Matt resmungou diante da televisão. Passava o noticiário e a cidade estava em polvorosa com a ação do vigilante. Comentaristas falavam de teorias mirabolantes sobre a legalidade de existir ou não um justiceiro, da possibilidade de haver mais de um e, especialmente, como uma mulher aparentemente de 1,60m e 50kg poderia sustentar sozinha um carro que pesava 1,9 toneladas por pouco mais de dez minutos? Isso levantou a hipótese de teorias conspiratórias de o governo sustentar um programa secreto de super-soldados em andamento, existência de mutantes e até alienígenas. A população aplaudiu a intervenção da vigilante no acidente e muitas pessoas já afirmam que existem dois vigilantes na cidade: um bom (que seria a garota) e um mau (que seria um homem).

"Tudo aconteceu muito rápido. Alguém perseguido por uma patrulha entrou na contramão e causou esse tumulto" – disse ao repórter, uma senhora que bateu o carro no engavetamento na ponte – "Depois das batidas, um carro derrubou o alambrado da ponte e estava prestes a cair no rio. Ela veio correndo por cima dos carros parados e conseguiu segurar a tempo. Foi impressionante. Mas quando a polícia chegou para prendê-la, ela se jogou" – e houve um corte da edição para outra pessoa, um homem – "Quando eu vi aquela garota segurando sozinha uma caminhonete, fiquei bobo, mas então reuni alguns caras fortes que estavam por perto para ajudar a segurar. Não sei conseguimos aliviar um pouco do peso, mas tentamos" – outro corte da matéria para o bombeiro que também foi considerado um herói ao ajudar a retirar o homem ferido da caminhonete – "Só rezei para que ela conseguisse, entende? Para que ela fizesse o trabalho dela e eu pudesse fazer o meu. Meu trabalho é salvar vidas. Não sei o que ela faz, mas espero que seja uma parceira. Será muito bem-vinda" – o repórter perguntou ao bombeiro se ele acreditava que o mascarado do mercado e a mascarada da ponte fossem as mesmas pessoas – "Um matou e a outra salvou. É tudo que sei."

Sete foram os feridos no acidente da ponte Sul, como é chamada, incluindo o homem retirado da caminhonete. O acidente provocou engarrafamento extenso, que foi o que atrasou a chegada de paramédicos e da polícia. No vídeo mais popular mostrava a vigilante por trás sustentando a caminhonete antes da chegada de quatro homens para tentar ajudar. Nesse mesmo vídeo também aparecia Rachel Berry, que se aproximou da vigilante e depois gritou por uma corda. Havia outro que mostrava a mesma Rachel amparando a vigilante para que não caísse no asfalto. Isso dois minutos antes da polícia finalmente chegar e forçar a vigilante se atirar da ponte.

Matt olhou com a atenção para as diferentes reações. Parecia uma virada de jogo provocado por Santana, que nunca conseguiu realmente se manter longe das patrulhas, diferente dele, que obedecia fielmente o chefe. Lamentou-se por não ter feito coisa alguma durante todo esse tempo. Enquanto a colega cruzava ruas e fugia da polícia, ele estava confortável nas improváveis férias ocupado demais em consolidar o namoro com Quinn. Sim, ele mais que ninguém sabia da importância de se partilhar a vida com alguém. Viveu sozinho tempo suficiente para valorizar cada minuto que passava ao lado da namorada. Mas havia responsabilidades acima dos receios. Resmungou pela enésima vez naquela noite de segunda-feira.

"Foi Santana quem fez isso, não é?" – Quinn sentou-se ao lado dele no sofá após ter colocado Beth para dormir – "Não vá pensando que não reparei o clima estranho nos ensaios hoje."

"Desculpe" – ele passou o braço nos ombros da namorada e a puxou para ficar junto a ele numa posição confortável – "Eu não queria ficar assim, mas é que Santana... a gente dá um duro danado para manter nossos segredos para ela nos expor ao mundo assim tão fácil. É inacreditável."

"Mas se não tivesse feito, duas pessoas poderiam morrer."

"Eu sei" – Matt desligou a televisão e suspirou – "Mas o que vai ser agora da gente?"

"Não acha que esse é um problema dela? Não viu as imagens? A polícia não vai procurar uma branquela como eu, ou um homem. Vai procurar uma menina de pele morena e sem tatuagens. Além disso, a mascarada teve as mãos esfoladas. Santana não estava assim hoje. Presumo que foi ação de Brittany, correto?" – Matt acenou – "Não acho que temos o que temer por hora."

"Mas e se eles a pegarem?"

"Se eles pegarem Santana, no dia seguinte eu e minha filha vamos embarcar num ônibus para outro lugar qualquer. Juro que faço isso."

"E nós?"

"Se você largar tudo e vier comigo, eu o amarei ainda mais. Mas se não, sabe que Beth está em primeiro lugar."

"Sei disso" – Matt abraçou Quinn e a beijou na testa antes de capturar os lábios.

"Você sabia que ela era um desses vigilantes?" – o detalhe veio à mente de Quinn e deixou Matt desconcertado.

O namorado passou a mão nos cabelos baixinhos (ele tinha costume de passar máquina 1 na cabeça, procedimento que realizou três dias atrás). Não sabia como responder direito após Quinn conhecer o grupo todo. Não era para ela saber assim. Não foi o que o chefe havia instruído e, por alguma razão, ele tendia a obedecer, diferente de Grant ou Artie. Definitivamente, diferente de Santana, que nunca obedecia.

"Matt?" – Quinn pressionou.

"Eu sabia que ela patrulhava pela cidade" – encarou os olhos cor de amêndoa da namorada e respirou fundo – "E eu ajudava às vezes."

"O quê?" – Quinn deu um salto.

"Santana era mais atuante que eu. Ela vigia a área da cidade próxima ao campus da universidade e eu dava uma olhada na área em que a gente. A diferença é que o meu poder permite impedir certas coisas de um jeito mais discreto e à distância. Santana usa os punhos."

"Quer dizer que vocês são os vigilantes?" – Quinn estava quase entrando em pânico – "Quer dizer que... aquele garoto?"

"Nenhum de nós teve algo a ver com aquilo!" – Matt apressou-se – "Eu te garanto, Quinn, que aquilo foi uma armação das mais sórdidas da polícia ou de alguém que ficou muito zangado com a nossa atuação na noite. Desde então que eu não tenho mais ido às ruas. Mas Santana... apesar de todos os avisos, ela não parou, e hoje o chefe, quando nos convocou, ele a expulsou do grupo."

"Chefe?"

Matt franziu a testa e percebeu que tinha dificuldade de processar a informação. O chefe era Martinez. Sim, isso era claro, mas, por alguma razão, ele não conseguia explicar para Quinn algo tão simples. Olhou a namorada impaciente por explicações. Chefe era Martinez. Tão simples, mas ele não conseguia. Simplesmente não conseguia. Era uma agonia que o fazia quase entrar em pânico. Quinn reparou que, na confusão interna do namorado, a mesa começou a flutuar, assim como vários objetos.

"Matt!" – ela estalou os dedos no rosto do namorado – "O que está acontecendo? Você está perdendo o controle e está me assustando."

"Quinn..." – ele ficou atordoado e todos os objetos caíram de uma vez, fazendo um pequeno estrondo.

Quinn levantou-se do sofá e checou o quarto de Beth para ver se a menina havia acordado. Estava certa. Disse à filha que estava tudo bem, que ela precisava voltar a dormir para acordar cedo e ir a escola. Passou alguns minutos com ela até voltar à sala e encontrar o namorado arrumando a pequena bagunça. Tinha alguns cacos de vidro em mãos e procurava jornais e sacolas para embrulhar.

"Matt?"

"Sinto muito por isso, Quinn. Mas há algo muito estranho. Grant tem razão."

"Grant?"

"Não acho que você deva mais ir a casa de Martinez."

"Matt, o que você diz não faz sentido. Eu te perguntei que chefe é esse e você me fala que eu não posso ir mais aprender a controlar meus poderes?"

"Martinez controla mentes. O chefe controla mentes. Martinez treina. O chefe treina. Martinez diz que tenta nos ajudar. O chefe formou uma equipe para ajudar as pessoas, os vigilantes. Martinez sabe sobre todos, o chefe sabe sobre todos."

"Você está querendo me dizer que Martinez é o chefe?"

"É!" – Matt pareceu aliviado.

"Por que não disse isso logo?"

"Esse é o problema, Quinn. Eu não consegui... acho que ainda não consigo. Eu sei, mas não consigo me expressar."

"Acha que ele usou o poder mental nele para criar espécies de bloqueios?"

"É por isso que você não pode mais entrar em contato com ele. Agora entendo o que Grant sempre questionou sobre o chefe. Entendo e verdade. Há de se ter regras para usar um poder como o dele."

"Você está suando" – Quinn passou a mão gentilmente na testa do namorado e depois pressionou a palma contra o pescoço – "Parece febril."

Matt começou a ficar enjoado de repente. Então correu em direção ao banheiro de Quinn e procurou o sanitário. A namorada estava assustada. Nunca o viu agir tão estranho daquela forma. Ainda ajoelhado diante do sanitário ele a encarou.

"Fique longe dele, Quinn. Por favor, fique longe."

Quinn deu descarga no sanitário. Então pegou um copo de água e outro de anti-séptico bucal. Matt bebeu a água e fez o bochecho para depois receber o abraço apertado da namorada.

"Venha" – ela o segurou pela mão e o conduziu até ao quarto – "Você precisa se deitar e descansar, Matt."

"Não... eu vou pra casa."

"Hoje, você fica!" – Quinn disse autoritária – "Vai dormir aqui comigo e não tem discussão. Amanhã a gente procura ajuda."

Mais um beijo e Quinn conduziu o namorado até a cama e foi dormir preocupada. Ela foi parar naquela cidade, entre outros motivos, para se esconder. No entanto, em questão de dias, encontrou pessoas como ela, só para descobrir que elas estavam por perto o tempo todo. Agora vinha a informação de que os amigos dela, sem falar no namorado, bancavam os justiceiros pela cidade. Quinn tinha medo de até onde isso poderia chegar. Tinha uma filha, uma criança esperta que captava coisas no ar, que perguntava e era observadora. Sentou na cama, passou a mão nos cabelos e pensou no que deveria fazer, no que seria o melhor para ela e Beth. Se esconder mais uma vez? Era uma possibilidade, mesmo que Quinn tivesse encontrado na cidade um bom namorado, bons amigos e um modo de viver com dignidade sem precisar depender dos outros. Ponderou e decidiu que iria ver como as coisas ficariam antes de fazer as malas e correr.

Grant desligou a televisão e ponderou as notícias daquela noite. No final das contas, considerou que a reação da sociedade frente a uma pessoa com dom sobre-humano foi positiva. Muito melhor do que ele esperava ou do que o chefe profetizava. Considerou que sair das sombras talvez fosse um passo a ser discutido pelo grupo. Em vez de condenar, Grant julgava que o chefe deveria agradecer Santana pelo favor, mesmo que a ação dela tenha sido uma reação instintiva a um problema. Um impulso natural para quem tinha o heroísmo como característica. Santana Lopez era o inverso do grupo: arrogante sem a máscara, altruísta com ela. Quanto a ele? Não sabia como se identificava. Talvez fosse o Batman por desconfiar até da própria sombra e por não ter algo de especial. Pensamentos tolos à parte, ligou o computador e chegou o e-mail de Artie sobre a investigação em que trabalhavam.

Truman Moore, o sujeito supostamente responsável por um projeto secreto de desenvolvimento de segurança na cidade era um presidiário condenado a sentença de morte por homicídios em série cometidos em outro estado. De jeito nenhum que esse sujeito tocaria programa secreto no governo da prisão. Ainda assim, o nome não era estranho. Pode ser que tenha visto o noticiário na época em que o caso era quente, só que duvidava disso. Havia algo mais. Retornou o e-mail e agradeceu Artie pelo empenho na pesquisa. Disse que discutiria teorias mais tarde. Naquele momento, precisava pensar. Serviu-se de um conhaque e olhou a vista da janela da pequenina sala em um dos conjuntos habitacionais com os prédios mais altos da região. Morava no vigésimo andar e tinha uma boa visão panorâmica do centro da cidade. Era possível ver a prefeitura dali. Talvez devesse pegar a dica de Hemon. Talvez as informações importantes não estivessem mesmo em rede para serem hackeadas. Talvez fosse preciso entrar no quartel general inimigo para achar algumas respostas. O chefe não aprovaria, claro. Voltou ao computador e acessou o mapa da rua da prefeitura. O resto da semana seria de estudos e mais investigações.

Brittany era a única do grupo que não pensava em conspirações e nem tinha visto o jornal. Tudo que achava que precisava saber a respeito do incidente com Santana foi dito pelo chefe, pessoa que ela confiava a vida. Ele não mentiria. Adorava Santana, mas deixou-se convencer pelos argumentos de que as ações impulsivas da vigilante iriam deixá-los em maus lençóis algum dia. Brittany aceitava o argumento por hora, até mesmo porque tinha nada em mente para contestá-lo. Não entendia de política, não entendia de processos administrativos, e o pouco que sabia sobre estratégias vinha do que o chefe lhe explicava. O mundo saber sobre pessoas com poderes soava como uma má idéia. Lembrou-se das inúmeras noites em que visitou hospitais junto com o chefe curando pessoas sempre que possível, mas com uma máscara no rosto. Se alguém soubesse a identidade dela, a trataria como um messias e a vida se transformaria num inferno. Ela nem sabia o que era direito com funcionava um messias.

O amante não poderia estar com ela naquela noite. Havia muita confusão a resolver graças a Santana. Sentia o corpo tenso e precisava relaxar de alguma forma. Não se sentia cansada, apesar dos ensaios no teatro. Desceu até o porão da própria casa, onde havia um grande espaço livre, o suficiente para dançar. Para não incomodar a família já recolhida nos respectivos quartos, colocou o fone no ouvido e ligou em uma das músicas favoritas e começou a se movimentar sem se preocupar com técnicas e movimentos precisos.

"Vou deixa a vida me levar pra onde ela quiser/ Estou no meu lugar/ você já sabe onde é/ não conte o tempo por nós dois/ pois a qualquer hora posso estar de volta/ depois que a noite terminar"

Balançava o corpo, girava a cabeça, pulava e tocava air guitar. Amava Skank, gostava de melodias alegres de músicas para cantar alto com toda força dos pulmões. Gostava da mensagem de liberdade, de leveza, desapego.

"Eu já estou na sua estrada" – ela cantava junto com a voz de Samuel Rosa – "Sozinho, não enxergo nada/ mas vou ficar aqui até que o dia amanheça/ vou esquecer de mim/ e você, se puder, não me esqueça"

Pensou com os próprios botões: como ela que amava tanto a própria liberdade podia se represar tanto? Será que a paixão que ela sentia pelo amante que jamais abandonaria a esposa por ela seria suficiente? Será que já não estava na hora de ela dar o fora dali, sobretudo agora que o cerco em torno dos vigilantes iria se fechar? Brittany não era uma covarde. Era apenas uma garota que seguia vivendo em busca de um sonho ou dois. Passou sete anos economizando para sair e, assim como Santana disse um dia, não tinha certeza se o amor que ela sentia era grande e suficiente para fazê-la ficar. Acelerou o passo da dança para suar mais, cansar mais. Precisa dormir e não pensar.

Mercedes precisaria fazer exercício algum para dormir. Era alta madrugada quando voltou da redação após escrever as matérias sobre a coletiva com o comissário e as repercussões do acidente na ponte, além da aparição da vigilante. As declarações do comissário Carl Burke foram razoáveis. Disse que a vigilante da ponte em teoria infringiu lei alguma ao simplesmente impedir que um carro despencasse da ponte, ao contrário, foi fundamental para salvar a vida de dois homens e o departamento de polícia, assim como o corpo de bombeiros, agradeceria se essa vigilante mantivesse esse tipo de ajuda, em especial por demonstrar força excepcional.

"Essa vigilante seria muito útil a sociedade, caso continue a atuar ajudando a polícia e não cruzando o caminho da lei para fazer justiça com as próprias mãos."

Mercedes, nesse momento, levantou a caneta e perguntou:

"Quer dizer que a polícia acredita que há mais de um vigilante atuando na cidade?"

"Tudo leva a crer que sim. Por isso é fundamental que a vigilante de hoje se apresente a polícia e revele sua identidade se estiver disposta mesmo a contribuir" – Burke foi categórico e isso provocou os demais repórteres a urgência de se fazer dezenas de perguntas.

As fontes dentro da polícia informaram a Mercedes que Burke não espera que a vigilante se apresente, mas que ficou particularmente interessado na força física da garota misteriosa e disse que ia levar a discussão ao prefeito. Lembrou-se do tal programa secreto. Talvez Burke soubesse de algo. Talvez não fosse um programa fantasma como ela imaginou a princípio. Talvez Hemon fosse mesmo uma fonte quente.

Entrou no quarto e encontrou Santana dormindo profundamente. Foi um dia cheio. O próprio chefe fez questão de informar sobre a exclusão de Santana, o que Mercedes não concordava. Mas decidiu não vociferar por hora. Havia muito que esclarecer, em especial porque o chefe ordenou as investigações, mas parecia que conduzia o grupo a não avançar em certas fontes. Qual era a motivação dele em não atacar todos os lados possíveis? Mercedes trocou de roupa e colocou o pijama. Santana ainda nem tinha notado a presença dela. Ela estava exausta pelo grande esforço físico, como se ela tivesse finalmente encontrado o limite da própria força: duas toneladas. Mercedes sequer conseguia imaginar o que seria segurar cem quilos. Pegou um creme na gaveta e retirou os lençóis da amiga. Santana vestia o short e a camiseta folgada de algodão. Sem calcinha ou sutiã. Era o pijama. Pegou a pomada e começou a passar nas pernas e nos braços da vigilante. O produto trazia uma sensação de frescor e tinha propriedades relaxantes e analgésicas. Era o que Mercedes usava quando sentia dores pelo corpo.

"Que confusão a senhorita aprontou..." – disse baixinho e voltou a cobrir a colega com o lençol.

Santana amanheceu com o corpo dolorido. O dia seguinte parecia ser o pior. Levantou os braços e as pernas devagar. Todo movimento incomodava. Com jeitinho, tratou de se alongar ainda na cama. Primeiro os braços e depois um pouco das pernas. Alongar ajudava a combater a dor física. Jurou para si mesma nunca mais segurar carro algum. Não que ela tivesse tentado antes. Olhou Mercedes do outro lado do quarto. Nem mesmo viu a amiga chegar.

"Bom dia" – a estudante de jornalismo sorriu timidamente – "Como está?"

"Bem. Estou... nossa tudo dói, mas estou bem."

"Ainda estou impressionada com os seus feitos ontem. Na ponte, até mesmo no teatro. Por um instante no ensaio eu achei que você não agüentaria."

"Foi um inferno" – levantou-se com dificuldade – "Ainda estou meio enjoada."

"É melhor você dormir mais um pouco."

"Daí eu ficarei com dor nas costas de tanto deitar. Não... preciso de sol, de ar fresco. E talvez de uma carona na cadeira de Artie. Preciso liga para Rachel também. Tenho de saber se ela está bem."

"Tenho certeza que ela está sob controle. Já arranjamos tudo caso ela seja intimada a depor."

Santana acenou e saiu do quarto. Desceu as escadas e atravessou a praça até o edifício onde ficava o refeitório da universidade. O dia estava nublado e com temperatura amena. Era um favor da mãe natureza ao corpo moído. Uma vez no refeitório, cumpriu a rotina de entregar o cartão de universitária da entrada e ter os créditos descontados. Pegou o café da manhã e colocou biscoitos e outros industrializados no bolso e na mochila. Aquilo serviria como lanche ou até mesmo almoço quando não tinha tempo. Olhou para uma mesa e achou interessante ver duas ex-namoradas reunidas: Jenny e a líder de torcida com quem dormiu uma última vez. Então franziu a testa: fazia um mês em que ela não dormia com Jenny. Tanto tempo assim? Acenou timidamente e seguiu o caminho até a mesa favorita, onde já se encontrava Tina.

"Ei!" – sorriu para a colega – "O que fez você madrugar hoje?"

"Eu que pergunto" – Tina respondeu – "Logo você que costuma aparecer quando todos estão terminando o café."

Artie foi o próximo a aparecer à mesa. Ainda estava preocupado com a colega. Era uma situação desconfortável saber que uma das grandes amigas estava fora de algo que eles consideravam importante e que ele não levantou a voz para defendê-la. Ou não conseguiu, o que achou estranho. Ele defenderia Santana de olhos fechados sob tortura, mas ali, naquele momento com o chefe, não conseguiu se manifestar. Apenas Grant reagiu. Sim, Artie ajudou mais tarde e lembrou-se que teria de falar com Rachel para combinar melhor as histórias.

Santana assistiu as aulas e o dia corria bem, até que, no início da noite, decidiu ligar para Rachel para saber se estava tudo bem. Sabia que ela estava no trabalho àquela altura, mesmo assim resolveu arriscar. Ninguém atendeu. Não quis tentar mais vezes porque não queria dar a impressão de estar obcecada ou algo do gênero. Talvez Rachel ligasse mais tarde.

Rachel pegou o celular, viu a ligação, mas decidiu não retornar. Não poderia. Seria melhor ficar longe de Santana por algum tempo para evitar mais confusão. Olhou no espelho do banheiro dos funcionários do restaurante e pegou o estojo de maquiagem e retocou a pintura. Não ficaria bem a garçonete aparecer diante dos clientes com um hematoma no rosto fruto de uma agressão física. Pegou a maquiagem, colocou na bolsa ao lado da carta de intimação que a polícia deixou no apartamento naquela manhã. Respirou fundo.