Às nove da noite, dois dias depois, Nathan estava em frente à casa dos Evans, perto das ruas 90 e Amsterdã. O prédio cinza tinha detalhes em branco e uma porta vermelha. Ele apoiou a mão no grande portão de ferro que mantém os transeuntes afastados. No entanto, conhecia uma entrada privada, que o levava ao terceiro, e último andar, havia duas suítes, uma para cada irmã, e uma sala comum.

Os donos da casa, Joseph e Jenne Marie Evans, patriarca e matriarca do clã Evans, passavam a maior parte do tempo em The Tides, sua casa de campo nos Hamptons. Lily e Tess foram criadas lá por seus avós depois que seus pais morreram em um acidente aéreo. Agora, as meninas moravam na cidade e os visitavam ocasionalmente.

A família de Nathan possuía uma casa vizinha à propriedade dos Evans nos Hamptons, mas eles não tinham muito contato. Nathan era quatro anos mais velho que as gêmeas. Já estava na faculdade quando elas ainda entravam no segundo grau. Dois anos depois que as meninas se formaram na universidade, ele as reencontrou e tornou-se amigo de Lily. Seu relacionamento evoluiu a partir daí. Não foi um grande romance, apenas uma presença cada vez maior.

Esse último mês longe de Nova York permitira que ele visse as coisas de outra perspectiva. Ele e Lily não foram feitos um para o outro. Eram muito parecidos. Os dois faziam planos a longo prazo, eram centrados na carreira e tinham a mesma personalidade.

Aparentemente, ela havia mudado. Nathan leu em alguma revista de fofoca que ela estava acompanhando James em sua turnê pela Europa. Estupendo. Quem diria que havia um espírito tão aventureiro preso dentro dela?

Estava tudo acabado, lembou-se. Agora precisava ver Tess. Depois de passar um mês longe, percebeu como era absurdo acontecer algo além daquela noite, mas sabia que se encontrariam eventualmente. Então, precisavam resolver tudo entre eles.

Ele não havia ligado, embora, por diversas vezes, tentasse fazê-lo. Ela também não ligara. E, por ser tão ousada e direta, o fato de não ter telefonado falava por si só. Fora apenas uma noite para os dois.

Pegou o celular para avisá-la que estava lá, mas não completou a ligação. Sabia que devia fazê-lo era um homem educado. Nem sequer sabia se ela estava em casa, ou sozinha, mas queria surpreendê-la para ver sua reação. Não queria dar-lhe tempo de se preparar enquanto subia as escadas. Então, digitou o código na porta da garagem, entrou, passou pela piscina interna e subiu para o quarto de Tess.

O nervosismo estava prejudicando seu equilíbrio. De repente, não conseguiu apertar a campainha. Talvez devesse estar de terno, mostrando a ela e a si mesmo qual era seu objetivo. Ao contrário, estava de suéter e calça jeans, a roupa mais casual que possuía. Antes de sair, passou uma loção pós-barba com aroma cítrico, como o perfume de Tess, que permanecera em sua pele por dias. Nem tomando diversos banhos aquela lembrança o abandonava. Todas as noites, ficava excitado ao pensar nela, na maneira como o admirara, como o tocara. Pensava em seu jeito de beijar e se mover.

Diabos! Estava ficando excitado agora.

Tocou a campainha. Precisava encerrar aquele assunto para tocar a sua vida para a frente. Depois de alguns segundos, uma sombra cobriu o olho mágico e alguns instantes de antecipação se arrastaram antes de a porta se abrir. Talvez ela fingisse que não estava em casa.

A maçaneta girou e a porta se abriu lentamente.

As luzes da sala estavam apagadas. Por trás dela, a luz do quarto iluminava sua silhueta. Ele só viu seu contorno, o cabelo caindo pelos ombros e o robe comprido. Aquele odor alcançou suas narinas, enfeitiçando-o e terminando de excitá-lo.

— Nate?

Ele não sabia como havia confundido sua voz com a de Lily. A de Tess era sedosa, sensual.

— Você está sozinha?

— Estou — ela apontou para a sala. — Entre.

Ele olhou em volta, como se visse o apartamento pela primeira vez. Passara muitos momentos ali com Lily, mas tudo parecia diferente. Viu a influência moderna de Tess, e não os toques aconchegantes de Lily, sua mistura eclética de antiguidades e móveis minimalistas.

— Sente-se — convidou ela, indicando o sofá em frente à janela. Ajeitou um pouco mais o robe, ligou a luz e sentou-se do outro lado do sofá.

Não usava sutiã, e seus mamilos roçavam contra o tecido. Ele não conseguia tirar os olhos dela. Nathan sabia que Tess esperava que ele começasse a conversa, explicando por que estava ali. Contudo, não sabia mais quais eram suas razões.

— Como vai?— perguntou, medindo sua reação, afinal havia aparecido sem ser convidado.

— Bem e você?

— Bem. — Vazio. Diga algo importante, algo sincero.

Ela passou a mão pela coxa. Ele queria fazer isso e, depois, pousar a cabeça em seu colo.

— Para onde você foi? — indagou ela.

— Los Angeles. Eu e meus sócios estamos ampliando o negócio, conquistando novos clientes, aumentando a empresa. Parecia ser um bom momento.

— Então sua decisão foi por causa dos negócios, não por causa...

Não terminou a frase. Devia dizer Lily ou ela mesma?

Virou-se lentamente em sua direção, o que permitiu a Nathan vislumbrar a parte de cima de seu seio. Ele precisava parar de pensar em seu corpo.

— Negócios — respondeu, o que não era totalmente verdade. Havia organizado algumas transações que precisavam da presença de um sócio, então se ofereceu para ir. Sua agência de propaganda já era muito bem sucedida, mas sempre havia espaço para crescer.

— Entendo.

Um longo silêncio se interpôs entre eles.

— Por que você está aqui Nate?

Finalmente, lembrou-se da razão.

— Quero me assegurar que você está bem com o que aconteceu. Não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós, pois vamos continuar nos esbarrando por aí.

— Acho que imaginá-lo nu vai acabar com qualquer sensação estranha para mim.

Ele ficou feliz ao ver o brilho que havia em seus olhos.

— Também é muito vívido para mim.

— Foi bom, Nate, mas muito pesado emocionalmente. Precisamos nos lembrar disso. Deve ser real e não...

— Tess.

— Exatamente. Uma fantasia, nada mais.

— Coisa de uma noite. — Houve uma leve modulação em sua voz, transformando a frase em uma pergunta, se é que ela quis entender desta maneira.

— Com certeza. — Definitivamente. Sem dúvida. Ele desviou o olhar. Não sabia o que dizer.

— Que bom que ficou tudo esclarecido.

— Também acho.

O tom de Nathan mudou um pouco.

— Eu não usei preservativo.

— Nós dois nos deixamos levar, mas não tem problema.

— Ótimo. — Ele se levantou. — Então, já vou indo.

Ela o seguiu. O ar entre eles estava denso. Era difícil respirar. Ao chegar à porta, ele se virou, desejando ser capaz de ler a mente dela.

— Que mais alguma coisa? — perguntou ela aproximando-se e, logo, recuando.

— Você — respondeu ele, segurando sua mão e abraçando-a. — Quero você.

— Nate. — Havia desejo em sua voz, ânsia em seus olhos.

Rapidamente, estavam se beijando, gemendo, trocando carícias, pressionando seus corpos. Ela jogou a cabeça para trás, dando-lhe espaço para passar a língua por seu pescoço. Seu robe se abriu, revelando um corpo quente e úmido, como se tivesse acabado de sair do banho.

— Só penso em você — disse antes de beijar um de seus mamilos, cobrindo sua parte mais feminina com a mão. — Em você, nisso.

— Eu também. — Sua voz era intensa, ofegante. Venha comigo.

Ele a seguiu para o quarto. As luzes estavam acesas, havia desenhos por todos os lados, presos na parede, espalhados no chão, na cama. Ela recolheu papéis. Deixou o robe azul-claro cair ao seus pés, fazendo-a parecer uma deusa emergindo do mar.

Ele retirou o suéter, os sapatos, as meias. Colocou as mãos no cinto, mas ela as afastou. Abriu-o sem tirar os olhos de seu rosto. As cores de Tess estavam mais acentuadas, suas bochechas, mais vivas; seus olhos, mais verdes. Seus lábios estavam inchados de tanto beijá-lo, e levemente entreabertos. Ele sentiu sua calça caindo e livrou-se dela. Então, ela desceu a cueca. Quando se abaixou para removê-la, seu cabelo roçou na barriga e nas coxas dele.

Nathan mergulhou os dedos em seu manto ruivo, cerrou a mão e fechou os olhos com força. Um mês de fantasias se tornava realidade. Não apenas um mês, uma vida. Mas um mês de fantasias com aquela mulher.

Quando ela começou a explorá-lo com mais ousadia, ele a puxou para cima e deitou-a na cama. Queria ir com calma, queria que aquela sensação perdurasse, mas ela o fazia perder o controle. Mergulhou dentro dela, fazendo-a arquear. Seu corpo explodiu em uma série de sensações quentes e rítmicas. Ela se contraiu, envolvendo-o. Atingiram o clímax juntos. Então, os movimentos foram diminuindo, até cessarem por completo. Ele girou na cama, levando-a consigo. Abraçou-a com força.

Por um longo tempo, nenhum dos dois disse nada.

Tess havia passado a melhor parte do último mês — meses, na verdade — tentando se convencer de que não amava Nathan, que se sentia apenas atraída por ele ser diferente, atencioso com Lily de uma maneira que nehum homem jamais fora com ela. Estava com inveja, e havia criado uma fantasia. Agora, estava de volta ao início. Por que, de fato, o amava.

Como poderia mantê-lo em sua vida para que esses sentimentos não a abandonassem? Sua ausência não havia ajudado. E, obviamente, seu relacionamento não podia tornar-se público. As pessoas imaginariam que Nathan e Lily haviam feito amor, logo a idéia de Tess dormir com o ex-noivo de sua irmã era... Nem sequer conseguia pensar na palavra adequada.

As aparências eram importantes, principalmente para Nathan, na vida pessoal e profissional. Embora Tess não tivesse boa reputação, dormir com Nathan ultrapassava todos os limites. Como poderia superar isso? Sem mencionar que ele entraria em contato com Lily.

E, claro, ela também devia ser uma substituta para sua irmã, um meio para ele matar sua curiosidade sobre ela. Por que mais teria feito isso? Certamente, Nathan queria colocar um ponto final em seu relacionamento; era o que ela faria, se fosse ele. Como não tivera uma relação física com Lily, fazer isso com Tess podia ser a solução.

A ideia de que ele podia confundi-la com Lily a deixou constrangida. Mas talvez, ele não pensasse dessa maneira. Talvez isso fosse apenas produto de sua imaginação.

E agora? Tinham de deixar as chamas arderem de maneira controlada, ou aquele fogo jamais se extinguiria.

Ela tinha uma ideia...

— Você ainda quer ter aulas? — perguntou, escondendo-se dele.

Ele a abraçou com mais força e respirou profundamente, como se acabasse de acordar.

— Aulas?

— Da última vez, você pediu para eu ajudá-lo a refinar suas habilidades.

— Você disse que eu não precisava de aulas.

— Não na cama. Mas você pode aprender a ser mais romântico para cortejar uma mulher e levá-la para a cama... da maneira normal.

Depois de um longo momento de silêncio, ele rolou na cama e apoiou-se no cotovelo para fitá-la nos olhos. Sorriu, marcando suas covinhas.

— Cortejar? — Ele riu diante daquela palavra tão antiquada.

— Você tem que admitir que a aula seria útil.

Seu sorriso sumiu.

— Admito. Parece que meu instinto não está dando certo. Exceto — colocou a mão em suas costas e puxou-a para si — quando se trata de você.

— Apenas em relação ao sexo. — Ela sabia que seus sentimentos não eram recíprocos.

— Sem instinto? — Tess deu de ombros.

Nathan afagou seu cabelo, prendeu-o atrás da orelha.

— Então, você quer me ensinar a cortejar uma mulher? O que isso inclui?

Muito tempo juntos. Muitas caricias. Muitas...

— Aulas — disse.

— Dever de casa?

Não havia pensado nisso. Ele teria que testar seus ensinamento com outras mulheres. Isso não daria certo.

— Você vai praticar comigo. Se conseguir me enfeitiçar, saberá que vai funcionar com todas as mulheres.

— Que humilde.

— Não estou sendo metida. Só sou imune aos jogos de sedução da maioria dos homens.

— O que vai acontecer se eu conseguir enfeitiçá-la? — Não tinha resposta. No entanto, havia cavado um buraco do qual não sabia sair. — Acho que este jogo pode ter um resultado desastroso — disse ele.

— Ou divertido. — Ela acariciou seu rosto. muito egoísta querer isso.

— Mas se estamos de acordo, qual é o problema?

— Pois é. Afinal, somo adultos.

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então relaxou.

— Quando começamos?

— Quando você estiver vestido. — Ele sorriu.

— Enquanto isso... — Envolveu-a com a perna e beijou-a até fazê-la esquecer de tudo, exceto da sensação em sua boca.

— Isso é parte do cortejo? — perguntou, beijando seu queixo.

O quê? Ah! Ele estava falando com ela.

Tess não respondeu imediatamente. Ele estava tentando descobrir quais seriam os parâmetros de seu relacionamento. Ela queria mais que sexo, mas sabia que só poderia ter isso. Havia muitos obstáculos. Ele mal havia terminado com sua irmã. Devia aceitar sexo? Será que o desejo se dissiparia com o tempo?

— Estou me divertindo tanto quanto você — disse sinceramente. — Mas nós sabemos que...

Ele tapou sua boca.

— Sabemos. E não precisamos falar sobre isso.

Ela afastou a mão dele.

— Não imaginava que você gostasse de evitar a verdade.

— É meu papel de super-herói. Por isso você nunca me vê de malha e capa, só de terno.

— É por isso... Eu não sabia.

— Quando começamos as aulas? Amanhã? — Então, ainda não iriam definir seu relacionamento.

Talvez isso fosse bom.

— Por que esperar? — perguntou ela.

— Ainda não me inscrevi. — Ele se aproximou e beijou-a. — Ainda não terminei de carregar meu disco rígido.

Ela riu. Quem diria que ele era tão brincalhão.

— Você não é nem um pouco como eu esperava.

— Em que aspecto?

— Em todos os aspectos. Sempre pareceu muito sério.

— Você nunca tinha me visto nu. — Ela riu.

— Faz muita diferença.

Ele se aninhou na curva de seu pescoço.

— Você também é diferente do que parece.

Seu corpo se contorceu ao sentir o calor que emanava do corpo dele em sua pele.

— Como assim?

— É menos ousada.

— Achei que tinha sido bem ousada.

— Sexualmente, sim.

— Em que outro aspecto, então?

Ele não respondeu. A mão que afagava seu corpo parou.

— Você realmente quer passar nosso tempo juntos analisando isso?

Não. Devia aproveitá-lo. Ele ia mudar sua vida — não tinha dúvidas quanto a isso. Mas sua obsessão poderia, finalmente, morrer, e ela continuaria sua vida. Seu relacionamento com sua irmã jamais seria abalado e Tess não daria razão para a imprensa criar boatos. Se Lily podia mudar, ela também podia.

— Não — disse, abraçando-o e beijando-o. — Não precisamos analisar nada. Mas eu planejo estudar seus movimentos.

— Como professora?

— Como mulher — respondeu, sorrindo.

— Nada como saber colocar pressão...

Suas palavras podem ter deixado transparecer falta de confiança em si mesmo, mas suas ações, não. Ele sabia exatamente o que tocar, onde e quando fazê-lo. Tess nunca fora tão bem acariciada. Mas será que tudo se resumia à habilidade? O coração dele não estava nem um pouco envolvido?

Nathan segurou seu rosto. Ela abriu os olhos, pressentindo que ele faria uma pergunta.

— Parece que você não está gostando.

— Estou gostando, sim — respondeu com sinceridade, embora a interpretação dele tenha sido diferente. Todos os seus medos e desejos rodopiavam em sua mente, Queria ignorá-los, mas eles se recusavam a deixá-la.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Começou a se afastar, mas ela o segurou e lhe deu razões para não duvidar mais.