Rachel esfregava as mãos de ansiedade. Ela olhava para fora da janela do antigo quarto e ficava com medo de se movimentar. De tempos em tempos checava a cor dos olhos no espelho. Tinha medo de eles ficarem vermelhos. Tinha medo de ficar perto dos pais, de Finn ou de qualquer outra pessoa. Chorou compulsivamente quando soube que o melhor amigo poderia ter perdido a vida por causa dela. Culpou-se por desejar tanto ter um poder como os vigilantes, e agora que tinha, implorava a Deus para arrancar isso dela.

"Rachel?" – ouviu batidas à porta. Era Hiram.

"Fique longe de mim, papai."

"Tem alguém que está ansiosa querendo falar contigo."

"Eu disse que não quero ver ninguém. Absolutamente ninguém."

"Nem a mim?" – Rachel olhou para trás, em direção à ponta, para ver Santana ao lado do pai. Fechou os olhos e virou o rosto.

"Especialmente você."

"Rachel, por favor..." – a vigilante insistiu – "Não vai ajudar em nada se você se isolar."

"Talvez" – Rachel continuou com as costas viradas para a porta – "Mas eu não quero falar agora. Por favor, me deixe em paz."

"Por favor, Rachel. Me dê cinco minutos. É tudo que peço" – receberam silêncio como resposta e Hiram começou a puxar Santana pelo braço – "Rach, o que aconteceu com Kurt foi duro. Eu sei o que está sentido. E também sei que posso ajudar" – insistiu em urgência.

"Como assim, você sabe o que estou sentindo?" – reagiu com agressividade – "Como ousa dizer isso?"

"Porque eu sei, acredite. Cinco minutos, Rach."

Rachel olhou para o pai e depois para a vigilante. Os dois estavam ansiosos para saber uma resposta, em especial Santana, que parecia mesmo determinada a falar com a amiga custe o que custasse. Eram quase meio dia. Algumas pessoas haviam passado por aquela casa: Tina, Puck e até mesmo Finn. Ela tinha recusado a todos e lhe parecia certo não dar qualquer chance a Santana. Olhou para o pai e acenou.

"Você tem cinco minutos."

Santana agradeceu a Hiram e fechou a porta do quarto. Rachel permaneceu na mesma posição, com os braços cruzados. Ainda sentia raiva por tudo. Raiva dela mesma. Mas, talvez, gostaria de saber o que a vigilante teria a dizer.

"Eu sei que é duro. É difícil, mas ficar aqui parada não vai ajudar em nada..." – Santana se aproximou apenas para ser cortada.

"Deixa eu adivinhar: você vai dizer que não é culpa minha, que eu não deveria me sentir assim, que devo treinar e aprender a controlar essa besta que está dentro de mim?"

"Basicamente" – Santana sorriu sem jeito.

"Então você já pode ir embora. Não estou interessada."

"Kurt não é considerado exatamente um amigo, mas eu gosto dele. Eu o acho talentoso..."

"Não ouse, Santana! Não ouse!"

"Ok" – ela suspirou – "Quer ouvir uma história? Uma de quando eu tinha 16 anos e comecei a ficar realmente forte? Uma que por falta de controle eu quase matei a minha primeira namorada?"

Rachel fechou o cenho. Estava curiosa. Santana não era exatamente um livro aberto e Rachel queria saber mais a respeito da vigilante. Matar a primeira namorada? Talvez isso fosse realmente próximo com o que aconteceu com Kurt. Ao sentir a abertura, Santana encostou-se na cômoda, quase de frente a amiga, e evitou olhar diretamente para ela.

"Sabe naqueles filmes do Homem-Aranha em que ele recém descobre os poderes e começa a quebrar coisas pela casa? Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Digitar era uma dificuldade porque eu costumava quebrar os teclados em menos de cinco minutos de uso. Ainda quebro, mas eles duram consideravelmente mais. Eu quebrei portas, maçanetas, janelas, minha cama... tudo porque eu não conseguia controlar a força que só aumentava. Tinha medo até de tocar nas pessoas. Meus pais me mandaram fazer tai chi chuan, que ajudou bastante. Ao menos consegui conviver com isso por um bom tempo. Naquela época eu achava que era suficiente, que estava no controle, mas estava enganada. Até acontecer um dos piores dias da minha vida foi quando eu quebrei a primeira menina que amei."

"Como?" – a voz de Rachel saiu miúda.

"Kurt deve saber o que é sair do armário na escola. É duro."

"É sim. Eu fui testemunha. Kurt sofreu tanto bulling que quase mudou de escola. Foi preciso Finn, Dave e Puck fazerem um pacto ameaçador com alguns valentões da escola."

"Não leve a mal. Eu era razoavelmente popular na minha escola por ser uma das estrelas do time de atletismo. Alice também. Ela era uma aluna do quadro de honra e estava no time de natação. Mas a partir do momento em que assumimos publicamente o namoro, as coisas mudaram. Muitos recriminavam, nossos poucos amigos verdadeiros apoiaram e alguns garotos começaram a nos assediar. Diziam que tinham o instrumento perfeito para nos fazer ser heterossexuais e apontavam para os próprios pintos. Havia um lago na minha cidade em que os jovens costumavam ir para curtir os amigos, dar uns amassos em paz. Alice e eu fomos ao lago com alguns amigos e em determinado momento arrisquei a minha sorte para uma rapidinha. Eu a conduzi para um lugar mais isolado, estava com tesão, sabe? E a gente já tinha perdido a virgindade uma para outra dois meses antes e eu achava naquele momento que a vida era maravilhosa. Alguns caras da escola nos seguiram até esse lugar e decidiram que iriam tirar proveito. Eram cinco contra duas, mas a vantagem estava toda para o meu lado. Por mais que dissesse para eles caírem fora e nos deixar em paz, isso não iria acontecer. Eu tirei um valentão que foi para cima de Alice. Ele voou alguns metros quando eu o arremessei. Um segundo tentou me bater, mas eu quebrei a mão dele com um simples aperto. Quebrei o nariz de um terceiro quando coloquei a mão no rosto dele. Não estava me segurando, sabe? Nunca tinha colocado minha força numa briga daquele tipo e me senti ótima. Eu poderia destruir a todos eles. Eram só garotos, mas e daí? Eu também era só uma garota. Um desses caras pegou uma lata de cerveja e espirrou o líquido nos meus olhos. Eu fiquei sem ver por um tempo e senti que alguém se aproximou. Eu girei o corpo e acertei um murro nessa pessoa. Quando consegui enxergar, os garotos já tinham corrido e Alice estava estirada no chão com sangue saindo pelo nariz e pela boca. O murro que eu dei quebrou as costelas dela e perfurou um pulmão. Ela passou por cirurgias e ficou um mês internada no hospital. Eu disse para os nossos pais que tínhamos brigado com uns garotos e Alice caiu por cima de uma pedra. Ela nunca me desmentiu, em compensação, terminou comigo e nunca mais quis ver a minha cara por mais que eu implorasse perdão. Eu nunca me perdoei, de qualquer forma."

"Você nunca mais falou com ela?"

"Ela não quis falar comigo, Rach. Não a culpo. Alice era uma atleta e amava competir. Depois desse episódio, ela nunca mais pode voltar a treinar. Eu arruinei a vida dela. Alice foi o meu primeiro grande amor e eu a arruinei. Eu tinha 16 anos. Passei um ano retraída, me corroendo em culpa, me amaldiçoando, procurando não mais me relacionar com as pessoas como auto-punição. Saí da equipe de atletismo e virei uma loser. Até o dia em que Alice apareceu na escola pendurada no pescoço de um dos caras que tentou nos atacar naquele dia. Foi um golpe cruel. O ponto é que foi preciso eu mudar de cidade e ir para a faculdade para encontrar pessoas que me ajudaram a lidar com o meu dom. Com a ajuda, eu entendi que o que tinha não era uma maldição, mas algo que poderia usar para o bem. O que precisava fazer era treinar o meu potencial e meu auto-controle. Martinez, pode ser um cretino, sabe? Mas não posso negar que ele me ajudou muito, assim como Artie, Grant, Matt, Brittany... E você tem todas essas pessoas para se apoiar, para ajudar a lidar com esse dom que aflorou numa hora complicada, que machucou o seu melhor amigo, mas Rach, confie em mim quando eu digo: se isolar é pior. A melhor maneira de você fazer um bem a Kurt e a todos que ama, de garantir a segurança deles, é aprender a usar o dom que tem. E você não precisa esperar dois anos como eu para ter essa ajuda. Cinco anos, se for contar o tempo em que meus dons começaram a florescer."

"Isso não muda o fato de Kurt estar no hospital por minha causa."

"Não... não muda. Mas você não estaria honrando seu amigo se ficar de braços cruzados."

Rachel parou para considerar a história. Santana continuava encostada na cômoda sem querer se aproximar, respeitando o espaço da amiga.

"Tai Chi funciona mesmo?" – ela perguntou ansiosa.

"Eu continuo praticando até hoje aos fins de semana ou quando fico ansiosa. É um bom exercício para você ajudar a se equilibrar."

"Você poderia me ensinar?"

"Claro."

"Amanhã? Não sei se conseguiria hoje..."

"Tome o seu tempo, Rach. O processo é longo. Foi assim para todos nós. O mais importante nisso tudo é você entender que precisa trabalhar isso, porque faz parte do que você é."

"Amanhã" – ela repetiu – "Eu aprecio você ter feito tudo isso por mim, Santana, mas é que eu gostaria de ficar um pouco só agora. Estou cansada."

"Ok. Mas Rach, uma coisa: procure dormir e não pensar muito em olhos vermelhos. Isso ajuda. E se você sentir qualquer coisa, se os seus olhos mudarem de cor e você sentir aqueles formigamentos, me ligue imediatamente."

"Obrigada. Até amanhã."

Santana acenou e saiu do quarto. Desceu as escadas e acenou positivo para os Berry que esperavam ansiosos por notícias.

"Ela não está bem, mas vai ficar" – Santana disse com seriedade – "Ao menos aceitou ajuda. Amanhã eu volto pela manhã."

"Obrigado, Santana" – Hiram a abraçou e o gesto pegou a vigilante de surpresa.

Ela retribuiu o gesto e sorriu ao se retirar da residência dos Berry. Quinze minutos depois de deixar o lugar, uma caminhonete estacionou em frente a casa e Finn Hudson desceu do veículo. Mais uma vez não foi bem recebido por Hiram e Leroy, mas os homens deixaram com que o jovem rapaz tentasse a sorte com a namorada, afinal, Rachel era adulta, não dependia deles e estava ali temporariamente. O namorado bateu à porta, mas o pedido que ouviu foi de que voltasse outro dia, que Rachel não estava pronta para conversar com mais ninguém.

Frustrado e confuso por não ter respostas sobre o que aconteceu no apartamento, pensou na pessoa que, para ele, foi a culpada por tudo. Para ele, Santana exerceu uma influência negativa secreta sobre Rachel que ele não percebeu. Mas adiantaria tirar satisfações? A peça estava adiada por conta do acidente no apartamento que fez com que Kurt acabasse em uma mesa de cirurgia e Rachel ficasse deprimida. O diretor Schuester não sabia quando poderia marcar uma nova data. Substituir os papéis menores, como o de Kurt, era uma tarefa mais simples, e esses mesmos atores dos papeis menores substituíam os atores com papeis principais. No caso de Rachel, Tina assumiria o lugar. Mas estrear sem Rachel era impensável e o grupo não tinha a menor condição de atuar naquele momento. Seria Santana substituível?

"Finn, como estão as coisas?" – ouviu a voz do amigo e diretor pelo telefone – "Kurt e Rachel estão bem?"

"Kurt está se recuperando bem e se tudo der certo, deve deixar a CTI no fim do dia e ir para o quarto. Já Rachel está... ela está quebrada, Schue, e eu não sei o que fazer."

"Dê tempo a ela, Finn. Pelo que você me contou no hospital, as coisas foram intensas."

"Sim, foram mesmo. Descobri que Rachel é capaz de me trair."

"Você não tem certeza das circunstâncias. Não julgue precipitadamente."

"Eu sei que Rachel não faria isso de graça. Assim como também sei que Santana é uma desagregadora. Tanto fez para prejudicar o grupo que finalmente conseguiu."

"Você está nervoso" – Schuester procurou ponderar – "E nunca é bom fazermos ou dizermos coisas de cabeça quente."

"O que eu sei é que não posso ficar no mesmo grupo em que Santana também esteja presente. Sei que ela é uma boa cantora e atriz, mas não suporto ficar no mesmo ambiente que ela. Lembra quando o senhor disse que tínhamos poder de veto sobre o grupo. Solicito isso agora. Ou ela, ou eu."

"Finn, reconsidere..."

"Eu não sou moralmente superior. Eu não sou tão especial assim como o senhor um dia disse para mim. Simplesmente não sou e aceito isso. Eu sou um mecânico metido a ser técnico de um time de futebol de escola. É isso. Mas eu sei do meu valor para o grupo. Mas deixo a decisão nas suas mãos."

"Faremos uma votação só entre os fundadores então. Se a maioria decidir, Santana estará fora. O que acha?"

"Os termos são razoáveis. Quando votamos?"

"Assim que Kurt tiver condições. Mandei uma mensagem no celular para os membros originais."

"Então mande amanhã. Quanto antes resolvermos, melhor."