"Por que você vai chamar a babá?" – Quinn questionou o namorado enquanto retirava os brinquedos de Beth espalhados pela sala – "Martinez e Holly não se importam que a gente leve Beth."

"Eu sei, mas é que depois do treino eu queria te levar para almoçar com alguns amigos que gostaria que conhecesse" – Matt insistiu.

"Colegas do seu trabalho?"

"Não!"

"Não?" – ergueu uma sobrancelha.

"Você verá" – beijou a namorada e sorriu.

Esperaram a babá chegar e Quinn precisou resistir ao charminho da filha que insistiu em ir junto. Ela gostava de ir à casa de Martinez pelas opções de entretenimento que encontrava. Teria de ficar para outro momento. Na segunda aula que fez, Quinn continuou o processo para ganhar controle do poder de resfriamento. Mas naquela manhã, Martinez parecia querer experimentar um pouco mais. Colocou vários objetos de diferentes naturezas e pediu para que ela os tocasse e tentasse resfriá-los o máximo que podia. Não passou de uma experiência física. Materiais como madeira, metal e vidro se comportaram como o previsto quando submetidos a baixas temperaturas.

Noutra experiência, Martinez pediu para que Quinn se concentrasse no ambiente, na atmosfera ao redor e tentasse esfriar. Com muito esforço da parte dela, ela conseguiu fazer com que a temperatura ambiente caísse dois graus. O que foi um feito impressionante. Antes de Matt e Quinn saírem para o almoço, Martinez recomendou alguns exercícios. Tarefas de casa simples para que ela tivesse controle cada vez maior de suas capacidades. O limite que ela poderia atingir ainda estava longe. O chefe não disse, mas Quinn era um campo aberto a ser explorado, diferente dos demais vigilantes que, basicamente, estavam próximos ao limite, embora ainda tivessem muito a aprender a se controlar. Em especial Matt e Santana. O carpinteiro dependia do estado emocional para controlar o poder. Santana, por vezes, tinha dificuldade em ponderar a força quando estava em ação. Um simples soco dela podia matar.

Matt sorriu para a namorada, que estava exausta. Quinn acreditava que a prática tornaria o manejo do poder mais fácil. Passou anos se reprimindo e não podia mesmo querer estalar os dedos e fazer tudo ficar bem. Aprender exigia muito esforço mental e físico.

"Eu não sei que amigos são esses, mas boa coisa que estamos indo a um almoço. Estou morrendo de fone."

"Agora você entende porque meus pratos são sempre grandes. A gente gasta muita energia para colocar nossos dons para funcionar" – ligou o carro e começou a dirigir.

"Você já os usou fora de casa?"

"Algumas vezes nas construções. Às vezes uso meu poder para poder pegar uma madeira mais pesada. Às vezes o uso discretamente para livrar colegas de acidentes de trabalho. Eles sempre agradecem à sorte ou a deus por terem escapado."

"Isso não te deixa frustrado? Não ser reconhecido?"

"Não é questão de reconhecimento, Quinn. O exibicionismo pode custar caro e atrapalhar a vida de todos nós."

"Todos nós? Eu e você e Martinez?"

"Também."

"Também?"

"Você verá" – silenciou—se e deixou a namorada ainda mais curiosa com a quantidade de camadas de mistérios. De mensagens nas entrelinhas. Quinn era esperta. Sempre foi inteligente. Sentia que havia muito mais pessoas como ela e Matt.

Estava certa. Matt a levou a um restaurante pequeno, reservado, embora não fosse um lugar elegante, que exigisse etiquetas. Quinn morava na cidade há alguns anos e nunca tinha entrado ali. Nem sabia da existência daquele restaurante. Mas o namorado era um freqüentador, aparentemente. A recepcionista sorriu para o carpinteiro e disse que as pessoas já estavam à espera na mesa de sempre.

"Mesa de sempre?" – Quinn estava intrigada.

Foi quando ela reparou em rostos familiares numa mesa grande que ficava no quintal do restaurante. Era o lugar mais isolado. Quinn estranhou ao ver ali Artie, Brittany, Santana, Mercedes e Grant. Quatro eram colegas do teatro e a firma do pai de Grant, que era amigo de Matt, a aceitou representá-la no caso da custódia de Beth. Matt havia dito que gostaria que ela conhecesse alguns amigos. Então que brincadeira era aquela.

"É um prazer revê-la, Quinn" – Grant levantou-se. Era sempre cortês.

"Não é que não esteja feliz em vê-los, mas... Matt?"

O namorado sorriu e puxou uma cadeira para ela se sentar.

"Bom..." – começou sem-jeito – "Eu queria que você conhecesse alguns amigos meus de um outro jeito" – sentou-se ao lado da namorada – "Esse é o nosso clube secreto de pessoas que tem dons especiais."

Quinn olhou mais uma vez para os amigos. Nunca em mil anos ela imaginaria que aquelas pessoas tão normais pudessem ter dons como os dela e de Matt. Por outro lado, ela também nunca desconfiou do namorado, que conhece desde o dia três da mudança para a cidade.

"Quer dizer que... mas..." – faltou-lhe palavras. Ela balançou a cabeça em descrença – "Depois de todo esse tempo achando que eu era uma aberração..."

"Agora sabe que existe um monte de outras aberrações" – Santana completou com o toque característico de mau-humor – "pior que isso: convivia com todas elas sem saber."

"Eu prefiro a palavra 'especiais'" – Artie sorriu – "É um prazer saber que você se uniu à turma, Quinn. Eu jamais adivinharia, mas estou feliz."

"Obrigada" – sorriu encabulada para os amigos e depois ergueu uma das sobrancelhas – "O que vocês podem fazer, se é que posso perguntar?"

"Santana tem força, resistência e velocidade bem sobre-humanos. Britt consegue curar e cicatrizar ferimentos, e eu posso voar. Infelizmente não como o super-homem, com o corpo na horizontal, mas sim, esse é o meu dom" – Quinn olhou para Artie com certo ceticismo e buscou em Matt confirmação, que acenou.

"E vocês dois?"

"Grant é um cara matemático. Um poder muito sem-graça. E eu ó estou aqui pela boa comida" – Mercedes sorriu.

"Você não tem... dons?"

"Não desse tipo, minha querida, mas posso te garantir que tenho muitos dons."

"Ainda assim."

"Ela conhece nossos segredos" – Grant sintetizou – "Basicamente é isso."

"Oh, vamos fazer a nossa apresentação?" – Brittany sugeriu – "É uma pequena tradição cada um mostrar o que sabe fazer ao novato."

"Isso é idiota" – Santana resmungou.

"É a tradição, Santana" – Brittany insistiu.

Artie foi o primeiro. Ele "levantou-se" da cadeira e flutuou discretamente em frente ao objeto. Tudo com muito cuidado. Podia aparecer alguém, por mais que aquele espaço fosse isolado. Quinn sorriu. Achou incrível que alguém supostamente confinado podia ser a pessoa mais livre. Brittany pegou uma gilete e segurou a mão da colega, que a encarou apreensiva. O corte foi pequeno, porém dolorido. Quinn tentou puxar de volta a mão, mas Brittany a segurou firme e pousou a palma da mão sobre a dela. Uma pequena luz azulada surgiu, assim como um discreto calor que irradiava sob a pele, e, no momento seguinte, o corte havia desaparecido, mas não a sensação dele. Um copo começou a flutuar sobre a mesa. Quinn já sabia que era Matt. Santana simplesmente ignorou as demonstrações.

"Qual é, San" – Matt reclamou – "Uma pequena demonstração não vai te matar."

"Isso é idiota" – suspirou e revirou os olhos. Levantou-se, foi para trás de Artie e o ergueu junto com a cadeira por alguns segundos sem demonstrar que fazia força.

"Quer dizer que naquele dia em que uma mesa de madeira maciça rachou ao meio lá no teatro não foi por culpa de cupim?" – Quinn ergue novamente uma sobrancelha. Ela se referia a um episódio que aconteceu pouco depois de entrarem para o grupo de teatro. Havia uma grande mesa de madeira no backstage que se partiu ao meio. Quando todo mundo foi ver o que havia acontecido por causa do estrondo que fez, encontraram uma Santana extremamente sem-graça e Artie nervoso. Eles estavam discutindo momentos antes. Quinn achou tão estranho e curioso, que nunca mais se esqueceu da cena.

"Foi um murro meu. Mas foi sem querer. Naquela época eu não conseguia calcular direito a força."

"Oh! E você deixou Schuester dedetizar o teatro inteiro por cupins que não existiam?" – olhou perplexa para o namorado.

"Foi melhor desculpa que deu para inventar naquele momento" – Matt explicou – "Apostei na minha credibilidade como operário da constrição civil."

"E você?" – esperou Grant fazer a demonstração.

"Meu dom não é tão divertido. Eu calculo movimentos e posso me antecipar a eles quando for necessário. Não é algo realmente demonstrável."

"Eu posso escrever uma poesia para você" – Mercedes deu um sorriso gaiato – "Agora é a sua vez, Fabray. Regras são regras."

Quinn acenou e segurou a lata de coca-cola que Santana estava bebendo. Concentrou-se e sentiu as já conhecidas ondas percorrer o corpo. Cada vez mais gostava daquela sensação. Então soltou a lata.

"Experimente."

Santana bebeu na lata super gelada e sorriu.

"Coca-cola quase congelada é a minha favorita. Eu sabia que você era uma mulher gelada, Fabray" – sorriu.

"Alguém mais sabe sobre vocês? Há mais gente como nós?" – Quinn perguntou baixinho, com receio.

"Holly sabe, mas acho que isso você também sabe" – Artie explicou – "E o dr. Camel, que duas ou três vezes por ano vem à cidade verificar nossa saúde."

"Por quê?"

"É que exames clínicos regulares sempre apresentam algumas alterações em nós que podem ser interpretadas erroneamente como indicativo de uma doença" – Matt explicou gentilmente – "o dr. Camel sabe de nossas especificidades."

"Como temperatura corporal um pouco menor?" – Quinn concluiu com a pergunta – "Se eu conhecesse esse médico talvez tivesse sido poupada de certos dramas na minha adolescência. Meus pais me entupiam de vitaminas e eu vivia de agasalho mesmo sem sentir frio."

"Meu pai achava que eu tinha sérios problemas de coordenação motora" – Santana sorriu – "Ele me fez fazer natação para ver se eu conseguia aprender a coordenar braços e pernas e parasse de quebras as coisas lá em casa. Aprendi a nadar, mas detesto piscina."

"Eu vivia com dor de cabeça antes do meu dom aflorar" – Matt resmungou – "Não era divertido."

Quinn compensou a lembrança triste com um beijo no rosto do namorado, que sorriu. Fizeram os pedidos e continuaram a conversar sobre algumas casualidades. Quinn entendeu outra razão da escolha do restaurante, além da discrição: a comida era farta. Estava habituada com o prato de estivador de Matt, mas percebeu que a ocorrência parecia ser comum: Santana, Brittany e Artie também comiam muito. Grant nem tanto porque o poder dele não exigisse energia extra como o dos outros. Ela própria passou a sentir mais fome depois que começou a treinar e a praticar.

Também era muito confortável saber que havia outras pessoas como ela, melhor ainda por já conhecê-las. Era libertador poder olhar para o lado, ver Brittany, Artie, e até mesmo Mercedes, mesmo que ela não tenha poderes, e saber que poderá se abrir com eles para certas coisas porque entenderiam. Era como se a solidão tivesse acabado.

Não muito longe dali, solidão era exatamente o que Rachel sentia. Por coincidência acontecia uma pequena reunião de velhos amigos, um churrasco no "quintal" de Puck, que morava no parque de trailers da cidade. Rachel era vegetariana. Ela estava sentada numa cadeira de praia fingindo que lia uma revista de moda deixada por Kurt. Ele e Tina tinham saído para comprar um pote de sorvete para a sobremesa, uma vez que o anfitrião não se ligava nessas coisas. Puck, Finn e Dave conversavam à beira da grelha com uma garrafinha de cerveja em mãos. O assunto passava por carros, esportes, o strip club que Puck "descobriu" perto da metrópole quando passou o fim de semana fora da cidade. Rachel revirava os olhos com a empolgação vulgar do amigo ao falar sobre as acrobacias que as mulheres faziam.

"Vocês sabem, antes de entrar num lugar desses há algumas regras e truques. Você tem que colocar uma camisinha antes, sabe? Para não se sujar. Eu achei que isso fosse um exagero, mas, meus amigos, quando paguei por uma lap dance, me arrependi de não ter colocado" – Finn e Dave começaram a rir – "Foi muito sinistro."

Rachel se mexeu desconfortável na cadeira. Estava enojada com a empolgação do namorado ao ouvir tais histórias. Ficou imaginando se Finn teria coragem de ir a uma casa dessa natureza mesmo num relacionamento. Não numa eventual despedida de solteiro se um dia eles chegarem mesmo a se casar. Seria mais como numa ida casual, com a de Puck. E se ele fosse? Estranhamente não conseguia se sentir zangada. Apenas enojada.

"Voltamos o mais rápido possível" – Tina levantou a sacola plástica do mercado com o pote de sorvete e outras compras – "Agora temos um almoço razoável e uma sobremesa. Rachel, você me ajuda?"

"Claro!"

Estava grata em sair de perto dos rapazes. Os três entraram na cozinha do trailer que e começaram a preparar o almoço que consistia numa lata de milho, alface, baby cenouras (tudo que não existia na geladeira. Arrumaram a comida do jeito mais digno possível (Puck não era um sujeito muito organizado) e serviram a refeição.

"Então Tina" – Rachel puxou assunto enquanto almoçava – "Como vão as coisas com Mike?"

"Devagar" – ela reclamou – "O fim do semestre está se aproximando, estou com muito trabalho na faculdade e a gente se vê basicamente no teatro. Mas eu não tenho certeza se ele quer insistir num relacionamento. Ainda mais com a notícia."

"Que notícia?" – Kurt e Rachel perguntaram ao mesmo tempo.

"Ele e Brittany vão fazer uma audição para ver se são aceitos numa dessas companhias de dança da metrópole."

"Bom para eles" – Rachel disse com certo amargor e chamou a atenção dos outros dois – "Quer dizer" – ficou sem jeito – "É uma oportunidade, certo? Não dá para culpá-lo."

"Acho que sim" – Tina ficou pensativa – "E se fosse contigo? E se você tivesse a chance de sair da cidade para ir a uma dessas companhias de teatro da metrópole que você tanto sonha? Largaria Finn?"

Rachel olhou para o namorado, que estava completamente alheio ao outro grupo. Ele ria e gesticulava com Dave e Puck. Pensou em como era bonito, como ele era um sonho para qualquer garota da cidade. Algo que Carole fazia questão de lembrá-la sempre que tinha a oportunidade. Mas Finn era isso: um sujeito sem a ambição condizente a uma cidade grande. Ele era um cara de cidade menor, que ganhava o dinheiro como mecânico e se divertia auxiliando o técnico de um time escolar de futebol. Esse era o Finn. O cara que estava empolgado com o jogo da garotada que aconteceria logo mais, e por isso mesmo não a deixaria no restaurante. Era uma razão nobre. teria coragem de deixar um relacionamento com esse sujeito? Com o homem mais decente da cidade, segundo palavras de Schuester? Então lembrou-se do beijo em Santana. Aquele que voltava a sentir os lábios queimarem só em pensar. A culpa a corroia, mas não conseguia evitar em imaginar como seria.

"Rachel?" – Tina estalou os dedos em frente ao rosto da amiga – "Você entrou em órbita agora" – ela sorriu – "A pergunta foi tão difícil assim?"

"Se eu teria coragem de largar Finn para tentar a vida na metrópole?" – repetiu a pergunta e pensou brevemente – "Não sei se terminaria com ele, mas precisaria ir se a chance batesse a minha porta. Se eu não tentasse, ficaria remoendo isso pelo resto da vida e isso sim seria o fim do meu relacionamento."

"É mais fácil falar do que fazer" – Kurt balançou a cabeça.

"Acha que eu não faria?"

"Rach, você é a garota que entre seus pais e Finn, escolheu Finn."

"Eu não rompi com meus pais. Não totalmente. Ainda falo com eles, você sabe. E os visitei dias atrás."

"É, depois de dois anos e por causa daquele... coisa."

"Coisa?" – Tina ficou curiosa.

"Não te contei?"

"Kurt!" – Rachel advertiu só para ser ignorada pelo melhor amigo.

"Aquele mascarado criminoso invadiu nosso apartamento enquanto fugia da polícia."

"Sério?" – Tina levou as mãos ao rosto.

"Aparentemente Rachel ficou amiguinha dele depois daquele... assalto."

"Você sabe quem ele é?" – Tina ficou excitada. Ela adorava boas histórias e fofocas.

"Nunca vi o rosto dele e só o encontrei em duas ocasiões. Não quer dizer que eu o conheça" – ela estava ficando muito boa em mentir sobre a identidade do vigilante, ou melhor, de Santana. O hábito fazia as coisas se tornarem mais fáceis – "Também não quer dizer que eu não o admire."

"Mas ele matou aquele garoto" – Tina argumentou.

"Não ele. Outra pessoa. Um bandido de verdade."

"Como pode ter tanta certeza?"

"Eu apenas sei. Mercedes também acredita nisso. O mascarado a salvou daquele caso da invasão na casa daquela moça. Não se lembra da história?"

"É, eu lembro sim. Isso é tão excitante. Eu gostaria de vê-lo em pessoa. Imagine?"

"É um cara forte" – Kurt passou a mão pelo queixo ainda meio roxo do soco que levou – "Meio pequeno, mas bem forte. Um e sessenta e poucos é o meu cálculo."

"Vamos mudar de assunto?" – Rachel bronqueou.

Nenhum evento extraordinário aconteceu no decorrer da tarde. Quinn e Matt voltaram para casa e passaram o resto do tempo brincando com Beth antes de namorarem à noite. Santana, Artie e Mercedes estudaram para seus respectivos cursos. Finn foi ver o jogo dos garotos que ajudava a treinar. Brittany passou à tarde com Mike uma vez que não teria como ver o chefe às escondidas. Raramente tinha os fins de semana com ele. Grant tinha a própria agenda. E Rachel foi trabalhar.

A pequena diva, que já não se sentia mais tão diva assim, chegou ao restaurante e trocou de roupa. Logo, mesas começaram a ser servidas na mesma rotina que vivia de terça a domingo. Ao menos sábado era dia de cantar e de ouvir alguns aplausos. Quando foi chamada pelo trio de jazz, Rachel subiu ao pequeno velho palco e olhou para o bar. Sorriu quando viu que a promessa foi cumprida. Acenou para os músicos amigos e começou:

"Não vá pensando que determinou/ Sobre o que só o amor pode saber/ só porque disse que não me quer/ não quer dizer que não vá querer/ Pois tudo que se sabe do amor/ É que ele gosta muito de se dar/ E pode aparecer onde ninguém ousaria supor. Só porque disse que de mim não pode gostar/ não quer dizer que não tenha do que duvidar/ pensando bem, pode mesmo chegar a se arrepender/ e pode ser então que seja tarde demais. Vai saber?"

Rachel cantou lindamente "Vai Saber?", de Adriana Calcanhotto. Recebeu aplausos que, como de habitual, eram sempre os mais altos da noite. Desceu do palco e ia continuar o trabalho quando viu o namorado no bar mais ou menos no mesmo lugar de costume. Ele não se incomodou com a mensagem da música. Para Finn, era só mais uma canção que Rachel interpretava nas tradicionais noites de sábado do restaurante. A segunda música do repertório da noite foi "Do Amor", de Tulipa Ruiz. Mais um artista que Rachel adorava e Finn nem tanto, pois achava alternativo demais.

"O meu amor sai de trem por aí/ e vai vagando devagar para ver quem chegou" – Rachel cantava lindamente.

"O meu amor corre devagar, anda no seu tempo/ que passa de vez em vento/ como uma história que inventa o seu fim/ quero inventar um você para mim/ vai ser melhor quando te conhecer"

Como sempre acontecia, após os aplausos, Rachel sempre levava gorjetas mais gordinhas para o bolso. Era a grande vantagem de trabalhar aos sábados. Finn a esperou terminar o expediente ansioso a fazer as pazes definitivas com a namorada. Sorriu para ela e entregou uma rosa vermelha.

"Quer sair para algum lugar e aproveitar o resto da noite?" – sugeriu.

"Eu estou um caco e com os pés em frangalhos. Quero ir para casa."

Ir para casa dela era quase sempre sinal de que a noite não se estenderia.

"Tem certeza?"

"Tenho. Hoje preciso encostar a cabeça no travesseiro e dormir. Mas obrigada por ter cumprido a promessa de vir me buscar. Como foi o jogo, aliás?"

"Perdemos" – Finn balançou os ombros – "Mas foi por pouco. Um vacilo."

O silêncio imperou entre os dois. Quando chegou ao apartamento, Rachel deu um beijo rápido nos lábios do namorado e não o convidou a subir. Algo começou a quebrar na relação dos dois e a culpa era dela. Só dela. Era ela quem estava com o namorado e pensava em outra pessoa. Alguém por quem ela arriscaria o pescoço.

Ao longe, observando o casal entrar na caminhonete, estava Santana. Ela decidiu ir ao restaurante desculpar-se mais uma vez por ter se afastado depois de Rachel se arriscar para ajudá-la. Deu meia volta quando viu Finn chegar. Sentou-se na lanchonete e tomou uma cerveja. Quando viu os dois saírem juntos, alheios de que ela estaria por perto, julgou que o melhor era deixar para lá. Rachel não falava com ela desde o teatro, quando presumiu corretamente que Artie "sabia" do segredo. Balançou a cabeça e se sentiu uma completa idiota. Voltou ao campus da universidade, mas não para o próprio dormitório. Foi em outro prédio, um que abrigava apartamentos melhores para estudantes mais endinheirados. Bateu na porta 702. Quando foi atendida, colocou um sorriso confiante no rosto, mesmo que fosse uma mentira.

"Oi Jenny."

"Veio curar sua coceira?" – a amante ocasional não estava entusiasmada.

"Vim conversar... na horizontal... se quiser."

"Você é um charme mesmo, San" – Jenny abriu um sorriso – "Mas não hoje. Não sempre quando você decide que chegou a minha vez nesse seu rodízio mesquinho de garotas."

Fechou a porta. Santana suspirou. Jenny nunca foi orgulhosa quando se tratava de uma noite de bom sexo. As coisas deviam estar mudando mesmo, ou será que ela perdeu o apelo? Voltou para o próprio dormitório. Encontrou um bilhete escrito a mão por Mercedes.

"Grant precisou de mim e Artie. Ligo depois para dar notícias" – Cedes.

Jogou-se na própria cama e fechou os olhos. Pensou em patrulhar, mas continuou de olhos fechados. Adormeceu.

que não conseguia resistir a atração que sentia pela vigilante, e sentia que havia grande potencial em arruinar uma relação de três anos e meio. Mas o pior de tudo é que ela não conseguia se sentir triste e culpada como deveria. Era o que mais incomodava.

No meio da noite, Santana dispensava a cheerio de uma vez por todas, Matt e Quinn tinham uma noite romântica que acabaria bem, e Martinez se encontrava com Brittany no quarto de hotel. Mas Artie, Mercedes e Grant estavam numa missão. Os três vigilantes estavam na estrada para percorrer de carro os 700 km que separavam a cidade de Cross City. Havia uma pista importante a ser investigada e eles não deixariam a oportunidade passar por nada neste mundo.