O sábado se recusava a passar mais rápido. Tess escolheu a roupa que usaria, separou as jóias e olhou para o relógio. Meio-dia. Ainda faltavam horas. Normalmente, passaria o tempo costurando, mas não hoje. Estava muito nervosa. Além disso, o dia estava lindo. Decidiu caminhar cinco quilômetros até o edifício da Editora Evans e malhar na academia da empresa.
Ela levou todos os músculos à exaustão, tomou um banho e, envolta na toalha, foi à sauna. Queria poder dizer que havia tirado Nathan da cabeça, mas continuava vendo a expressão de seu rosto — ou a ausência de expressão — enquanto Lily falava com a secretária eletrônica.
Ela também não queria fazer amor depois daquilo, mas...
Sem mas. Não havia nada que pudessem ter feito diferente. O destino interviera. Por um instante — apenas um instante — havia pensado que poderiam ter uma chance.
A porta da sauna se abriu e Alyssa entrou. Havia uma área executiva restrita, mas ela preferiu ir à sauna comum. Os quatro irmãos lutavam pelo cargo de presidente da empresa e, ao mesmo tempo, tentavam manter os laços de família, mas isso era mais uma competição do que uma unidade familiar.
— Malhou bastante? — perguntou Alyssa, sentando-se perto de Tess.
— Peguei pesado, eu precisava. Não venho há algumas semanas. Tenho certeza de que amanhã vou sofrer com isso.
— Acabei de fazer massagem com Madga. Veja se consegue alcançá-la.
Tess abriu a porta, viu um funcionário passando, pediu que falasse com a massagista e sentou-se.
— Fico feliz em ver que está se cuidado — disse Tess à sua tia. — Estou preocupada com você. Todos estão.
— É apenas um ano. Dou conta disso. Depois que eu vencer, vou tirar umas férias. — Ela encostou a cabeça na parede e fechou os olhos.
— Você foi para casa ontem ou dormiu no sofá do escritório?
— No escritório — respondeu preguiçosamente. — Está indo tudo bem com o novo projeto?
— Tudo está ótimo.
— Algum problema em trabalhar com Nathan?
— Não. — Tess não queria entrar em detalhes com Alyssa. — É uma relação comercial.
— E como vai a nova estagiária?
— Bem. Ela tem bom olho. Acho que devia pensar em contratá-la. Melhor conosco do que com a concorrência.
A porta se abriu.
— Srta. Evans, Magda disse que pode fazer uma massagem de 45 minutos.
— Diga que já estou indo.
Ela se aproximou da tia, fazendo-a abrir os olhos.
— Todos queremos que você vença, tia Liss. Mas queremos que esteja saudável quando isso acontecer.
— Vou ficar bem. Vá.
Tess pediu para um funcionário não deixar Alyssa na sauna por mais de 15 minutos. Ela ia acabar dormindo e podia ficar horas lá sem ninguém saber.
Uma hora depois, exercitada, vaporizada e massageada, Tess encaminhou-se para o elevador, sentindo-se incrivelmente relaxada. Ia fazer compras. Ajudaria a passar o tempo.
— Srta. Evans — chamou a recepcionista da academia, correndo até ela. — Seu avô quer vê-la.
Tess agradeceu e tocou o botão de subir. Se não tivesse perdido tempo na massagem, já teria ido embora há muito tempo. Suspirou ao perceber sua má sorte.
Fora ao 23° andar muito poucas vezes na vida, e nenhuma desde que começara a trabalhar na Carisma. O escritório do seu avô era decorado com móveis no estilo europeu antigo, como The Tides, e a casa no centro de Manhattan, com antiguidades que ele e sua esposa haviam comprado em viagens pelo mundo. A familiaridade devia ajudá-la a sentir-se melhor, mas não era isso que acontecia, principalmente quando Joseph estava presente.
Será que sua avó lhe contara sobre o bilhete no balão? Ela disse que não falaria, mas...
A Sra. Bitton, sua assistente e cão de guarda, não estava em sua mesa e a porta para a sala estava aberta. Ela espiou no interior.
Joseph estava no telefone e a secretária fez sinal para que Tess entrasse.
— Estarei lá — disse ele. — E não estou trabalhando muito, querida. Na verdade, Tess está aqui. Vou ficar com ela um pouco e, depois, vou para casa.
Tess balançou a cabeça ao ver a habilidade do avô para distorcer as coisas em benefício próprio. Fazia parecer que ela havia passado por ali por livre e espontânea vontade.
Foi até a parede oposta para observar uma pintura de sua avó vestida de noiva. A maioria das mulheres Evans tinha algo dela. Nessa pose, Tess via a herança que ficara para Alyssa.
— A mulher mais bonita da Terra — disse seu avô, aproximando-se.
— Por dentro e por fora — completou Tess.
— Só Deus sabe como ela ficou ao meu lado por todos estes anos.
Seu instinto lhe dizia para concordar com ele, mas, exatamente por isso, achou melhor não fazê-lo.
— Sem comentários, mocinha?
Ela riu e deu de ombros. Ele a convidou para sentar-se em uma das cadeiras em frente à mesa. Surpreendentemente, sentou-se ao seu lado, em vez de assumir sua posição de autoridade, do outro lado da mesa.
Não devia querer intimidá-la. O que estava acontecendo?
— Quer beber algo?
Ela estava cada vez mais curiosa.
— Não, obrigada. O que houve, vô?
— Você está saindo com alguém? Tess ficou totalmente alerta.
— O quê?
— Só estou conversando.
— Desde quando? — As palavras escaparam de sua boca antes que pudesse impedir. Arrependeu-se de ser sarcástica, mas aquela pergunta a preocupava. Será que ele sabia sobre Nathan? Não. Não abordaria o tema se soubesse.
Ele apertou os lábios.
— Não posso me interessar pela sua vida?
— Então, você só está conversando? Não se importa com quem estou saindo?
— Claro que me importo. — Ajeitou-se na cadeira, obviamente embaraçado.
— E se eu disse que estava saindo com... Nathan Harlan? — Ela era estúpida ou corajosa para testá-lo dessa maneira?
— Eu saberia que você apenas não estava querendo responder.
— Por quê?
— Você jamais trairia sua irmã dessa maneira. — Trair. Dentre todas as razões que imaginara para não sair mais com Nathan depois deste mês, traição não era uma delas. Lily havia terminado com ele. Ponto final. Tess não o roubara. Mas seu avô via isso como traição, pois era como esfregar na cara de Lily o erro que cometera.
— E Nathan também não sairia com você — acrescentou ele. — Nem brinque com isso. Mas fiquei surpreso ao vê-los dançando juntos.
Tess não encontrou palavras para responder.
— Tudo bem. Aceito a indireta — disse, depois de alguns segundos. — Sem perguntas pessoais. Chamei você aqui porque ouvi coisas boas sobre o trabalho que vem fazendo. "Competente e criativa", é o que as pessoas estão dizendo. Queria que soubesse que estou orgulhoso de você.
Tess mergulhou em um silêncio ainda mais profundo. Estava impressionada. Não se lembrava de receber elogios do avô.
— Obrigada — conseguiu dizer, lutando contra as lágrimas.
— Estou de olho em você agora, Tess. Lily foi viver no pecado com aquele astro de rock. Mesmo que ela volte a trabalhar, vai engravidar logo. Acho que você vai continuar aqui. Você não cria tantos romances.
Ele a chocou novamente, desta vez de uma maneira que a deixou enfurecida. Aquilo era um elogio?
— O que quer dizer com isso?
— Acho que você faz parte do futuro da Editora Evans. Como sua tia, você vai se dedicar ao trabalho.
Considerando que Alyssa estava se encaminhando para a morte, Tess não almejava uma dedicação como a dela.
Então, havia outra questão. Tess queria ser estilista, não editora. Por quanto tempo teria que cumprir sua obrigação com a família antes de fazer o que queria? Quanto devia ao avô por tê-las criado depois da morte de seus pais?
— Normalmente, você não é tão relutante em discutir comigo, mocinha.
— Talvez eu esteja crescendo.
— É uma boa possibilidade. Ela manteve a expressão séria.
— Ou pode ser porque você está ficando fraco e eu não quero lhe causar uma parada cardíaca.
Ele cerrou os punhos.
— Fraco? — rosnou.
Ela inspirou profundamente, e expirou aos poucos. Este era o avô que conhecia e compreendia. Decidiu aproveitar-se daquele momento de fúria para dar-lhe um beijo e sair, enquanto estava por cima.
— Vamos repetir isso, vô.
Quando saía pela porta, ouviu sua risada. Isso a fez sorrir, até que entrou no elevador e lembrou de seu comentário sobre trair Lily. Ela não veria isso como traição, mas certamente ficaria incomodada com a situação. Adultos faziam escolhas. Tess podia tornar as coisas mais fáceis ou mais difíceis para sua irmã.
Sem dúvida, ela sempre tornava tudo fácil para Lily, até a ponto de negar amor e paixão a si mesma, algo que Lily já havia encontrado e queria que ela também encontrasse.
Embora talvez não com Nathan Harlan.
Nathan bateu à porta de Tess exatamente às oito da noite. Ele estava nervoso, parecia que tinha 17 anos e ia ao baile de formatura. Mas isso era ridículo, afinal já havia dormido com ela. Como podia estar tenso em vê-la e conversar com ela?
Porque tinha de fingir que não havia dormido com ela. Não havia visto seu corpo incrível. Não havia admirado seu rosto durante o orgasmo. Não havia sentido suas mãos e sua boca em seu corpo...
Muito bem. Tinha de banir aquele pensamento de sua mente ou, quando ela abrisse a porta, veria um volume descomunal dentro de suas calças e receberia um tapa de régua na palma da mão. Aquilo o fez sorrir. Irmã Tess. Era uma boa imagem.
Viu a maçaneta girando e tentou se recompor. Primeiro encontro...
— Oi, Nate — disse. Estava delicada e doce em seu vestido azul, abotoado até o pescoço, com o cabelo preso no topo da cabeça.
— Oi. — Ele lhe deu uma rosa branca, envolta em um papel de seda verde e amarrada com uma fita de cetim. Ele a viu aproximar o nariz e sorrir. Também parecia nervosa. Isso o deixou mais calmo.
— Obrigada — disse. — É linda.
— Está pronta?
— Deixe-me colocar a rosa no vaso e pegar meu casaco. Entre.
Ele quase disse que não se preocupasse com a rosa, mas decidiu não estragar a surpresa que guardava para ela.
Era Tess, mas não era Tess, pensou enquanto ela desaparecia cozinha adentro. Seu vestido não era tão ousado como de costume, exceto pela longa linha de botões que pediam para serem abertos. Suas jóias eram mais recatadas: pulseiras que não faziam muito barulho e um pequeno brinco de diamante, em vez de grandes argolas.
— Estou pronta — disse, jogando um casaco prateado sobre os ombros.
Devia dizer que estava bonita? Seria positivo? Ele se sentia como uma criança.
— Você está usando outro perfume — preferiu dizer. Não era seu aroma cítrico, mas continuava sendo tentador. Não sabia qual era a fragrância. No entanto, gostaria de senti-la para sempre. Tess era excitante.
Ela sorriu. Ele achou que era bom perceber um detalhe como esse.
Encostou os dedos ligeiramente em suas costas enquanto saíam do apartamento. Ficaria louco por não poder tocá-la mais esta noite. Mas planejava dar-lhe um beijo de boa noite mais tarde, um beijo decente não educado. Não se importava se isso atrapalhasse as aulas.
No carro, a conversa girou em torno de temas rotineiros, como o trânsito e o clima. A estranheza de saber o que haviam feito, e fingir que nada acontecera, fechava sua boca. A dela também.
Estacionou em sua garagem subterrânea, um luxo pelo qual pagava caro.
— Este é seu prédio — disse, ajeitando-se no carro.
— É. Espero que goste de paella.
Depois de uma pausa longa e incômoda, ela sorriu.
— É um dos meus pratos preferidos.
No elevador, o silêncio que havia entre eles não parecia estranho. Nathan abriu a porta e observou a cena, tentado vê-la através dos olhos dela. A mesa organizada para um romântico jantar a dois. A lareira e várias velas esperavam para serem acesas. O aroma da paella emanava da cozinha.
— Que vista incrível — disse ela, como se estivesse ali pela primeira vez. Aproximou-se da janela.
Enquanto isso, ele ligou o som e colocou uma música instrumental que combinava com o tema do jantar. Acendeu as velas e a lareira. Foi até a cozinha para servir uma taça de vinho. Quando voltou, ela estava perto do fogo.
— Obrigada — disse, aceitando a taça.
— À mulher de azul. Bem-vinda à minha casa — brindou.
Ela não o fitou enquanto bebia. Algo estava errado, mas não sabia o que era.
— Sente-se — disse, indicando o sofá em frente à lareira. — Como foi seu dia?
— Cheio. Fui até a academia da empresa. Conversei com Liss e com meu avô. Fiz compras. E você?
Ele passara o dia se preparando para o encontro, preocupando-se com coisas em que nunca havia pensado antes.
— Passei o dia esperando pela noite.
Ela ficou mais tranqüila. Será que estava nervosa? Não podia estar mais nervosa que ele.
Ainda assim, a noite parecia arrastar-se. Onde estava a Tess vibrante que conhecia? Ela sorriu e tocou em sua mão, mas a conversa não estava fascinante. Ele a divertia com histórias do trabalho e de celebridades, mas ela mantinha certa distância entre eles. Nathan disse que o vaso com 11 rosas no centro da mesa era dela, para completar uma dúzia faltava a que havia recebido antes. Ela agradeceu com doçura.
Não sabia como consertar o que parecia errado.
Quando ela foi ao banheiro, ele se levantou, foi até o bar s serviu dois uísques. Não se importava com aulas de cortejo. Queria Tess de volta.
Ouviu um barulho e virou-se. Tess estava a menos de um metro e, definitivamente, era ela. Havia fogo em seus olhos, um rubor iluminava seu rosto. Havia soltado o cabelo. Estava igual a todas as fantasias que Nathan tivera com ela.
Ele lhe deu o copo de uísque, mas ela ergueu a mão.
— Desculpe, Nate, mas isso não está funcionando.
Olá gente. Apesar dos acontecimentos da noite anterior, Tess e Nathan se encontraram novamente, mas aparentemente o modo como eles vão conduzindo as coisas não está funcionando, então qual é o jeito certo? Lembrando que logo Lily e James voltam de viagem e parece que Joana Patricia está prevendo o modo como Lily vai saber sobre Tess e Nathan ;) Muito obrigada Thaty e Joana Patricia pelos comentários :*
