Início de abril

Tess olhou para o relógio. Meio-dia e quinze. Verificou se seu celular estava ligado. Não havia chamadas perdidas. Não havia mensagens de voz. Começou a ficar irritada. Lily não costumava deixá-la esperando, principalmente por 15 minutos. Mas sua irmã não era mais tão previsível quanto antes. Ela havia se envolvido com James Potter menos de um mês depois de terminar seu noivado com...

Tess parou de pensar. Pelo menos havia uma centelha no olhar de Lily e uma leveza em seu andar que não existiam antes. Uma aura totalmente diferente a rodeava, e Tess agradecia a James por isso.

Forçando um sorriso, Tess acenou para um funcionário e comeu um pedaço de abacate. Sentada no refeitório da empresa, ela estava contente por ter escolhido uma mesa reservada. Odiava comer sozinha em público e Lily sabia disso. Aqui era especialmente ruim, pois o som reverberava nas paredes e não era absorvido pela decoração moderna. Não dava para pensar direito. Além disso, todo o prédio de 25 andares na Park Avenue era propriedade da Editora Evans, a empresa da família. Ou melhor, empresas. Eles tinham muitas revistas. Logo, muitas pessoas podiam reconhecê-la. E, além disso, ela era uma Evans e já havia provocado muitos boatos.

Devia ter dito a Lily que a encontrasse no restaurante da esquina.

— Por quem você está esperando?

Tess ergueu os olhos e viu Alyssa Evans, editora-chefe da revista Carisma e sua chefe há dois anos e, há 25, sua tia Liss.

— Lily. Ela está atrasada.

— Que raro.

— Eu sei.

— Você está bem? — perguntou Alyssa, em voz baixa. Surpresa, Tess fitou sua tia e esqueceu a entrada do refeitório.

— Claro. Por quê?

— Ultimamente, você tem parecido tensa.

— Estou bem — respondeu, resistindo a tentação de devolver-lhe o comentário. Alyssa estava muito estressada desde que seu pai, avô de Tess, lançara um desafio sobre quem o substituiria quando se aposentasse, no fim do ano. Esse desafio apenas aumentou a tensão existente entre Alyssa e seus pais. O fato de ela estar comendo no refeitório, e não na sala de jantar executiva, também revelava seu incômodo.

— Eu a convidaria para sentar-se conosco, Liss, mas Lily quer falar comigo. Aí está ela.

— Sem problema — agradeceu Alyssa, dando um abarço em Lily. — Vou me encontrar com Bridget. Mais tarde nos vemos.

— Desculpe o atraso — disse Lily — Que roupa linda. Você me empresta? — Tess sorriu. Embora Lily tivesse mudado muito, seu guarda-roupa ainda não incluía nada como minivestido roxo e vermelho que Tess criou e fez na semana passada.

— Minhas roupas são suas roupas — ofereceu.

Lily riu.

Normalmente, Tess sabia o que sua irmã ia dizer, mas desta vez era diferente. Na verdade, isso estava acontecendo há algumas semanas. Elá só sabia que havia algo novo.

— O que houve?

Lily cruzou os dedos e pousou as mãos sobre a mesa.

— Vou pedir uma licença da The Buzz. — Tess ficou chocada ao ouvir aquilo.

— Por quê?

— Quero viajar com James em sua turnê internacional.

— Por quanto tempo?

— Um mês.

Tess não sabia o que dizer.

— Nunca ficamos mais de uma semana afastadas.

— A vida está mudando, Tess. Nós estamos mudando.

— Nos separando. Eu lia sua mente, nós concluíamos a frase uma da outra.

— Isso tinha que acontecer um dia. — Compreensão e determinação soaram na voz de Lily.

— Não acredito que você está desistindo do trabalho com o qual sempre sonhou e de uma promoção iminente por causa de um homem.

— Não é qualquer homem. É James, o homem que eu amo. — A voz calma foi compensada por um brilho em seus olhos. — O homem com quem vou me casar.

— Quando você vai?

— Amanhã.

— Já? — Tess estava mais vulnerável do que nunca. Seu elo com a vida que conhecia estava se rompendo. O ultimo mês fora muito difícil para ela, pois não podia contar a Lily sobre sua noite com Nathan Harlan, principalmente quando sua irmã perguntou onde passara a noite.

— Não seja ciumenta — disse Lily, cobrindo a mão de Tess com a sua.

— Ciumenta? Eu... — Ela parou. Talvez estivesse com ciúmes. Queria tentar a sorte no mundo da moda, mas não tinha coragem de largar o emprego como assistente editorial de moda na revista Carisma.

— Vovô vai acusá-la de ser ingrata — disse à irmã, lembrando-se da principal razão por que não havia deixado o emprego.

— É disso que tenho medo. James tentou me convencer do contrário. Sei que lealdade é mais importante que tudo para vovô, mas preciso e quero fazer isso. É o que vou fazer.

E todos achavam que Lily era a irmã submissa.

— Você já contou para ele?

— Você é a primeira a saber. Vou falar com Benedict depois do almoço. Depois, com vovô e vovó.

Benedict — tio Benedict — era irmão gêmeo de Alyssa e editor-chefe da The Buzz, a revista da Editora Evans sobre o showbiz, onde Lily trabalhava e estava prestes a ser promovida a repórter. Tess não invejava a situação da irmã de ter que falar com Benedict, ou, pior, com seu avô.

— Vou sentir muito a sua falta — disse Tess.

— Eu também — sussurou, com os olhos brilhando.— Vou ligar muito, prometo. Talvez você pudesse nos encontrar em algum ponto da turnê e passar o fim de semana conosco.

— Três é demais. — Tess se esforçava para manter tudo o mais natural possível. Voltou-se para sua salada. — Quer?

— Estou nervosa demais para comer — disse Lily.

Tess assentiu.

— Se quiser levar alguma roupa minha para a turnê, pode escolher.

— James gosta de mim como sou.

Nathan também, pensou Tess. Era muito mais fácil lidar com Lily. Ela não exigia tanta independência ou igualdade de condições quanto Tess. Pelo menos não descaradamente.

— Lá vai você de novo — começou Lily, batendo na mesa.

— O quê?

— Você tem estado distraída há mais ou menos um mês.

— Verdade?

— É. Logo depois de passar a noite fora de casa e não me dizer onde estava. Parece que está me escondendo algo. Também é a primeira vez que isso acontece entre nós.

Tess queria muito conversar com Lily sobre Nathan, sobre aquela noite, mas era impossível. Não podia falar com ninguém, só com o próprio Nathan, mas ele não entrara em contato com ela desde aquele dia, o que a deixava impressionada e chateada com tamanho autocontrole. Exceto por ter recebido o casaco no escritório no dia seguinte, sem nenhum bilhete. Era como se eles não existissem um para o outro.

No entanto, seu corpo ansiava por ele de uma maneira inusitada.

— Podemos passar a noite juntas? — perguntou Tess, mudando de assunto repentinamente. Em seguida, percebeu a dor nos olhos da irmã. Mas não podia lhe dizer a verdade. Nada mudaria isso. Alguns segredos teriam que ser enterrados com ela.

— Você me ajuda a fazer as malas?

— Claro.

— Não sei que horas vou chegar em casa. Vou pegar o helicóptero até The Tides para contar aos nossos avós.

— Espero você acordada. Vou preparar margaritas. Você vai precisar de um drinque — acrescentou Tess, irônica. — Agora, é sua vez.

— Eu sei — respondeu Lily, sorrindo levemente. — Finalmente trocamos os papéis. Você passou anos irritando vovô com os homens que escolhia. Sempre tentei fazer você parar com isso. Desde que mamãe e papai morreram, nossos avós levaram a sério o papel de guardiões. Acho que após 15 anos, é difícil mudar. E, claro, vovô ainda se importa com imagem.

— Ele se importa muito com imagem. — Os homens escolhidos por Tess tinham o único objetivo de irritar seu dominador avô. Homens iam e vinham. Namorou poucos deles; a maioria não passara de amigos. Então, havia Nathan. Sentia sua falta. Como isso acontecera? Mas não podia procurá-lo. Tess, que jamais teve muita paciência, conseguira controlar seu impulso de telefonar, o que fora um pouco mais fácil devido ao rumor de que ele saíra da cidade. Será que estava de luto por ter perdido Lily?

— Preciso ir — disse ela. — Ligo quando estiver indo para casa, contando que vovô me deixe voltar de helicóptero. Senão, será uma longa viagem desde Hamptons.

— Vou pegar o elevador com você — disse Tess, que não queria continuar ali sozinha.

Ela ficava no 17° andar. Lily, um acima.

Tess lhe deu um abraço apertado enquanto o elevador subia.

— Prometa que não vai mudar.

— Não posso.

Tess se afastou e tirou o cabelo da irmã do rosto.

— É maravilhoso se apaixonar, não?

— James é um homem incrível.

Aquela frase simples, recheada de carinho, quase levou Tess às lagrimas. Queria isso — um companheiro, um companheiro incrível, que se importasse com ela, que a achasse maravilhosa. Alguém que fosse só dela, como ela seria só dele.

— Amo você — disse Tess quando a porta abriu.

— Eu também.

Ela saiu do elevador e se encaminhou para sua mesa, atrás do cartaz com o slogan da empresa — Carisma, Moda para o Corpo. O azul-turquesa brilhante e os padrões ousados pareciam gritar. Tudo estava confuso. Precisava de um pouco de paz.

E não havia paz nenhuma em seu local de trabalho. Estava repleto de fotos, relógios e desenhos — coloridos e chamativos. Ela pegou o caderno e virou a página. Desenhou, quase sem pensar, um vestido de noiva para Lily, com um véu longo, como de uma princesa, um vestido digno de contos de fadas, com camadas de roganza, decorado com pérolas e cristais, mas sem exagero, apenas o suficiente para brilhar. Elegante, como Lily.

Virou a folha e desenhou outro vestido de noiva, sem alça, justo, sem véu, apenas alguma flores emaranhadas no cabelo longo e ruivo da noiva — ela.

Ficou olhando para o desenho, com o lápis parado, então arrancou a folha, amassou-a e jogou no lixo. Virando-se para o computador, abriu um arquivo. Ela não fazia o tipo Cinderela. Preferia pular a parte da cerimônia, eliminar o estresse do espetáculo e fazer algo simples, isto é, se fosse se casar.

O telefone tocou. Estava na hora da reunião. Levantou-se, hesitou, e tirou o desenho amassado do lixo. Suas mãos tremiam um pouco. Tentou alisar o papel e guardou-o de volta no caderno.

Era um bom modelo, pensou. Devia refazê-lo e colocá-lo em seu portfólio, foi por isso que o recuperou. Não desperdiçava bons trabalhos.

Mentirosa. A palavra ecoou em sua cabeça. Era tanto uma acusação quanto um alívio, mas era, acima de tudo, honesto, uma característica que estava em falta nesses últimos dias.


Olá! Depois de tanto tempo, mais um cap quentinho com um pouquinho de Lily e Tess. Obrigada Joana Patrícia por comentar, beijos:*