Artie colocou a gravada e se atrapalhou para fazer o nó. Como era mesmo que o avô dele fazia? Fechou os olhos e procurou lembrar-se dos ensinamentos valiosos do falecido avô, como dar o nó em uma gravata, algo que o pai de Artie nunca soube fazer. O senhor Abrams sofreu um ataque cardíaco fulminante ao volante quando o jovem Artie tinha apenas nove anos. O velho voltava de um jogo de futebol no qual levou três dos cinco netos. Após uma passagem numa lanchonete, o senhor Abrams pegou a freeway para voltar para casa. Tudo parecia bem, até que o velho começou a passar mal. Ele encostou o carro na estrada, e o neto mais velho pegou o telefone para chamar uma ambulância. Artie estava no carro e se lembra com mais detalhes do que gostaria em ver o velho que tanto gostava revirar os olhos, pálido, e gemer. Até que ele parou de gemer por antes dos paramédicos chegarem. A ida até o hospital na ambulância foi mera formalidade.

"Que se dane a gravata" – resmungou quando não conseguiu lembrar-se de como fazer o nó. Colocou o paletó preto, flutuou até a cadeira e sentou-se para poder sair do dormitório.

Desceu até o hall e esperou pelas meninas. Santana e Mercedes chegaram ao hall em vestidos pretos bem comportados. Não trocaram palavras. Apenas entraram no carro velho de Santana. Era terça-feira, dia do funeral. Era o primeiro que Artie tinha o desprazer de ir desde a morte do avô. Ao contrário do amigo cadeirante, Santana nunca esteve num funeral, apesar da perda de algumas pessoas da família, como um tio. Dizia detestar cemitérios e não se sentia à vontade dentro de igrejas e capelas. Grant seria o primeiro e ela estava sem chão. A sensação não havia se alterado desde o momento em que soube da notícia por meio de um telefonema que recebera de Mercedes. Santana se despedia de Jenny, que viajaria na manhã seguinte, entre beijos e abraços, atendeu ao telefonema de Mercedes. Ficou sem chão.

Mercedes estava "no automático". Ela e Matt firam o corpo do amigo ainda fresco e a cena foi traumatizante. O ódio que sentia do chefe era profundo. O odiava pela morte de um grande amigo e o odiava por ele ter despertado tais sentimentos repugnantes dentro dela. o único consolo era que o contra-ataque estava a caminho. Um melhor e mais digno. Grant deixou instruções muito específicas para ela. Era como se tivesse adivinhado que iria morrer. Bom, Grant era um matemático. Talvez ele tivesse mesmo calculado probabilidades de cenários.

"Matt disse que vai nos encontrar no cemitério. Ele e Quinn" – Mercedes disse ao amigo cadeirante.

"Ok" – a voz de Artie ainda saía embaçada – "Rachel vai?"

"Eu a avisei..."

"Ela não está preparada" – Santana resmungou – "E ela mal conhecia Grant, de qualquer forma."

"E Brittany?" – Artie olhou para Mercedes e ficou preocupado ao ver Santana segurar mais forte o volante do carro.

"Que ela não apareça. Eu só ainda não fui atrás dele por respeito aos desejos de Grant. Só por isso. Mas se ela aparecer, juro que não vou mais conseguir me controlar."

"Não acho que Brittany tenha algo com isso" – Artie defendeu – "Não combina com ela. Sabe disso. Martinez deve mantê-la no escuro."

"Ainda assim" – Santana resmungou – "Ela ficou do lado dele. É amante dele."

"Você prometeu, San" – Mercedes advertiu.

"Eu vou respeitar Grant por hoje. Amanhã é outro dia."

Mercedes ligou o rádio. Ninguém se incomodou. Passava Marisa Monte. Diariamente. Canção longa sobre relações e soluções simples. "Para todas as coisas, dicionário. Para que fiquem prontas, paciência. Para dormir a fronha, madrigal. Para brinca na gangorra, dois". A voz suave de Marisa e o arranjo simples era tranqüilizador. Transformava o percurso numa viagem surreal em que os ocupantes do carro poderiam imaginar por um instante que a vida era mesmo descomplicada. "Para aumentar a vitrola, sábado. Para a cama de mola, hóspede. Para trancar bem a porta, cadeado. Para que serve a calota, Volkswagen."

Chegaram ao cemitério e pegaram as pessoas saindo da capela do velório a caminho do enterro. Santana empurrou a cadeira do amigo em direção o grupo que acompanhava o caixão. Andaram de cabeça baixa, tristes, resistindo à vontade de chorar. Quinn, Matt já estavam por lá. Nenhum sinal de Brittany. Martinez não deveria mesmo estar lá. Mercedes e Matt apontaram o ex-mentor como assassino, e ele se encontrava foragido. Havia se tornado, com isso, uma pessona non grata.

Enquanto o padre falava diante do caixão, sob muitas lágrimas dos pais e da irmã mais velha de Grant, os vigilantes estavam unidos. Santana estava de mãos dadas com Artie e tinha a cabeça de Mercedes encostada no ombro. Quinn e Matt logo ao lado, fazendo uma unidade sólida de amigos.

"... tudo caminha para o mesmo lugar. Tudo vem do pó e tudo volta ao pó..." – dizia o padre sob suspiros e choramingos.

Mercedes prendeu a respiração. Foi a primeira a ver uma garota bonita se aproximar usando um chapéu. Brittany. Imediatamente olhou para o lado, onde estava Santana, e rezou para que a amiga estivesse tão absorvida pelo discurso do padre que não percebesse a presença da colega, que manteve distância. Tarde demais. Santana fechou a expressão e ameaçou causar distúrbio no ambiente para ir para cima. Mas alguma coisa a impedia. Matt. Ele claramente usava o poder para contê-la.

"Calma San" – Matt sussurrou próximo a amiga – "Ela também tem direito."

"Calma?" – ela levantou um pouco a voz chamando a atenção das pessoas mais à frente.

"Não é hora nem lugar" – Matt insistiu – "Pense em Grant."

"Talvez seja hora e lugar."

Matt não teve escolha a não ser agarrar o braço da colega e quase que arrastá-la para longe dos presentes. Se não estivesse usando a telecinésia sobre ela, a escolta seria impossível.

"Você quer se acalmar!" – Matt a empurrou quando chegaram próximos ao estacionamento.

"Eu vou matar aquele cara. Ele matou Grant. Talvez eu possa chamar a atenção dele fazendo algum estrago na amante."

"Você não vai fazer isso!"

"Me de uma boa razão para não fazer."

"Apesar de tudo, você gosta da Brittany. Ela já te salvou da morte algumas vezes e você deve a ela por isso. Além disso, não acho que Brittany esteja mais ao lado de Martinez."

"Eu posso passar por cima disso."

"Não pode, Santana. Sabe que não pode. Você é a nossa referência agora."

"Não sou referência ou exemplo para ninguém."

"É sim" – Matt foi maneirando a voz – "Você pode negar, mas Grant sabia disso. Tanto que ele morreu para te proteger."

Santana recuou alguns passos e chorou mais forte.

"Não jogue essa merda para cima de mim. Não jogue essa responsabilidade para cima de mim!"

"Querer bater em Brittany só para atingir Martinez? Não é você."

"Pessoas mudam."

"Não assim, San. Não você" – Matt aproveitou a fragilidade da amiga e a abraçou, permitindo que ela chorasse tudo que precisava naquele momento.

Voltaram ao grupo quando os presentes se dispersavam após a descida do caixão. Todos os vigilantes, mais Beth, cumprimentaram os pais e a irmã mais velha de Grant antes de irem embora. Não havia mais sinal de Brittany, o que era bom. O grupo não estava preparado para encarar a colega ainda, por mais inocente que ela pudesse ser. E Brittany realmente era. Em nada compactuou com as ações do chefe ou Martinez, figuras, que mais que os demais, tinha dificuldade em conciliar devido ao severo bloqueio que sofreu. Era uma informação que Grant descobriu ao ler os arquivos e que depois deixou uma nota em que defendia a inocência de Brittany e as razões. Nota esta que estava na pasta de recomendações que deixou para Mercedes, mas que a jornalista ainda não teve cabeça e tranqüilidade para ler por completo devido ao tumulto e tristeza dos últimos dias.

A morte de Grant foi um choque para a dançarina. Tão terrível quanto ouvir no noticiário que Martinez era o principal suspeito do assassinato. Algo que a polícia iria concluir com a chegada do resultado dos exames de corpo delito em que o sangue e DNA de Martinez estavam no corpo do matemático (além dos testemunhos de duas pessoas).

"Que tal um bar agora?" – Matt sugeriu – "deveríamos beber em homenagem."

"Você vai. Eu tenho que buscar Beth na escola daqui a pouco" – Quinn olhou para os demais que pouco entendiam as responsabilidades de mãe. Não importava o quanto a situação era grave e urgente, Quinn sempre pensaria em Beth em primeiro lugar. Era um fato.

"Eu te dou uma carona" – Santana ofereceu.

Matt entregou as chaves e o documento do carro para a namorada e os dois se despediram com um beijo. Foram até o velho e conhecido restaurante. Pediram petiscos e bebidas mais fortes que uma mera cerveja. Ali fizeram uma pequena celebração e homenagem ao grande amigo. Recordaram coisas engraçadas, Matt bem lembrou do ódio que Santana sentia porque não conseguia acertar um soco que fosse no matemático durante os treinamentos.

"Ele me irritava..." – ela disse entre gargalhadas – "ele me irritava muito."

"O mais legal foi naquela vez em que você terminou no chão de cara para a água suja da goteira do ginásio" – Artie sorriu.

"Goteira de xixi, isso sim. Aquela água fedia."

"Vocês lembram aquela vez em que Grant quis provar para Santana que não era um esnobe e convidou todo mundo para aquela recepção chique?" – Mercedes disse com a boca cheia de batata frita.

"Nem me fale!" – Artie escondeu o rosto – "A mãe dele focou horrorizada quando a gente saiu comendo tudo que via pela frente... Depois eu a vi perguntar para Mercedes se a gente nunca tinha visto comida na vida."

"Grant estava se divertindo às nossas custas... aquele bastardo" – Santana bebeu – "Por um momento eu achei que a senhora Fish iria mandar a gente ficar para lavar os pratos como compensação pelo prejuízo por termos acabado com a carne de siri."

"E também por ter roubado aquele vinho caríssimo..." – Artie soltou uma gargalhada – "Se a senhora Fish revistasse a minha mochila, ia encontrar três garrafas lá dentro."

"Foi um ótimo vinho" – Mercedes sorriu.

"O melhor" – Santana completou.

"Eu não acredito que vocês não me convidaram para degustar o vinho caro" – Matt reclamou.

"Ué? Você era todo sério e só pensava na sua Quinnie" – Santana desdenhou entre risadas.

"O pior é que Santana tomou uma garrafa sozinha. Tão injusto!" – Artie reclamou.

"Não tenho culpa que eu tenho um metabolismo que faz com que eu demore mais para ficar bêbada. Por outro lado, posso beber mais! Morram de inveja."

Beberam, riram e, por fim, Santana levou todos de volta para casa. Matt era o mais afetado pelo álcool, seguido por Mercedes. Artie nunca teve o hábito de beber tanto assim. Deixou a amiga no dormitório. Cuidou dela. Ajudou a tirar os sapatos e a cobriu com uma manta. Mercedes rapidamente pegou no sono. A vigilante beijou a cabeça da amiga antes de sentar-se na própria cama e rapidamente inquietar-se. Precisava procurar fazer alguma coisa, qualquer coisa, para não cair na besteira de caçar Martinez a começar por um interrogatório pouco agradável envolvendo Brittany. O celular tocou. Levantou-se, deixou um recado, e pegou as chaves do carro.

...

"Quer dizer que não vai falar com Kurt?" – Finn franziu a testa.

Ele estava na sala de estar na casa dos Berry. Os dois homens estavam fora à trabalho, e por isso mesmo achou estranho que Rachel o tenha recepcionado de uma maneira tão fria. Ele esperava beijos e o quarto. Mas ganhou um abraço tímido a sala e foi perguntado se gostaria de um copo de água.

"Eu falei ontem com Kurt. Por telefone" – Rachel se defendeu.

"Digo, em pessoa."

"Eu não estou preparada para sair de casa, Finn."

"Por quê? Me ajude a entender como possivelmente você não está preparada para sair de casa? É como se estivesse se auto imposto um tipo de prisão. Não faz o menor sentido."

"O que aconteceu. A explosão e tudo mais, não foi fácil para mim."

"Não foi também para mim e Kurt parou no hospital" – Finn ainda se recusava a mencionar Santana, como se ela jamais estivesse lá. Fazia de todo possível para não falar o nome dela como se quisesse apagá-la da memória da namorada. Como se quisesse apagar a lembrança da traição.

"Apenas não dá" – Rachel cruzou os braços e pediu mentalmente para que o namorado parasse de insistir.

"Então você não vai à reunião amanhã na casa da minha mãe?"

"Que reunião?"

"Ao menos abriu a sua caixa de mensagens?"

"Que reunião, Finn?"

"Vamos decidir coisas em relação ao grupo de teatro. Apenas com Schuester, Emma e o elenco original."

"Que coisas?"

"Reestreia da peça. As adaptações, votações."

"Que votação."

"A principal, para começar, sobre a expulsão de Santana do grupo."

"Expulsão?" – Rachel estava em choque – "Não pode fazer isso. Ela é uma boa atriz e cantora. E faz um papel expressivo na peça."

"O senhor Schuester pensa diferente. E Puck. E Kurt."

"Está me dizendo que a votação é meramente simbólica uma vez que ela já está de fora?"

"Aquela menina... ela é uma causadora de problemas, Rach. Não vê? Olha o tanto que ela mexeu na sua cabeça."

"Minha cabeça estava mexida bem antes de ela me beijar, Finn."

"Do que você está falando?"

"Nada... eu... eu... eu preciso de espaço. É melhor você ir."

"Rachel, eu estou aqui lutando por este relacionamento. Estou aqui engolindo o fato de você ter tido contato íntimo com aquela menina e fazendo o melhor para passar por cima disso. Tudo que fiz e que faço é visando o futuro do nosso relacionamento..."

"E eu estou aqui tentando conciliar a imagem do meu doce namorado com o homem espancando uma mulher no meio da sala do meu apartamento!" – Rachel apontou.

"Ela nem se machucou!"

"Essa é a sua desculpa?"

Os dois caíram no silêncio. Um tenso, cheio de mágoas.

"Você deixou mesmo que ela ficasse entre nós e eu nem percebi" – Finn passou a mão na cabeça e lamentou-se – "Pior, você sequer mostra ter vontade de tentar arrumar nosso relacionamento. Eu não sei mais dizer o que você quer. Não como antes. Sempre achei que a gente era para sempre."

"Eu também Finn. Eu também... mas eu não sei mais."

"Tudo por causa dela..." – disse enojado.

"Acho que não... minha vida... eu nunca planejei ficar aqui nessa cidade, mas a cada ano tudo que vejo é eu ficar mais e mais amarrada. Comecei a questionar certas coisas, sobre o que eu desisti de fazer, de arriscar, para ficar aqui. Para ficar ao seu lado..."

"Quer saber, Rachel? Não precisa mais me colocar como um empecilho."

"O que quer dizer?"

"Que eu estou farto."

Ao ver Finn bater a porta da sala, Rachel se desesperou. Não era isso que tinha em mente. Não estava preparada para dar fim a um namoro de tantos anos. Chorou no chão da sala, encostada no sofá e por lá ficou por mais de uma hora. Esqueceu de comer de tudo. E quando finalmente teve forças para se levantar, foi até ao lavabo do primeiro andar da casa para lavar o rosto. Colocou as mãos na água fria da pia, juntou um punhado do líquido e lavou o rosto. Enxugou o rosto na toalha e olhou-se no espelho, esperando que ele refletisse pura miséria. Ele fez o papel dele e mostrou muito mais: Rachel viu seus olhos vermelhos refletidos. Entrou em pânico e correu até o celular.

...

Santana chegou em menos de dez minutos assim que recebeu o telefonema de Rachel. O coração disparado a fez esquecer momentaneamente a média embriaguez e o fato de ter enterrado um amigo ainda naquela manhã. Estacionou em frente a casa e correu. Encontrou a porta da frente aberta.

"Rachel?" – nenhuma resposta – "Rachel!" – insistiu mais imperativa.

Nada. A adrenalina corria pelo corpo. Santana começou a procurar a amiga entre os cômodos da casa. Nada na cozinha, na sala, na sala de televisão, no quarto de hóspede, no banheiro, nos quartos do segundo andar. Nada. Ela gritava por Rachel para ter resposta alguma. Havia uma porta que esqueceu. Não conhecia aquela casa tão bem assim para reparar na portinhola debaixo da escada. Abriu com cautela. Era a entrada para o porão. Desceu as escadas até o lugar escurecido que abrigava a lavanderia e prateleiras cheias de ferramentas e objetos. Foi lá, naquele lugar meio empoeirado e úmido, que encontrou Rachel encolhida num canto, abraçando as próprias pernas, com os olhos firmemente fechados e sussurrando o mantra:

"Não posso explodir. Não posso explodir. Não posso explodir."

"Oi" – Santana falou baixinho e se aproximou com cautela – "A porta da frente estava aberta e não vi nenhum Berry por perto..."

Rachel abriu os olhos ainda vermelhos.

"Eu não posso explodir... eu não posso."

"Talvez você possa" – ofereceu a mão para que Rachel se levantasse – "Vem comigo."

"Mas..."

"Se você confia em mim, vem comigo."

Rachel segurou a mão da amiga e logo se viu sendo levada para fora da casa, em direção ao carro. Entrou em pânico por estar desprotegida daquelas paredes, em ambiente público, com os olhos vermelhos. Santana pegou o velho carro e o dirigiu o mais rápido que podia para fora da cidade. Ela conhecia um lugar no caminho da reserva, um campo isolado que ela acampou com uns amigos da faculdade no ano de caloura. Perto de um mirante a dez minutos da cidade. Era isolado suficiente.

"Aguente firme. Só mais alguns minutinhos."

Entrou na estrada de chão e andou um quilômetro floresta adentro. Então parou o carro e correu para abrir a porta de Rachel.

"Vem" – ofereceu a mão mais uma vez.

Rachel a segurou sem hesitar e as duas andaram mais alguns metros até a clareira usada para acampamentos.

"Agora exploda, Rach. Dê o seu melhor!"

Santana correu para de trás de uma árvore e esperou a poderosa onda de deslocamento de ar. Ela veio em questões de segundos. Estava ilesa. A árvore fez o papel dela de proteção. Pensou seriamente que a força da onda foi superestimada, uma vez que no ambiente aberto ela lhe pareceu mais fraca. Contou até dez, então olhou para o lado em que Rachel estava. Encontrou a amiga ainda imóvel, de pé. Estava ofegante.

"Essa foi uma boa explosão" – Santana disse com a voz mansa – "Como se sente?"

"Melhor... bem melhor... aliviada."

"Isso é bom... isso é muito bom. Mas posso perguntar agora o que te levou a perder o controle?"

"Finn."

"O que tem ele?"

"Ele foi até lá em casa pela primeira vez. Nós... nós discutimos sobre algumas coisas e ele terminou tudo comigo."

"Assim... de repente?"

"Eu não sei te dizer" – Rachel choramingou.

"Vem cá" – Santana abriu os braços e ofereceu abrigo, mas foi recusada – "O que foi?" – franziu a testa ao ver a amiga dar um passo para trás.

"Eu preciso de um tempo, Santana. Preciso pensar."

"Só estou te oferecendo um abraço."

"Para mim é muito mais que isso."

"Ok" – Santana aceitou a recusa – "Quer fazer um pouco de tai chi antes de voltar para casa? Vai te ajudar até que você esteja forte o suficiente para começar a controlar essa energia dentro de você."

"Agradeço, mas não... hoje eu só quero voltar para casa e ficar no meu quarto."

As duas entraram no carro e fizeram o caminho de volta, desta vez sem pressa que poderia deixá-las encrencadas com policiais de trânsito. O silêncio predominava. Nem o rádio foi ligado. Ao parar em frente à casa dos pais de Rachel pela segunda vez no dia, olhou para a amiga e lhe deu um sorriso fraco.

"Qualquer coisa, me ligue."

"Eu sei... e Santana?"

"Sim?"

"Eu vi a sua mensagem dizendo que Grant seria enterrado hoje. Acho que posso imaginar o que sentiu e ainda assim você correu para me ajudar. Obrigada."

Santana apenas acenou e Rachel saiu do carro. A vigilante esperou a amiga entrar para então seguir. Estava frustrada triste e desesperada para se embebedar. Passou num supermercado e comprou uma garrafa de vodca. Iria consumir o líquido todinho. Quando chegou novamente no dormitório, não viu mais Mercedes deitada. Sequer viu sinal da colega. Não tinha idéia para onde pudesse ter ido. Não se importava. Não naquele momento. Abriu a garrafa e bebeu.

Acordou de repente por causa de um insistente celular. Ela tinha vontade de jogar o aparelho pela janela e voltar a dormir. Estava meio tonta com a boca seca e amarga. Sentia-se um lixo e deprimida. Pegou o celular, estava escuro no quarto, e atendeu a chamada.

"Espero que não esteja tão bêbada" – disse a voz masculina – "Seria muito ruim se você não estiver em condições de tentar resgatar a sua namoradinha" – Santana deu um pinote na cama.

"O quê?" – gritou.

"Vista o uniforme, vigilante e vamos acertar nossas contas no lugar onde o seu suposto romance secreto começou. Mas se demorar, vou terminar de fazer o trabalho que Howard começou."

Correu até ao armário e vestiu a velha calça aos tropeços, chamando atenção de Mercedes, que acabara de entrar no dormitório. A máscara estava ao alcance das mãos.

"San? O que está fazendo?"

"Rachel."

Foi tudo que disse antes de abrir a porta e correr.