Brittany Pierce sabe que não é o biscoito mais brilhante do pote. Os pais delas também. A irmã caçula também. Após se formar na Junio High próxima de completar 16 anos, após todos os esforços, inclusive de professores particulares, ela não queria passar pela humilhação de se formar na high school depois dos 20 anos. Estudar em casa também deixou de ser uma opção. Ainda lembrava com carinho no dia em que sentou com a família junto com a professora particular que a acompanhou por quatro anos e tiveram uma conversa séria. Sabia que jamais iria para uma universidade ou que conseguiria um emprego destinado a pessoas espertas, como ela própria definia. Não seria uma advogada, ou uma médica, ou uma arquiteta. Por outro lado, Brittany poderia fazer algo melhor do que qualquer outra pessoa: dançar.
Tinha inclinação rara para as artes e por isso decidiu que em vez dos esforços tradicionais acadêmicos, que ela iria investir naquilo para que ela acreditava ter nascido. Conversou com a diretora da melhor academia da cidade e propôs dar aulas à turma de iniciantes de garotas e alguns meninos pré-adolescentes. Conseguiu o emprego de assistente com um salário de estagiária e uma bolsa para continuar a se desenvolver nas classes mais avançadas. Foi na academia em que ela chamou a atenção de Martinez pela primeira vez. Ela girou errado e torceu o tornozelo. Mas como se habituara a fazer, esfregava a mão no local injuriado e mentalizava a própria cura. A cena foi acompanhada por um atento Martinez, que saía de uma sala de musculação. Sabia que aquilo era um poder, que Brittany era ainda mais especial e decidiu conversar com a adolescente.
Foi assim que ela se tornou a segunda aluna do limitado telepata, mas que ainda assim a ajudou a desenvolver um dom incrível. Curar pessoas era um poder divino, milagroso, que poderia fazê-la ser reverenciada. Mas Brittany nunca foi uma exibicionista e a personalidade dela caiu como uma luva para o também discreto chefe. O objetivo dela era ajudar efetivamente outras pessoas naquilo que era essencial: a saúde. Depois de algum treino, Martinez colocou uma máscara na aluna e os dois, com a ajuda de Grant, o primeiro aluno, entraram no local despercebidos para realizar algumas experimentações. A idéia da máscara foi pontual para aquele instante porque ele não queria que os pacientes que por ventura acordassem identificassem Brittany e passasse a tratá-la como uma messias e começasse a ser adorada por um bando de malucos religiosos.
Foi uma emoção quando Brittany passou as mãos sobre uma criança recém-operada internada na UTI em estado grave, e ter procedido um pequeno milagre. Nas noites em que ela e Martinez passaram no hospital, eles aprenderam os limites daquele precioso poder. Brittany não era capaz de curar câncer, de ressuscitar alguém ou tratar de infecções. Mas ela reparava tecidos rompidos. Foi a partir das visitas aos hospitais que Martinez anunciou que eles deveriam formar uma equipe de benfeitores mascarados, como anjos que agem na escuridão. Àquela altura, ele tinha Grant um amadurecido, Brittany e começava a treinar Matt. Sim, era um grupo interessante. Perfis interessantes: um garoto inteligente, uma menina obediente e um garoto prestativo.
Certo dia, aos 19 anos e já usando a máscara como parte de um grupo organizado, ela viu um adolescente ser baleado. Colocou as mãos sobre ele e se concentrou. Surpreendeu-se quando viu ser capaz de expulsar a bala realizar a cura de fato numa segunda etapa. O que não imaginava é que ela começaria a fazer tal procedimento com certa regularidade e muitas vezes nos próprios amigos.
Aos 20 anos, conheceu Santana Lopez e Artie Abrams, ambos mais jovens, apresentados por Martinez. A garota universitária, caloura, tão cheia de si, tentou paquerá-la, mas Brittany a rejeitou não porque se tratasse de um relacionamento homossexual, ou porque a garota fosse dois anos mais jovem. Ela sabia que Santana era uma boa pessoa, mas jamais embarcaria num relacionamento com alguém tão prepotente e cheio de si. Além disso, Brittany tinha outros problemas planos em mente. Outros interesses.
Teve alguns relacionamentos. A maioria sexual. Perdeu a virgindade aos 15 anos numa festa para um vizinho seis anos mais velho. Os dois se encontraram com certa regularidade ao longo daquele ano. Quando Brittany finalmente teve coragem de parar de bancar a ninfeta dentro de um relacionamento ilegal, encorajada por Martinez, passou alguns meses sozinha até começar a namorar uma colega que ensinava dança contemporânea a crianças na mesma academia. O relacionamento durou três meses, tempo em que a amiga foi aceita na Escola de Artes da metrópole. Brittany não pôde sequer tentar a seleção, pois havia escolaridade mínima para tal, uma vez que o curso também envolvia matérias teóricas.
Mike Chang tentou entrar na mesma escola na mesma época da ex-namorada de Brittany, mas não foi aceito. Os dois se conheciam de congressos de dança e se correspondiam por e-mail. Quando a vaga foi aberta na academia, Mike foi indicado a ocupá-la. Ele aceitou porque era um lugar melhor, com melhor salário, do que o antigo emprego. Foi assim que ele foi parar na cidade e conheceu Brittany em pessoa. Chegaram a namoraram alguns meses até que perceberam que eles funcionavam melhor como amigos. Se o relacionamento a dois não deu certo, ao menos eles ficaram próximos a ponto de tecer um plano em comum: juntariam dinheiro suficiente para cair fora daquela cidade e tentar a sorte da matrópole. Achavam que os dois mereciam mais. Nesse meio tempo, Brittany teve alguns pequenos casos tantos com homens quanto com mulheres. Mike e ela entraram para a companhia de teatro amador, e foi uma surpresa para Brittany encontrar Santana e Artie, os mais novos alunos de Martinez, por lá. Foi nesta mesma época em que começou um relacionamento secreto com outra pessoa que, de certa forma, a deixava presa à cidade. A responsabilidade com os vigilantes também pesava.
Ainda que curar pessoas a desgastasse, era um prazer. Uma pena que as ações do grupo estavam suspensas, especialmente após as duas desobediências de Santana. O comissário de polícia mandou reforçar o patrulhamento e seria perigoso demais sair às ruas a noite com a usual máscara. O amante secreto não estava com tempo e Brittany se viu frustrada. No fim de uma semana monótona, foi até à academia dar a aula do dia (aos 22 anos, já não era uma estagiária).
"Britt Britt!" – Mike a abraçou quando viu a colega – "Novidades."
"Novidades?" – ela bateu palmas. Precisava de notícias alegres – "Adoro. O que é?"
"Lembra daquela fita que fizemos e que eu enviei para Rick Gordon?" – esperou a amiga se manifestar. Ela apenas acenou – "Recebi a resposta dele hoje. Disse que vai mandar um representante para essa área em breve e disse que ele está habilitado a fazer audições. Quando esse cara der o telefonema, nossa audição será agendada."
Brittany arregalou os olhos. A chance de sair bem da cidade havia chegado. Ela queria se permitir ficar alegre e saltitante, mas os sentimentos estavam divididos. Sair naquele momento? Teria de pensar muito bem a respeito.
"Achei que ficaria mais entusiasmada" – Mike franziu a testa.
"Eu estou... chocada... mas feliz!"
"Não parece."
"Você me pegou de surpresa, Mike. Faz tanto tempo que mandamos esse vídeo que imaginei que não daria em nada."
"Já imaginou nós dois na metrópole? Imagine o que poderíamos fazer na maior cidade do país?"
"Seria demais" – Brittany forçou um sorriso e abraçou Mike.
"Temos exatas três semanas para dar o nosso melhor na estreia e nos preparar para a audição. Treino extra após a aula? Um pouco de musculação, alongamento e alguma dança?"
"Claro!"
Brittany preparou-se para a aula. Deu uma última checada no plano de aula e no cronograma, na música, no que precisaria utilizar. Como sempre, foi uma classe animada. Ela tinha seis alunos, sendo um menino. Todos na faixa de 14 anos que suavam um bocado para acompanhar os movimentos complexos da habilidosa professora. Ao final da uma hora de atividade intensa, ela se encontrou com Mike e os dois fizeram como o combinado. Enquanto usava os aparelhos da academia, Brittany sentia um gelo no estômago. Sabia que era medo, mas não tinha certeza do quê: se era para dizer sim ou não a nova possibilidade de mudança. Mike não. Ele estava obstinado. Para ele era mais fácil uma vez que não havia amarras na cidade: nem o grupo de teatro, nem o fato de ele estar paquerando Tina. Mike já era um forasteiro que morava num quarto de aluguel. O que ele tinha a perder? Brittany saiu da academia precisando conversar com alguém que confiasse, além do melhor amigo. Alguém que soubesse sobre o seu lado secreto e, ainda assim, fosse neutro suficiente. Sorriu para si mesma quando procurou o nome no celular.
"Brittany?" – Santana estava legitimamente surpresa com o telefonema.
"Oi Santana. Está ocupada?"
"Não exatamente. Quer dizer... estou estudando, mas não é algo que não possa parar caso seja preciso."
"Será que a gente poderia conversar antes de ir ao ensaio?"
"Claro! Você quer que eu passe na sua casa ou a gente se encontra num lugar neutro?"
"Sabe aquela Lanchonete perto do teatro? A gente poderia se encontrar ali."
A lanchonete era um lugarejo razoável que vendia bons sanduíches naturais e tortas de maçã. Havia mesinhas na calçada e as pessoas não perturbavam. Pegou a velha lambreta e foi até ao encontro com a colega vigilante. Parecia loucura escolher desabafar justo com ela em vez de outra pessoa mais próxima, como Grant, mais séria como Matt e Artie. Até mesmo Mercedes parecia uma opção mais sensata. Santana era a pessoa mais descompromissada dos vigilantes, pelos menos era o que Martinez reclamava. Britanny não entendia direito o que o chefe queria dizer, mas o que sabia era que a colega também não tinha amarras naquela cidade, apesar de ser tão envolvida com o trabalho de patrulha.
Foi a primeira a chegar ao local. Pegou uma mesa da calçada e pediu um suco de laranja e pediu um sanduíche. O suco veio primeiro e nesse meio tempo também Santana com o habitual sorriso cretino no rosto.
"Eu sabia que um dia você iria querer conversar às sós comigo" – disse num sorriso confiante, sentando-se à frente da colega.
"Já era tempo, considerando que eu já toquei em várias partes do seu corpo."
"Wanky!" – Brittany sorriu e pediu um suco de laranjas.
Santana a encarou na expectativa uma vez que as pequenas provocações com Brittany costumavam ser breves. Assim como as conversas particulares. Apesar de as duas não serem tão íntimas, sabiam que podiam confiar uma na outra, não por serem parte integrante de um grupo de vigilantes, mas pela empatia natural.
"Então?" – Santana a encarou – "Sobre o quê quer conversar?"
"Mike arrumou para eu e ele uma audição que pode nos levar a metrópole" – decidiu dizer em só fôlego.
"Isso é fantástico Britt!" – Santana animou-se – "Quando será?"
"Ainda não sei ao certo. Acho que depois da nossa estreia."
"Isso extraordinário. Você e Mike são excelentes e colocam qualquer um no chinelo."
"Talvez..." – brincou com o canudinho
"Qual é o porém, Britt Britt?"
"Tem a minha família. Sei que é patético ainda morar com os meus pais aos 22 anos, mas é o meu conforto. Também tem vocês, sabe? Nosso... grupo. Eu realmente gosto de fazer parte, de ser útil e você já estaria morta se não fosse por mim... aliás, precisa tomar mais cuidado, San."
"Eu vou tomar mais cuidado. Prometo."
"É o que você diz toda vez."
"Eu luto limpo, mas os outros não. Não é uma balança muito justa. Mas, enfim, você gosta de morar com os seus pais e de nós. Mais alguma coisa?"
"Também tem o grupo do teatro que eu adoro. Sei que ele é bem disfuncional, que você odeia a maior parte das pessoas..."
"Oh, eu não os odeio" – Santana interrompeu – "Tudo bem que Finn é um aborto da natureza, Puck precisa seriamente fazer o teste de HIV, Kurt é a reencarnação do Totó, o cachorro gay da Dorothy, e Rachel é uma matraca intolerável. Eu aceito isso sobre eles."
Brittany sorriu e balançou a cabeça. Desejava passar mais tempo com Santana e outros colegas vigilantes que apreciava. Sempre admirou Artie e Grant pela inteligência, Matt pela amabilidade e achava que Mercedes era puro talento. Santana era pura diversão. Eles se reuniam aos sábados, passavam algumas poucas horas juntos e era isso. Às vezes, Brittany pensava que o tempo de descontração que passava com eles não era suficiente.
"Enfim" – ficou acanhada – "Tem isso, mas eu não sei..."
"Faça a audição" – Santana disse simplesmente e Brittany arregalou os olhos surpresa com a simplicidade – "Eu sei que isso é uma decisão difícil. Não entendo exatamente quais são as suas prioridades, mas posso te dizer das minhas. Eu amo essa cidade, amo o que a gente faz apesar do momento forçado de hiato, amo o teatro, só não diga isso a mais ninguém, ok?" – Brittany acenou e sorriu – "A questão, Britt, é que eu não sei o que será da minha vida no futuro quanto a minha permanência. Mas entenda o seguinte: em dois anos eu me formarei e o que vai acontecer após isso é uma incógnita. É provável que eu vá embora, vá trabalhar em outro lugar, afinal, preciso ganhar o meu dinheiro. Sei que vou de coração partido, mas a gente não deve deixar passar as oportunidades que a vida nos dá. O que sei é que as amarras que tenho nessa cidade não são fortes o suficiente e, sinceramente, posso continuar a fazer..." – olhou para os lados – "aquele lance em qualquer outro lugar, sozinha ou não."
"Sua auto-confiança beira a arrogância."
"É a verdade, Britt. Diga uma coisa: quais são as suas amarras mais fortes aqui além da sua família? O grupo? Somos ótimos, mas será o suficiente? Isso vale deixar de arriscar ter uma carreira fora daqui e sair dessa mediocridade e se realizar apenas quando se veste uma máscara?"
"O que te faria ficar?"
Santana encarou a colega e pensou por um momento.
"Pode parecer ridículo" – sorriu sem jeito – "Mas o único motivo para me fazer ficar e dispensar uma oportunidade seria se eu tivesse alguém importante ao meu lado. Digo, alguém realmente importante."
"Um amor?"
"É" – baixou a cabeça e brincou com o suco – "Claro que primeiro eu iria tentar convencer esse alguém a ir comigo. Mas se nada adiantasse, eu cogitaria seriamente em ficar" – então encarou a colega – "Esse seu namorado secreto que você nunca fala a respeito, mas todo mundo sabe que existe... ele vale à pena?"
"Eu... eu não sei. Quer dizer, eu o amo, mas as coisas são muito complicadas. Ele jamais sairia desta cidade."
"Vocês já discutiram a respeito?"
"É uma certeza. Não há o que discutir."
Santana acenou e terminou o suco.
"Você acha que Rachel te acompanharia?" – Brittany disse timidamente.
"Rachel?" – Santana quase engasgou – "Britt, caso não tenha reparado, eu tenho relacionamento algum com Rachel."
"É o que você continua a falar para si mesma" – abriu um discreto sorriso – "Desde que nos conhecemos que você tenta me paquerar e até penso que seria tratada de modo bem diferente do que dessas meninas que ficam contigo."
"É claro que eu te trataria bem. Você não é uma qualquer, Britt. Você é especial."
"Mesmo assim, você nunca me olhou da mesma forma que vem olhando para ela nessas últimas semanas."
"O quê?" – Santana franziu a testa e cruzou os braços na defensiva – "Eu não tenho sentimentos por aquela anã amante das baleias."
"Negue o quanto quiser, Santana. Como eu gosto de você, aqui vai uma dica: ela também te olha diferente. Rachel é confusa, sabe? Que nem você. Mas eu acho que vocês duas combinam" – consultou o relógio – "Está quase na hora do ensaio" – tirou algumas notas da carteira e pagou o lanche das duas.
Santana ficou com a dúvida. Brittany costumava ler bem as pessoas, como no dia em que estavam num evento na cidade com feira livre e apresentações culturais pelo início da primavera. Artie, Mike, Tina e Mercedes também estavam presentes, e sentaram para comer. A dançarina apontou para uma mulher na mesa ao lado e disse que não gostava dela, que parecia ser uma pessoa amarga. Os amigos não deram bola, afinal, aquela parecia ser uma mulher comum: meia idade, provavelmente casada com filho, nem magra, nem gorda, cabelos amarrados para trás. Quinze minutos depois, a moça protagoniza uma bronca descomunal no pobre do garçom que ali trabalhava aparentemente por causa de uma confusão de pedidos. O local estava cheio e movimentado, além do certo improviso nas instalações. O "setor de refeições" era temporário, afinal, que desapareceria no fim das festividades. Tudo era mesmo confuso e caótico, por isso as pessoas relevavam. Mas não tal mulher, que ofendeu o pobre do garoto que trabalhava. O grupo deu razão a Brittany: devia ser mesmo uma mulher amarga.
Noutra ocasião, após pequenas coincidências semelhantes, Santana perguntou a Brittany se ela também lia pensamentos como o chefe. Brittany sorriu e disse que não. Explicou que havia pessoas que ela gostava logo à primeira vista e outras não. E dessas pessoas que ela não gostava tendiam a deixá-la com os pelos dos braços arrepiados. Então ela se afastava. Santana nunca mais tocou no assunto e pensou que talvez fosse bom apenas acreditar nas intuições da colega.
As duas foram as primeiras a aparecerem no teatro, além do vigia. Entraram e esperaram sentadas pelos demais no hall por onde todo mundo passaria. O primeiro a aparecer foi Puck, que também estava ali por perto, seguido de Blaine, Schuester e Emma. Num espaço de quinze minutos, todo o elenco se apresentou. Seria a primeira vez que eles ensaiariam com os cenários montados e adereços. Os atores estavam animados com os resultados. Quinn acertou o tom numa das cenas mais dramáticas quando o personagem de Puck morre nos braços dela. Ele também conseguiu ser menos canastrão. Finn, depois de muito custo, conseguiu acertar no único solo que havia lhe restado após a introdução de Blaine, mas a atuação dele ainda deixava a desejar. Ao menos, ele já não atrapalhava o andamento da peça. Kurt ainda tinha algumas dificuldades com as cenas de dança e Santana vacilou em algumas linhas de solo que normalmente matava de primeira. A peça começou a travar em "Baby", cantado por Brittany, Artie e Mike. Mas quando Rachel se enrolou com as falas e errou o solo de "Vou Recomeçar", Schuester decidiu dar um intervalo.
A pequena diva saiu do palco sem querer falar com ninguém. A atitude pode ser interpretado como arrogante e intempestiva. O fato era que Rachel se cobrava muito em vários sentidos, principalmente nas artes. Para ela, era vergonhoso não estar devidamente concentrada.
"Ei" – Finn se aproximou da namorada nos camarins e a abraçou – "Você só está cansada."
"Estou mesmo?" – ela tentou se aninhar no corpo que conhecia tão bem.
"Rach, eu sei que está chateada por causa daquele negócio com o vigilante. Peço desculpas mais uma vez por ter me precipitado as coisas, apesar de que ainda acho que aquele cara não precisa de proteção e nem de defesa. Também não gosto dessa aproximação. Agora o que me preocupa é que isso te afete ao ponto de atrapalhar numa das coisas que mais gosta de fazer. Não está na hora de superar?"
"Acho que sim" – respirou fundo – "Será que posso ter um momento?"
Finn acenou e deu um beijo na testa da namorada antes de sair do camarim. Cruzou o caminho para o palco com alguns colegas de elenco que iam e vinham. Sequer reparou que Santana andava na direção contrária, assim como alguns outros. Não deu importância. Mas se soubesse da identidade do mascarado que especificamente acompanha Rachel, teria tomado providências. No entanto, lá estava Santana entrando sorrateira no camarim de Rachel. Encontrou a colega sentada numa cadeira. Aproximou-se sem dizer uma palavra e encostou-se na penteadeira.
"Está tudo bem?" – Santana estava genuinamente preocupada. Rachel não errava nos ensaios.
"A polícia chamou meus pais para prestar um depoimento, para confirmar a minha história de que eu tinha passado a noite lá."
"Então?"
"Não se preocupe, Santana, eles confirmaram a minha história. Eles não querem me espantar de novo da vida deles e estão fazendo o meu jogo."
"Rachel, eu realmente sinto muito..."
"A consideração que você parece ter por mim é estonteante" – ironizou e virou o rosto.
"Desculpe" – Santana deu dois passos para trás e abaixou a cabeça – "Talvez seja melhor a gente restringir nosso contato ao teatro e nada mais..."
"Você sequer me telefonou" – disse baixinho e Santana suspirou – "Parece até que está me evitando depois de tudo. Isso dói, Santana."
"É que eu sou meio desligada... e tinha a faculdade..." – suspirou mais uma vez – "Desculpe, isso não é justificativa. Você salva a minha pele e é assim que eu te retribuo... Sem falar que eu meio que estava te evitando. Sinto muito mesmo."
Rachel acenou. Não estava feliz com as desculpas, mas apreciava um pouco de honestidade.
"Artie sabe, não é? Sobre você?"
"O quê?" – Santana franziu a testa.
"Foi por isso que você insistiu ir ao dormitório dele naquela noite. E foi por isso que ele te ligou alertando para sair de perto de mim. Se ele não soubesse, não teria se preocupado com essas coisas."
"Será que a gente poderia discutir isso em outra hora e lugar?" – Santana ficou ansiosa.
"Ele sabe?" – Rachel insistiu intransigente.
"Sim... ele sabe sobre mim. E sabe que você sabe sobre mim. Satisfeita?"
"Quem mais?"
"Rachel..."
"Você acha que é fácil manter esse segredo? Além disso, eu estou envolvida contigo até o pescoço e seria bom ter pessoas a quem poderia recorrer sobre seu respeito."
"Ok" – Santana continuava desconfortável, mas a pequena diva tinha um ponto – "Artie e Mercedes são pessoas que sabem sobre mim. Se tiver encrencada, inclusive, e eu não puder ajudar por alguma razão, pode entrar em contato com Mercedes."
"Faz sentido" – Rachel disse quieta – "Eles são os seus melhores amigos..."
Alguém bateu à porta e Santana prendeu a respiração. Ser flagrada conversando com Rachel no camarim seria estranho.
"Rachel" – era a voz de Kurt – "Docinho, vamos recomeçar."
"Um minuto" – respondeu e tomou um pouco de água. Saiu do camarim sem olhar para Santana.
A vigilante suspirou derrotada. Lamentou o drama e a complicação a respeito do novo relacionamento com Rachel. Era tão mais fácil quando as duas simplesmente se ignoravam quando não trocavam pequenas ofensas. Esperou um minuto ou dois para deixar o camarim e retomar os ensaios, que continuou entre tropeços. Schuester e Emma dispensaram todos ao final e convocou ensaios extras. Havia uma corrida contra o tempo.
Rachel segurou a mão de Finn e decidiu que naquela noite deveria fazer as pazes com o namorado. Ignorou Santana na saída, despediu-se de Kurt, Puck, Tina e Quinn antes de entrar na caminhonete. Ligou o rádio. Passava um funk. Odiava. Trocou de estação, para aquela que mais gostava. Não teve sorte. Passava Arnaldo Antunes. Embora apreciasse uma coisa ou outra do artista, não estava com espírito para tal. O celular tocou. Mensagem de texto.
"Como posso me retratar?" – S
"Quem era?" – Finn estava curioso.
"Uma colega da community college. É sobre um trabalho em equipe."
"Ok" – sorriu e continuou de olho nas ruas – "Podemos pedir uma pizza quando chegarmos lá em casa. O que acha?"
"Fazer amor e depois pizza?" – Rachel disse sugestiva – "Parece uma boa idéia."
Brittany dispensou a carona de Mike. Assim como dispensou as ofertas de Schuester e Emma. Sorriu e esperou próximo ao prédio do teatro junto com o vigia, que falava de casualidades da cidade, como o debate que acontecia sobre a mudança do nome do estádio de futebol. Um carro se aproximou lentamente da rua. Brittany levantou-se e despediu-se do vigia. Entrou no veículo e logo beijou os lábios do motorista.
"Fiquei feliz quando disse que queria me ver. Faz mais de uma semana."
"Não foi uma semana fácil" – Martinez respondeu e seguiu a dirigir – "Minha mulher pensa que vou viajar, por isso vamos para aquele hotel. Tudo bem?"
"Está ótimo" – voltou a beijar o rosto do homem e sorriu.
Brittany sabia que era errado se envolver com um homem casado e 20 anos mais velho. Mas não podia evitar em sentir-se tão atraída. Repousou a mão nas pernas do amante e sorriu. Era o inferno, mas deus sabia o quanto ela gostava de se queimar.
