."
"Então quem te levou a fazer teatro?"
"Uma colega nossa, Tina Chang. Certo dia ela fez o convite para integrar o elenco do teatro amador. Minha melhor amiga, Mercedes Jones, tem essa coisa por cantar e brilhar e nesse sentido ela se parece com Rachel. Bom... Mercedes quis entrar no teatro e arrastou Artie e eu."
"Artie?"
"Meu outro melhor amigo. Ele é o ator cadeirante, caso tenha visto a última peça."
"E qual a peça que estão ensaiando atualmente?"
"Tropicália, papai" – Rachel disse apressadamente. Viu que Santana havia terminado o lanche (ela dificilmente recusaria comida) e decidiu que era hora de se recolher – "Santana teve um dia cansativo. Talvez seja hora de nos recolhermos."
Santana estranhou o comportamento de Rachel. Ela parecia estar tensa o tempo inteiro, mas não tinha o direito de questionar. Retirou o pé do balde e o enxugou com a toalha fornecida. Rachel e Leroy a ajudou a caminhar até ao quarto de hóspedes no primeiro andar da casa. Era um cômodo simples, com uma cama de casal, um criado mudo e um pequeno armário. A vigilante agradeceu a ajuda e deitou-se na confortável cama. Sentiu-se estranha, pouco à vontade. Mas que inferno, a cama era realmente confortável.
"Deixa eu te ajudar a tirar essa calça."
"Não se empolgue muito" – Santana provocou.
"Até parece!" – Rachel desdenhou – "Você não é tão sexy quanto pensa."
"Não sou eu quem está dizendo que sou sexy."
Rachel puxou a calça de Santana com uma carranca no rosto. A vigilante reclamou do atrito com o tornozelo lesionado e o sorriso desapareceu. Ficou surpresa quando Rachel apagou a luz, deu a volta na cama e deitou-se ao lado.
"Vai dormir aqui comigo?" – Santana ficou nervosa de repente – "Você não tem o próprio quarto ou algo assim?"
"Onde mais eu dormiria? No sofá? E o meu velho quarto não é mais meu. Me sinto uma hóspede aqui tanto quanto você."
"Mas..."
"Está com medo de quê. A corajosa vigilante não pode dividir uma cama comigo?"
"Não seja cruel" – Santana ponderou – "Eu só... é esquisito..."
"Por que a gente se beijou uma vez?" – Rachel arrumou a coberta e jogou por cima da cama, cobrindo as pernas da vigilante no processo – "Aquilo foi nada."
"Desculpe" – Santana acenou e escorregou para debaixo das cobertas, finalmente deitando.
Silenciou-se. Rachel virou as costas e cortou qualquer chance de a conversa continuar. Havia perguntas, mas elas teriam de esperar. De qualquer forma, Santana estava exausta e precisava dormir. O remédio começou a fazer efeito e o sono veio depressa.
Despertou com o barulho do celular que tocava no bolso da calça mal dobrada no chão do quarto. Teve a incômoda sensação de que só dormira por um minuto. Mas a luz que invadia o quarto de Rachel dizia o contrário. Percebeu que havia um corpo encostado ao dela e um braço atravessado na cintura. Virou-se com cuidado para ver a colega e levou um susto quando percebeu que ela estava acordada.
"Você gemeu de dor uma boa parte da noite" – Rachel apoiou a cabeça, mas não moveu-se ou tirou o braço de cima de Santana. Apesar de tudo, estava ridiculamente confortável junto ao corpo da vigilante.
"Desculpe" – Santana disse ainda ignorando o celular.
"Não vai atender?"
"Deve ser Mercedes preocupada, ou Artie. Posso atendê-los depois."
"Está melhor?"
"Eu saro rápido" – tentou se levantar, mas as dores na costela a fizeram reconsiderar. Talvez tivesse mesmo com uma fratura.
"Parece que não tão rápido assim. Você não sarou tão rápido daquela vez..." – finalmente retirou o braço em volta da vigilante e deitou-se de costas
"Claro, eu perdi litros de sangue. O que queria?"
"Deveria ir ao hospital. Eu posso te levar."
"Acho que já fez o bastante. Já se envolveu demais. Eu não queria..."
"Corta o papo" – Santana admirou-se com a súbita sequidão de Rachel – "Eu estou envolvida desde o dia em que você me salvou e sabe disso."
"Lamento por isso, Rachel. Não de ter salvo você, claro. Mas ontem... eu estava ficando sem opções e a sua casa foi a minha única boa alternativa."
"Você fez o certo, San" – Santana levantou a sobrancelha. Era a primeira vez que Rachel a chamava pelo apelido – "Eu vou te ajudar sempre que puder. Gostaria que soubesse disso, de que pode confiar em mim."
"Eu confio, Rachel. De verdade. Mas ainda lamento por te envolver assim. Se o fiz, é porque não tive alternativas no momento. O que eu faço é perigoso e não quero que você passe a viver como eu: sempre com receio de que alguém errado descubra."
"Alguém errado?"
"Alguém que me entregaria e aos meus amigos num piscar de olhos, como Kurt ou Finn."
Rachel acenou. O receio de Santana era justificável. A pequena diva ficou em silêncio. Observou as feições da vigilante, o perfil perfeito, os lábios carnudos, os cabelos lisos e sedosos de uma cor preta natural que era incrível. Sentiu entre os dedos os músculos abdominais que não tinham sinal em relevo o tiro. Definitivamente estava atraída pela vigilante. Puxou o rosto de Santana e inclinou-se para beijá-la. A vigilante aceitou a carícia, que lhe parecia natural. Fechou os olhos e apreciou a maciez dos lábios da cantora. Sentiu a ponta da língua de Rachel pedido para entrar e ela lhe deu passagem. Rachel adorava o fato de dominar o beijo ao mesmo tempo em que estava admirada do quanto Santana se deixou levar.
"O que você está fazendo comigo?" – Rachel mais perguntou a si mesma do que questionou a vigilante.
"Faço a mesma pergunta" – disse ainda sentindo a paz proporcionada pela carícia.
O celular de Santana vibrou mais uma vez.
"Eu vou pegar o telefone para você" – Rachel deu um selinho nos lábios da vigilante antes de se afastar e levantar-se. Apanhou o aparelho dentro do bolso da calça e entregou o aparelho. Santana viu que tinha perdido três chamadas de Artie e uma de Mercedes. Decidiu retornar ao amigo.
"O que foi?"
"Santana, onde você está?" – a voz dele parecia urgente e isso a fez instintivamente sentar-se apesar da dor nas costelas.
"Estou..." – olhou para Rachel, que parecia preocupada – "Estou bem e segura. Por quê?"
"Você está com Rachel?"
"Sim... por quê?"
"San, seja lá onde esteja, sai de perto dela. Há um registro de ocorrência de que o vigilante invadiu o apartamento de Rachel Berry e Kurt Hummel. A polícia está a procura de Rachel."
"O quê?" – Santana levantou-se e a adrenalina a fez ignorar também a dor no tornozelo.
"Se você estiver perto dela... cai fora!"
Ela desligou o telefone e olhou pela janela do quarto. Ainda não havia sinais de polícia.
"O que foi?" – Rachel estava a beira de um pânico.
"Kurt registrou queixa e a polícia está a sua procura. Preciso sair daqui."
"Não! Você fica!" – Rachel pulou da cama e procurou se vestir de forma apressada – "Eu vou me apresentar à polícia e desmentir."
"Desmentir?" – Santana tentou analisar o problema rapidamente – "Como?"
"Digo a verdade, que saí por aí para esfriar a cabeça, que dormi na casa dos meus pais. Tenho dois álibis, correto?"
"Tudo bem... mas não desminta a história da invasão."
"Como não?"
"É melhor eu levar essa culpa do que você ser investigada por ser cúmplice de um procurado da justiça. Eu vou embora, você... sei lá... agradeça seus pais por mim" – pegou o tênis e os calçou mesmo sem meia e com a dor.
"Tem que haver outro jeito."
"Eu vou ficar bem, Rachel."
"Mas e as suas lesões? Você mal pode andar."
"Eu curo rápido!"
Abriu a janela e correu pelo gramado até a rua. Procurou ignorar a dor e evitou mancar a todo custo. Kurt deve ter reportado a polícia que o vigilante estava machucado. Santana andou e suou frio por cinco quarteirões até chegar a uma casa branca térrea com um bonito jardim em frente. A casa chamava atenção por ter um salgueiro em frente. Não tocou a campainha. Em vez disso pegou o celular e ligou.
"Santana?" – era a voz de Brittany – "O que houve?"
"Britt, estou em frente da sua casa e preciso de ajuda."
"Dê a volta e entre na janela do meu quarto."
Santana obedeceu. A janela de Brittany dava para o quintal da casa. Circulou e encontrou a janela aberta. Não hesitou em pular. Brittany não estava no quarto. Santana, que já não disfarçava o mancar, sentou-se na cadeira que ficava na mesa do computador. Procurou relaxar. Poucos minutos depois, a colega entra no próprio quarto e encontra a companheira mascarada quieta.
"Você está horrível!"
"Acho que eu torci o pé. Feio. E Machuquei minhas costelas. A polícia está a minha procura... ou melhor, do vigilante, e suponho que eles sabem das condições físicas dele."
"Você conversou com o chefe?" – Brittany ajoelhou-se diante de Santana e a ajudou a tirar as botas.
"Não. Foi Artie quem me avisou que o cerco fechou."
"Ok. Respire fundo."
Brittany encostou a mão no tornozelo de Santana e fechou os olhos. Uma luz azulada surgiu na palma da mão da dançarina e em pouco tempo o tornozelo injuriado estava curado (embora ainda dolorido). Santana suspendeu a blusa e apontou para o lugar que doía nas costelas. Brittany repetiu o procedimento. Encostou a mão e a luz apareceu novamente. Seja lá o que fosse, estava curado. Santana não tinha palavras para agradecer a colega de vigília. Um pouco ofegante, Brittany levantou-se chão e foi até ao guarda-roupa.
"Não pode sair com essa calça e tênis. Vou arrumar uma roupa. Talvez fique um pouco grande, mas vai servir."
Trocou de roupa e também tomou um banho. Ainda da casa da amiga, fez alguns telefonemas. Mercedes tentou mantê-la atualizada e Artie mantinha o controle interno. Brittany a convenceu a ficar até mais tarde enquanto as coisas aconteciam. Apesar do corpo resistente, Santana a precisava descansar um pouco mais. Dormiu na cama da amiga.
O que aconteceu ainda naquela noite foi que Rachel deixou Kurt com as mãos atadas no apartamento. Finn ouviu falar do cerco policial nas proximidades de onde o irmão e a namorada viviam. Ficou preocupado e foi até lá. Quando entrou no apartamento, descobriu Kurt fazendo pequenos malabarismos para se libertar do lacre. Finn cortou o plástico reforçado e os dois decidiram chamar a polícia. Kurt foi brevemente interrogado. Os agentes analisaram a janela arrombada. Tentou colher evidências e registrou o depoimento do jovem.
A idéia de dizer que Rachel foi coagida a ajudar o vigilante veio de Finn, irritado com as constantes defesas da namorada. A polícia não fez esforço para procurar Rachel, embora tivesse patrulhado aqui e acolá. Não faziam idéia da ligação que ela tinha contra o dito criminoso que procuravam, mas sabiam que ele estava ferido. Procuraram pelos hospitais para conferir a entrada de pessoas na emergência da ortopedia e registraram cinco nomes. Todos de pessoas comuns.
Rachel não foi à polícia. Chegou em casa e deu um tapa no rosto do amigo. Quando Finn se acusou, a cantora também não o poupou do peso da mão.
"Você está se deixando envolver com gente perigosa, Rach" – Finn apelou. Tentava colocar um pouco de senso na mente dela.
"Perigoso é o que vocês estão fazendo com ele."
"O que sei é que esse tal mascarado está entrando num buraco cada vez mais fundo. Você não pode querer se envolver. É perigoso demais. Será que não percebe?" – Finn gritou em frustração.
"Você tem razão, Finn. Pode ser mesmo perigoso. Mas se esqueceu de um detalhe: o vigilante é inocente e mesmo com a polícia atrás dele, continua a fazer rondas pelas ruas para salvar pessoas. Daí vem você me dizer que a gente tem que ajudar a empurrar essa pessoa no fogo do inferno."
"Ele me agrediu, Rachel" – Kurt argumentou – "Ele invadiu a nossa casa, me amordaçou, me amarrou, me agrediu."
"Na verdade fui eu quem te amordaçou" – disse cheia de si – "E ele só te deu um soco porque você estava histérico e ia chamar a atenção dos vizinhos" – Rachel pegou a chave do carro e a jogou contra o peito de Kurt – "Quer saber? Não quero ver a cara de nenhum dos dois. Agora se me dão licença, já perdi a escola hoje mesmo, então vou descansar para trabalhar mais tarde."
Bateu a porta do quarto.
Mas Rachel não foi trabalhar. A polícia soube do reaparecimento de Rachel Berry e pediu para que ela desse alguns esclarecimentos na delegacia. Pensou em Santana e no que ela disse sobre confirmar a história do arrombamento. Disse que o vigilante agrediu Kurt, mas não a ela. Alguns detalhes ficaram desencontrados, mas o contexto geral casou com o depoimento do amigo. Depois esclareceu à polícia que pegou o carro de Kurt e foi dormir na casa dos pais para se sentir segura. Não era totalmente uma mentira.
Mercedes passou o dia acompanhando o movimento da polícia sobre as investigações enquanto o restante do grupo tentava fazer o controle do estrago.
O chefe não gostou da desobediência de Santana. Apesar dos apelos de Grant e Artie, ele parecia disposto a expulsá-la do grupo no primeiro deslize. Mesmo quando o salvamento que ela fizera noutro dia tenha levado a uma pista importantíssima: de que pessoas ligadas a prefeitura estariam pressionando Angelina. A razão ainda era um mistério.
"Não tenho vontade de ir ao ensaio" – Santana disse ainda no quarto de Brittany após passar o dia inteiro na casa da colega e antiga paquera.
"Precisa ir. Já não perdeu todas as classes de hoje? As pessoas podem falar se perder o ensaio também. Além disso, hoje é o nosso primeiro ensaio geral."
Mike passou para pegar Brittany e ficou surpreso ao ver que Santana os acompanharia também. Apesar do dia corrido e atípico, ninguém faltou. Santana andou para lá e para cá sem mancar, fez insultos extras a Kurt e Finn, além de evitar Rachel. Mas não foi possível. O celular tocou e apareceu o nome da jovem na tela.
"Ei!" – Santana disse em reservado quando foi até o estacionamento tomar um pouco de ar fresco. Rachel estava no camarim do teatro.
"Você está bem?"
"Estou. Recebi a ajuda dos meus outros amigos."
"Entendi" – houve um breve silêncio – "Você pode me encontrar na casa dos meus pais depois do teatro?"
"Melhor não" – Santana suspirou e desligou o celular.
Rachel já estava envolvida demais e insistir seria uma estupidez. Em especial com o clima de romance. Uma relação com a cantora era insanidade. Havia perigo, o cerco se fechava e a última coisa que Santana desejava era ver Rachel ferida.
