Quinn achou estranho que Rachel apareceu vez alguma na livraria naquela semana. Por mais que às vezes a pequena diva do grupo teatral enchesse a paciência, ela era a única amiga que considerava naquela cidade. Não se tratava do lanche ou de qualquer outro presentinho endereçado a Beth. Era a presença da jovem por si só. Desconfiava que na segunda-feira ela não a visitou por estar com Santana. Era coincidência demais as duas estarem naquela ponte e tinha aquele vídeo de Rachel amparando a vigilante. Sim, Quinn tinha quase certeza que Rachel conhecia a identidade secreta da colega super-forte, algo que ela própria só foi saber ainda naquela segunda-feira depois de pressionar o namorado. Rachel também não apareceu na terça-feira. E agora, passando o horário de almoço dos alunos da faculdade comunitária, nenhum sinal. Estava preocupada.

Atendeu um cliente idoso e ficou preso a ele por quase quinze minutos a procura de exemplares na prateleira. Queria ler alguma coisa de Érico Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro e Graciliano Ramos, além do raro disco "Alegria, Alegria Volume 2 ou Quem Não tem Swing Morre Com A Boca Cheia de Formiga", do Wilson Simonal. A loja, por um acaso tinha um único exemplar que o tal cliente havia ligado mais cedo e pedido para reservar. Mas ele só explicou isso quando Quinn praticamente revirou a prateleira de MPB em busca do CD perdido, que na verdade estava na sessão de rock.

Ossos do ofício. Ela gostava mesmo era dos clientes que escolhiam livros dos balcões de destaques e pronto. Era para isso que as editoras pagavam tão caro às redes de livrarias: para ter os livros, em geral os bestsellers, bem expostos. Quinn não se importava em buscar um determinado livro na prateleira, desde que fosse na sessão em que trabalhava no momento e que tinha algum controle. Ao menos o cliente saiu satisfeito e ela pôde registrar as compras como atendidas por ela. A loja tinha uma meta geral de vendas e metas de atendimento. Quando mais registros de compras feitas na mão de um determinado atendente, melhor para o funcionário que ganhava alguns bônus no final do mês.

"Parece que algum professor pediu livros hoje" – comentou uma colega – "Detesto quando acontece isso."

"Eu não" – Quinn ponderou – "Se tiver sorte de pegar os alunos mais nerds, eles sempre levam algo a mais, o que é bom para o registro de metas."

"Às vezes você se comporta como se estivesse num quartel, Fabray" – a colega desdenhou – "Nem quando o seu namorado vem aqui você relaxa. Ou aquela menina" – Quinn não respondeu ao comentário – "Aliás, você viu que aquela sua amiga apareceu no vídeo mostrado no noticiário sobre a vigilante na ponte?"

"Eu vi o noticiário, mas não conversei com ela a respeito" – Quinn procurou encerrar o assunto.

Depois de atender um estudante em busca do livro mais procurado do dia e algo mais, foi até a copa dos funcionários. Precisava tomar água e usar o banheiro. O resfriamento do filtro estava quebrado e só havia água natural disponível. Em outras palavras: água quente, sobretudo porque o sol da manhã na janela batia exatamente no garrafão. Pegou um copo descartável, serviu-se da água morna e se concentrou. Deixou a água geladinha em alguns segundos. Sorriu para si mesma e bebeu a água com gosto, para horror de um colega de trabalho que acabara de reclamar da temperatura o líquido.

"Como você consegue?" – perguntou quase enojado.

"É só fingir que é chá" – Quinn respondeu.

O colega voltou ao trabalho e ela pensou que talvez poderia fazer um favor aos demais colegas. Encostou a mão no garrafão, fechou brevemente os olhos e sentiu a energia fluir por um ou dois minutos. Experimentou a água. Nada mais do que um quarto de copo. Geladinha, e ficaria assim por um tempo.

O celular que ficava no bolso da calça vibrou. Não era permitido usar o aparelho em meio ao expediente, mas o supervisor fazia vistas grossas no caso das rápidas mensagens de texto. No caso, era uma mensagem de Matt avisando que não seria possível buscá-la na saída do expediente porque estava preso na obra. Não que fosse um problema para Quinn. Quando o horário chegou, foi ao vestiário, trocou de roupa e andou até o ponto de ônibus para buscar a filha. Viu Rachel atravessando a rua, carregando a bicicleta que raramente usava. Quinn não perdeu a oportunidade, atravessou a rua para se encontrar com a pequena diva.

"Oi Rachel" – a pequena diva deu um pequeno salto para trás ao ser surpreendida pela amiga.

"Oi."

"Você não apareceu" – disse em tom de cobrança – "Senti sua falta."

"Estou atarefada" – Rachel evitou contato visual.

"Sem tempo nem para dizer oi, como costuma fazer?" – achou estranho o rosto cheio de pó em alguém que usava maquiagem tão leve que mal dava para perceber. Segurou no braço da amiga – "Rachel, aconteceu alguma coisa contigo?"

"Não" – respondeu um pouco rápido demais para o gosto de Quinn.

"Então porque está usando essa camada grossa de maquiagem? Você não é disso."

"Foi só uma mudança..."

"Claro que..." – Quinn interrompeu Rachel – "Algumas mulheres costumam usar grossa camada de maquiagem para esconder hematomas, o que não é o seu caso, certo?" – Rachel olhou para o chão por Quinn ter acertado na mosca. Nada como a experiência pessoal: a mãe dela vivia suando tal recurso para esconder as conseqüências das surras que o pai dava quando bêbado. Ou quando ela própria levou uma surra do namorado quando este perdeu o controle e a acusou de estragar a vida dele por ter engravidado "intencionalmente" – "Você sabe que pode conversar comigo, não é mesmo?" – Rachel acenou timidamente – "Então?"

"Eu já disse que não foi nada."

"Por um acaso isso foi obra de Finn?"

"Não!" – Rachel respondeu urgente – "Ele não encostaria um dedo em mim por mais zangado que estivesse. Isso não foi obra dele. Foi um acidente infeliz que aconteceu ontem na faculdade. Só isso."

"Acidente?" – Quinn estava aliviada por não ter sido Finn, mas ainda intrigada com as origens do hematoma – "Que tipo de acidente?"– Rachel silenciou-se envergonhada e virou o rosto – "Rachel? Alguém bateu em você?"

"Foi um acidente. Ele estava furioso e me empurrou. Eu bati o rosto contra a parede."

"Ele? Rachel, me explica direito, por favor. Você pode confiar em mim."

"Se eu te contar, você promete não comentar? Especialmente com Finn ou com o pessoal do teatro?" – Quinn acenou.

"Então?" – Rachel parou a caminhada e olhou para o chão.

"Um colega de classe não é fã do vigilante, porque o pai dele foi preso no caso da pedofilia. Ele viu o vídeo, assim como todo mundo nessa cidade, e presumiu que eu conheço pessoalmente o vigilante. Então ele me acusou de coisas."

"Ele bateu em você por causa disso?" – Quinn estava enjoada e, de certa forma, com raiva de Santana por ter, de alguma maneira, envolvido Rachel.

"Ele e dois amigos me encurralaram ontem e tentaram pressionar para saber se conhecia a vigilante. Mas quando me empurraram, chegou o zelador e me salvou."

"Bastardos" – Quinn deu um chute numa pedrinha.

"Foi nada demais. Foi só um idiota filho de um criminoso magoado porque a justiça foi feita. Ele devia estar mais furioso com o pai dele do que com o vigilante, mas têm pessoas que embananam as coisas, você sabe... Eu estou bem. Sério! Mas Finn não pode saber ou ele vai ficar ainda mais paranóico em relação ao vigilante... Também não sei se vou ao ensaio hoje. Não quero receber os meus amigos mais próximos o mesmo olhar que você me deu agora a pouco."

"A gente já usa um quilo de maquiagem para a peça e você tem medo que reparem? Ou você tem medo que alguém mais em específico repare e vá tomar providências que aí sim seriam desastrosas?" – Rachel se agitou nervosa e Quinn resolveu jogar para verificar uma hipótese que surgiu. Ela segurou a mão de Rachel e falou firme – "Você tem medo que alguém muito, mas muito forte, apesar de não parecer assim, tome providências? Uma certa garota e pele morena?"

"Eu não sei do que está falando" – Rachel tentou se libertar.

"Estou falando da vigilante, Rachel. Você sabe quem ela é."

"Nunca vi o rosto dela" – foi categórica – "Agora, se me dá licença, estou atrasada."

"Aonde vai?"

"Não acha que está sendo inquisitiva demais, Fabray?"

Quinn paralisou por um momento. Rachel nunca a chamou pelo sobrenome e isso a magoou. Soltou Rachel e deu um passo para trás. Endireitou a postura e achou melhor liberar a amiga.

"Tudo bem. Mas vou te dar um conselho prático sobre o ensaio. Se você faltar, vai criar especulações que não deseja. Em especial da pessoa que mais quer esconder esse hematoma. Aparecer e evitar talvez seja uma política mais inteligente do que simplesmente não aparecer e levantar ainda mais perguntas."

Rachel acenou. Subiu na bicicleta e continuou o caminho dela. Quinn a observou ir embora. Tinha quase certeza de que Rachel conhecia ao menos a identidade secreta de Santana, mas não sabia até quando isso seria importante. Se fosse verdade, Rachel mostrou ali que está seriamente disposta a manter o segredo, não importa a pressão. Voltou a parada de ônibus. Beth a esperava e as responsabilidades com a filha vinham em primeiro lugar.

A delegacia central de polícia ficava a seis quadras da faculdade comunitária: menos de dez minutos de bicicleta. Rachel decidiu pedalar para tentar aliviar a tensão. Sentia um peso no estômago e as mãos estavam frias. No caminho pensou em toda história que deveria contar ao delegado. Repassou todos os detalhes chaves na mente, seguiu as instruções de Mercedes para não falar com ninguém na imprensa, algo que tentaram fazer. Precisava manter a calma. Respirar. Ia dar tudo certo. Trancou a bicicleta no poste e entrou no prédio da delegacia central de polícia. Kurt esperava por ela à porta. Os dois se abraçaram em silêncio e entraram de mãos dadas no interior do prédio.

"Meu nome é Rachel Berry" – se apresentou a recepcionista – "Tenho uma intimação para prestar um depoimento" – entregou o papel.

"Claro querida, aguarde um instante."

Rachel sentou-se num dos bancos de espera. As pernas estavam bambas para ficar em pé.

"Vai dar tudo certo" – Kurt abraçou a amiga – "Lembre-se que você não está sob investigação e é uma cooperadora dos trabalhos. Eles vão te tratar bem."

Rachel ouviu em silêncio as palavras do amigo. Sim, ela estava com medo. Morrendo. Já havia passado por tal situação antes, mas desta vez as coisas pareciam diferentes, mais reais. Esperou quinze minutos até ser chamada. Um investigador foi até ela, a cumprimentou e a conduziu até o interior do prédio. Rachel deu uma última olhada para trás e recebeu um sorriso confiante, mesmo que ansioso, do amigo. Ela não estava sozinha. O investigador pediu para que ela entrasse numa saleta de interrogatório, dessas com um espelho na parede em que ela sabia que tinha mais alguém observando. Tinha vistos filmes policiais demais com Finn para entender o clichê. Da primeira vez não foi assim. Ela simplesmente sentou-se em frente a mesa do investigador em meio ao resto da repartição e disse as mentiras que tinha de dizer. Ali, naquela sala, as coisas pareciam mais sérias e intimidadoras. Sentou-se na cadeira e foi deixada sozinha por alguns minutos. O investigador voltou com um copo descartável com água e ofereceu.

"Obrigada" – aceitou e tomou dois goles – "Estou sendo acusada de alguma coisa, senhor?" – ela perguntou receosa.

"Por que acha que está sendo acusada?"

"Porque o senhor me trouxe a essa sala de interrogatório e deve ter um monte de gente nos observando do outro lado daquele espelho. É por isso que pergunto. Devo chamar o meu advogado?" – ela nem tinha um, mas talvez os pais dela conhecessem alguém bom o bastante.

O investigador riu e olhou em direção ao espelho.

"Claro que não está sendo acusada de coisa alguma, senhorita Berry" – sentou-se na cadeira em frente – "Essa sala é pela importância do seu testemunho. Preciso avisar que nossa conversa está sendo gravada para sua própria segurança, mas se quiser chamar um advogado, não vou me opor. Podemos esperar até a chegada de um da sua escolha ou ainda podemos chamar o defensor público."

"Acho... acho que não será necessário."

"Correto" – o investigador sorriu confiante – "Como vê, não ignoramos que existem algumas coincidências entre a senhorita e o vigilante, ou a vigilante. Primeiro o caso da invasão a sua casa e agora a aparição na ponte em que a senhorita age como se fosse próxima, solícita."

"Havia um acidente e eu queria ajudar. Não sabia que ser solícita nesse sentido era um crime" – respondeu com estranha firmeza.

"Temos o seu depoimento sobre a invasão" – mostrou o texto impresso – "Agora quero o seu depoimento sobre o caso da ponte. O que aconteceu?"

"Eu estava comum amigo, Artie Abrams, que é paraplégico, quando vimos um carro tesourando o trânsito com uma patrulha imediatamente atrás. Não muito depois, antes mesmo de a gente atingir a ponte, ouvimos os barulhos das batidas. Eu encostei o carro, assim como outras pessoas fizeram. Foi quando vimos o acidente acontecer. Foi quando eu deixei o carro e também corri até a ponte, apesar dos protestos do meu amigo. Meu pai é médico e eu sou treinada a fazer primeiros socorros. Meu pai pode confirmar isso. Ele mesmo me treinou."

"A vigilante já estava lá?"

"Sim senhor. Eu me aproximei para perguntar como ajudar, mas ela só gritava por causa do peso. Foi quando eu gritei por uma corda. Pensei que se amarrasse uma corda no carro a algum poste ajudaria a vigilante... Estava uma confusão por lá. O bombeiro também gritava por uma corda. Foi ele, na verdade, quem praticamente tirou sozinho os dois homens lá de dentro do carro pendurado."

"Depois você parece ter tomado a frente da vigilante num momento das imagens. E quando ela caiu, você a segurou. O que aconteceu?"

"A vigilante estava esgotada com o esforço e algumas pessoas cogitaram aproveitar o momento para tirar a máscara. Eu não achei aquilo justo após o resgate, não era racional e não era da conta de ninguém saber a identidade dela."

"Você tem algum tipo de amizade com a vigilante?"

"Eu não a conheço."

"Você sabia que a vigilante era uma mulher?"

"Não senhor."

"Você acha que o vigilante que invadiu o seu apartamento e a vigilante da ponte são as mesmas pessoas?"

"Não sei dizer. Acredito que sejam pessoas diferentes."

"Você conhece o vigilante que invadiu o seu apartamento?" – as perguntas vinham em velocidade cada vez maior, o que deixava Rachel tonta.

"Não senhor" – ela já respondia com urgência.

"Você apóia as ações do vigilante?"

"Sim senhor" – já respondia de supetão, quase sem pensar.

"Você acha que o vigilante faz um bem maior a sociedade do que a polícia?"

"Acho."

"Você odeia a polícia?"

"Não!"

"Por que você odeia a polícia?"

"Eu não odeio a polícia!"

"Por que você gosta do vigilante?"

"Por que ele me salvou!" – Rachel disse com urgência e depois fechou os olhos. Falou demais e o detetive colocou um leve sorriso no rosto. Tinha pegado a garota e agora teria uma informação fresquinha.

"Se importa em dizer como o vigilante te salvou?"

Rachel fechou os olhos e suspirou. A voz saiu fragilizada.

"Há cerca de dois meses, eu voltava do trabalho no restaurante e costumava passar pelo parque próximo a minha casa por ser um atalho. Um homem me assaltou, quis a minha mochila. Eu não reagi e entreguei o que ele pediu, mas parece que ele mudou de idéia. Esse homem me arrastou para fora da calçada e me jogou numa parte mais isolada e fechada pela vegetação. Ele... ele... ia me estuprar."

"Estuprar?" – o detetive foi cauteloso – "Você poderia descrever o que ele fez para a senhorita?"

"Ele... ele" – os olhos de Rachel se encheram d'água. Ainda era doloroso lembrar – "esse moço me bateu, me imobilizou, rasgou parte da minha blusa e a minha calcinha. Ele... ele me penetrou com o dedo quando eu estava imobilizada e forçou as coisas lá dentro para, para... você sabe. Eu cheguei a sentir a... coisa dele começando a entrar na minha vagina. Foi quando o vigilante tirou ele de cima de mim. Eu rolei para o lado e comecei a chorar. Eu não sabia que era o vigilante ainda... foi confuso. Mas podia ouvir os sons do homem sendo espancado. Quando a surra terminou, o vigilante veio até mim... tive medo... medo de que ele fosse apenas mais um estuprador. Mas tudo que ele fez foi me pegar no colo e me levar para casa."

"Ele sabia onde você morava?"

"Eu... eu... disse o endereço."

O investigador acenou e fez algumas anotações. Então bateu a caneta na mesa.

"Não há queixas da senhorita sobre uma tentativa de estupro."

"Eu não registrei o boletim de ocorrência."

"Por quê?"

"Alguém já tentou te violentar, detetive?" – Rachel falou dura, mas ainda lutando para engolir o choro – "Sabe o que é sentir nojo da própria pele por dias e mais dias? Ter pesadelos? Acordar gritando, porque sonhou mais uma vez com aquele monstro. E no sonho ele sempre conseguia o que tentou? Você sabe o que é sentir isso? Saber que a culpa não é sua e ainda assim sentir vergonha? Eu não queria me expor ainda mais. Só queria esquecer."

O detetive emudeceu. Reconheceu em Rachel os mesmos sinais de tristeza e desespero de mulheres que sofreram abuso sexual que ele teve a oportunidade de atender, embora não fosse um especialista nesse tipo de investigação. Não viu traço de mentira ou fantasia na garota em frente.

"O estuprador usava máscara?"

"Não senhor, só um boné."

"A senhorita saberia reconhecê-lo?"

"Vocês o acharam amarrado a um poste com a cara quebrada e o cartaz escrito estuprador. Ele foi mandado para o hospital e depois libertado, lembra-se?" – disse com dureza.

O investigador cerrou os punhos porque ele foi um dos agentes que conversou com Howard Battes no hospital e o liberou. Sabia que era um desempregado desesperado e fodido. Mas não tinha passagens criminais anteriores, por isso o liberou e se concentrou apenas no vigilante. Quis se bater por essa. Por outro lado, como sustentar uma acusação de estupro se não havia uma vítima para endossar?

"A senhorita sabe que o libertou ao não registrar a queixa" – disse ainda com cautela.

"Eu sei o que fiz. Eu errei e o vigilante agora paga pelo preço."

"É por isso que você o ajuda? Por culpa?"

"Eu não o ajudo!" – Rachel insistiu.

"A senhorita acha que ele invadiu o seu apartamento por pensar que encontraria um refúgio seguro?"

"Eu não leio os pensamentos das pessoas, detetive. E também não sei se são um ou vários."

"Você acha que a vigilante que te livrou da consumação do estupro oi a mesma que atuou na ponte?"

"Quero acreditar que sim."

"A senhorita ajudou o vigilante no dia em que ele se refugiou no seu apartamento e bateu no senhor..." – consultou a ficha – "Kurt Hummel?"

"Não sei dizer se ajudei" – Rachel respondeu seca – "Só sei que não atrapalhei."

"Qual a sua relação com o vigilante?"

"Nenhuma" – disse seca.

"Senhorita Berry, se me permite..." – o detetive pegou um lenço e passou na maquiagem borrada, e revelou um pouco do hematoma no olho – "Parece que levou uma pancada no rosto. Quer falar a respeito?"

"Um colega na faculdade me empurrou contra a parede."

"Sabe a razão?"

"O pai dele foi um dos presos pelo escândalo do grupo que praticava pedofilia. Ele achou que eu fosse amiga do vigilante ou coisa assim. Resolveu descontar a raiva em mim por causa do vídeo na ponte."

"E você estaria disposta a apanhar em nome de alguém que afirma categoricamente não conhecer e não ter envolvimento algum?"

"Vou te dizer o que sei. Eu saio do meu trabalho sempre depois das onze da noite em dias que não tenho ensaio no teatro, que é quando entro mais cedo no serviço para compensar a carga horária. Eu não tenho um carro, porque vendi o meu ano passado por necessidade financeira. Eu passo por aquele parque toda semana nesse horário porque nem sempre tenho uma carona e ali é como posso cortar caminho. E em todo esse tempo, nunca vi um de vocês circulando por ali. Nunca! Nenhuma vez. Zero. Um dia, quando a merda aconteceu, não foi um de vocês que me salvou. Foi um vigilante que aparecia vagamente nos noticiários e que até então eu achava ser um bandido que queria chamar atenção para si. Esse mesmo vigilante continuou a aparecer no noticiário por ter prendido ladrões de carros, assaltantes, e todo tipo de gente que torna nossas ruas perigosas. Então um belo dia um vigilante invadiu o meu apartamento porque estava sendo perseguido por vocês. Claro que eu não fiz nada para atrapalhá-lo e, veja o que aconteceu: ele foi embora sem levar coisa alguma. Só agrediu o meu amigo, Kurt, porque ele ficou histérico. Então, no início dessa semana, eu vejo um vigilante segurando uma caminhonete com os próprios punhos, impedindo que o carro despencasse 20 metros de uma ponte com duas pessoas lá dentro. A mesma pessoa que pode ter me salvo de um estupro, que pode ter descoberto um grupo que estuprava crianças e fazia vídeos e fotos disso para compartilhar com outros pervertidos doentios. O senhor ainda me pergunta se eu estou disposta a apanhar para defender alguém assim? Você ainda tem coragem de me fazer tal pergunta?"

O detetive calou-se e acenou. Ofereceu mais um copo de água para a jovem, esperou ela se recobrar antes de liberá-la minutos depois. Rachel saiu da delegacia amparada por Kurt, mas insistiu em ir ao trabalho. Ao menos, por lá, servindo mesas, ela ocuparia a mente. Na primeira oportunidade, ligou para Artie e falou rapidamente que prestou o depoimento e contou a história combinada, mas que o detetive não ficou interessado nessa parte da história. Então viu a quantidade de textos e chamadas não atendidas de Santana. Resolveu ignorar por hora.

"Rachel!" – ouviu a voz urgente da amiga – "Por onde andou? Estava preocupada."

"Só para avisar que estou bem. Hoje prestei depoimento na polícia e segui a instruções de Artie."

"Ok, obrigada, mas você está realmente bem?"

"Te vejo no ensaio hoje, Santana."

Santana ficou preocupada após receber a ligação. Entendeu a mensagem e agradeceu pelo toque, mas a impressão que tinha era de que alguma coisa estava muito errado com Rachel. Ficou preocupada pelo resto do dia, tentando se segurar para não ir atrás da menina pelo qual gostava num sentido todo romântico. Ela a veria nos ensaios, mas duvidada que tivesse a chance de conversar propriamente. Esperou ansiosamente até a hora de ir ao teatro, como sempre, junto com Mercedes e Artie. Na chegada ao teatro, tentou conversar com Rachel, mas foi abordada primeiro por Quinn.

"Deixa ela em paz" – a rainha do gelo advertiu.

"O quê?" – Santana franziu a testa.

"Deixa ela em paz!" – repetiu com mais ênfase e segurou no braço da colega. Depois sussurrou – "Eu sei que você é a vigilante e Rachel já está encrencada suficiente por sua causa."

"Larga meu braço" – Santana disse baixinho. Sentia a mão de Quinn ficar tão geladas a ponto de começar a queimar a pele. Então puxou o braço de maneira ríspida e advertiu – "Eu sei que somos ligadas a algo comum, mas isso não quer dizer que eu tenha de ser sua amiga. Por isso, cuide dos próprios negócios, Fabray, e não se meta nos meus."

Rachel estava ali, ao lado, dançando e cantando com ela, mas era como se também estivesse a milhas distante. Foi interessante observar que Finn também parecia perdido. Era como se Rachel estivesse rejeitando ambos. Ela só conseguiu uma pequena oportunidade no primeiro intervalo e não a perdeu. Viu a diva sozinha e a puxou para uma das saletas vazias dos bastidores.

"O que aconteceu?" – Santana sussurrou – "Por que você está assim?"

"Você quer realmente discutir isso aqui e agora?" – Rachel falou demonstrando sinais de desgaste e cansaço.

"Não me de deixe de fora, Rachel, pelo amor de deus. Sobretudo quando o problema é por minha causa e culpa."

"Você não é culpada de coisa alguma, San" – Rachel se aproximou e tocou o rosto aflito da vigilante – "Vamos fazer o seguinte: sábado, depois do trabalho. Será a última vez que eu vou cantar por lá antes da temporada da nossa peça e eu preparei um set especial. Vá me ver e depois a gente conversa."

Santana aceitou os termos e se resignou, apesar da angústia não ter passado.

Após dois dias enterrado na prefeitura à procura dos pontos fracos e possíveis locais a procurar arquivos sigilosos, Grant fez um esboço do plano para entrar no local durante a noite, mas precisaria de ajuda. Tinha certeza que Artie concordaria. O problema seria convencer alguém como Matt a entrar na missão. Seria mais fácil convencer Santana, mas telecinésia seria mais útil naquele caso do que força e velocidade. Tudo era adaptável, porém. Rascunhou tudo num caderno e grifou domingo: 23 horas.