Rachel levantou às seis da manhã daquela segunda-feira, como era de costume nos dias de semana em que tinha aula na faculdade comunitária. Fez os alongamentos usuais. Primeiro os braços, o troco, as pernas. Pensou em fazer algum exercício extra, por isso decidiu dispensar a carona de Kurt para usar a bicicleta. Pegou a toalha, saiu do quarto e cruzou com o melhor amigo pelo caminho. Ele também costumava madrugar. Tomou uma ligeira chuveirada, fez a higiene e voltou ao quarto enrolada na toalha. Escolheu uma blusa e um short jeans comportado. Vestiu um tênis Nike. Penteou os cabelos e saiu do quarto cantarolando. Encontrou Kurt diante da televisão bebendo chá na caneca e mastigando algumas torradas.

"Acordou bem hoje."

"Dormi feito uma pedra. Nunca estive melhor."

"Parece que a sua amiga aprontou grande ontem a noite" – apontou para a tela da TV.

Rachel parou em frente ao eletrodoméstico e prestou atenção nas notícias que dizia linhas finais sobre roubos de documentos da prefeitura e um assalto à casa de uma importante promotora pública da cidade. A especulação da polícia era de que os eventos fossem relacionados uma vez que ocorreram em horários casados. Três policiais tiveram ferimentos leves na perseguição desta que definitivamente era uma gangue de vigilantes mascarados. Dois deles estavam numa viatura perseguindo os suspeitos e o outro perseguiu o assaltante da casa da promotora.

Ficou preocupada com as notícias e sentiu vontade de ligar imediatamente para Santana. Esqueceu o café da manhã e saiu de casa.

"Rachel?" – ouviu a voz familiar, embora cansada, do outro lado – "Você é a pessoa com quem eu queria conversar."

"Santana, o que aconteceu ontem? Por favor, me diz."

"Eu irei, mas não por telefone. Eu preciso te encontrar, mas num lugar neutro e seguro."

"Neutro e seguro?" – o coração de Rachel disparou. Talvez Santana finalmente se meteu em algo muito sério desta vez. Pensou um pouco e só um lugar possível veio à mente – "Minha casa."

"Não é uma boa idéia."

"Então vá a minha faculdade pelas dez da manhã. Pergunte onde fica a sala de ensaios do coral. É um lugar com proteção acústica e eu sei muito bem que estará vazia. Costumo usar o piano em algumas manhãs e nunca sou incomodada."

"Perfeito."

Rachel desligou o telefone, pegou a bicicleta e foi direto para a faculdade, deixando para tomar café da manhã no pequeno trailer que vendia café, suco, chocolates e biscoitos industrializados. Se alimentou rapidamente. Viu o movimento dos alunos chegando para as diversas classes oferecidas no lugar. Gente que, como ela, ou não foi aceito na escola que queria ou não tinha dinheiro para pagar uma grande universidade.

Conversou com alguns colegas, avistou Kurt que tentou confrontá-la sem sucesso, assistiu a primeira metade de uma das classes. Então, na hora do intervalo que algumas classes adotavam, dirigiu-se para a sala de ensaios do coral. Como sempre, havia ninguém. Rachel sentou-se ao piano e passou os dedos em algumas das teclas. Sabia tocar para o gasto, uma vez que o grande talento era cantar, não tocar um instrumento. Dedilhou uma suave melodia.

"Eu diria que está melancólica" – parou de tocar ao escutar a voz que mais queria ouvir àquela manhã.

Rachel encarou Santana, que estava de camiseta, a calça jeans folgada e os tênis pesados. Uniforme de vigilante. Ou metade dele. Usava ainda a mochila nas costas, acessório que se tornava familiar para a pequena diva. A vigilante estava exausta e Rachel podia ver isso no semblante, na postura encurvada do corpo, na própria aparência. Mas nada disso importava por hora. Levantou-se e abraçou a amiga.

"Por onde andou?" – perguntou assim que Santana sentou-se no banco do piano.

"Lendo."

"Santana. falo sério... as notícias."

"Eu sei, mas estou falando a verdade. Passei a noite lendo. Uma madrugada de leitura intensa após roubar uma coisa na casa do meu chefe."

"O seu chefe é a promotora pública da cidade?"

"O meu chefe é..." – e veio uma confusão na mente dela. Uma semelhante que Matt sentiu ao tentar explicar a Quinn que o chefe era Martinez.

"Quem é o seu chefe?"

"É o que estou tentando dizer" – balançou a cabeça – "Martinez, sabe?"

"Quem é Martinez?"

"O marido da Holly, a promotora da cidade."

"Martinez é o seu chefe?"

"Isso!" – Santana respirou fundo. Estava um pouco tonta – "O que importa é que eu e os meus amigos descobrimos coisas importantes sobre nós mesmos, sobre nossos poderes, e sobre coisas que o chefe escondia de nós" – pegou a mochila e tirou um diário grosso, com um elástico em volta, que parecia ser bastante manuseado – "O que vou te pedir agora, Rachel, significa não apenas que vou quebrar a minha promessa de não te envolver, mas que vou te colocar em risco também. Se você não quiser, eu vou embora e a gente finge que essa conversa nunca aconteceu."

Rachel olhou o diário nas mãos da amiga e ficou comovida não apenas com o pedido e a confiança, mas com o olhar triste, quase desesperado, da vigilante. Ela se aproximou, tocou delicadamente o rosto da amiga e beijou rapidamente os lábios. Santana não era a única que estava quebrando promessas ali, naquele lugar.

"Você sabe que pode confiar em mim, e você não é a única que está disposta a me proteger. Sabe que isso é recíproco. Ponde confiar em mim."

"Eu preciso que você mantenha esse diário em um lugar seguro e, mais importante de tudo, que não o revele de forma alguma onde ele está para mim. Nós... eu e meus amigos tiramos algumas cópias, mas essa peça original precisa ser escondida para uma eventualidade."

"Claro que eu faço isso, mas por que eu não posso revelar a você onde vou esconder isso?"

"Meu chefe tem poderes mentais. Descobrimos, inclusive, que ele colocou em nós certos bloqueios, há coisas que ficamos impossibilitados de dizer e até mesmo de enxergar. Esse diário estava dentro do cofre da casa escondido atrás de um quadro que eu não tinha a menor condição de enxergar por causa de um desses bloqueios."

"Uau!" – Rachel estava genuinamente impressionada.

"A questão é que se eu me deparar com ele, o meu chefe poderá ler os meus pensamentos. E se eu souber onde isso está escondido, ele vai encontrar."

"Mas e se ele souber que eu o escondi e for tentar fazer o mesmo?" – Santana acenou, confirmando a teoria – "Então?"

"Ele pode te procurar, isso é possível, mas eu tenho uma teoria que estou arriscando tudo por ela."

"Qual?"

"Que você pode ter um dom, Rachel. Um dom especial assim como eu, porém diferente do meu. Acredito que você possa ter uma espécie de campo de força, não sei, que é capaz de resistir ao poder mental do chefe. Naquela noite em que levei um tiro, não apenas ele tentou apagar aquelas lembranças como implantar algumas falsas. Mas o máximo que conseguiu foi te fazer desmaiar. Entende?"

"Você mesmo acha... eu nunca parei para pensar..."

"É só uma teoria."

"Existe alguém que pode comprová-la, além do seu chefe?" – ficou realmente interessada na hipótese.

"Rachel... por favor."

"Tem ou não tem?"

"Nós podemos tentar. Talvez Grant..."

"Grant?"

"Um dos vigilantes. Ele é o cara mais centrado e treinado entre nós."

"Eu faço" – Rachel pegou o diário das mãos da vigilante – "Eu escondo isso para vocês, mas com uma condição: eu quero conhecê-los. O grupo todo. E quero falar com esse Grant. Quero testar a sua teoria."

"O grupo está meio rachado neste momento..." – Santana suspirou – "Mas acho que posso arranjar isso com quem ficou do nosso lado."

"Hoje?"

"Eu não sei. Eu te aviso."

Rachel aceitou. Olhou mais uma vez para Santana e ficou com pena do aspecto fragilizado, exausto. Quis pegá-la no colo, fazê-la descansar. Mas ali era a sala de ensaio do coral da faculdade comunitária. Em vez disso, beijou Santana, desta vez por mais tempo.

"Você precisa descansar."

A vigilante acenou.

"Obrigada por tudo" – Santana abriu um fraco sorriso.

Levantou-se do banco e saiu cautelosa pelos corredores da faculdade comunitária. Rachel, por sua vez, gastou um pouco mais de tempo na sala. Olhou para o diário, que parecia queimar em suas mãos. Pensou em abri-lo. Hesitou. Santana não disse que ela poderia ler. Tão pouco proibiu. Tirou o elástico e começou a folhear.

...

Martinez Kleinert-Perez, 47 anos, filho de mãe irlandesa e pai mexicano. Descobriu que tinha poderes especiais quando ainda era criança. Os pais levaram o garoto a um psicólogo, que rapidamente chamou um colega especialista em pessoas com dons psíquicos que trabalhava para uma organização que acreditava em discos voadores. Dr. Collins avaliou e treinou o menino Martinez, que cresceu a ponto de conhecer mais três pessoas com dons especiais. Eventualmente, três deles foram descobertos pelo governo federal, que passou a desenvolver um programa para achar e treinar indivíduos especiais. Martinez foi um dos colaboradores mais entusiasmados no princípio do projeto, até a eventual militarização.

Três colegas com dons especiais foram enviados em combate e mortos. O parco resultado fez o governo refazer certos objetivos que desagradaram muitos dos envolvidos, entre eles, Martinez. Mas diferente dos colegas que se rebelaram e foram eventualmente eliminados, o esperto telepata fez um acordo: que ele próprio encontraria pessoas com dons e as treinaria dentro de métodos que desenvolveu. Prometeu repassar os mais promissores ao governo maior quando a hora chegasse, e manteria os demais sob vigília e controle. Nesse meio tempo, mudou-se para a cidade, conheceu e casou-se com Holly Gordon, estudante de direito, recém-divorciada e com um filho de seis anos para criar.

O emprego formal de Martinez era como psicólogo que eventualmente prestava serviços voluntários ao projeto social de Angelina. Em segredo, ele procurava pessoas com dons especiais para que pudesse formar e treinar com ajuda do estado. Parte do dinheiro destinado ao programa de segurança da prefeitura sob comando de Truman Moore, nada além de um nome que Martinez usava para cobrir a verdadeira identidade.

O primeiro aluno, Grant Fish, de 24 anos, era filho de um dos mentores de Holly. O garoto chamou a atenção de Martinez pelo Q.I acima do normal e pelo alto desempenho do menino nos campeonatos de caratê. Era campeão em todos que participava e nunca havia perdido uma luta. Martinez investigou o garoto e descobriu que a razão para tal desempenho era o dom de cálculo. Grant conseguia calcular movimentos e antecipá-los.

"Grant poderia ser usado pelo serviço de inteligência. Tem o perfil ideal: é esperto, sabe viver o jogo, é um bom analista. Em resumo, um grande calculista, como é da natureza do dom dele, portanto dele próprio. Eu adoraria tê-lo como parceiro no meu próprio jogo, mas devo admitir que Grant também é um líder natural e com o tempo poderia ser uma ameaça para o meu próprio comando. O melhor que faço é entregá-lo ao programa assim que for possível."

A segunda aluna, Brittany Pierce, de 23 anos, foi encontrada por um acaso por Martinez, quando ela se machucou na academia e curou-se usando o poder, que usava de forma instintiva. Foi fácil convencê-la a ser treinada e ficar sob tutela. A versão conhecida de Martinez foi que ela o inspirou a formar o grupo de mascarados para ajudar ao próximo. É verdade que a idéia das máscaras surgiu quando os dois entravam nos hospitais para testar os limites dos poderes de Brittany, mas o projeto de formação do grupo estava traçado vários anos antes.

"Brittany realmente não é a pessoa mais interessante do mundo. Falta-lhe ambição, atitude proativa, malícia, liderança. Ela joga dentro das regras que se explica e não foge a elas, não as desafia. É sensível e chorosa. Ela não é uma boa candidata a integrar o programa, apesar do poder formidável. Brittany é mais útil aqui, nesta pequena cidade, ao meu lado, onde posso lhe dar sentido como professor e como homem."

O terceiro aluno Matt Rutheford, de 23 anos, foi encontrado por um colega que conhecia o programa secreto governamental e resolveu encaminhá-lo a Martinez porque achava o ex-companheiro um destino melhor do que as frias academias das bases militares que eram usadas no desenvolvimento do programa. Matt mudou-se esperançoso para a cidade de que finalmente poderia aprender a lidar com poderes e ter uma vida normal, longe de incidentes e acidentes. Martinez o acolheu de braços abertos.

"Matt é o mais poderoso entre meus alunos. Ele não faz idéia do potencial que tem, de que tudo que faz atualmente é apenas o começo. Mas vale a pena instigá-lo a procurar ultrapassar os limites e perseguir novos? Acho que não. Considero Matt o meu aluno mais leal, um braço direito que sabe cumprir ordens. É o que preciso para manter o meu projeto de construir o meu próprio grupo de superdotados."

Santana Lopez, 20 anos, e Artie Abrams, 21 anos, foram descobertos praticamente ao mesmo tempo e por acaso quando Grant flagrou os dois bebendo sozinhos num parque. Embriagado, Artie "levantou-se" da cadeira de rodas e flutuou ao redor da amiga. Grant e Martinez o procurou para treiná-lo, e o universitário terminou por revelar que a colega dele, Santana, era mais forte que uma pessoa normal.

"Artie é um bom exemplo de jovem inteligente, mas como não possui o espírito de liderança, torna-se ideal como uma peça do grupo que considero ideal. Não vou dedurá-lo para meus suposto superiores."

"Santana tem o poder ideal tanto para os propósitos do meu grupo particular quanto para o governo. Mas a cruel verdade é que ela não serve nem para um e nem para outro. É uma garota inteligente, não tenho dúvida, mas com personalidade difícil de lidar. Ao mesmo tempo em que é capaz de seguir uma ordem, gosta de trabalhar com independência e deixar a própria marca. É uma individualista capaz de andar em grupo, ser leal a ele, sem necessariamente fazer parte dele. Além disso, possui que chamo de síndrome de Clark Kent. É uma quando veste a roupa do herói e outra quando está no seu disfarce ordinário. Essa coisa heróica e altruísta que não serve aos meus propósitos. Ela é capaz de colocar uma vida acima dos objetivos de uma missão, o que pode comprometer todo o meu planejamento. O que sei é que Santana me tira do sério. Uma pena. É um exemplar único até onde sei: um poder com a exótica combinação de força, resistência, velocidade e habilidade. É como uma atleta perfeita. Mas não terei pena quando chegar o dia em que irei abatê-la. Porque eu sei que vai chegar o dia em que ou eu a destruo, ou ela me destruirá."

Havia uma última observação sobre Quinn Fabray, de 21 anos. Porém tratava nada além de suposições e possibilidades uma vez que Martinez ainda não a conhecia bem.

O diário de Martinez, além da história em detalhes, revela outros nomes, contatos, e faz diversas outras observações, não apenas dos alunos, mas também de conhecidos, políticos e personalidades. Revela em detalhes cada missão realizada e os verdadeiros propósitos por trás dele. Como no caso da captura da gangue pedófila. Era um serviço justo, uma investigação legítima, porém, um dos envolvidos era um dos principais adversários políticos do prefeito, que desejava vê-lo fora do caminho. Foi isso que motivou a investigação: uma encomenda. O mesmo se diz sobre o incidente de Angelina. Era de interesse de Martinez deixá-la morrer, apesar da presença de Mercedes na casa. Perder uma aliada como ela abalaria o emocional do grupo, mas nada do que ele não pudesse amenizar e anestesiar. Mas a atitude de liderança de Grant o enfureceu e uma oportunidade foi frustrada.

...

Quanto mais Rachel folheava aquele diário, mais ela ficava chocada e mais entendia porque aquele material era uma arma poderosa contra Martinez. Se aquelas informações caíssem nas mãos de inimigos naturais do psicólogo, poderia ser o fim dele. Outra coisa que chamou a atenção foi a quantidade de conhecidos que fazia parte do grupo. Com a exceção de Grant, todas aquelas pessoas eram consideradas amigas. Pegou o diário e o colocou na mochila. Havia um bom lugar para escondê-lo. Pedalou pela cidade até a casa dos pais e tocou a campainha. Leroy atendeu.

"Olá papai" – disse cansada do exercício físico.

"Rachel!" – apesar da alegria em ver a filha, estranhou a presença dela – "Aconteceu alguma coisa?"

"Não... eu só senti saudades" – o que não era mentira. Rever os pais depois de anos, mesmo numa situação difícil, foi emocionante para a pequena diva. Estava com vontade de voltar noutro dia, só não tinha uma desculpa boa suficiente até para convencer a própria cabeça dura. Agora tinha uma.

"Isso é..." – o homem nunca pareceu mais feliz – "Vamos, vamos. Entre, minha querida. Vou te preparar um lanche."

Rachel sorriu e acenou. Depois de comer um pedaço de bolo e tomar um copo de suco, pediu licença ao pai para visitar o velho quarto. Não se chocou ao encontrá-lo praticamente intocado. Estavam ali os mesmos móveis e a mesma disposição de quando deixou a casa dos pais. Só não mais havia os enfeites, perfumes, e outros badulaques que ficavam em cima da cômoda. Todos foram substituídos por um único porta-retrato de Rachel com os dois pais. Observou a imagem e sorriu ao se lembrar do dia em que ela foi capturada: foi na última vez em que os três desceram até a reserva ecológica para fazer um piquenique. Talvez um dia pudesse voltar a ter momentos assim com os dois homens que mais amava no mundo ao lado de Kurt e Finn. Talvez, quando toda a mágoa fosse eliminada.

Embrulhou o diário num saco plástico. O lacrou com fita adesiva e removeu um tijolo da lareira que não funcionava. Retirou um diário antigo, escritos de uma adolescente apaixonada e inocente. Ainda virgem. Substituiu um caderno pelo outro e colocou novamente o tijolo. Sentou-se na cama e removeu o saco plástico do velho diário. Folheou as páginas rosas, escritas em caneta esferográfica de várias cores. Tinha papeis de bala que, àquela época, pareciam ser a coisa mais importante do mundo para se guardar. Balançou a cabeça num misto de saudade e de vergonha. Como era boba e sonhadora. Como era feliz.

Colocou o diário adolescente na bolsa, e foi quando recebeu uma mensagem de texto:

"Depois do teatro na casa de Matt. Apague, por favor" – Santana.

Apagou o registro da mensagem.

Voltou para casa e conversou o mínimo com Kurt. Ele não era mais a pessoa certa para desabafar, o que Rachel achou uma pena, uma perda. A verdade é que não poderia confiar no melhor amigo para tal assunto que envolvia a vida de outras pessoas, além dela própria. Preparou-se para o ensaio. Para a última semana antes da grande estreia. Entrou no carro do amigo, ligou o rádio e ouviu a bossa nova que ela gostava, mas ele não. Estranhamente, não brigaram por causa disso. Ao som de Roberto Menescal, chegaram ao teatro. Finn os esperava.

Ela beijou o namorado e o abraçou brevemente. Virou o rosto e evitou encará-lo. Havia poucos assuntos em que Rachel deixava Finn de fora: a briga com os pais, o acompanhamento ginecológico anual. Os vigilantes entraram na pequena lista e fui estranho ver que num intervalo de 15 minutos, quase todos estavam ali. Todos igualmente sérios e com aparência esgotada, como se nenhum deles tivesse um momento próprio de descanso. Rachel sabia exatamente por quê. Viu Santana junto com Artie e Mercedes, como sempre acontecia. Quinn e Matt de mãos dadas. Brittany? Ela praticamente se agarrava em Mike que, até onde Rachel sabia, tinha envolvimento algum na história. O que era estranho era saber que todos eles compartilhavam algo em comum que era enorme, mas ali, em público, faziam questão de manter os grupos.

"Como assim não quer a minha carona?" – Finn ficou atordoado. Era a primeira vez que Rachel recusou tanto a carona dele quanto a do melhor amigo. Em anos que era sempre assim: ou ela estava com Kurt ou com Finn.

"Prometo a Quinn que a ajudaria com um negócio."

"Que negócio?"

"Assunto de mulheres" – forçou um sorriso para o namorado e o beijou mais uma vez nos lábios.

Finn olhou para Quinn abraçada com Matt. Imaginou que coisa de mulher só podia ser gravidez. E Quinn era uma veterana no assunto, correto? A questão era saber de quem. Não comentou a hipótese com a namorada, mas aceitou a desculpa. Rachel não tinha muitas amigas além de Tina. Achou que seria bom para ela se envolver com alguém fora do círculo usual. Se o assunto de mulheres era realmente isso, esperaria ansiosamente pela resposta no outro dia, muito embora tivesse quase certeza que o assunto não era entre eles. Rachel usava contraceptivo desde o episódio do falso-positivo e eles nunca mais tiveram sustos. Com certeza o problema deveria ser com Quinn.

"Venho a senhorita amanhã então?"

"Com certeza" – Rachel o puxou para um beijo mais longo antes de se separar e pegar carona com Matt e Quinn.

O caminho até o apartamento dele foi estranhamente silencioso. Rachel estava desesperada para fazer comentários, mas estava insegura se cabia a ela começar. Chegaram no complexo de prédios populares na área pobre da cidade e subiram o elevador.

"Quer um copo de água? Chá?" – Matt perguntou assim que ela se sentou no sofá daquele apartamento espartano. Era a primeira vez que entrava ali e estava nervosa.

"Água está bom."

Matt ofereceu e sentou-se ao lado da colega. Foram cinco minutos de silêncio até a campainha tocar. Quinn entrou na casa avisando que encontrou Beth dormindo e que já pegou a babá, mas que não gostaria de demorar-se ali. Pouco depois, o interfone toca. Entraram no apartamento de uma só vez Santana, Artie, o jovem homem que ela não conhecia e presumiu que fosse Grant, e, por último, Mercedes, que ela sabia na leitura dos diários que tinha poder algum, mas que fazia parte da equipe, por mais que fosse descartável para o chefe.

"Devemos esperar por Brittany?" – ela perguntou intimidada.

"Brittany não está conosco" – Santana disse séria.

"Então você leu o diário..." – Grant cruzou os braços e respirou fundo – "Muito bem, Rachel Berry, agora você sabe quem somos nós e esperamos contar com a sua ajuda. Bem-vinda ao clube."