SEIS MESES DEPOIS

"Está vendo o Bob ali?" – Santana apontou para um pedaço de tronco com um rosto desenhado num pedaço de papel – "Ele está te amolando e você está afim de derrubá-lo. Então derrube-o. Concentre-se na sua força e pense nela saindo apenas pelas suas mãos. Respire fundo e vá com calma."

Rachel mexeu os ombros, se posicionou, olhou fixamente para o tronco e respirou fundo. estendeu as mãos na direção de "Bob" e sentiu a energia percorrer o corpo. Os olhos ficaram vermelhos e o "tiro" saiu pelas mãos, atingindo o tronco. Bob cambaleou para trás e depois para frente e então permaneceu no mesmíssimo lugar. Eu frustração. Risadas altas foram ouvidas atrás de Rachel. Ela olhou para os amigos com o cenho fechado e um bico nos lábios. Ali estavam os vigilantes e mais Beth num piquenique em um dia ensolarado.

"Isso não é justo!" – Rachel bufou – "Tenho certeza que tem algo errado."

E tinha. Matt usou a telecinésia para manter "Bob" em pé. Todos sabiam, menos Rachel. A expressão indignada que ela fazia era um deleite par os demais.

"Relaxa e vai molhar a garganta, Berry" – Santana pegou Bob e o colocou debaixo do braço. Tratava-se de um tronco de 80 quilos de madeira maciça que a vigilante segurava como se fosse uma peteca.

Aproveitou para guardá-lo ao lado da cabana que pertencia a Grant, mas que foi cedida a Santana Lopez como parte de uma lista de desejos do ex-vigilante à família. Documento que ele teve tempo ainda de registrar. Aquela cabana, que ficava dentro de uma propriedade particular de preservação e pesca nos arredores da cidade, passou a servir como um centro de encontro e treino dos vigilantes aos fins de semana. Era agradável, isolado e quieto. Tinha dois quartos com uma cama de casal, uma sala com cozinha, banheiro e uma varanda com mesa de madeira maciça. Era ideal para eles, que podiam ficar ali, conversar e praticar seus dons. Até dormir e aproveitar o silêncio da mata. Alguém poderia ficar de olho na pequena Beth que tinha uma extensa área para brincar e um pequeno leito d'água para explorar como se fosse uma grande aventureira.

"Vocês deveriam tratar melhor os membros mais novos" – Rachel abocanhou um pedaço de rosca e resmungou quando viu que o suco de uva estava quente. Estendeu o copo para Quinn, que o segurou por alguns segundos antes de devolvê-lo frio para a pequena diva.

"Eu não sou geladeira, Berry" – Quinn advertiu.

"É que vocês nunca colocam o meu suco para gelar com as demais bebidas" – apontou em direção a geladeira que estava dentro da cabana.

"Não vê que a gente adora te sabotar?" – Santana sentou-se a mesa e olhou para Mercedes, que estava colocando os hambúrgueres na grelha. O estômago dela roncou alto – "Ei Cedes, vai demorar muito?"

"Se eu tivesse ajuda demoraria menos!"

Matt pegou a dica e foi ajudar a amiga.

Era um mês de paz entre os vigilantes após uma época tensa que culminou na descoberta dos objetivos sujos de Martinez e na morte de Grant. Os eventos ainda não foram esquecidos, mas eles procuravam dar o melhor de si para superar. Enquanto a cidade ainda estava uma bagunça por causa do escândalo revelado por uma das maiores empresas de comunicação do país através das reportagens de Sue Sylvester, os vigilantes tentavam arrumar a vida e se adaptarem a uma nova condição.

Santana ainda se sentia estranha na posição de liderança. Ainda não tinha uma grande investigação para designar tarefas e tão pouco foi testada de verdade na posição. Sentia um frio na barriga ao pensar a respeito. Por hora, o trabalho dela era manter os vigilantes unidos e protegidos, além de ajudar Rachel Berry a domar os novos poderes. Não que fizesse isso sozinha. Todos ajudavam e a dinâmica entre eles fez com que se estabelecesse certas funções. Artie era o homem da tecnologia, Mercedes usava as habilidades de repórter para investigação, Quinn era o contraponto de Santana, a pessoa literalmente com a cabeça fria e pragmática. As críticas de Quinn e conselhos ajudavam a nova líder a manter os pés no chão e a cabeça focada. Matt passou a ajudar mais nas patrulhas ao lado de Santana. Rachel... bom, Rachel ainda era como o mascote, a caçula que ainda não sabia bem onde era o seu lugar.

Brittany? Ela não estava mais na cidade. Passou da audição de dança e, junto com Mike, mudou-se para a metrópole. Mas o grupo estava em paz com ela e eles procuravam se comunicar sempre que possível.

"Vocês vão à minha estreia hoje, certo?" – Rachel perguntou.

"Vou pensar no caso" – Quinn disse indiferente, provocando risadas de Mercedes e Artie.

"Claro que vamos, hobbit" – Santana sorriu – "Pelo menos, eu irei."

Trocaram olhares confidentes.

O relacionamento entre as duas ainda era confuso. Havia ciúmes e alguns beijos no processo. Mas na maior parte do tempo Santana procurava dar espaço a Rachel e tentava resistir às tentações das meninas (em geral da universidade) que flertavam seriamente. A situação de relacionamentos era que Santana estava sem Jenny; Rachel estava sem Finn; Quinn estava com Matt, Mercedes estava com David; Artie continuava solteiro.

A estreia que Rachel se referia era da peça produzida na faculdade comunitária para curta temporada chamada Filhos da Revolução. A pequena diva e vigilante em treinamento era a protagonista. Desde que Finn e Schuester expulsaram Santana do elenco do teatro comunitário. Na mesma ocasião do encontro (que ocorreu uma semana depois dos acontecimentos no parque), Rachel se retirou do grupo em solidariedade a Santana e foi acompanhada pelos demais vigilantes, inclusive Brittany (apesar de ela e Mike estarem de saída mesmo). Schuester e Finn recrutaram novas pessoas, mas ainda não conseguiram estrear Tropicália.

Mercedes e Santana começaram a participar do coral performático da universidade. Matt entrou como aluno na academia em que Mike e Brittany davam aula de dança. Quinn aproveitou a oportunidade para voltar a estudar quando conseguiu um novo emprego (graças a uma conversa entre Matt e Grant) de meio período como atendente do escritório de advocacia Fish e uma vaga na creche da própria faculdade comunitária. Ganhava praticamente o mesmo que na livraria e ainda tinha direito a benefícios.

Kurt continuou a morar com Rachel, porém em outro apartamento. Ele era a única pessoa fora os vigilantes que sabia que a melhor amiga tinha um dom e que Santana era uma vigilante (mas não conhecia a identidade dos demais). Quando Kurt soube no primeiro confronto que teve com a amiga sobre o incidente no apartamento e sobre os olhos vermelhos, prometeu total apoio a ela, além de guardar segredo. Independente do conturbado relacionamento dela com Finn, os dois se amavam e podiam confiar um no outro.

Ainda no início da tarde, os vigilantes se despediram e deixaram a cabana, menos Quinn e Matt (além de Beth) que planejavam passar o fim de semana. Rachel aproveitou a carona no velho carro de Santana, que a deixou em casa. Subiu as escadas e colocou as chaves na porta. Estranhou por estar aberta. Ficou em alerta. Olhos vermelhos.

"Kurt?" – ninguém respondeu.

Entrou com cautela. Em silêncio, deixou a bolsa no chão e foi checar o novo apartamento. Ouviu um barulho vindo do quarto do melhor amigo e abriu a porta. Flagrou o amigo dormindo em concha com o namorado. Adam pegou o lençol para tentar cobri-los

"Oh, desculpe" – virou o rosto e o corpo em parte pela vergonha e em parte porque os olhos ainda estavam vermelhos – "É que vocês esqueceram a porta da frente aberta."

"Desculpe, Rach" – Adam respondeu – "Foi um... esquecimento."

"Entendo" – falou ainda de costas – "Aproveitaram a manhã... vou saindo."

Fechou a porta do amigo e trancou a porta da frente. Não foi um flagra ruim. Tomou um banho, preparou-se para o teatro. Era a grande estreia. Tomou um banho e depois ganhou a companhia de Kurt e Adam pela casa, desta vez, de maneira apropriada. No horário certo, os três se dirigiram ao anfiteatro da faculdade comunitária. Rachel maquiou-se, aqueceu a voz e se concentrou. Kurt, que trabalhava como assistente, bateu à porta do camarim avisando que havia chegado a hora.

Rachel entrava apenas na quarta cena, que era uma estratégia do diretor em fazer com que o público não identifique o verdadeiro protagonista logo de cara. Ela entra e brilha. No fim do primeiro ato, faz o primeiro grande solo.

"Eu vejo que aprendi/ o quanto te ensinei/ e é nos teus braços que ele vai saber/ não há por que voltar/ não penso em te seguir/ não quero mais a tua insensatez/ o que fazer sem pensar aprendeste do olhar/ e das palavras que guardei pra ti/ não penso em me vingar/ não sou assim/ a tua insegurança era por mim/ não basta o compromisso/ vale mais o coração/ já que não me entendes, não me julgues/ não me tentes/ o que sabes fazer agora/ veio tudo de nossas horas/ eu não minto, eu não sou assim."

Muitos aplausos ao final do primeiro ato. Na platéia de 300 pessoas estavam Hiram e Leroy Berry, os vigilantes, além de Tina. Todos ali admirando o genuíno talento que era Rachel Berry.

Ao final da peça, Santana pegou a mochila dentro do carro e trocou rapidamente de roupa. Andou pela avenida com cuidado e subiu no telhado de um edifício pelas escadas de incêndio. Dali do alto, colocou a máscara, agora personalizada com o "V" branco e grande sob o tecido preto. Tinha uma cidade para cuidar.

FIM.