"Cadê ela?" – Santana sequer esperou Kurt abrir a porta do apartamento.
"Eu não sei porque ela te chamou, mas Rachel está no quarto que fica..."
Santana não o esperou completar a frase. Sabia qual era o quarto de Rachel. Já estivera ali uma vez e o pequeno apartamento não era difícil de decifrar. Eram duas e meia da manhã quando Santana recebeu o telefone. Ela estava dormindo com Jenny e, mais uma vez, largou a namorada para atender a um pedido. Ao menos, desta vez, não estava a caminho de um orgasmo, apesar de Jenny ter reclamado um bocado quando viu a namorada vestir-se apressadamente e ir embora sem dar explicações. A vigilante estacionou o velho carro em frente ao prédio de Rachel e Kurt quase as três da madrugada.
Parou em frente a porta semi-aberta. Tudo que sabia era que Rachel entrou em pânico ao ver que a cor dos olhos tinha mudado e que ela estava desesperada. Disse, quase em estado histérico, para chamar Santana. Que só queria Santana.
"Perdeu a coragem?" – Kurt se aproximou depois que trancou a porta.
"Só preciso de um minuto."
Respirou fundo e bateu à porta semi-aberta. Entrou cautelosa no quarto, sem saber o que poderia esperar. Encontrou Rachel sentada encostadas na cabeceira da cama. Abraçava as próprias pernas e o rosto estava enterrado sobre os joelhos.
"Vim o mais rápido que pude" – Santana suavizou a voz e se aproximou devagar – "Kurt disse que você resolveu fazer uma reforma estética pela alta madrugada" – a piada não surtiu efeito. Sentou-se à beira da cama em frente a Rachel e a tocou gentilmente nos braços – "Deixa eu te ver."
"Não! É horrível!"
"Não deve ser tão ruim" – passou os dedos entre os cabelos de Rachel – "Vamos Rach, se você não me mostrar, fica complicado para te ajudar. Sabe que eu não sou muito boa nisso, então se você não me ajudar a te ajudar, vai ser complicado."
Rachel levantou a cabeça, mas com os olhos fechados. Sentiu a mão de Santana acariciar gentilmente o seu rosto. Abriu os olhos devagar em meio as lágrimas e revelou olhos completamente vermelhos.
"Será que devemos comprar para você óculos de quartzo rubi? Não sei se encontraremos um desses numa feira livre..."
"Quartzo rubi?"
"Você sabe, como o Ciclope dos X-Men" – o efeito da piada foi mais lágrimas vindas de Rachel.
"Eu só quero que isso vá embora."
"Calma" – Santana a abraçou e permitiu que a amiga chorasse em seus ombros – "Calma. Por deus, você está tremendo, Rach. Precisa respirar fundo, e se acalmar. Isso... isso é o seu poder se manifestando pela primeira vez. É sempre confuso. Foi assim para todos nós. É como menstruar, sabe? A primeira vez é sempre um baque, mas a gente aprende a lidar com isso rapidinho."
"Estou com medo. Com medo do que eu possa fazer. E se eu não puder controlar?"
"Diz exatamente o que sente, além de estar com o corpo trêmulo, porque isso até eu posso perceber" – Santana voltou a acariciar o rosto da amiga e com um aceno a encorajou a falar.
"Meu corpo todo está formigando, estou sentindo palpitações... Santana, eu estou com medo. Eu só quero que meu olho volte ao normal."
"Segure a minha mão. Você precisa se concentrar, Rach, se concentrar e procurar relaxar o máximo que puder. Feche os olhos e concentre-se na minha voz, ok?"
Rachel aninhou-se contra o corpo de Santana, que a abraçou e a abrigou. Beijou o topo da cabeça de Rachel e começou a embalá-la devagar e a serenar.
"Eu vou fazer uma canção para ela/ uma canção singela, brasileira/ para lançar depois do carnaval/ eu vou fazer um iê-iê-iê romântico/ um anticomputador sentimental/ Eu vou fazer uma canção de amor/ para gravar um disco voador."
"Nunca entendi porque essa canção não entrou na versão final da nossa peça... lembro de assistir você a ensaiando pela primeira vez... achei tão bonito" – Rachel disse com o som da voz saindo abafada por causa da posição em que estava – "Eu sempre gostei de te ouvir cantar. Desde a primeira vez. Desde quando eu te vi na sua audição."
"Eu estava tão nervosa... Cantei a música que estava ouvindo no rádio..."
"Meu cabelo é ruim, mas meu terno é de lin/ vou ser seu salgadin/ cê vai gostar de mim/ se eu tocar no seu radin..." – Rachel cantarolou e sorriu ao lembrar-se. Como odiava aquela música, mas a interpretação da vigilante foi das mais adoráveis.
Santana puxou o rosto dela para cima. O brilho vermelho dos olhos de Rachel havia sumido.
"Eu vejo lindos olhos castanhos."
"Verdade?" – Rachel parecia uma garotinha frágil.
"Posso trazer o espelho se duvidar."
Rachel endireitou o corpo o suficiente para poder tocar o rosto da vigilante. Os dedos da pequena diva alojaram-se atrás do pescoço e as duas se inclinaram para um beijo nos lábios. O toque era suave, calmo, cheio de sentimentos e significados. Era um agradecimento, um alívio, uma declaração do quanto Santana era importante para Rachel. Era também uma declaração de amor. Rachel partiu os lábios e convidou Santana a entrar. As línguas se tocaram e dançaram preguiçosamente.
Mas o beijo terminou de forma abrupta. Os sentidos normalmente alertas de Santana relaxaram na sensação prazerosa e ela não ouviu a porta da frente se abrir mais uma vez, nem o cochicho de Kurt e nem Finn entrando no quarto a tempo de flagrar as duas. Assistir o beijo o cegou de ciúmes e raiva. Ele puxou Santana pelos ombros e a jogou em direção a porta.
"Fique longe dela!" – berrou – "Fique longe dela!"
"Calma aí, grandão..."
Santana foi surpreendida por um soco. Finn estava tão possesso que ele não processava que ela era uma garota, algo que ia contra a política do próprio. Santana deu alguns passos para trás, trouxe Finn para a sala, que queria ir para cima dela com toda força que tinha. Tudo que a vigilante fez, foi ignorar a gritaria de Rachel e Kurt para se defender dos golpes. Era tudo que podia fazer, porque se caso reagisse, bastaria um soco para matá-lo. Finn montou em cima dela em golpes contínuos. Estava transtornado. Santana apenas protegia o rosto. Kurt tentava tirá-lo de lá.
"Chega!" – Rachel gritou.
Uma onda de choque atingiu o apartamento. Os corpos de Finn e Kurt chocaram-se contra móveis e paredes. Os vidros todos quebraram. Santana só sentiu menos a força do baque por ter um corpo mais resistente e por estar no chão. Ainda assim, sentiu suas costas deslizarem. Foi a primeira a se levantar. Rachel estava parada no centro da sala. Chorava e tremia. Os olhos estavam vermelhos vivos. O lugar transformou-se numa zona de guerra. O cano da pia da cozinha se rompeu. Santana sentiu cheiro de gás. Correu para achar os registros e fechá-los antes de tudo ali fosse pelos ares e aí não teria corpo forte no mundo que resistisse uma explosão. Ouviu alarmes disparados, vizinhos que começavam a se agitar nas escadarias.
"O que aconteceu? Vocês estão bem?" – um senhor negro que morava no andar de cima invadiu a casa.
"Onde ficam os registros?" – Santana disse urgente.
"Aqui" – como os apartamentos eram padronizados, sabia onde eles ficavam. Correu para fechá-los – "O que aconteceu?"
"Ajude ele!" – apontou para Kurt enquanto correu para ver como Finn estava.
Checou os sinais vitais do mecânico. O pulso estava forte e ele dava sinais de que acordaria em breve. Kurt não parecia tão bem assim. Ele levou a pancada mais forte da onda de energia.
"Vou chamar uma ambulância" – o vizinho anunciou.
Santana verificou o celular no bolso de trás da calça. Aparentemente estava quebrado. Voltou a atenção para Rachel, ainda paralisada por tudo que aconteceu. Fisicamente parecia bem. O problema era o psicológico. Santana a abraçou e a fez sentar-se no chão. Rachel chorava copiosamente.
"Calma, ok? Eles estão bem, ok? Tudo vai ficar bem."
Outras pessoas, vizinhos, chegaram para conferir o estrago e com dezenas de perguntas. Podiam ouvir o barulho das sirenes ao longe. Finn foi ajudado por dois homens. Uma mulher se aproximou das garotas.
"Estamos bem" – Santana permaneceu abraçada protetoramente a Rachel – "Não se preocupe que estamos bem."
Os paramédicos entraram. Atenderam Kurt ainda desmaiado e um atordoado e ferido Finn. Checaram Rachel e Santana agradeceu pelos olhos dela estarem normais àquela altura.
"Sinais vitais normais. Escoriações e hematomas leves. Mas você vai para o hospital mesmo assim. A gente nunca sabe" – um dos paramédicos declarou ao dar uma olhada em Santana – "Sabe dizer o que aconteceu aqui?"
"Nenhuma idéia, doutor. Algo explodiu. É só isso."
Finn e Kurt foram levados em uma ambulância. Rachel e Santana em outra. Em cinco minutos os quatro desceram no hospital público mais próximo. Santana e Finn foram submetidos a alguns exames, mas eles estavam bem e foram liberados após o mecânico receber três pontos atrás da cabeça e os dois ganharem uma porção de analgésico na veia. Rachel precisou ser medicada e sedada. Kurt tinha um sangramento interno e foi encaminhado imediatamente para a cirurgia.
"Isso não teria acontecido se não fosse você" – Finn disse baixo e ameaçador quando sentou-se ao lado da vigilante – "Se algo acontecer com Kurt, eu juro que vou fazer você pagar, Lopez."
"A culpa é minha? Eu não causei nada disso. Entendo a sua raiva, Finnept. Puxa, você me pegou tirando uma casquinha da sua namorada. Culpa minha se roubei um beijo dela, mas eu não causei nada disso e você precisa ter muito cuidado com o que vai dizer."
"Você está me ameaçando?"
"Vamos aos fatos aqui. Kurt está sendo operado agora. O pai dele está na metrópole pegando um avião diretamente para cá. A sua mãe vai chegar aqui sem tempo e a polícia vai começar a fazer um monte de perguntas. Você precisa inventar uma história muito louca para jogar a culpa em mim quando você estava me socando na hora que alguma coisa explodiu. Até onde sei, Hudson, sou eu quem pode te processar no final do dia."
O mecânico cruzou os braços e absorveu as palavras da colega de teatro. O que o doía é que ela tinha completa razão. Ele ficou fora de si e a atacou. Atacou uma mulher e a socou sem dó. Não entendia como Santana não apresentava mais hematomas, embora isso pouco importava naquele instante. O fato é que o irmão de consideração estava mal e a namorada que tanto amava estava sedada num leito de hospital.
"Por que você foi lá?" – Santana perguntou com austeridade.
"Kurt me ligou. Disse que havia algo errado com Rachel. Que algo aconteceu e ela começou a chamar por você. O que não fazia o menor sentido. Até eu entrar naquele quarto. Há quanto tempo isso está acontecendo?"
"Nada está acontecendo" – Santana ficou na defensiva.
"Eu tenho o direito de saber, Lopez. Aquela que está sedada naquela maca é a mulher da minha vida e eu a flagrei aos beijos contigo antes de haver uma explosão naquele apartamento. Eu mereço saber o que está acontecendo."
"Rachel e eu nos tornamos amigas. Juro que é isso. O beijo foi do momento, ok?"
"Posso aceitar isso, mas o que não entendo é porque ela chamaria a você e não a mim num momento de crise? Ou porque ela não teria desabafado com Kurt, que é o melhor amigo dela desde sempre? Algo está mal contado nessa história e eu sei que você sabe do que se trata."
"O que interessa saber agora" – Santana suspirou – "É que Rachel vai precisar de todo apoio que pudermos dar quando acordar e souber de Kurt. Você pode fazer isso sem querer me socar na frente dela?"
"Por enquanto..."
Em uma hora, Santana estava na sala de espera do hospital em companhia da mãe de Finn, Puck, Tina, Dave (que só viu em algumas ocasiões), Emma e Schuester. Finn estava como companhia de Rachel e nada no mundo o impediria de fazê-lo. Santana se sentia uma estranha naquela sala. Puck a olhava como uma intrusa que deve ter causado a confusão, provavelmente fosse uma terrorista que implantou uma bomba no apartamento dos amigos. Felizmente, Tina estava ao lado dela e a presença de um amigo que não a julgava com o olhar amenizava a sensação ruim.
Mais meia hora e Mercedes chegou para apoiar os amigos e, naquele instante, Santana em especial. Segurou a mão da amiga e a aconchegou para que deitasse a cabeça nos ombros. Mais dez minutos e a polícia a convocou juntamente com Finn para prestar esclarecimentos. O mecânico a acusou na frente dos policiais de tentar roubar a namorada dele e que os dois estavam "discutindo" no momento da explosão. Mas ambos ficaram silenciosos sobre o que poderia ter sido a causa. Finn realmente não tinha idéia. Santana sabia do que se tratava, mas explicar seria expor outras vidas, inclusive a dela.
Ambos voltaram do interrogatório com a notícia de que a cirurgia de Kurt foi bem sucedida. O colega estava estável e se recuperando na CTI até que estivesse bem suficiente para ser transferido a um quarto. O pai de Kurt, chegaria quarenta minutos depois e seria o primeiro a visitar o filho recém operado.
Apesar dos protestos de Finn e o argumento de todos os presentes sobre o estado de Rachel, Santana ficou no hospital até que ela pudesse se recuperar. Foi a única que se lembrou de avisar os pais dela e a ligar. Quando Hiram e Leroy chegaram, ficaram ao lado de Santana até que pudessem entrar e conferir com os próprios olhos o estado da filha.
"Eu sinto muito" – Santana abaixou os olhos para Leroy – "Eu acabei me envolvendo com a sua filha quando ela já tinha um namorado. Juro que não foi minha intenção. Apenas... aconteceu."
"Não é sua culpa gostar dela" – Leroy a abraçou – "Cá entre nós, eu prefiro você do que aquele grandalhão" – Santana sorriu brevemente e rompeu com o abraço – "Você está exausta. Vá para casa descansar. Já fez muito aqui."
"Eu gostaria de ver Kurt e de estar aqui para quando ela acordasse."
"São seis horas da tarde, Santana e você está neste hospital a mais de 12 horas, pelo que entendi. Vá para casa e descanse. Nós vamos levar Rachel para nossa casa, então apareça lá amanhã. Venha para o café, se quiser. Mas, por favor, vá para casa."
"Amanhã é a pré-estreia da peça..." – choramingou – "Rachel vai odiar perder isso."
Leroy sorriu e acariciou os cabelos bagunçados da universitária.
"Sim, mas fazer o quê?"
Leroy fez questão de pagar o táxi que levaria Santana para casa. O velho carro dela ainda estava estacionado em frente ao prédio e ela não tinha se lembrado de pedir para Mercedes, Grant ou algum outro amigo para fazer o favor. Quando bateu a porta do dormitório, deparou-se com uma pequena assembléia que ali estava. Mercedes, Artie e Grant discutiam sobre o caso.
"Foi Rachel" – Santana disse simplesmente e deitou-se na cama – "Ela é como nós e está muito assustada" – rolo para o lado e fechou os olhos. Ainda escutou as discussões dos três amigos.
"Todo mundo que conhecemos manifestou ter poderes na puberdade. Eu, você, Santana... até mesmo Quinn disse que começou na puberdade apesar de ela só começar a aprender a controlar agora. Rachel tem uns 20 anos. Não entendo porque só agora" – Artie tomou um pouco da coca-cola que roubou da geladeira das amigas.
"Minha teoria é que os poderes dela estavam em estado latente e que poderia permanecer assim pelo resto da vida. Até que aconteceu um evento de muito estresse. Algo realmente significativo para o estado físico e emocional dela. Uma coisa poderosa suficiente para fazer com que esse poder em estado latente começasse a vir a superfície."
"A tentativa de estupro talvez?" – Mercedes – "Santana chegou a mencionar que pegou o cara quando ele estava... colocando. Isso é um baita trauma. Seria para mim."
"É possível."
"Vocês, por favor, poderiam discutir isso em outro lugar?" – Santana resmungou alto – "Isso não é algo que gostaria de lembrar agora, ok?"
Os três silenciaram a ponto de ouvirem um pequeno suspiro da vigilante. Grant concordou adiar a conversa naquele dia. Mas era algo que ele sabia que não poderia deixar de lado. Havia muita gente na cidade que ficaria interessada nesses eventos. O rapaz estava certo. Naquele instante, Martinez, Harmony acompanhado do policial que perseguiu Santana entraram no local interditado pela polícia.
"Se fosse uma bomba, teriam achado vestígios" – o policial afirmou – "Meu palpite é que foi um dos garotos. Minha aposta é no grandão. Ele disse que flagrou a namorada dele aos beijos com outra. Qualquer um explodiria, entende?"
"Seja como for, essa pessoa não tem domínio dos poderes e seria potencialmente perigoso para todos nós" – Harmony comentou.
"Está sugerindo eliminação? Esses garotos têm relação com o conselheiro municipal mais popular desta cidade. Não será fácil" – Martinez ponderou – "Talvez seja mais sábio se eu pudesse trabalhar com ele primeiro. Talvez eu possa ajudá-lo."
"Você está sem prestígio, sabe?" – o policial zombou.
"E assassinato é uma solução mais plausível?" – Martinez questionou.
"Os chefes vão decidir" – Harmony encerrou a discussão.
