Exatamente às seis horas da noite daquele domingo, Matt e Quinn estavam na casa dele após uma tarde em que aproveitaram a ausência de Beth (que estava numa festa de aniversário) para ficarem sozinhos e se curtirem. Quinn beijou o namorado demoradamente na boca antes de deixar a cama para tomar um copo de água. Pegou uma camiseta dele que estava no chão e a vestiu para cobrir o corpo nu. Não gostava de ficar exposta fora de um quarto e sabia que havia vizinhos curiosos no prédio ao lado. Além disso, não tinha certeza se a cortina da janela estava ou não fechada. Estava aberta, tal como a própria janela.
Foi até a cozinha espartana do namorado e pegou um pouco de água na geladeira. Apreciou o líquido gelado descer a garganta. Reparou na mochila de Matt pelo chão da sala. Estava aberta e era possível ver a máscara lá dentro por cima de uma peça jeans. A curiosidade tomou o melhor dela e resolveu conferir melhor. Era uma jaqueta jeans escura, luvas, a máscara e duas páginas impressas. Quinn fechou a expressão ao ler as informações naquelas folhas.
"Quinn, vi agora que temos vinte minutos para buscar..." – Matt entrou na sala terminando de vestir a bermuda e silenciou-se ao ver a namorada perto das coisas de vigilante.
"Você vai correr pela cidade como vigilante?"
"Quinn..."
"Não minta para mim, Matt" – disse nervosa – "Você vai? Achei que tivesse me dito para ficar longe de Martinez, que ele podia ser perigoso."
"É justamente por isso que vou sair hoje a noite" – se aproximou com cautela – "Quinn, ainda não sei o que exatamente é, mas Grant, Artie e Mercedes fizeram algumas investigações e descobriram pistas que indicam que podemos estar em perigo. Todos nós."
"Por que não me disse nada? Nossa relação é de confiança! Se esqueceu? Por que não me disse?"
"Não queria envolver você ou Beth."
"Mas se existe perigo para você, isso deve me incluir também. Então eu tenho o direito" – amassou as folhas contra o peito do namorado – "O que é isso?"
"Um resumo das investigações de Grant e Artie. Há um programa fantasma de defesa do governo comandado por um tal de Truman Moore. Aparentemente ele é um presidiário no corredor da morte em outro estado, o que não faz muito sentido. Grant quer descobrir mais informações a respeito e precisa da minha ajuda para conseguir."
"Truman Moore?"
"Nome estranho, não? O mais estranho é que todos nós temos a impressão de que já vimos esse nome em algum lugar, mas ninguém consegue se lembrar onde."
"Como na vez em que você passou mal porque Martinez colocou uma espécie de bloqueio na sua cabeça que faz você não conseguir dizer que ele é o chefe dos vigilantes?"
"Não sei se é o caso. Mas a sensação de saber o que é Truman Moore é forte. No entanto..."
Quinn encarou o namorado e pegou a máscara. Olhou para o pedaço de tecido e pensou brevemente a respeito da situação.
"Truman Moore?" – Quinn repetiu e a insistência deixou Matt em alerta.
"Quinn, se você sabe do que se trata..."
"Não é óbvio? Há um quadro no mezanino onde treinamos na casa de Martinez com uma arte dessas pop em que se lê 'Truman Moore is the man'."
"Que quadro?" – Matt estava genuinamente confuso.
"No mezanino. Não é um quadro pequeno. Tem certeza de que não se lembra?"
"Eu não sabia que havia quadros no mezanino..."
Matt fechou os olhos. Aquele poderia ser mais um bloqueio colocado na mente dele. Mas não foi colocado ainda na mente de Quinn talvez pela falta de tempo. Talvez porque não foi possível completar o processo. Matt não entendia bem o poder mental do chefe. Tudo que sabia é que ele não conseguia ler pensamentos de alguém que não estivesse no mesmo ambiente e a ligação mental se tornava mais forte com o toque, a ponto de o chefe poder realizar um ataque psíquico que ele só viu acontecer uma vez contra Santana. Ainda lembra se do jeito em que ela gritou segundos antes de desmaiar.
"Quinn. Você tem certeza disso?" – Matt segurou a mão da namorada.
"Claro. É um quadro interessante. Lembro que ele me chamou atenção na primeira vez em que fomos lá."
Matt acenou e pegou o celular. Discou para Grant na linha segura.
"O que foi Matt?" – Grant atendeu. Não esperava falar com o companheiro até as oito horas, horário em que marcaram de se encontrar.
"Truman Moore é um quadro no mezanino de Martinez."
"O quê? Não há quadros no mezanino de Martinez."
"É aí é que está, Grant. A gente não consegue enxergá-lo ou se lembrar dele. Mas Quinn consegue. A mente dela não foi bloqueada para isso" – ouviu um barulho do outro lado – "Grant?"
"Pode vir mais cedo? Como agora?"
"Vou fazer o meu melhor" – desligou o celular e encarou a namorada – "Preciso de um favor seu..."
Exatamente às oito horas da noite, Santana estava por cima de Jenny. As duas voltaram de uma tarde de compras. Subiram as escadas do edifício de dormitório de estudantes mais abastados financeiramente com várias sacolas em mãos (Santana carregava a maioria). Entre novas roupas e sapatos (Santana ganhou óculos escuros novos de presente), as duas se atracaram no corpo uma da outra e o embate terminou na cama. Naquele instante, Santana sugava um dos seios da namorada enquanto três dedos trabalhavam vigorosamente para dentro e para fora. O movimento fazia que o polegar escorregasse sobre o clitóris altamente lubrificado, aumentando ainda mais a sensação de prazer. Santana podia ver o suor correr no corpo de Jenny e do jeito que ela gemia alto e os músculos se contraiam involuntariamente, ela sabia que a namorada estava muito próxima de ter o segundo orgasmo da noite.
"Ah, quase, isso San, não para!"
E o celular toca fazendo Santana diminuir os movimentos e retirar a boca dos seios da namorada. Não era qualquer toque. Aquela melodia significava que alguém estava tentando se comunicar por meio da linha segura. Considerando que ela tinha sido expulsa dos vigilantes pelo chefe, o toque só podia se tratar de uma emergência. Ela parou o ato sexual e saiu de cima de Jenny para procurar o celular em meio as roupas descartadas no chão.
"Não acredito que você vai parar para atender essa merda!" – Jenny estava quase histérica – "Santana Lopez, volte aqui e termine o que tem de fazer ou eu juro que te mato!"
"Termine você" – ela respondeu antes de achar o aparelho dentro da sacola junto com o óculos de sol – "Alô? Grant?"
"Está ocupada?" – Grant perguntou devido aos gritos e reclamações de Jenny, que estava prestes a arrastar a namorada de volta para a cama.
"Estou livre. O que foi?"
"Preciso de você. É algo de interesse de todos nós. Nossa segurança."
"Onde?"
"Meu apartamento. Estamos te esperando. Venha preparada."
Santana imediatamente começou a se vestir aos gritos de Jenny e ameaças de que o namoro das duas estaria terminado para todo o sempre caso ela saísse por aquela porta.
"Desculpe, Jen" – disse ao abrir a porta – "Te dar um orgasmo não é minha prioridade agora."
Esqueceu os óculos escuros no apartamento. Correu para o dormitório. Precisava pegar certa mochila que nunca conseguiu desfazer.
Exatamente às nove horas e treze minutos da noite, Beth estava diante da maior televisão que teve oportunidade em repousar os olhos na vida. Passava um filme no canal da Disney e ela podia brincar à vontade com todos aqueles bonequinhos legais que estavam da prateleira de uma estante. Enquanto isso, na sala ao lado, quatro vigilantes olhavam intrigados para o desenho de Quinn Fabray. Na verdade, vários deles. Havia seis folhas brancas espalhadas com versões do tal quadro escrito "Truman Moore Is The Man".
"Engraçado" – Santana comentou – "Mesmo vendo essa figura, eu tenho a impressão de que já vi algo parecido, mas não tenho idéia onde."
"O mesmo aqui" – Artie pegou um dos desenhos para ver melhor.
"Acredite em mim" – Quinn estava impaciente – "Esse quadro está na casa dele."
"Onde exatamente?" – Santana perguntou – "Eu não vou enxergá-lo, então preciso de um direcionamento melhor."
"Acho que à esquerda da estante."
"Tem certeza, ice queen?" – pressionou Santana.
"Tenho, e não me chame assim."
"E você" – voltou-se para Grant – "Tem certeza que não haverá ninguém em casa?"
"Claro que tenho" – Grant respondeu com a habitual segurança – "Holly está fora da cidade e Martinez vai estar com a amante hoje. Sei disso porque ele reservou o quarto de hotel com o cartão de crédito individual dele."
"Quem diria que ele tinha uma amante" – Matt sentou-se ao lado da namorada – "Conhece ela?" – perguntou a Grant.
"Não. Infelizmente é arriscado seguir Martinez. Nunca se sabe se ele vai capturar o seu pensamento."
Voltou-se para a tela do computador e olhou mais uma vez as imagens de segurança que conseguiu capturar de dentro da prefeitura. Tudo parecia em ordem.
"As ações precisam ser sincronizadas" – Grant explicou – "Vamos procurar fazer de tudo para estar de volta aqui exatamente a meia noite. Artie, Matt e eu já temos como entrar na prefeitura. E Santana, vai estar sozinha, por isso, cuidado redobrado. Concentre-se apenas no que tiver de fazer."
"Eu não vou fazer besteiras" – Santana disse bronqueada – "Não precisa falar comigo como se eu fosse fazer merda na primeira oportunidade."
"Ok. Mas lembre-se que a casa de Martinez tem alarmes nas portas e nas janelas, por isso a melhor saída e entrar pelo telhado. Vai ter que usar a sua força para abrir passagem."
"Entendido e isso não será problema. Só não entendo o que tenho de procurar exatamente. Se é o quadro que eu não consigo ver ou alguma outra coisa, como um caderno ou algo assim?"
"Isso eu não sei te dizer. Você vai ter que aproveitar a chance para procurar alguma pista" – Grant queria poder ajudar melhor a colega, mas aquela parte do plano surgiu numa oportunidade e não houve tempo hábil para se fazer uma investigação prévia – "Quinn, você será a nossa central" – explicou novamente o funcionamento do celular com as linhas de segurança – "Não entre em contato conosco sob nenhuma circunstância. Nosso horário limite é uma hora da madrugada. Mas a partir de meia noite e meia, se a gente não fizer contato, você precisa acionar Mercedes para ela fazer a ronda."
"Ronda?" – Quinn levantou uma sobrancelha – "Ela vai pegar o carro e rodar pela cidade?"
"Não" – Matt sorriu – "Significa que ela usar o cadastro dela de jornalista para ligar para as delegacias e procurar informações sobre ocorrências recentes. Ela deve ligar também o rádio com a linha de comunicação da polícia que ela só faz em ocasiões assim."
"Até porque é um saco acompanhar o canal de comunicação geral da polícia" – Santana resmungou – "Acredite, eu já tentei."
"Ok. Mas e se passar da uma da madrugada e vocês não tiverem aparecido ou entrado em contato?"
"Então você vai pegar Beth, colocá-la no carro e vá para casa" – Matt deixou claro – "Se a gente não entrar em, contato até o horário limite quer dizer que alguma coisa aconteceu e você vai precisar sair daqui."
Artie olhou para o relógio.
"Gente, hora de ir."
Os vigilantes, inclusive Quinn, se abraçaram numa última confraternização antes de saírem para arriscar suas peles. Quinn deu um longo beijo em Matt e quando fechou a porta, segurou o pingente de crucifixo que sempre usava e rezou para que o namorado e seus colegas voltassem sãos e salvos. Então entrou na sala de televisão do apartamento de Grant e perguntou a Beth se ela gostaria de um leite quente antes de cochilar um pouco naquele confortável sofá (Grant havia provido um lençol, um travesseiro com fronha limpa e uma manta para a pequena).
Era exatamente dez e quarenta e dois da noite quando Santana se posicionou no bosque próximo à casa de Martinez no bairro de classe média alta da cidade. Sempre gostou da casa do professor, mas internamente. A arquitetura era conservadora e a casa se assemelhava a várias que existiam naquele bairro. Balançou a cabeça. Não era momento de pensar naquele tipo de projeto. Olhou para o esquema de segurança desenhado por Grant. Resmungou. O amigo era ótimo em matemática, mas desenhava muito mal. Pelo menos dava para entender.
Olhou para um desenho do quadro feito por Quinn. Ela não era tão ruim com o lápis. De qualquer forma, de que adiantaria olhar para aquela figura se ela tinha um bloqueio na mente que não lhe permitiria enxergar? Não sabia sequer o que procurar lá dentro. Olhou para o relógio mais uma vez e depois para a vizinhança. As casas laterais já estavam escurecidas. Havia apenas uma luz acesa no térreo do vizinho da esquerda. Sinal de que ela agir o mais silenciosamente possível. Uma sombra causada pelo poste de iluminação pública era projetada bem em cima do ponto em que planejava abrir passagem pelo mezanino. Ao menos um elemento de sorte que facilitaria a camuflagem.
Colocou a máscara e as luvas (não gostava das luvas, mas em certas missões elas eram indispensáveis). Resistiu a vontade de ligar o iPod, mas aquela era uma situação em que ouvir todo e qualquer barulho seria fundamental. Fechou a jaqueta, ajustou a mochila para que ela não balançasse e olhou mais uma vez o relógio. Onze horas.
Havia uma câmera no quintal. Santana sabia que as imagens ficavam gravadas num arquivo dentro da própria casa e que nem sempre o sistema de segurança estava ligado. Seja lá qual foi o elemento surpresa de Grant, talvez já tivesse sido acionado, embora aparentemente não fosse fazer diferença alguma para ela. Sondou o ambiente mais uma vez e como um gato, subiu rapidamente ao telhado e alcançou o mezanino. Testou as telhas daquela parte e viu uma frouxa. Usou a força para arrancá-la e as outras ao redor. Chutou o forro logo abaixo e lhe foi revelado o espaço da sala obscurecida. Não vacilou e pulou para dentro. Grant estava certo: havia ninguém em casa. Mas se houvesse e se Holly estivesse só, talvez entraria pela porta da frente ao ser convidada a entrar.
Santana esperou um breve tempo pra que os olhos dela se acostumassem com o breu. Tudo parecia bem até o momento. Pegou uma pequena lanterna dentro da mochila e a ligou. Parecia estar tudo no lugar: a estante com parte da biblioteca de Martinez, a mesinha de centro de madeira maciça, as poltronas. Sorriu ao ver um quadro. Um pequeno com a pintura de uma paisagem que ficava na parede da porta de entrada. Quando aquele que Quinn afirmava existir: nada. Absolutamente nada. Só enxergava parede nua. Checou a estante. Passou o olho rapidamente nos livros e abriu as gavetas. Encontrou dois cadernos e checou rapidamente o conteúdo. Pareciam anotações entre alguns desenhos, pequenos textos, legendas, rabiscos puros e simples e o nome de Quinn Fabray escrito. Ali estavam anotações dele sobre os estudos com ela. Recolheu o caderno e mais outro com outras anotações e os colocou dentro da mochila.
Precisava pensar no quadro que não via. Passou a mão na parede ao lado da estante onde Quinn garantiu que ele estaria ali. Ficou surpresa ao descobrir um obstáculo. Passou a mão nesse obstáculo invisível. Retangular, grande, podia sentir razoavelmente bem, apesar da luva, o relevo da moldura. Então tocou no centro com a ponta dos dedos. Era uma tela. Fascinante. Tateou as mãos para segurar as bordas e retirou o quadro invisível da parede. Sorriu ao descobrir que havia um cofre atrás dele.
"Filho da mãe" – sussurrou.
Olhou pela estante em busca de alguma dica para uma possível senha, mas duvidava que fosse encontrar algo tão facilmente. Datas de aniversário? O chefe não seria tão óbvio. Pegou os cadernos de anotação. Folheou rapidamente para ver se encontrava alguma coisa. Qualquer coisa. Encontrou um código anotado e experimentou. Negativo. Folheou mais algumas páginas, passando os olhos nas anotações em caneta azul, preta e vermelha. Viu mais um código. Experimentou. Nada. Suspirou quase derrotada. Tentou datas de aniversários dele e de Holly (ainda que ficasse em dúvida quanto ao ano de nascimento). Nada. Arrancar o cofre estava fora de questão. Como ela iria arrebentar a parede sem chamar atenção dos vizinhos e sair correndo com um trambolho, mesmo sabendo que seria perfeitamente capaz de carregar? Seria muito idiota. Tentou alguns nomes, o anagrama de uma frase que o chefe gostava de dizer. Digitou Truman Moore. Nada. Tentou "is the man". Nada.
Deu um soco no cofre pela frustração. Pensou nas coisas mais improváveis, como nomes dos alunos e digitou "Brittany" ao acaso, já que estava quase desistindo. A luz do painel ficou verde. Foi mais ou menos no mesmo instante em que ouviu sirenes aos longe. Errar senhas demais deveria ativar alarmes. Ela sabia que existia um sistema daquele jeito, semelhante ao que bloqueia o cartão do banco na terceira tentativa de colocar uma senha. O coração dela disparou. Abriu o cofre. Havia um caderno e um pendrive lá dentro. Pegou os dois e enfiou tudo na mochila, tal como a lanterna ainda acesa. Rompeu a janela (o alarme já havia sido disparado mesmo) e escalou a lateral da casa. Um policial tentou abordá-la, mas ela o empurrou forte para abrir passagem e correr bosque adentro.
Pensou em rotas de fuga possíveis. Pelo menos os que ela poderia lembrar. De um jeito ou de outro, tinha de continuar a correr. A movimentação da polícia parecia mais intensa, mas não tanto quanto da vez em que foi perseguida noutra noite. Saiu do bosque. Usar os corredores de quintais e ruas ao seu favor e a polícia não conseguia acompanhar de carro as mudanças de rota. Mas percebeu que havia um perseguidor bizarramente persistente. Ela era rápida, mas ele parecia se aproximar. Definitivamente não era um cara normal. Corria tudo que podia, o que era rápido para um humano comum. Os demais agentes já tinham ficado há muito para trás, menos esse. Ele se aproximava e a vigilante podia ouvir as palavras de ordem. Para que ela parasse em nome da lei. Tentou levar a corrida para um campo mais aberto. Havia uma escola por ali. Ela pulou a cerca num movimento elástico, bonito e que encheria os olhos de eventuais testemunhas, e entrou no campo de futebol.
O agente estava próximo. Cinco, seis passos atrás. Espaço bom o suficiente para poder parar, sacar a arma e atirar caso quisesse. Foi quando a vigilante parou se supetão e girou os braços. Acertou o corpo do agente, que deu uma cambalhota no ar e caiu de costas no gramado. E por lá ficou. A vigilante não quis ficar e arriscar a sorte ao confrontar um cara que claramente tinha um dom, assim como ela. Correu em direção a outra cerca e a pulou com a mesma facilidade de outrora. Correu tudo que podia entre as casas do bairro residencial até alcançar um pequeno cemitério. Quando percebeu que tinha mais ninguém no encalço. Desacelerou e passou a pensar em chegar ao apartamento de Grant. Olhou para o relógio. Passava da meia noite. Retirou a máscara e as luvas. Colocou tudo na mochila. Tirou a jaqueta e a entregou para o primeiro morador de rua que encontrou. Começou a andar pelas ruas, mas com cautela. E quando pensou estar em segurança, pegou o celular.
"Ice Quinn?" – disse um pouco ofegante.
"Santana? Conseguiu?"
"Converso quando chegar. Alguma notícia dos meninos?"
"Ainda não. Devo acionar Mercedes?" – Santana olhou no relógio mais uma vez.
"Não. Espere até o horário limite" – desligou o celular e desejou sorte aos colegas.
Voltando um pouco no tempo, quando era exatamente dez horas e cinqüenta e dois minutos, três vigilantes chegavam ao telhado do edifício com ajuda do garoto voador. Artie tirou o computador da mochila e sentou-se no elevado de concreto circular que delimitava o heliporto. Matt e Grant ajustaram o fone de ouvido e o microfone antes de colocar a máscara por cima. Artie acessou as imagens das câmeras de segurança. Ele seria os olhos dos outros dois lá dentro.
"Precisamos esperar até às onze" – Grant alertou. Era quando a pequena bombinha feita apenas para disparar o alarme do banco seria acionada. O que significava que uma quantidade expressiva de policiais se deslocaria para lá. Além disso, às onze, aconteceria a troca de turno dos vigilantes, procedimento que deixava os andares desprotegidos por alguns minutos.
"Está acontecendo, Grant. Os vigias dos andares estão descendo" – Artie alertou e Grant acenou.
Quando deu onze em ponto, o sistema de alarme de um banco disparou. Naturalmente que uma boa parte das patrulhas seriam deslocadas para o local, deixando a prefeitura nas mãos dos seguranças habituais, sem reforço, sem nada. Os guardinhas terceirizados não seriam páreo. Numa cidade de 400 mil habitantes, a prefeitura não era tão grande e tão protegida quanto a de uma metrópole, ainda assim, a da cidade tinha certa pompa e exageros inerentes à personalidade do próprio prefeito.
"Agora!" – Grant ordenou e Artie apertou o botão.
De repente, todos os monitores de segurança da prefeitura foram apagados. Matt não estava tão afinado com o plano. Tudo lhe foi explicado de última hora, mas ele procurou se esforçar. Usou a telecinesse para abrir a porta do telhado e desceu escada abaixo junto com Grant. Foram até o quarto andar do edifício que tinha seis. Matt abriu a porta do andar com os poderes e Grant pediu cautela antes de entrar no corredor. Havia um segurança que chegava para a ronda do andar. Esperaram o homem se aproximar e, no momento exato, como um gato, Grant pulou em cima do homem e o imobilizou rapidamente. Matt arrastou o segurança desmaiado para um dos escritórios abertos e fechou a porta. Os dois andaram praticamente na ponta dos dedos até a porta 406, que requeria uma senha para destrancar e um cartão. Grant arrumou dois dias atrás graças a favores de Hemon e digitou 388670. Sinal verde. Entraram na sala e fecharam a porta.
"Agora é por conta também da nossa sorte" – Grant sussurrou e Matt acenou.
O escritório parecia comum. A diferença é que havia uma saleta com porta trancada e um painel digital de segurança ao lado. Matt já analisava uma maneira de abrir a porta, mas Grant chamou a atenção para um detalhe que o colega vigilante não havia prestado atenção. Pegou um espelho e deram uma olhada por debaixo da porta. Havia luzinhas vermelhas. Sensores de movimento. O código servia para desligar a segurança e Grant tinha a menor idéia de qual seria a senha. Mas havia muito que fazer naquela sala. Grant ligou um dos computadores e checou os arquivos para copiá-los.
"Está vendo isso, voador?" – disse pelo rádio.
"Aproxime um pouco a câmera na tela" – ouviu a resposta do colega que estava no telhado – "Nem tanto. Recue um pouco... isso"
"Parece promissor."
"Acesse a pasta PSP2010..." – Grant obedeceu e viu subpastas com nome de programas de segurança do governo.
"Vou copiar."
"Claro..."
Grant tinha certeza que todos estariam criptografados ou trancados por senha, mas o trabalho dele não seria decodificá-los naquele instante. Enquanto isso, Matt trabalhou na porta. Com a ajuda da telecinésia visualizou os pinos internos e tentou removê-los. O que era complicado porque o poder dele dependia muito de força mental e visualização. Era mais fácil quando ele fixava o olhar.
A porta se movimentava sozinha, conseqüência da ação dos poderes de Matt. O esforço mental era tão grande que ele começava a sentir tonturas, mas aos poucos a porta se soltou e Matt fez o melhor dele para incliná-la devagar. Grant aproximou-se para ajudar enquanto os arquivos entram transferidos para o HD portátil.
"Tente trazer a porta para eu tentar segurar."
Matt sentiu o nariz sangrar. A porta era pesada para ele, mas continuava a dar o máximo. Então ouviram passos pesados pelo corredor e gritaria.
"Eles religaram o sistema de segurança" – Artie avisou pelo rádio.
Matt perdeu a concentração e deixou a porta e os pinos caírem. A sirene disparou na hora. Apesar do amigo vestir uma máscara, Grant conseguia imaginar a expressão de pânico. Aliás, os olhos arregalados eram denunciadores.
"Voador" – gritou ao rádio – "é hora de voar."
"Para onde?"
"Nos pegue na janela."
"Qual?"
Grant pegou uma cadeira e a jogou contra a janela fechada, espatifando-a parcialmente. Depois pegou o HD e o enfiou no bolso, desconectando-o do computador de qualquer jeito.
"Grandão, me ajude com essa mesa."
Empinaram a mesa e a postaram diante da porta, ganhando alguns segundos preciosos. Matt usou a telecinésia para quebrar o restante do vidro e minimizar machucados. Penduraram-se na borda e viram o amigo voando na direção deles. Artie segurou cada um num braço, mas a verdade era que ele não era forte suficiente para voar com duas pessoas ao mesmo tempo por muito tempo. Ao menos foi o bastante para descerem no quarteirão ao lado. Grant calculou e correu já dispensando o voador. A aterrissagem de Matt não foi tão suave. Ele rolou no chão ao lado de um grupo de pessoas e correu desengonçado até conseguir pegar o ritmo. Procurou tirar a diferença entre ele e Grant, mas também viu a polícia se aproximar. Gesticulou com o braço, como se empurrasse algo invisível. O carro da polícia deu um desvio para o lado, o suficiente para o guarda perder o controle e derrapar. A patrulha que estava imediatamente atrás alcançou Matt. Os policiais se prepararam para atirar, mas o voador o agarrou debaixo dos braços e o puxou para o alto. O policial deixou cair o queixo diante da cena. Ele nunca tinha visto alguém voar por si só.
Artie procurou seguir segurando Matt até o mais próximo possível o local de encontro. Num último esforço, conseguiu chegar perto armazém num local quase abandonado e de pouco movimento sem serem notados por testemunhas indesejadas. Matt viu o quanto o voador estava exausto, por isso o levantou e o carregou nos braços. Entrou num beco. Livrou-se da máscara e das luvas. Olhou para o relógio. Era quase meia noite e meia. Então pegou o celular.
"Matt!" – ouviu a voz de Quinn – "Você está bem? O que vocês aprontaram?"
"Estamos seguros. Artie e eu. Estamos indo para aí."
"Ok. Santana disse que estava a caminho, mas Grant ainda não entrou em contato."
"Espere mais um pouco, ok?"
Desligou o celular. Os dois livraram-se das jaquetas e Matt pegou Artie no colo. O amigo não era tão leve assim e Matt não tinha a força física de Santana. Não era tão simples correr uma distância grande daquele jeito, mas iria dar o melhor de si.
"Estamos longe do lugar que você deixou sua cadeira. Desculpe."
"Tudo bem. O importante é chegar à casa de Grant."
Em alguns trechos, Matt carregava Artie. Em outros. Artie podia flutuar ao lado do amigo. E Ainda havia outros em que Artie segurava Matt e alçava voo. Em quase meia hora, perto da uma da madrugada, chegaram ao edifício. Quinn atendeu a porta e imediatamente abraçou o namorado. Estava preocupada. Santana veio logo atrás da colega. Estava ansiosa.
"Cadê Grant?" – perguntou e abriu passagem para Artie flutuar até o sofá.
"Ele ainda não chegou?" – Matt fechou a porta do apartamento e passou a mão no rosto.
"Devo acionar Mercedes?" – Quinn parecia perdida.
"Beth está no quarto de TV?" – Matt interrompeu a namorada.
"Está dormindo. Por quê?"
"A televisão..."
"Não é preciso" – Artie pegou o computador de dentro da mochila e esperou alguns minutos até pode acessar o noticiário local.
Os quatro se aproximaram para ver e ouvir as notícias urgentes naquela telinha. Havia imagens de um helicóptero, o mesmo que podiam escutar ao longe, que transmitiam imagens aéreas da movimentação da polícia à caça dos bandidos que invadiram a prefeitura. Cinco minutos depois, escutaram uma batida na porta. Matt e Santana ficaram imediatamente em posição de alerta, prontos a atacar. Quinn olhou para os dois vigilantes e conferiu o olho mágico. Era Grant. Abriu a porta imediatamente e o dono da casa entrou sem a máscara, mas ainda com as luvas e a jaqueta. Uma mão pressionava o ombro direito. A porta se abriu e revelou Grant sem a máscara e ainda vestido com a jaqueta. Ele deu quatro passos antes de ser amparado por Santana, que arregalou os olhos ao ver o sangue no ombro do amigo.
"Não se preocupe" – ele sorriu fraco – "Pegou só de raspão."
"Precisamos de Brittany" – Matt disse com urgência.
"Não!" – Santana falou alto enquanto trabalhava para retirar a jaqueta do amigo e, assim, ver melhor a dimensão do ferimento.
"Por que não podemos chamar Brittany?" – Quinn franziu a testa.
"Porque ela é a amante de Martinez" – Santana respondeu com urgência – "Havia um cofre atrás o quadro invisível para nós. A senha que abriu esse cofre é 'Brittany'. Ligue os pontos."
"Grant?" – Matt chamou atenção para o amigo que resmungava de dor. Quinn pegou um pano para pressionar o lugar enquanto Artie se preparava para entrar em contato com a curandeira.
"Ele já deve saber o que fizemos" – argumentou – "Que diferença faz?"
"Diga para ela vir sozinha" – Santana ressaltou e Artie acenou já discando o número da linha de segurança.
Brittany chegou ao apartamento em 20 minutos. Era alta madrugada e ela tinha aparência cansada. Olhou para o grupo e depois para o colega estirado no tapete. Sem dizer uma palavra, afastou as mãos e o pano que Quinn usava para pressionar o ferimento. Respirou fundo e se concentrou. A familiar luz azulada surgiu. A bala foi expulsa e o ferimento foi lentamente se fechando. Era sempre uma cena incrível de se ver. Para Quinn, cura naquelas dimensões era uma novidade. Grant respirou aliviado e Matt o ajudou a sentar. O primeiro aluno estava tonto e fraco. Precisava de um banho e de cama.
"O que vocês aprontaram?" – Brittany finalmente questionou. Estava claramente zangada.
"Você contou ao chefe que vinha aqui?"
"Não... eu não estive..."
"A gente sabe quem é o seu namorado secreto, Britt" – Santana disse com desgosto – "Não precisa mais disfarçar. Isso é repugnante. Trepar com o Martinez?"
Brittany sentou-se o sofá e ficou em silêncio, sentindo mais uma vez a culpa que o relacionamento trazia. Ninguém sonha em ser amante de alguém. Não é o ideal. Simplesmente acontece.
"Ninguém aqui está em condições de julgá-la. Ok?" – Artie flutuou e tomou as dores da colega – "E você não pode falar nada, Santana" – os dois trocaram olhares. Artie sabia da paixão da melhor amiga por Rachel Berry, uma jovem mulher em um relacionamento sério.
"Ok, pessoal" – Matt chamou a atenção – "Vamos nos concentrar no problema aqui. Britt? Ele realmente não sabe que veio para cá?"
"Não. A gente estava junto quando ligaram para o telefone dele avisando que a casa tinha sido assaltada. Ele saiu e foi resolver o problema. A cidade está uma loucura. A quadra da prefeitura está isolada e todo mundo sabe que foram os vigilantes. O que vocês fizeram?"
"Diga a Martinez que temos provas" – Grant disse devagar e baixo – "Diga a ele que o silêncio dele é o nosso silêncio, mas que nossas relações estão cortadas. Obrigado, Britt. Muito obrigado mesmo. Mas a gente vai ter de deixar de se falar até que tudo isso se esclareça."
Ela acenou e, devagar, andou em direção à porta. A tristeza dela fez com que os demais sentissem culpa e ficassem tristes também com a situação. Mas era preciso e necessário, ao menos, por enquanto. Assim que Brittany deixou o apartamento e Matt trancou a porta, Santana voltou-se ao colega enfraquecido.
"Temos provas?"
"Eu ainda não sei. O que conseguiu?"
"Um diário e um pendrive" – ela tirou o material da mochila – "E dois cadernos com anotações."
"Artie, você precisa enviar todo o material eletrônico a Hemon o mais rápido possível. Use os meios seguros. Já os cadernos e o diário precisam ser escondidos num lugar seguro porque eu conheço o chefe e ele vai tentar recuperar. Mas não consigo imaginar alguém de confiança."
"Eu tenho alguém" – Santana pegou o material e o colocou na mochila – "É um alguém que o chefe tentou apagar memórias e não conseguiu. E o melhor de tudo: ele não sabe disso. Pode ser um indicativo de segurança."
"Rachel Berry?" – Artie pulou do sofá. Ainda bem que ele podia flutuar – "Você está louca?"
"Minha história com Rachel é complicada, admito. Mas se tem algo que sei é que posso confiar a minha vida a ela. Se eu pedir para esconder esse material e não me contar aonde, sei que ela vai fazer isso sem hesitar. Além disso, ela foi a única pessoa que conheço que tem resistência ao poder dele."
"Rachel Berry?" – foi a vez de Quinn esbravejar – "Eu sabia que ela sabia da sua identidade!"
"Neste momento, até que a gente consiga pensar em alguém melhor, é a nossa melhor aposta e o nosso melhor blefe. Então?"
Santana aguardou a "votação" dos demais vigilantes.
