Santana viu a jovem entrar na faculdade comunitária depois que o namorado a deixou por lá. Respirou fundo e desejou sorte a si mesma. Desceu do carro e andou entre os demais fracassados que foram rejeitados na universidade ou não tiveram dinheiro para entrar em uma. Sabia que não era inteligente ir ali quando havia toda uma agenda de classes a cumprir. Mas seria só um dia, certo? Além do mais: precisava resolver o problema de uma vez por todas. Não tinha idéia qual era a sala de Rachel ou quais eram os colegas dela. Tudo que via era gente andando para lá e para cá num prédio que lembrava bastante uma escola compacta. Resolveu andar pelos corredores a procura e depois no segundo andar. O sinal soou e houve a correria usual para entrar na sala de aula. Frustrada, sentou-se num sofá perto da cafeteria e esperou.
"Santana?" – a voz fez a vigilante pular do sofá. Mal tinha sentado ali – "O que está fazendo aqui?"
"Vim te procurar" – estava constrangida. Ela deveria surpreender Rachel, não o contrário.
"Me procurar?"
"Eu queria te mostrar um lugar" – sorriu sem jeito e consultou o relógio – "Só que agora eu não tenho certeza se vai dar certo."
"Por quê?"
"O meu plano era te seqüestrar e te levar a reserva de um jeito mais dramático. Mas é que você cortou totalmente o clima... o eu não tive competência de te encontrar."
"Para a reserva?"
"Trouxe uma mochila com lanchinhos para caminhada."
"E você não tem classes a ir?"
"Um monte."
"Então?"
"Posso fazer pesquisa sobre sociologia outra hora."
"Sociologia? Mas você não estuda arquitetura e urbanismo?"
"Sim, mas é que o padrão arquitetônico de diferentes cidades e culturas revelam não apenas a história mas e também da economia local. Algumas têm significados específicos, como a arquitetura japonesa, que é cheia de simbolismos. A sociologia é aplicada nesse sentido, de como o arquiteto pode ser um estudioso social e contar a história de uma cidade pelas construções que apresenta... e você acabou de descobrir o meu lado nerd."
"Você gosta mesmo do que estuda" – Rachel sorriu.
"Gosto" – um leve rubor apareceu no rosto da vigilante que a diva achou adorável.
Rachel riu e sentiu um impulso de beijar Santana na frente de todos, mas não podia. Não apenas pelo ambiente, mas por toda complicação que existia em torno daquele relacionamento. Eram amigas? Queriam ser algo mais? Havia alguns dilemas em curso. Conferiu o relógio. A reserva ficava 50 km fora da cidade, o que significava meia hora de viagem numa velocidade responsável. Não era muito. As pessoas da cidade gostavam de descer até a reserva aos fins de semana pela quantidade de atividades de lazer proporcionadas dentro do espaço limitado para visitação. Havia outro destinado à pesquisa em que só se tinha acesso por meio de autorização. Ainda assim era possível fazer caminhas, andar de bicicleta e fazer piquenique.
Rachel costumava visitar a reserva junto com os pais, mas fazia pelo menos uns três anos que não pisava os pés naquele lugar. Finn não era um sujeito que gostava de atividades na natureza. Kurt muito menos. Mas Santana parecia apreciar, ou não a convidaria. A vigilante foi à reserva pela primeira vez a convite de Grant e Brittany, freqüentadores mais assíduos. Gostou de lá e até fez algumas amizades com as pessoas que lá trabalham, em especial de um dos administradores. Santana fez um pequeno projeto de reestruturação da praça de piquenique que foi aceito. Nada grande, mas foi a primeira vez que teve um desenho planejado por ela executado. Sequer pôde assinar a planta por ainda não ser formada, um professor o fez na condição de supervisor. Chegou a visitar a obra uma vez, mas ainda não tinha a visto pronta. Seria a primeira vez.
"Só tem um problema neste seqüestro" – Rachel franziu a testa – "Hoje é segunda e a reserva só abre de quinta a domingo."
"Digamos que eu tenho um passe livre por hora."
"Como?"
"Quer pagar para ver?"
Rachel ficou curiosa. Pegou na mão de Santana e a puxou para fora do edifício da faculdade comunitária. Entraram no velho carro da vigilante, a lata velha que a transportava para vários lugares, inclusive ao teatro, e ainda oferecia generosa carona a Mercedes e Artie. Às vezes para Jenny, apesar de ela ter um automóvel bem melhor. Rachel reconheceria aquele carro em qualquer lugar e era estranho pensar que aquela era a primeira vez que entrava nele. O carro podia ser velho, mas o som era novo e bom. Ligou o rádio do carro da vigilante e procurou uma boa estação. Não encontrou nada que lhe agradasse naquele instante.
"Pode dar uma olhada no meu iPod. Está no porta-luvas" – Santana avisou.
Rachel verificou o lugar e encontrou o aparelho embolado com uma das máscaras que Santana usava no trabalho de patrulha. Decidiu deixar o assunto de lado. Verificou o setlist da amiga e ficou surpresa pela aproximação de gostos musicais.
"Gosta de Adriana Calcanhotto?"
"Claro. É uma ótima compositora."
"E dos Los Hermanos?"
"Adoro!" – sorriu – "Mas para mim o cara do grupo é o Rodrigo Amarante e não o Marcelo Camelo. Adoro aquela voz de bêbado."
"E você escuta Criolo!" – Rachel estava admirada.
"E BNegão, Mundo Livre, Curumin, Pato Fu, Garotas Suecas e toda porcaria indie com alguma sofisticação."
Rachel escolheu uma música obscura do Pato Fu feita por encomenda para uma exposição de moda, mas que era tão boa que acabou sendo tocada em algumas rádios. Achava interessante saber a origem da canção e perceber que ela falava sobre uma pessoa que não se ajustava. Era mais ou menos como ela. Começou a acompanhar a voz suave de Fernanda Takai.
"Ela vem vestida pra viver/ e eu estou com a roupa de quem nem quer saber/ se já mudou a estação/ se já nem é mais verão/ mas ninguém vai mesmo reparar/ poucos podem perceber/ mas eu entendi/ as pessoas por aqui estão vestidas para matar/ É que os cinzas e os azuis sempre me fazem chorar/ o verde me faz fugir e o rosa voltar/ E se tanta gente reunida tem razões pra celebrar/ eu me sinto como alguém que não sabe, nessa mesa, onde deve se sentar."
"Não sabia que gostava deles. Mercedes detesta e Artie é indiferente."
"Eu adoro" – Rachel olhou para a paisagem na janela – "A voz da Takai não é muito compatível com a minha e não dá para cantar algo dela nas apresentações que faço no restaurante porque dá certo trabalho adaptar para não ficar tão estranho. Mas sim, eu gosto de escutar. São músicas estranhas, herméticas, mas que sempre encontro um pouco de mim nelas."
Santana apenas acenou e se deixou levar pelas melodias que amava, grata por Rachel também apreciar. Chegaram ao campo de visitação da reserva, que estava quase vazio. Havia apenas mais três carros por lá, sendo que um deles parecia já estar de partida. Santana, junto com Rachel, se dirigiu até a administração que ficava no mesmo prédio e conversou com Bernard, que a cumprimentou com entusiasmo. Só então explicaram para Rachel a razão do passe livre. A primeira parada foi no setor de piquenique inteiramente reformado. Rachel ficou maravilhada porque o local estava mais bonito e harmonioso com a natureza do que o projeto antigo, que ela conhecia bem nas visitações com os pais. O fato de ter sido feito por alguém próximo dava um sabor especial.
Olhou para Santana, que sorria enquanto conversava com Bernard. Faziam comentários sobre as mudanças, sobre as coisas que funcionaram melhor e outras que ficaram melhores apenas no papel, mas tudo fazia parte do processo. Inegavelmente, aquele projeto era superior ao antigo. Rachel ainda sentiu uma ponta de inveja. Santana nem tinha se formado ainda e já podia se orgulhar de ter projetos realizados, sem falar que ali estava uma vigilante, alguém que protegia a cidade de criminosos, que tinha poderes especiais. O que Rachel tinha? O teatro e uma noite no restaurante para se orgulhar. Aquilo parecia tão bobo e fútil.
"Quer caminhar?" – Santana sugeriu após conversar com Bernard.
"Receio que esses sapatos não sejam adequados."
"Eu não te sequestraria para um lugar desses sem alguma preparação. Tenho sandálias boas para caminhar no carro. E eu não devo calçar mais que dois números a mais que você."
"Meu número é 35" – Rachel franziu a testa.
"Viu? O meu é 36. E tem uma camiseta mais confortável também."
Rachel acenou. Retornaram ao carro e Rachel trocou de sapato ali mesmo, assim como aproveitou que ninguém olhava para trocar rapidamente a blusa pela camiseta de algodão. Santana pegou a mochila com os lanches e foram para a trilha autorizada. As duas respiraram o bom ar, sentiram um pouquinho do frescor da floresta fechada. Rachel sempre ficava impressionada de como a temperatura parecia mais amena ali do que na cidade. De fato era. Chegaram a um pequeno mirante e pararam por um instante. Não era uma paisagem necessariamente romântica, mas Santana se sentia daquela forma. Pegou a mão de Rachel e delicadamente a levou até os lábios. A diva sorriu. Aquilo era adolescente e bobo, mas também fofo. Ela se ajustou contra o corpo de Santana e as duas se beijaram. A sensação era incrível. As duas sentiam contra a pele a energia e a eletricidade. Permitiram-se conhecer melhor o corpo, as curvas, mas ainda sem avançar demais. Tudo ainda era cauteloso, respeitoso.
"Isso foi bom" – Rachel abriu os olhos.
"Foi."
"Mas o que isso significa?"
Santana não soube responder. O silêncio da mata, o ruído gostoso, não foi útil naquele instante.
"Você confunde os meus sentimentos de graça, não é? Não pode beijar alguém assim, alguém que está num relacionamento de anos e não saber o que pretende com isso."
"Mas o que você quer?" – devolveu e foi a vez de Rachel ficar confusa. O ter o silêncio devolvido fechou a expressão e olhou para a paisagem – "Não me acuse. Eu não sou a única confusa aqui."
"Foi para isso que me seqüestrou? Para discutirmos no meio do mato, assim ninguém nos escutaria?"
"Eu vim conversar e te proporcionar um passeio agradável. Você me acusou naquele dia de eu não ligar. Acontece que é só o que faço. O problema é que desde que você descobriu o meu segredo e o meu colega não conseguiu extrair essas lembranças que a minha vida virou de ponta cabeça. Seria muito mais simples te ignorar e continuar a te ofender."
"Por que não fez isso? Mesmo que me ignorasse, eu não contaria o seu segredo, Santana. Eu não te trairia dessa forma. Quantas vezes vou precisar repetir isso?"
"O problema é que eu comecei a gostar de você" – Santana esbravejou – "E isso é um pé no saco. Sinceramente, Rachel. É um pé no saco" – repetiu mais alto – "Você é comprometida com um cara que eu detesto, mas respeito, ou tento. E tem essa sua insistência em querer saber mais, em estar mais envolvida quando não tem idéia do quanto esse jogo é perigoso. Você cobra a minha atenção. E eu fico aqui no meio desse turbilhão de sentimentos e responsabilidades. Não é fácil administrar isso. Não é fácil gostar de você e não poder porque não seria razoável da minha parte. Assim como não é fácil te manter longe, quando você se envolve cada vez mais. Não é fácil te esconder dos outros vigilantes quando você entra cada vez mais."
Isso chamou a atenção de Rachel.
"Esconder dos outros vigilantes? Nem todos são como você?"
"Não é isso" – Santana estava frustrada e bateu na própria perna – "O que eu faço, de patrulhar, não é endossado pelo cara que nos comanda. Mas eu faço por me sentir bem. Por saber que posso ajudar e salvar vidas. Isso me faz bem. Ele... ele tem um poder mental, sabe?"
"Extrai lembranças..."
"Também. Eu não sou muito boa em esconder meus pensamentos, Rachel, e tenho medo do que ele possa fazer contigo caso leia minha mente e entenda que é uma ameaça para nós. Ou pior: que ele queira saber por que não conseguiu apagar suas memórias."
"Esse seu chefe..."
"É um cara decente que protege o grupo. Nossas identidades. Mas ele não hesitaria em fazer o que fosse preciso. Entende?"
"Parece que você tem medo dele."
"Eu sei a dor de um ataque psíquico. De como é sentir o cérebro queimar."
"Ele já fez isso contigo?"
"Uma vez, no início dos treinos. Eu era meio rebelde e foi uma forma de ele mostrar quem mandava. Eu fiquei um dia inteiro apagada e acordei com uma baita dor de cabeça. Uma muito maior do que a do meu primeiro porre."
"Ainda assim você desobedece?"
"Basicamente."
"Você é inacreditável!"
"Basicamente" – Santana sorriu fraco.
"Não sabia que havia todos esses problemas."
"Entende porque não é fácil deixar você entrar? Tem o perigo interno e externo."
Rachel acenou e pegou na mão de Santana.
"E quanto a nós?"
"Se você não sabe o que você quer e eu não sei até onde posso ir, acho que a gente vai ter que tentar trabalhar nossa amizade. É o mais seguro, por hora."
"Acho que tem razão" – Rachel suspirou – "Mas não será fácil. Você é sexy."
Santana gargalhou. Foi bom para espantar um pouco o nervoso e a tensão. La abriu a mochila e pegou os sanduíches e sucos dentro da sacola térmica que estava dentro. Comeram em silêncio, beberam o suco e recolheram o lixo. Fizeram o restante do percurso conversando pouco. Rachel e Santana estavam ocupadas tentando processar sentimentos e perigos. Trabalhar amizade não seria tão fácil, como Rachel bem previu, mas era o que precisavam tentar para o bem das duas. O que a diva sabia muito bem é que longe ela não ficaria, mesmo com todos os perigos. Tinha convicção de que a vigilante precisava dela.
Santana despediu-se de Bernard e de mais alguns dos funcionários antes de deixar a reserva e voltar para a cidade. O administrador ainda disse que havia um projeto para reforma dos vestiários dos funcionários e da construção da nova casa de banheiros e tanques de água para visitantes, que ela deveria concorrer com um projeto. Santana agradeceu a dica e prometeu pensar em algo interessante.
"Deveria pensar em concorrer, Santana. A área de piquenique ficou mesmo bonita."
"Eles modificaram alguns detalhes do meu projeto, mas ficou mesmo legal."
"Não sabia que já podia assinar coisas assim."
"Não posso. Um professor meu que assinou como responsável."
Rachel acenou e voltou a investigar a seleção de músicas do ipod da Vigilante. Escolheu algumas canções e cantou alto algumas delas, fazendo a amiga rir. Era adorável. A estrada estava tranquila até chegarem próximas à uma das entradas da cidade do lado do rio que fazia fronteira entre um condado e outro. Santana ouviu uma sirene próxima e olhou pelo retrovisor. Arregalou os olhos quando viu que havia um carro atrás costurando o trânsito com as viaturas em perseguição. Jogou o carro para o lado no acostamento numa ação brusca, quase batendo num carro mais atrás e viu o perseguido passar por ela como um jato. Entraram na ponte, o perseguido entrou na contramão temporariamente e foi quando aconteceu. Alguns carros bateram feio. Tudo aconteceu muito rápido, mas quando Santana tentou entender o resultado daquilo que ela e Rachel testemunhavam, arregalou os olhos ao perceber que um carro ficou pendurado na ponte na eminência de cair.
O coração disparou e ela agiu por instinto. Rachel gritava algo que ela não estava entendendo e nem se importava àquela altura. Ela inclinou-se para o lado, pegou uma máscara no porta-luvas e a vestiu. Saiu do carro e disparou na direção a caminhonete pendurada. Correu o mais rápido que pôde e chegou no exato momento em que o veículo despencaria rio abaixo. Até então, não imaginava que tivesse tal força. Talvez fosse a adrenalina. Santana também não se importava. O importante é que ela conseguiu segurar o veículo que estava na vertical. Mas era pesado demais e ela não sabia por quanto tempo agüentaria. Tinha pessoas lá dentro, não sabia quem, não conseguia falar.
"Vocês aí dentro!" – alguém gritou. A vigilante olhou para o lado. Era um senhor – "Saiam do carro agora!"
"Meu amigo desmaiou e está sangrando!" – uma voz masculina saiu lá de dentro. Houve um breve pânico entre os presentes, enquanto a vigilante apenas agüentava o peso do carro.
"Você está bem?" – ouviu uma voz próxima. Rachel.
A vigilante acenou negativo com a cabeça e soltou um grito pelo esforço que fazia.
"Seja lá quem for. Saia do carro agora!" – Rachel gritou.
"Alguém pegue uma corda" – outra pessoa gritou – "Precisamos de uma corda!"
"Não posso deixar o meu amigo" – o moço gritou pela janela ao mesmo tempo. Tudo estava confuso, havia muita agitação ao redor. Havia pessoas feridas nos outros carros batidos.
"Sai agora que a gente cuida dele" – Rachel agitou-se – "Alguém tem uma corda?"
"Aqui tem uma corda!" – um homem esguio gritou – "Sou bombeiro e vou descer para tirar o cara."
"Precisamos de outra para segurar o carro" – outro homem se aproximou.
"Você arrume alguma coisa para ajudá-la. Mas agora eu só posso tirar aqueles caras lá de dentro" – o bombeiro começou a trabalhar com o que tinha e olhou para a vigilante (agora que era óbvio que se tratava de uma mulher – "Segure firme, pelo amor de deus."
Santana soltou outro grito e o bombeiro procurou trabalhar ainda mais rápido. Outros quatro homens tentaram ajudar a vigilante com o carro, mas a força que eles faziam não aliviava tanto assim o peso, que ainda era sustentado basicamente por ela. O bombeiro primeiro jogou a corda do lado do homem que estava bem e pediu para que amarrasse a cintura e escalasse o carro o melhor que pudesse. O homem, que devia estar na casa dos 40 anos, abriu a porta do carro, escalou desajeitado o veículo sempre com as mãos firmes na corda até que conseguiu alcançar a mão das pessoas na beira da ponte que se mobilizaram para ajudar a puxá-lo para cima. Ralou um joelho no processo. Em seguida o bombeiro amarrou rapidamente a corda na própria cintura com mãos habilidosas. Olhou para a mulher mascarada que segurava o veículo de forma heróica. Sabia que do jeito que a vigilante suava, cerrava os dentes e gritava, ela não agüentaria por muito mais tempo.
"Aguente só mais um pouco, colega" – olhou rapidamente para a vigilante trêmula, pingando de suor. Os músculos de Santana queimavam e a sensação era quase insuportável.
O bombeiro desceu rápido, pois o tempo era curto, e entrou pela porta já aberta. O homem estava desacordado e ensangüentado. O bombeiro teve alguma dificuldade de tirar o cinto de segurança. Mas assim que o fez, não perdeu tempo: segurou firme e o puxou para fora. Não havia tempo para cuidados e delicadezas. Assim que os dois ficaram pendurados pela corda, os homen soltaram o carro que a vigilante ainda sustentou por mais alguns segundos sozinha até ter certeza de que o veículo não atingiria os homens. Então relaxou e o carro despencou 20 metros de altura até impactar contra a água corrente. Enquanto um grupo puxava o bombeiro salvador e a vítima desmaiada para cima, a vigilante sentiu o corpo fraquejar, as pernas não respondiam mais e ela caiu de joelhos. Rachel se apressou e correu para segurá-la nos braços. As mãos estavam esfoladas, sangrando. Os braços estavam moles, não respondiam. O corpo estava coberto de suor a ponto de molhar a camiseta por completo. As pessoas se aglomeraram em torno da vigilante. A maioria espantada com o fato da mascarada ser uma mulher. Os seios e o corpo evidenciado na calça jeans justa e na blusa regata feminina não deixavam dúvidas.
"Quem é ela?" – perguntou uma senhora enquanto as sirenes da polícia estavam próximas – "Vamos ver quem é ela!"
"Ninguém toca nela" – Rachel gritou – "Depois do que ela fez aqui? Respeite a identidade dela!"
"A gente pode até respeitar" – um homem se aproximou – "Mas a polícia não vai."
Os policiais já se faziam presentes, com as armas em punho, havia burburinho, discussões, o bombeiro atendia o homem ensangüentado, havia as outras pessoas acidentadas. Rachel discuta e alguém filmava tudo com o celular. Era muita informação para a vigilante. Apesar do corpo mole, fraco, ela sabia que não podia ficar ali. Foi quando se levantou com alguma dificuldade e se atirou da ponte para espanto de todos. A multidão e Rachel olharam para baixo. Todos estavam perplexos. A polícia chegou fazendo perguntas que ninguém ali estava disposto a responder. Rachel, sorrateira, aproveitou que pessoas se dispersavam intimidadas com a falta de jeito dos agentes e saiu de cena. Correu para o carro de Santana quase que jogado no acostamento, assim como alguns outros. Tudo ainda estava lá dentro: a bolsa dela, os documentos de Santana, celulares, objetos, e as chaves na ignição. Rachel não perdeu tempo. Ligou o carro e deu meia volta na avenida, praticamente fugindo dali e levando consigo evidências.
Santana deixou-se levar pela correnteza do rio e procurou passar o máximo possível submergida. Quando avistou um dos parques, procurou ignorar o corpo dolorido para nadar até a margem e chegar em segurança à terra. Sujou-se de lama, perdeu os chinelos no rio, mas recusou-se tirar a máscara apesar de todo o incômodo. Nunca se sabia. Procurou retomar o fôlego e se ajoelhou. Tossiu. Foi quando sentiu mãos em volta do corpo dela. Deu um pinote para o lado e procurou se afastar. Ficou aliviada ao ver que se tratava de um colega vigilante. Quem ela não tinha certeza, mas também não se importava.
"Vou te tirar daqui" – reconheceu a voz de Grant.
"Como..." – Santana disse ainda ofegante.
"Um pouco de sorte, um pouco por causa do barulho que você fez, um pouco de intuição."
Ele a ajudou a se levantar e colocou o corpo dela nos próprios ombros. Usou a habilidade para se esquivar das pessoas e evitar que alguém os visse até ao carro. Só então, Santana retirou a máscara e pôde tirar um pouco da água e do barro do rosto. Jogou a máscara quase arruinada no chão do carro do colega vigilante.
"Quer falar sobre o que aconteceu?" – Grant rapidamente deixou o local.
"Foi obra do acaso. Não estava envolvida no acidente, mas eu tinha de ajudar... carro ia despencar daquela altura com duas pessoas dentro."
"É o nosso trabalho, certo?" – Grant sorriu. Jamais julgaria a colega.
Grant seguiu até a base dos vigilantes. Entraram na garagem e Santana não ficou surpresa ao encontrar a equipe em espera. Brittany foi a primeira a se aproximar pegou nas mãos da amiga e se concentrou no intuito de curar o esfolado. Então franziu a testa e colocou a mão no coração. Pressionou contra o peito da vigilante e a mão brilhou mais uma vez. Sentiu que se não interferisse, o coração da amiga poderia entrar em colapso pelo esforço.
"Obrigada por mais essa" – Santana sorriu.
"Está difícil encontrar alguma parte do seu corpo que eu não tenha concertado ainda."
"Ossos do ofício."
Santana recebeu um abraço apertado de Matt e Artie, que lhe ofereceu uma cadeira para sentar. Mercedes era a única não presente. Ela correu para a ponte para apurar a história e saber como anda a repercussão. Apesar da recepção calorosa, Santana prendeu a respiração quando se viu diante do chefe.
"Foi um ato de coragem" – ele invadiu a mente dela – "Mas você não pensou uma vez sequer que poderia colocar tudo que a gente conquistou a perder mais uma vez, não é mesmo?"
"O que você queria que fizesse?" – Santana respondeu em alto e bom tom – "Que deixasse aquelas pessoas morrerem?"
"Você não sabe se isso aconteceria. Além disso, pessoas morrem todos os dias."
"Não..." – Santana franziu a testa – "Eu prefiro a certeza da vida."
"Claramente você não entende o propósito dessa equipe. Anda desobedecendo todas as minhas ordens e continua a atuar nas ruas, arriscando tudo que construímos de bom."
"Estou nas ruas para ajudar pessoas" – Santana aumentou o tom.
"Estamos aqui para ajudar a sociedade em planos maiores do que pegar ladrões de galinha. Mas é claro que você não entende o propósito deste time. Todas as suas ações nos últimos meses só fizeram nos expor e praticamente arruinar anos de trabalho duro e discreto. Se quiser continuar a sair pelas ruas caçando ladrões de galinha, ótimo. Sei que gosta da atenção, então ótimo. Mas você não contará mais com o apoio desta equipe. De agora em diante, estará sozinha."
"Tudo bem" – Santana levantou-se procurando segurar o choro, diante de colegas atônitos. A conversa foi particular e os outros não ouviram a expulsão e por isso se olharam confusos quando viu a colega andar em direção à saída ainda com as roupas sujas de lama, descalça, com os cabelos bagunçados.
"O que aconteceu?" – Artie agitou-se – "Para onde vai?" – segurou no braço da colega.
"Santana está fora" – projetou o pensamento na mente de todos os comandados – "Agora me dão licença que eu tenho um estrago para consertar antes que a situação fique insustentável."
Diante do choque dos demais, Grant abriu a porta da garagem para a colega e ofereceu carona. Entendia a posição do chefe e sob certo ângulo, ele estava certo: Santana é impulsiva demais para aquele tipo de negócios. O que não quer dizer que ela não tenha valor e importância. Além disso, ele tinha uma boa sensação de que o ato público da colega não traria conseqüências tão ruins assim. Além disso, segurar um carro pendurado por minutos era uma demonstração e tanto de força: uma que ela nunca tinha feito até então.
"Obrigada!" – Santana sorriu timidamente quando sentou no banco do carona.
"Usa isso para disfarçar" – ofereceu a jaqueta de couro preta – "Depois você devolve."
Santana agradeceu ao colega que menos tinha contato e diálogo dentro da equipe. Grant gostava de desafiá-la nos raros dias de treinamento no centro. Ela, com a força sobre-humana e velocidade, tinha de acertar um soco nele, que calculava movimentos. Santana nunca conseguiu acertá-lo em cheio.
"Quer conversar?" – Santana apenas acenou negativamente – "Quer ligar o rádio?"
"O caminho não é tão longo."
"Olha... só quero dizer que sinto muito que as coisas tenham acontecido dessa forma. Eu entendo o lado do chefe, dos objetivos dele, mas também entendo o seu. De que adianta um grupo de gente com habilidades especiais sem uso?"
"Sei que essa história de vigilante é idiota" – disse com a voz falha – "Mas cruzar os braços ou fazer nada de útil com isso é ainda mais idiota."
"Concordo" – Grant estacionou o carro em frente ao prédio do dormitório da universidade – "O chefe pode ter te excluído dos planos dele. Mas se precisar de ajuda, não hesite em chamar. Você tem o meu telefone e saiba que pode contar comigo. É desnecessário dizer que sempre vai poder contar com Artie e Mercedes."
"Obrigada" – sem jeito, Santana deu um beijo no rosto do amigo e desceu do carro.
"Consegue andar?"
"Eu vou conseguir" – piscou o olho.
Caminhou descalça com as roupas úmidas, cabelo bagunçado e o corpo ainda trêmulo. Parou diante da porta e só então lembrou que as chaves e o celular estavam no carro. Mercedes provavelmente não voltaria tão cedo e Artie estava recebendo um sermão no centro de treinamento. Bateu coma cabeça na porta e chamou a si mesma de estúpida. Fico surpresa quando a porta se abriu. Rachel estava lá dentro.
"Graças a deus!" – pegou o braço de Santana e a puxou para dentro.
Rachel rapidamente fechou a porta e deu um longo abraço na vigilante. Santana deixou o corpo amolecer mais uma vez e Rachel teve dificuldade de ampará-la. Com algum esforço, a colocou na cama, independente da sujeira das roupas. A vigilante começou a chorar copiosamente e Tudo que Rachel pôde fazer foi deitar-se ao lado e abraçá-la em conforto. Esperou até se acalmar.
"O que aconteceu?" – Rachel perguntou sussurrando no ouvido de Santana.
"Fui resgatada pelos meus colegas" – permaneceu imóvel – "O que aconteceu?" – devolveu a pergunta.
"A polícia chegou, mas antes que eles começassem a abordar as pessoas para fazer perguntas, eu escapei. Peguei o seu carro e vim embora. Decidi que o melhor seria esperar por notícias suas aqui mesmo."
"Obrigada."
"O que você fez... foi incrível, San."
"Foi estúpido. Estou fora, Rachel. Ele mandou o grupo me abandonar..."
Começou a chorar novamente até silenciar. Rachel continuou a abraçá-la e só a libertou quando ouviu o barulho de chaves na porta e sentou-se na cama em alerta. O coração bateu mais forte.
"Rachel?" – Mercedes entrou seguida de Artie – "Ainda bem que está aqui."
"Ainda bem?"
"Não viu? Tem um monte de vídeos na internet mostrando o que Santana fez, mas o rosto dela não aparece, sabe? O seu sim. A gente precisa pensar em alguma coisa" – Artie sentenciou.
"Mas eu estava lá assim como um monte de gente!"
"Só que esse monte de gente não amparou Santana quando ela caiu no asfalto. E você não estava mais no local quando a polícia chegou. Isso é suspeito. Precisamos pensar em algo."
"Você... você precisa continuar vida normal. Todos nós" – Mercedes se agitou – "Se esconder para parecer que tem culpa. Vem, me ajude aqui com Santana. Ela precisa tomar um banho e ir para o teatro. E você também" – inclinou-se na vigilante desacordada e começou a dar tapinhas no rosto dela – "San! San! Vamos lá garota. Você precisa ficar de pé."
Santana acordou. Estava grogue, dolorida, mole.
"Dê um pouco de água" – Artie pegou uma garrafinha na pequena geladeira.
Rachel, que continuava sentada ao lado da vigilante, fez com que Santana bebesse um pouco. Mal se deu conta de que estava morta de sede.
"Por deus" – Santana sussurrou – "preciso descansar..."
"Não pode. Não agora!" – Mercedes disse urgente – "Venha, vou te ajudar a tomar um banho e você, Rachel, precisa voltar para casa. E quando a polícia te intimar para depor, porque ela vai fazer isso, você vai dizer que estava passando no lugar com Artie."
"Artie?"
"É o lógico. Você não ficou preocupada com o amigo na cadeira de rodas e correu quando a polícia chegou. Eu te convenci a dar o fora porque entrei em pânico" – Artie explicou – "Eles vão me chamar para depor e vou contar exatamente a mesma história."
"Mas e os detalhes?"
"Não se preocupe. A gente se fala."
"Eu cuido de Santana, Rachel. Agora vai" – Mercedes falou urgente – "Ah, e não fale com ninguém da imprensa caso te abordarem. A exclusiva será para mim."
"Minhas coisas estão no carro de Santana" – ela disse receosa.
"Eu vou até lá contigo" – Artie se prontificou.
Rachel desceu o elevador com o colega. Era uma situação nervosa, estranha, e certamente perigosa. Mas ela não podia deixar de sentir uma irresponsável excitação, a adrenalina correr pelo corpo. Pegou as coisas dela ouvindo um esboço de história que Artie inventava. Uma bastante plausível. Então pegou o caminho do parque e foi para casa.
Quando chegou, se assustou ao ver Kurt, Finn e até mesmo Tina e Puck por lá. Todos preocupados com ela.
"Onde esteve?" – Finn perguntou com os pequenos olhos arregalados, quase a sacudindo.
"Com um amigo."
"Rachel, os vídeos estão em todos os lugares. Você estava na ponte segurando aquele vigilante" – Puck procurou dizer com mais calma.
"Aquele vigilante me salvou de um estupro. Era o meu modo de retribuir. Não deixar que ele caísse."
"Mas não é ele... é ela!" – Kurt ficou intrigado.
"Mas era... ele..." – Finn não conseguia conectar o vigilante que o confrontou com a figura feminina. Não eram a mesma pessoa.
"Estupro?" – Tina ficou confusa. Rachel tinha dito que os hematomas que teve meses atrás era pela agressão de um assalto, não de um estupro.
"Eu preciso tomar um banho e vocês estão me sufocando" – abriu caminho entre os amigos e fechou a porta do quarto.
A ida ao teatro foi tensa. Havia dezenas de perguntas e Rachel permaneceu em silêncio mortal. Era assim que achava que tinha de ser. Quando chegou ao local, deparou-se com Schuester e Emma. O clima era de tensão. Os diretores tentaram saber algo de Rachel que continuava a se recusar a falar. Artie, Mercedes e uma abatida Santana chegaram ao teatro e Rachel reprimiu a vontade de abraçar a vigilante.
"Bebeu todas no fim de semana, Santana?" – Puck tentou brincar para descontrair o clima.
"Fodeu todas no fim de semana, Puckerman?" – respondeu com a habitual má-criação.
Esperaram Brittany, Mike, Blaine, Matt e Quinn, que apareceram com Beth. Assim foi realizado o mais tenso dos ensaios gerais. O grupo concentrou-se em fazer o trabalho para estrear bem no fim de semana da semana. Santana tentou ao máximo não dar sinais das dores físicas, Rachel não mencionou o acidente na ponte, Artie, Brittany e Mercedes tentaram disfarçar o máximo a estranheza geral. De qualquer forma, ali , no teatro, era um lugar sagrado em que todos procuravam não trazer problemas externos para se concentrar exclusivamente na música e nos bons momentos, como o quanto era interessante ver Blaine pular e festejar quando cantava a última canção do espetáculo.
"Toda essa gente se engana/ ou então finge que não vê que eu nasci para ser o superbacana/ eu nasci para ser o superbacana/ superbacana, superbacana, superbacana/ super-homem, superflit supervinc, superist, superbacana/ estilhaços sobre Copacabana/ o mundo em Copacabana/ tudo em Copacabana, Copacabana."
Era um final carnavalesco para uma peça tensa sobre luta de classes, estudantil, de ideologias. O personagem de Blaine, que surgiu numa adaptação do original interpretado por Finn, era um jovem que começou a atuar no movimento estudantil porque se apaixonou pela personagem de Rachel Berry e acaba se tornando o líder de um grupo engajado. Na peça adaptada, o personagem de Finn é um namorado já estabelecido e o de Blaine é um jovem que entra por influência (não por amor) ao personagem de Rachel. A atuação dele era soberba e havia boatos de que um representante de uma universidade iria assistir a peça como parte do processo de aceitação do garoto prodígio.
Mas depois do carnaval sempre vinha a quarta-feira de cinzas. Era mais ou menos o clima dos presentes assim que encenaram a peça e se arrumaram para voltar para suas respectivas casas. Matt abraçou Quinn, que segurava a mão de Beth e os três partiram como uma jovem família. Matt evitou encarar Santana ou falar com ela. Brittany despediu-se para todos e partiu com Mike com a cabeça cheia de dúvidas. Artie pegou carona com a amiga, mas ele evitou conversar sobre a expulsão. Ela também não queria mais conversar a respeito. Estava emburrada demais por ter de agüentar Finn beijando a garota que ela gostava. Rachel foi embora tensa ao lado de Finn.
"Agora que estamos sozinhos, preciso saber porque você não respondeu aos meus telefonemas" – Finn disse inquisitivo – "Por um acaso estava com a tal vigilante?"
"Não. Eu só a vi na ponte, já disse."
"Por que eu não consigo acreditar?"
"Não estou pedindo que acredite em mim. Apenas que confie em mim. Dá para fazer isso?" – perguntou indignada.
"Não Rachel, não dá. Não quando há um grande acontecimento em que há gente falando a respeito o tempo inteiro e, de repente, vem um colega da oficina dizer que viu a minha namorada num dos vídeos postados na internet bem na hora do acidente ao lado do vigilante que, surpresa, agora todos sabem ser uma garota!" – berrou a última parte da frase mais como um desabafo do que para intimidar a namorada.
Finn encostou o carro há três quarteirões da casa de Rachel e Kurt. Respirou e procurou deixar entrar alguma racionalidade na mente enciumada.
"O que aconteceu, Rach?" – tentou dizer com mais calma, embora ainda estivesse tremendo de nervoso – "Por favor. Me explica! Eu mereço uma satisfação."
"Finn, tudo que eu tenho a dizer será para a polícia caso seja intimada."
Em silêncio, Finn ligou novamente o carro e andou os poucos quarteirões restantes. Rachel foi deixada na portaria do prédio. Os dois se despediram sem beijos ou desejos de boa noite. Finn esperou a namorada entrar para em seguida arrancar com a caminhonete. Estava frustrado, triste. Culpou o vigilante, ou a vigilante. O gênero não interessava. O que ele entendia é que depois que Rachel foi salva, ela se perdeu. Pensou que talvez tivesse sido melhor a violência ter acontecido, porque dessa forma o tal vigilante jamais teria entrado na vida deles. Então se deu conta do que acabara de desejar e ficou enojado de si mesmo. Frustrado, parou o carro em frente a um bar. Estava determinado em beber o máximo que conseguisse.
