Mercedes checou mais uma vez o GPS. Era alta madrugada e estavam próximos ao flat em que supostamente Edward Hemon se encontrava. A iluminada metrópole mostrava a rica vida noturna diante dos olhos dos três vigilantes. Algo que existia timidamente na cidade. Casais e grupos de amigos andavam pelas calçadas e riam embriagados. Mendigos tentavam se aquecer do vento gélido, prostitutas e garotos de programa procuravam ganhar clientes nas ruas, especialmente os bem vestidos e com grandes carros. A polícia patrulhava aqui e acolá, assaltantes abordavam suas vítimas pelos becos entre um arranha céu e outro. Era um cenário rico para a atuação dos vigilantes. Será que existiam vigilantes na metrópole? Se a existência de outras pessoas com dons especiais era certa para eles, apesar de nada comprovado, da falta de contato e notícias, quem sabe?
"Vire a próxima esquina" – Mercedes instruiu Grant.
"Qual é o nome do flat?" – Grant perguntou com os olhos vidrados nas ruas.
"Jobim."
Grant logo viu a placa de neon um tanto quanto barata do flat. Não parecia um lugar familiar afinal. O flat Jobim era muito procurado por pequenos chefes do crime, homens que encontravam amantes nos quartos, por pessoas que não queriam ser vistas. Tudo graças a política da administração do local que fazia da discrição em relação aos clientes o maior negócio.
"Como vamos saber que nome procurar e o quarto?" – Grant estacionou o carro próximo ao local.
"Trabalhando nisso" – Artie trabalhava vigorosamente no computador, procurando tirar as últimas informações do sistema do hotel. Ele era um hacker menor, mas ainda capaz de invadir sites simples – "Se Grant estiver realmente certo, Hemon está registrado como Peter Broison. Ele está no oitavo andar. Quarto 805. Acho que fica voltado para os fundos.
"Se for" – Grant pegou a mochila e começou a se preparar – "Melhor ainda" – Mercedes colocou uma escuta nas vestes do amigo e testou o sistema. Parecia em perfeitas condições – "Cedes, você registra tudo e qualquer coisa dê o fora aqui. Artie, preciso de uma carona para chegar lá."
Os dois jovens saíram do carro ainda sem a máscara. Entraram no beco e Grant pulou o muro enquanto Artie simplesmente voou sobre ele. Nos fundos do prédio, onde existia uma área comum de ventilação com as outras construções além de uma pequena área de serviço do próprio flat, Grant e Artie colocaram as máscaras. O primeiro com o uniforme característico. Artie abraçou o colega pela cintura, o segurou firme e alçou um suave voo até o oitavo andar. Não tinham certeza qual era o quarto, por isso pesquisaram rapidamente pelas janelas. Na primeira havia um casal transando estilo cachorrinho. Não dava para identificar os rostos deles por causa da penumbra da cortina. De qualquer forma, não se arriscaram em atrapalhar. Na janela seguinte, que caracterizava outro flat, viram um homem de meia idade de costas. Parecia concentrado na tela do computador. Os dedos digitavam freneticamente. Grant decidiu se arriscar.
Abriu a janela devagar, calculando os movimentos como era sua característica. Quando já estava firme, Artie o largou e voou até o telhado do prédio a espera de um sinal do colega. Grant moveu-se em silêncio enquanto o homem continuava concentrado na tela do computador.
"Olá Hemon" – disse com a voz levemente abafada pela máscara.
O homem saltou da cadeira e, surtado encarou o invasor. Grant podia sentir a tremedeira. O poder dele permitiu que se antecipasse à porta, impedindo a corrida do fugitivo. Num movimento, Hemon tentou alcançar algo numa bolsa, mas Grant o antecipou mais uma vez até que decidiu imobilizá-lo em poucos movimentos.
"Eu já te salvei uma vez, Hemon" – na verdade foi Santana, mas o homem não precisava saber que existiam vários – "Não estou aqui para te machucar, mas para ouvir algumas respostas."
"Como me achou?" – o homem estava trêmulo, quase em pânico.
"Quando a sua irmã usou cartão de crédito na metrópole sem realmente estar aqui, e tal fatura não foi contestada, essa foi uma boa dica" – Grant soltou o homem, que procurou recuperar a compostura – "Há coisas terríveis acontecendo na cidade e eu estou sendo duramente perseguido. Preciso saber por quê?"
"Eu... eu... eu não sei do que está falando!"
Hemon estava apavorado, mas Grant, dotado de grande Inteligência emocional, sabia lidar perfeitamente com a situação. Não era à toa que ele era o vigilante designado a fazer interrogatórios quando o chefe não estava por perto para conseguir a informação diretamente da mente da pessoa. Ou outros não eram bem qualificados para tal: Matt não sabia lidar com essas coisas, Santana batia primeiro e perguntava depois, Mercedes entrevistava em vez de interrogar – às vezes dava sorte –, e Artie era ótimo apenas nos bastidores.
"Vejamos" – Grant falou com tranqüilo – "Eu te salvei de uma execução num beco, você fugiu da cidade imediatamente e veio parar aqui com ajuda da sua família. Você tinha uma posição estratégica na prefeitura da cidade e saiu de lá correndo. Sua conta bancária foi fechada de repente, uma pequena fortuna de dez milhões que conseguiu juntar em apenas seis meses. A não ser que tenha feito uma grande aplicação na bolsa de valores ou algo assim, é improvável que tenha acumulado isso em tão pouco tempo apenas com o seu salário e os seus bens. Além disso, não que tenha algo com isso, mas você é bem íntimo de Angelina. Não creio que seja coincidência que ela tenha se envolvido numa guerra de gangues ou que um garoto do projeto dela tenha morrido para colocar a culpa nas minhas costas."
"Você está a mando de quem?" – o homem pareceu se apavorar.
"De ninguém, garanto. O problema, caro Hemon, é que estão me acusando de crimes que não cometi e isso me leva a crer que a prefeitura e o departamento de polícia estão desviando a atenção para algo muito sujo que você sabe perfeitamente o que é. Olha cara" – gesticulou com suavidade para ganhar a confiança – "Eu só quero saber por que e contra quem devo lutar, só isso. É o meu traseiro que está envolvido. Além disso, você me deve uma. Claro que se você não quiser colaborar, posso passar algumas informações a alguns caras sobre onde te encontrar e garanto que você estará exatamente no lugar que eu disser."
"O que precisa saber?" – Hemon disse relutante.
"Eu quero que você me ajude a ligar os pontos. Comece com a sua relação com Angelina e por que o prefeito te quer ver morto?"
"Angelina e eu... tivemos um caso" – ele disse constrangido, sentando-se na poltrona sob a vigia atenta do vigilante – "Não me julgue. Ela é uma moça solteira e eu divorciado."
"Sem julgamentos aqui, cara."
"Como trabalhava na segurança de rede da prefeitura, não foi difícil descobrir certos desvios de verba e o aumento de orçamento em outras. Os gastos com a segurança pública ganharam aumento substancial em detrimento a outras áreas, como a de assistência social. Isso numa cidade com índices de violência urbana abaixo da média nacional. Era intrigante. A ajuda que Angelina recebia para o programa dela teve corte significativo. A questão é que apesar do aumento no papel, na real, o dinheiro destinado à polícia continuava igual. Uma parte, inclusive, é destinada a um programa especial de desenvolvimento de segurança que fisicamente não existe. Não foi difícil fazer as contas e entender os destinatários."
"Prefeitura corrupta?" – Grant disse em tom irônico – "Não é novo."
"Sim. Mas caí na besteira de revelar isso para Angelina, num dia em que ela estava particularmente chateada com os cortes. Ela pegou as provas que colhi e decidiu usar isso para ter o orçamento do programa dela restabelecido, mais alguns adicionais."
"Os seus milhões."
"Eu tinha uma porcentagem sobre o dinheiro que ela recebeu com a chantagem. Enfim, o prefeito perdeu a confiança em mim e tinha planos de nos eliminar."
"Por isso pagou para três coitados amadores de uma gangue rival para matar Angelina? Não me parece tão provável assim. Eles teriam sido mais profissionais, como os caras que teriam te matado se não fosse por mim."
"Era para parecer uma disputa casual de gangues. A morte de Angelina teria comoção e a prefeitura poderia justificar o suposto aumento na segurança pública."
"Estratégia razoável" – Grant admitiu.
"Aqueles pobres garotos que ganharam 500 contos para matar estão com os dias contados. Vai por mim. São cadáveres ambulantes e os arquivos serão queimados num momento oportuno."
"Um deles morreu há uma semana" – Grant começou a ligar os pontos – "Briga do presídio em que estava com os outros dois."
"O que aprendi nesses dias de reclusão é que o prefeito elimina pessoas de diversas formas. Pode ser sutil nas mãos de um profissional ou para criar uma situação favorável. Talvez ele tivesse mandado me matar e colocaria a culpa em você. Presumo que tive sorte por você estar por perto" – Grant acenou. O engenheiro de rede teve sorte por Santana ter desobedecido ordens diretas do chefe para patrulhar naquela noite – "Agradeço, porque foi a minha chance de fugir."
"E eu virei alvo apenas por atrapalhar a sujeira?"
"Infelizmente não sei te responder. Talvez porque você seja o bode expiatório óbvio. A prefeitura executa e você leva a culpa. Não é conveniente? Não é que você vá aparecer na TV e dar entrevistas. Claro que isso é apenas uma suposição minha."
"Então isso tem nada a ver com as eleições?"
"Não necessariamente, acho. O que aprendi no meu trabalho na prefeitura é que tudo pode ser usado como manobra política" – Hemon estava frustrado – "Olha, a minha vida se transformou num inferno, ok? Eu só estou escondido aqui até conseguir desaparecer para um lugar seguro. Se você quer colaboração, é isso. Se há alguma coisa além envolvendo o seu alterego, personagem, ou seja lá o que você considere essa máscara, eu não sei te responder. De verdade. Isso são apenas suposições."
"Uma última pergunta" – Grant se aproximou do homem com cautela – "O que você sabe sobre esse programa de segurança que não existe?"
"Não muito. Dizem que é um modelo de desenvolvimento de agentes especiais. Meu palpite é que ele seja só uma manobra para desvio de verbas."
"Não tem responsável?"
"Alguém fantasma. Truman Moore. Não é uma pessoa da prefeitura ou do departamento de polícia. Se você investigar mais profundamente pode acabar descobrindo que ele é um Zé Ninguém. Não tive tempo de fazer essa investigação. É só o que tenho a dizer. Agradeço pelo que fez por mim. De verdade. Mas não posso te ajudar além do que contei."
"Mas você ainda pode me ajudar de outras formas, certo?" – Grant sorriu por detrás da máscara – "Como um favor que um amigo presta a outro?"
"O que tem em mente?"
"Provas" – Grant ofereceu um cartão com um endereço eletrônico desenvolvido por ele e Artie com um bom sistema de segurança que o ampara de rastreamentos – "Você pode querer e tem todo direito em desaparecer, mas isso não quer dizer que não queira não possa se vingar a sua maneira. Eu quero pegar esses caras. É a minha motivação. Se quiser me ajudar, entre em contato. Você deve ter uma conta segura. E a minha conta é segura, te garanto."
Sem dizer uma palavra mais, Grant foi até a janela do quarto, esperou um tempo e pulou, o que impressionou Hemon. Artie estava de prontidão para buscá-lo, mas o outro não precisava saber, claro. Hemon foi até a janela e viu sinal algum do vigilante. Desapareceu como se fosse um fantasma. Mas se tivesse olhado para cima, talvez pudesse ver a penumbra de duas pessoas a voar. Grant e Artie voltaram para o carro em que Mercedes estava à espera. Sorriu quando os amigos se arrumaram e se cumprimentaram pelo sucesso parcial da missão.
"Precisamos conversar com o chefe sobre isso" – Mercedes disse excitada.
"Ainda não" – Grant retirou a mascar e arrumou o cabelo – "Ele não sabe que estamos aqui e vai continuar assim."
"Por quê?" – Mercedes questionou.
"Porque mesmo um telepata como ele teria extraído informações importantes na conversa que teve com Angelina e descoberto que ela não era inocente quando talvez não seja. Ou isso ou Hemon mentiu descaradamente."
"Não sabia que você desconfiava do chefe. Logo dele que nos uniu e nos treinou?" – Artie ficou transtornado.
"Eu só quero manter as coisas em perspectiva aqui, certo? Queremos a verdade e por hora as nossas informações e as que nos foi passada são conflitantes. Alguém errou e alguém mentiu, por isso acho conveniente a gente manter isso entre nós até descobrirmos mais."
Mercedes e Artie não entendiam as motivações de Grant, mas se aprenderam alguma coisa nesses últimos anos é que podiam confiar no primeiro aluno, como às vezes era chamado. Os dois também sentiam que havia algo de errado com toda a problemática de Angelina e o assassinato do garoto pela falta de empenho do chefe em colocar os alunos para fazerem uma investigação profunda, como na vez em que todos se envolveram para pegar os pedófilos. Todos, exceto Brittany, fizeram investigações. Artie e Grant vasculhando o sistema, Mercedes falava junto com as fontes de uma boa repórter que era e Santana e Matt fizeram as investigações em campo. Os vigilantes atuaram meses às sombras até chegar o dia em que o chefe mandou Santana "capturar" os envolvidos.
O patrulhamento diário posterior não era uma idéia original de Martinez, mas Grant o convenceu que pessoas como Santana precisavam de tal estímulo, e poderia ser ótimo para o desenvolvimento dos poderes de Matt, uma vez que os treinos deles não eram adequados por limitações estruturais. Em teoria, Matt poderia erguer objetos pesados, como carros, com o poder da mente. Os limites de Santana nunca foram propriamente testados. Mas os dois ainda faziam muito pouco dentro de um vasto potencial. Era a teoria de Grant, embora o chefe estivesse em desacordo. Agora havia Quinn. Grant a conhecia muito pouco, mas todos os outros vigilantes, em especial Matt, que era o namorado dela, dizia que ela era uma pessoa confiável. Sobre o potencial, ainda ninguém sabia dizer ao certo. Matt mencionou uma vez que ela era poderosa, que o chefe achava isso. O uso que ele faria dela era uma incógnita.
Artie e Mercedes sabiam que Grant e Martinez eram vozes conflitantes dentro do grupo, embora o aluno sempre acatasse as ordens do mestre no final. Mas daí a dizer que o colega era um Anakin Skywalker em processo de queda ao lado negro da força seria um exagero. Decidiram que iriam confiar no colega porque o que ele disse fazia mesmo algum sentido. Mas só por enquanto.
Estavam cansados da viagem e acharam um pequeno hotel no meio do caminho para passar o resto da noite antes de pegar o resto da estrada novamente na manhã seguinte. Mercedes ouviu a gravação do diálogo mais uma vez antes de dormir. Truman Moore. Não era um nome estranho, apesar de não se lembrar de onde o viu. Tentou forçar a memória, mas nada veio. Também estava cansada da longa viagem. Não demorou a dormir assim que deitou a cabeça no travesseiro.
Acordou no meio da manhã com o celular tocando. Era o namorado preocupado com a falta de notícias. Havia algumas ligações perdidas, como a da mãe dela e de Santana. Ligou em seguida para a mãe. Era só a habitual saudade e para dizer que estava esperando a filha em casa no feriado. Além disso, o pai dela havia comprado um novo barco para pescar na represa. Mercedes sabia tudo sobre pesca não por genuinamente gostar, mas porque o pai a levava junto com os outros dois irmãos para esse tipo de atividade de fim de semana quando eram menores. De qualquer forma, o irmão mais velho seguiu o gosto do pai e ela ficava feliz em receber notícias bobas de casa.
"Cedes" – Artie chamou a atenção da amiga – "Café e estrada!"
Ela acenou ao amigo e arrumou a mochila. Rumaram para a cafeteria mais próxima e de lá ela fez a última ligação pendente.
"San? O que houve?"
"Oi Cedes. Nada de importante. É que você deixou um recado dizendo que estava numa Road trip com Artie e Grant e eu quis saber se está tudo bem."
"Está tudo ótimo. Devemos chegar no início da tarde. Te conto tudo depois."
"Claro!"
A conversa não se estendeu, o que não surpreendeu Mercedes. A amiga sempre foi econômica em conversas telefônicas.
"Vamos contar aos demais?" – Artie pegou o café com leite que Grant trouxe para ele. Mercedes entrou no banco de trás e o terceiro assumiu a direção.
"Não. Matt e Brittany são os mais leais. Eles vão contar sobre nossas investigações paralelas. Santana não tem disciplina para manter os pensamentos dela para si quando o chefe está por perto. É por isso que ela evita ficar no mesmo ambiente que ele quando faz algo errado."
"Essa divisão de grupo me preocupa" – Artie ponderou – "Deveríamos ser uma unidade sólida e concisa."
"Concordo" – Mercedes conferiu algumas anotações que havia feito no processo – "O problema foi quando o chefe disse que Angelina era inocente. Eu entenderia se alguma gangue a quisesse morta por intervir nas atividades de alguma forma, mas a minha experiência mostra que não é bem por aí. A presença desses agentes costuma se bem vistas em comunidades carentes e pelo governo. Até pelas gangues. Se Angelina teve a cabeça à prêmio é porque existiu uma razão muito forte. O trabalho de socialização por si só não é uma ameaça. Mas chantagens. Bom, isso é uma razão respeitável. O chefe saberia pegar uma mentira a não ser que Angelina fosse treinada para evitar a telepatia dele. O que ele fez basicamente foi desviar a nossa atenção para a ação da polícia, que tem sua parte de corrupção, mas isso não é novidade para nós. Então estou com Grant. Há algo mal contato."
"Nossa pista é Truman Moore. Além da própria Angelina" – concluiu Grant – "Mas não ela diretamente. Precisamos falar com as pessoas envolvidas com ela. Matt é um colaborador, certo? Apesar de ter quase certeza que ele sabe de absolutamente nada."
"Você e Artie podem ir atrás de Truman Moore. Eu posso fazer uma reportagem especial para o jornal sobre o trabalho social na cidade baixa."
"Reportagem especial?" – Grant sorriu.
"Você sabe, faz parte da minha profissão divulgar as boas iniciativas."
O trio seguiu a estrada rumo à cidade.
