O mundo de Tess começou a rodopiar. Sua irmã os fitava, chocada, horrorizada, incrédula. As portas do elevador começaram a se fechar e Nathan esticou o braço para detê-las. Então, pegou as duas malas e colocou-as no hall, enquanto Tess se forçava para segui-lo.
— Lily— disse Tess, com as mãos estendidas. — Posso explicar.
O rosto de Lily estava fantasmagoricamente pálido. Seus olhos oscilavam de Nathan para Tess.
— Vocês passaram a noite juntos? — Sua voz estava uma oitava mais alta que o normal.
— Sim, mas...
— Vamos entrar — disse Nathan, interrompendo-a. Lily balançou a cabeça e deu vários passos para trás.
— Este é o segredo que estava escondendo de mim? Ele? — Ela olhou em volta, perplexa. — Foi ele a razão pela qual você não voltou para casa naquela noite? A mesma noite em que eu lhe devolvi a aliança?
— Por favor, me deixe explicar.
Lily ergueu as mãos, repelindo aquelas palavras. Então, chamou o elevador. As portas se abriram imediatamente e ela entrou.
— E pensar que voltei para casa um dia antes porque estava com muita saudade de você — disse para Tess. — E vim aqui lhe pedir desculpas — disse para Nathan — por tratá-lo tão mal.
As portas se fecharam e o coração de Tess se despedaçou.
— Entre — convidou Nathan.
— Não.
— Ela não vai para casa. Você sabe disso. Não vai encontrá-la esta noite.
— Não posso ficar com você — disse. — Tenho que ir.
— Tudo bem — concordou ele gentilmente, mas com firmeza. — Vou deixar a mala em casa e levo você.
— Vou pegar um táxi. — Ela apertou o botão do elevador várias vezes. — Vamos lá!
— Eu levo você.
— Não posso falar com você agora.
— Você está zangada comigo por isso?
— Não. Sim. — Ela fechou os olhos e apoiou a mão fechada sobre seu peito, seu coração. — Com nós dois. Fomos estúpidos por nos arriscar dessa maneira apenas para satisfazer uma necessidade física. Estúpidos, estúpidos.
Segurou-a pelos ombros.
— Para mim, não foi só físico. Exceto no princípio.
O que ela podia dizer? Não queria que ele soubesse que o amava. Guardara este segredo durante todo o tempo. Podia continuar assim até o amor morrer. Devia isso a Lily.
— Para mim era só isso.
— Não acredito em você.
— Problema seu. — Precisava encontrar Lily e se explicar, implorar seu perdão. Quando as portas se abriram, pegou a mala. Ele a seguiu.
— Vá embora.
— Vou levá-la para casa.
Tess parou de falar com ele. Ficou calada durante todo o trajeto de volta para casa. Saiu do carro e fechou a porta sem dizer uma palavra. Nada do que dissesse seria capaz de solucionar aquele desastre.
A casa parecia sombria. Olhou para o quarto de Lily e viu suas malas.
Sentou-se na cama da irmã. Passou a mão pela colcha, pegou um travesseiro e apertou-o.
Tudo doía — sua cabeça, seus olhos, sua garganta. Uma bala de canhão a acertara no meio do estômago. Seu coração batia em um ritmo doloroso, que ela escutava e sentia em todas as partes do corpo.
Durante todos esses anos — todos esses malditos anos — nunca haviam deixado um homem ficar entre elas. Alguns tentaram fazer jogos, mas elas sempre foram claras e honestas uma com a outra. Essa sinceridade já havia evitado discussões e confusões.
Assim que percebeu que Nathan estava interessado em Lily, Tess passou a evitá-lo de tal maneira que levou sua irmã a acreditar que não gostasse dele. Pelo menos, pudera ser sincera ao responder que gostava dele, mas que três era demais. Ainda assim, Tess se apaixonara, embora tenha lutado contra esse sentimento. Mantivera-o guardado até aquela noite no apartamento dele — aquela noite incrível, que jamais ousara imaginar que aconteceria.
Pressionou o travesseiro de Lily contra o rosto e gritou. Por que fora vê-lo aquela noite? Por que achara que não havia problema em consolá-lo e oferecer um ombro amigo? Ela sabia. No fundo do coração, sabia que nada bom viria daquele encontro.
E se convencera que só queria guardar boas recordações. Em vez disso, havia magoado a pessoa que mais amava, a que mais a amava também. Sua irmã, sua melhor amiga.
E tudo poderia ter sido evitado se ela não fosse tão egoísta.
Tess olhou ao redor. A decoração era bem diferente da de seu quarto. A marca de Lily estava ali. Era mais feminino, mais aconchegante. Seu amor por antiguidades era herança de sua avó.
Será que ela vai voltar?
Será que vai me perdoar?
Enxugou as lágrimas com as costas da mão, pegou o telefone de Lily e discou o número de seu celular, mesmo sabendo que sua irmã não atenderia. Esperou para deixar um recado.
— Lily— sua garganta se fechou por alguns segundos. — Há mais coisa envolvida nessa situação do que você imagina. Não estou tentando me desculpar pelo que fiz, só quero explicar por que isso aconteceu. Por favor, eu imploro. Se não quer me ver, pelo menos telefone. Amo você.
Ela colocou o telefone no lugar cuidadosamente, jogou o cabelo para trás e foi para o quarto, fechando a porta ao sair. Não conseguiria dormir, já sabia disso. Então, pegou seu caderno e acomodou-se na poltrona, mas parecia que as forças criativas de seu corpo haviam explodido. Só sobrara entulho.
Deixou o caderno de lado, passou a mão pelo rosto e deixou a cabeça cair no encosto da poltrona. O telefone tocou. Levantou de um salto e atendeu na metade do segundo toque.
— Lily.
— Não, sou eu. — Nathan. Afundou na cama.
— Imaginei que você estaria acordada — disse. — Quer conversar?
— O que há para dizer?
— Você precisa dar um tempo até ela se acomodar à idéia.
— Se fosse o contrário, eu não me acomodaria.
— Com Lily será diferente.
— Quer dizer que Lily é uma pessoa melhor do que eu. — Como se ela já não soubesse disso.
— Não disse isso. Você também se acostumaria à situação, mas levaria mais tempo.
Tess pensou ouvir um sorriso em sua voz. Como ele podia sorrir em um momento como esse?
— Ela está apaixonada e feliz — continuou ele. — E ela ama você. Vai ficar tudo bem. Mais ninguém sabe, e ela não vai contar para ninguém. Exceto James, provavelmente. Você vai superar isso.
— Como pode ter tanta certeza? Por que está tão calmo? — Lágrimas brotaram em seus olhos.
— Acho que não vale a pena ficar tão preocupado.
— Não vale a pena? — Tess não conseguiu terminar a frase. — É fácil você dizer isso, Nate. — Não vale a pena? — Não posso mais falar com você.
Ela desligou o telefone e deitou-se na cama, com o corpo encolhido. Já havia se arrependido de algumas coisas antes — coisas pequenas, como escolhas imaturas ou as constantes tentativas de implicar com seu avô.
Mas nem tudo isso junto chegava aos pés do que acontecera.
— Está de luto? — Jessie perguntou para Tess no dia seguinte. — Nunca vi você toda de preto no trabalho antes.
Sem ter dormido, Tess chegara ao escritório cedo, sentara-se em sua mesa e dali não levantara mais.
— Você precisava de algo? — perguntou.
— Que delicado — disse Jessie, erguendo as sobrancelhas. — Isso é para você. Deve ter deixado alguém muito feliz para receber tantos presentes. — Ela colocou uma caixa da Tiffany & Co. na mesa de Tess e saiu.
No entanto, Tess não queria abrir um presente de Nathan. Colocou a caixa na gaveta e voltou a trabalhar, esperando que o tempo voasse e que a hora do almoço chegasse logo.
Durante a noite anterior, percebera que havia uma pessoa com quem podia conversar — seu primo Bryan, a única pessoa que ela sabia que levaria o segredo para o túmulo. Na infância, ele tivera diversas oportunidades de dedurá-la por suas aventuras, mas nunca o fizera.
Planejava ir ao Une Nuit na hora do almoço e falar com ele, e já havia ligado para garantir que o encontraria. Bryan não só guardaria o segredo, mas ainda poderia dar bons conselhos.
Durante toda a manhã, abriu a gaveta várias vezes, mas sempre desistia de mexer no presente e voltava a se concentrar no trabalho. Quando ouvia passos aproximando-se de sua mesa, esperava que fosse Lily. Tess havia ligado para seu escritório, imaginando que ela podia ter voltado a trabalhar, mas o recado da secretária eletrônica ainda dizia que ela estava fora da cidade.
Por fim, era hora de ir ao Une Nuit. Um céu cinzento e uma garoa primaveril combinavam com seu ânimo. Quando entrou no restaurante, seu celular tocou. Não queria ficar parada na chuva para atender, mas também não queria perder uma ligação de Lily, então atendeu.
— Oi. Espero que a tenha alcançando a tempo. — Não era Lily, mas Bryan. Só podia ser má notícia.
— A tempo de quê? — Olhou em volta e viu Anthony, que caminhava em sua direção. — Estou no Une Nuit.
— Droga. Desculpe, Tess. Tive que sair. Estou indo para o aeroporto.
— Isso não podia ter esperado até depois do nosso encontro? — Ela estava quase em pânico. Precisava falar com alguém, e Bryan era sua única esperança. — O que é tão importante que não podia esperar uma hora?
Depois de alguns segundos, ele disse:
— Soube que há uma boa plantação de açafrão na Turquia.
— Entendi — suspirou. — Não é da minha conta.
— Ligo assim que chegar em casa, prometo. Ou fale comigo agora, enquanto estou dirigindo.
Anthony estava parado, pacientemente, à sua frente.
— Não posso. É muito complicado, e muito pessoal.
— Vou compensar isso para você. Eu telefono do caminho, se tiver tempo. Enquanto isso, o almoço é por minha conta.
Como se ela pudesse comer...
— Claro. Obrigada.
— Até mais, Tess.
Guardou o telefone na bolsa, cumprimentou Anthony e olhou em volta, pensando no que devia fazer.
— Você não parece bem — disse Anthony, preocupado.
— Estou bem, só não sei o que fazer agora que Bryan não está aqui. — Comer sozinha não era uma opção. Comer não era uma opção neste momento.
— Seu primo Austin está na mesa dos Evans. Pode se juntar a ele. — Anthony tocou em seu braço. — Pode tomar uma sopa. Gengibre com cenoura, uma de suas preferidas.
Ela assentiu. Estava muito cansada para conversar. Esperava que Austin estivesse mais falador. Não se importaria em ficar apenas ouvindo.
— Posso me sentar com você? — perguntou ao primo, forçando um sorriso.
— É que estou esperando... — disse, olhando para trás dela.
— Por mim.
Tess ouviu a voz de Nathan e imaginou que podia sentir o calor de seu corpo.
— Então, os três ficam para almoçar? — perguntou Anthony alegremente.
— Não. — Tess recuou e esbarrou em Nathan.
O celular de Austin tocou. Ele olhou para o número que aparecia no aparelho, franziu a sobrancelha e atendeu.
— Não vou interromper seus planos — disse, sentindo a mão de Nathan em suas costas. Tudo o que queria era cair em seus braços. Queria que ele a confortasse, cuidasse dela. Nunca desejara isso antes, nunca quisera ser tratada como uma menina. Por um momento, não pensou em Lily. Queria Nathan.
— O quê? — perguntou Austin, falando mais alto. — Como ela está?
Tess olhou para o primo, sobressaltado pelo tom de sua voz.
— Para onde a levaram? Chegarei o mais rápido que puder. — Desligou o telefone e se levantou. — Não posso ficar.
— O que houve? — perguntou Tess. Austin estava sempre de bom humor, nada nunca parecia perturbá-lo, até agora. — Quem se machucou?
— Ninguém que você conheça. — Ele deixou o guardanapo na mesa e olhou para Nathan. — Desculpe. Agradeço que tenha vindo, mas preciso ir para Las Vegas.
— Sem problema. Há algo que eu possa fazer?
— Se houver, eu lhe aviso. Obrigado. Ele nem sequer se despediu.
Nathan, Tess e Anthony observaram enquanto Austin saía correndo do restaurante.
— Será que ele e Bryan vão se encontrar no aeroporto? — indagou Tess, sentindo pena de Austin sem saber por quê. Nunca o vira tão perturbado como agora.
— Almoce comigo — convidou Nathan. Ela balançou a cabeça.
Anthony se retirou silenciosamente.
— Precisamos conversar — continuou ele.
— Não posso. — Ela recuou, então se aproximou dele para que as pessoas em volta não escutassem. — E não me mande mais presentes.
Ele parecia surpreso.
— Não mandei nenhum presente.
Quem foi, então? Lily? Tess precisava voltar ao escritório e abrir a caixa.
— Tchau, Nate — disse, esperando que ele tivesse escutado o caráter decisivo de sua voz.
Ela, pelo menos, não escutara. Voltou para o escritório, tirou a caixa da gaveta, desfez o laço e abriu a tampa. Dentro, havia uma caixa de jóias. Ali, estava um lindo colar de ouro em um design espiralado moderno, adornado de vermelho.
Procurou um cartão e encontrou-o debaixo do colar.
Apenas um presentinho para mostrar como estou orgulhoso de você — de sua vida e de seu trabalho. Com amor, vovô.
A cabeça de Tess despencou sobre a mesa e ela chorou.
E agora Tess? Espero ter superado suas expectativas Joana Patrícia, muito obrigada por comentar, beijos flor :*
