Alguns dias depois, Natan observava enquanto Tess tirava item por item de seu armário para abrir espaço para roupas e sapatos novos. No entanto, ele suspeitava que, na verdade, o que ela queria era eliminar a tentação de deixá-lo usar aquelas roupas de novo. O smoking e cinco ternos levariam algumas semanas para ficar prontos, mas todo o resto que haviam comprado já podia ser substituído — camisas, camisetas, gravatas, calças, jaqueta de couro, botas, sapatos e outras roupas casuais.

O extrato de seu cartão de crédito parecia a dívida nacional, mas ele tinha que admitir que havia gostado do novo visual. Não era chamativo, mas estava na moda.

Não discordara dela. Tess queria que o alfaiate fosse um amigo seu, com quem estudara na faculdade de moda, em vez do de seu pai, que sempre fizera todas as suas roupas. De alguma maneira — ainda não sabia exatamente como — , ela o convencera a dar uma chance a seu amigo. As decisões foram tomadas como se Nathan não estivesse presente, até que ele decidiu vetar algumas coisas e dar suas próprias opiniões. Ficou feliz com o resultado final, principalmente depois que terminou de experimentar as roupas, quando Tess trancou o provador e fizeram amor. Não podiam fazer barulho, o que, na verdade, intensificava tudo — aromas, o toque suave de sua pele, a força de seu orgasmo.

Talvez isso fosse consequência das quatro paredes de espelhos, principalmente quando ela se despiu para ele. Cada ângulo de seu corpo refletia em um espelho, dando-lhe uma visão completa.

Ficou excitado apenas ao pensar nisso.

— Que horas você tem que voltar ao trabalho? — perguntou ele, aproximando-se por trás e apertando as mãos contra suas coxas. Pressionava aquelas nádegas contra seu corpo.

— Na mesma hora de sempre. Uma e meia.

Era a terceira vez nesta semana que se encontravam no apartamento de Nathan na hora do almoço. E ainda era quinta-feira. Também tiveram duas reuniões no escritório de Tess sobre posicionamento de produto e a noite no alfaiate. Depois, ela foi para casa jantar com seus avós. Ia a um concerto com eles e, pela manhã, eles voltariam ao The Tides para passar o fim de semana.

Tic tac. O tempo com Tess voava.

Não conversavam mais sobre o fim inevitável que os aguardava. Aparentemente, haviam decidido não mencionar mais o tempo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, teriam que fazê-lo. Faltavam 12 dias para Lily voltar.

Antes que Tess chegasse, Natan havia encomendado o almoço — sanduíche de filé e salada de repolho. Comeram na mesa da cozinha.

— Não esqueça de separar suas roupas e deixá-las com o porteiro amanhã. Virão buscá-las por volta das dez horas.

Ele estava contente por ainda não ter recebido os ternos novos. Queria ficar mais um pouco com os antigos. Eram bons ternos, ainda tinham vida pela frente.

— E quando os ternos novos ficarem prontos, você vai doar os antigos — acrescentou, com o dedo em riste.

— Quem a nomeou como rainha do meu guarda-roupa?

Ela sorriu.

— Acredite em mim. Depois que você usar os ternos novos e receber mil elogios em cinco dias, não vai sentir nenhuma falta dos antigos.

— Se é o que você diz. — Não queria se desfazer deles, mas ela não precisava saber. Ia colocar de volta algumas das peças que ela havia tirado do armário.

— Tem planos para o fim de semana? — perguntou ele. Eles não costumavam fazer planos, nem mesmo para o dia seguinte. Parece que tinham medo que algo acontecesse e os impedisse, o que seria pior do que nem sequer ter planejado.

— Tenho que ir festa de JoJo Dawson, na sexta-feira à noite — disse. — Começa às oito. E você?

— Tenho que ir à vernissage de Shari Alexander, na Galeria Liz Barnard.

Ela franziu a sobrancelha.

— Não recebi esse convite.

— Talvez porque, no último vernissage de Liz, você roubou o namorado dela.

Ela o fitou e, em seguida, desviou os olhos, fixando-os no sanduíche.

— Não sabia que era o namorado dela. Ele não parecia ter namorada. Isso, sem mencionar que ele tem 20 anos menos que ela. De qualquer maneira, eu não estava fazendo nada, só flertando um pouco. Foi ele que se aproximou de mim. Além do mais, ele também era muito espalhafatoso.

— Espalhafatoso?

— E cheio de si.

Não entendeu muito bem o que ela queria dizer. Só sabia que aquilo não era um elogio.

— Imagino que eu não seja espalhafatoso.

— De maneira alguma.

Nathan queria que ela explicasse o que queria dizer, mas preferiu não perguntar. Só tinham mais alguns minutos até terem de voltar para o trabalho.

— Quer encontrar comigo depois das nossas festas amanhã à noite?

— Claro. — Ela pegou os pratos e levou-os até a pia.

Ele colocou a mão nos bolsos, brincando com o item que colocara ali mais cedo. Depois de alguns segundos, entregou-o a ela.

— Caso você saia da festa antes de mim amanhã. — Ela fitava o objeto fixamente, enquanto enxugava a mão, o que pareceu levar uma infinidade. Então, dobrou o pano de prato com perfeição e pendurou-o.

— É só uma chave, Tess. Não queima.

Ela pegou a chave sem dizer nada e se encaminhou para a sala. Nathan adoraria saber o que se passava em sua cabeça.

— Então, nos vemos amanhã à noite — disse ele, enquanto ela abria a porta. Queria que voltasse e lhe desse um beijo. Colocou a mão no bolso e esperou.

Ela parou na porta. Pela sua expressão, parecia que queria devolver a chave, pois ela simbolizava um relacionamento mais profundo, com mais confiança e intenção futura. Era sinal de que havia um futuro, o que não era verdade. Isso a confundiu e entristeceu.

— É só uma chave — repetiu ele. — Quero que as coisas sejam mais convenientes para nós.

— Você sempre pensa assim, Nate. Se as coisas estão mais fáceis para você... — disse, antes de fechar a porta e sair.

Realmente, não entendia como sua mente funcionava. Não estavam falando sobre a mesma coisa.

Mas ela estava errada sobre uma coisa.

Nada estava tornando aquele relacionamento mais fácil. Absolutamente nada.


Embora Tess tivesse sido levada — arrastada — à ópera desde criança, nunca tivera bom ouvido para a música clássica, nem sabia distinguir um compositor do outro. Exceto por Wagner, isto é, exceto por Tristão e Isolda. Algumas partes dessa sinfonia estavam no programa desta noite.

Ainda assim, preferia estar em um festival de jazz ou em um concerto de rock.

Antes de as luzes se apagarem, viu tia Alyssa sentada algumas fileiras acima com Georges Caron, um estilista francês que tinha idade para ser seu pai. De onde estavam sentados, seus avós tinham uma visão perfeita de sua filha emocionalmente distante. Tess não viu seu avô olhando, mas sua avó virava a cabeça para trás constantemente. Ela se perguntava se, algum dia, Alyssa desculparia seus pais por terem-na obrigado a abrir mão de seu bebê há tanto tempo. Quase não falava com eles, e a Carisma havia se tornado seu novo filho.

Por outro lado, Tess estava feliz por ver Alyssa contente e se divertindo, o que era uma raridade. Certamente, ela via aquilo como uma noite de trabalho, era uma tentativa de cortejar Georges Caron e convencê-lo a ceder a cobertura exclusiva de sua próxima coleção à Carisma. No entanto, pelo menos era uma maneira de fazê-la sair do escritório.

Cortejar. A palavra não desgrudava da mente de Tess, junto de outros dilemas que a habitavam, como se tivesse aberto a caixa de Pandora. Nathan lhe dera a chave de sua casa. Estava se apaixonando por ela, não era mais só sexo. Sabia que teria que desistir de tudo no fim do mês, por causa de Lily, da imagem da família e de outras coisas que, individualmente, não importavam muito, mas que juntas impossibilitavam qualquer tipo de relação duradoura.

Então... Seu maior dilema agora era se devia terminar tudo logo, antes que ele também se magoasse. Tess ia sofrer sua perda, mas havia entrado naquele relacionamento sabendo disso. Ele, não. Nathan achava que seria uma relação meramente sexual, não imaginava que seu coração estaria em perigo. Ela sentia que algo estava mudando. Talvez ele não a amasse, mas gostava muito dela. Haviam se tornado não só amantes, mas também amigos.

Era uma situação perigosa para os dois. Como ele tinha dito? Era um jogo com um resultado potencialmente desastroso. Ela se deixou levar pelo coração. Nathan havia pensado no futuro de uma maneira mais realista, mas depois...

Será que conseguiria terminar tudo antes do prazo necessário?

Aplausos explodiram na sala e a luz acendeu. Já havia terminado o primeiro ato?

Georges parou junto a seu avô para conversar um pouco. Alyssa estava ao seu lado, inexpressiva. Ela não olhava nos olhos de sua mãe. Isso era o que Tess mais

detestava.

O francês seguiu em frente. Parecia que Alyssa ia segui-lo. Então, parou ao lado do pai e disse, em voz baixa:

— Se há algo que você quer saber, me pergunte. Não recrute espiões.

— Não sei do que está falando — respondeu ele, calmamente.

— Mentiroso — devolveu Alyssa, antes de correr para alcançar seu acompanhante.

Sua avó estava com os punhos cerrados. Tess colocou a mão sobre a sua, mas ela nem sequer conseguia sorrir.

— Quer tentar entrar na fila do banheiro das mulheres, vó?

Ela balançou a cabeça.

— Vi uma velha amiga. Vou conversar um pouco com ela e esticar as pernas.

Quando Jenne Marie saiu, seu avô virou-se para fitá-la.

— Você sabe sobre o que Alyssa estava falando?

— Sei. Você não sabe?

Ele desviou os olhos, não disse nada. Tess não sabia se ele estava falando a verdade ou se era um blefe.

Queria que Nathan estivesse ao seu lado, segurando sua mão, neutralizando a situação. Ele era diplomático. Saberia como mudar o clima que se instalara no ar. Ela estava muito envolvida emocionalmente com isso e não ousava se intrometer. Ninguém mais falou pelo resto da noite, apenas o estritamente necessário.

Antes de ir dormir, Tess olhou para o telefone. Já sabia o número de Nathan de memória. Queria ouvir sua voz, mas precisava pensar em uma desculpa para telefonar.

Comida. Era sempre um tema neutro. Ia perguntar se devia comprar algo para comer no dia seguinte, quando estivesse indo para sua casa. Ele ia beliscar aperitivos no vernissage, mas não jantaria. E ela não planejava ficar para jantar no JoJo, apenas tomaria um drinque e seria vista.

Discou. O telefone tocou quatro vezes, então a secretária eletrônica atendeu. Não esperou o sinal, desligou. Olhou para o relógio — quase meia-noite — e deixou o telefone fora de alcance.

Jamais haviam se questionado sobre o que o outro fazia nas noites em que não estavam juntos.

Ficou com ciúmes, mas tentou reprimir-se. Ele tinha dito que o relacionamento não pressupunha exclusividade, mas Tess não havia acreditado. Nathan não costumava fazer joguinhos. No entanto, ela estava curiosa para saber por que não estava em casa.

Claro que não devia ter telefonado à meia-noite, em um dia de semana, quando a maioria das pessoas está dormindo, e, principalmente, para fazer uma pergunta que podia esperar até o dia seguinte. Ele saberia quais eram suas razões reais, mas não se importava. Podia pensar o que quisesse.

O telefone tocou. Ela pulou da cama para atender.

— Oi — disse Lily. — Onde você estava a noite toda? Estou ligando há horas.

Tess acomodou-se no travesseiro, prendendo o telefone entre o ombro e a orelha. Sua decepção ao ver que não era Nathan desapareceu.

— Na ópera com nossos avós. Como vai?

— Só queria avisar que vamos voltar para casa um dia antes. No dia 28, não 29.

Uma noite a menos.

— Por quê?

— Estou com saudades de casa.

— Sério? — Lily riu.

— Não. Bem, estou. James tem uma reunião em Nova York no dia 29. Você ainda não pode falar isso para ninguém, mas ele vai compor música e letra para um musical de rock.

— Que bom para ele!

— Também achamos, principalmente porque isso significa que vamos morar perto de casa.

— Vocês vão morar juntos? — Tess imaginava que sim, mas ouvir a confirmação...

— Vamos. O que você acha?

— Você vai voltar a trabalhar? — Lembrou de seu avô dizendo que ela não retornaria ao trabalho.

— Não sei. Ainda estou tentando decidir algumas coisas. Tess...

— O quê?

— Você tem parecido muito distraída quando nos falamos, durante todo este mês. Talvez até mais que isso. O que está acontecendo?

— Nada que valha a pena ser mencionado.

A estática da ligação à distância cortou o silêncio.

— Quando eu chegar em casa, colocamos a conversa em dia. Quando eu a vir, vou saber se há algo acontecendo ou não.

Ela estava certa. Nada que Tess pudesse dizer ou fazer evitaria que Lily mergulhasse dentro de sua alma — dentro de seu coração partido, já que, neste momento, seu relacionamento com Nathan terá terminado.

— Já está planejando o casamento? — perguntou Tess, mudando de assunto.

— Ainda não. Achamos que não precisamos nos apressar. Talvez mais perto do Natal.

— Você vai querer algo como um conto de fadas, imagino. Isso leva tempo para planejar.

— Você vai fazer o meu vestido, não? — Tess sorriu.

— Já fiz.

A voz de Lily ficou mais doce.

— Amo você.

— Também amo você — disse Tess, antes que sua garganta inchasse.

— Até logo.

— Tchau.

Tess não podia fazer nada para se indispor com sua irmã. Ver o relacionamento entre Alyssa e seus avós deixara isso ainda mais claro em sua mente. A família estava acima de tudo. Sempre e para sempre.

Algum dia, amaria outro homem, disse a si mesma enquanto desligava o abajur da cabeceira.

Então, deitou-se no escuro, sozinha, negando-se o luxo das lágrimas.


O que vale mais: família ou amor? Acho que ambos se completam, mas o que fazer numa situação em que se pode perder um dos dois? Logo teremos Lily e James devolva :) Muito obrigada Thaty e Joana Patricia pelos comentários, até mais meninas :*