Mais tarde, naquela mesma noite, Nathan fechou a porta de sua sala, deixando para trás o ruído do ambiente de trabalho, que parecia ainda mais caótico. Tinha certeza de que Tess telefonaria assim que Lily a perdoasse e que tudo ficasse bem entre elas. Certamente, já deviam ter se reconciliado. Não sabia o que pensar de seu silêncio.
Olhou para o relógio. Ela devia estar saindo do trabalho. Discou seu número e caiu na caixa postal. Esperou o sinal.
— É Nate. — Será que precisava se identificar? — Me ligue quando puder. Obrigado.
Se não ligasse até ele sair, tentaria o telefone de casa e, por último, o celular. Precisava saber o que estava acontecendo, e também queria contar tudo o que sentia.
Seu telefone particular tocou e, com a mão no fone, esperou um pouco antes de atender.
— Nathan Harlan.
— Oi. Sou eu.
Tess. Havia recebido a mensagem. Ele passou a mão pelo rosto e relaxou.
— Obrigado por ligar. — Nathan refreou sua vontade de bombardeá-la com perguntas, pois queria vê-la pessoalmente para saber como se sentia. Precisava convencê-la a encontrá-lo. — Você e Lily resolveram tudo?
— Resolvemos.
Ele esperou, mas ela não continuou.
— Bem... Que bom.
— Nate, precisamos conversar.
— Concordo. Foi por isso que liguei para você.
— Você... — Silêncio. — Quando?
— Agora mesmo. Não foi por isso que me ligou?
— Não. Queria avisar que vou lhe enviar um envelope. Pode ler o que está escrito, pensar e depois nos falamos.
— Por que não nos encontramos? — perguntou ele.
— Tudo ficará mais claro quando você receber a mensagem.
Será que, a esta altura, ela decidira fazer um jogo? Por que não conversava com ele?
— Tudo bem, Tess. Eu retorno quando terminar.
— De uma maneira ou de outra?
Nathan não entendeu o que ela queria dizer, mas achou que as coisas fossem se acertar.
— Sim.
— Mais tarde nos vemos — disse ela, transformando a frase quase em uma pergunta. No entanto, desligou sem esperar resposta.
Ele ligou para o porteiro de seu prédio para avisar que estava esperando uma encomenda e pedir que avisasse assim que chegasse. Alguém bateu na porta de sua sala, abriu e entrou sem ser convidado.
— Tem um minuto, filho? Precisamos conversar. — Nathan levantou-se para cumprimentar seu pai. Sabia que aquelas palavras significavam mau agouro, como as que dissera para Tess. Não era o melhor dia de sua vida.
Tess agitou as mãos na tentativa de ficar mais calma. Então, entrou alegremente na suntuosa suíte do hotel. A pequena fortuna que havia pago pela suíte de dois quartos do Hotel Ritz-Carlton valia a pena. A mesa para dois já estava montada ao lado da janela, com vista para o Central Park. Havia encomendado o jantar no premiado restaurante do hotel, Atelier. O cardápio era variado, caviar beluga, salada de atum com alcachofra, cordeiro com ervas e nhoque de espinafre e ricota, e o delicioso final, petit gateau de chocolate com sorvete de creme.
O jantar era digno de uma comemoração. Ela também havia se encontrado com o sommelier para escolher os vinhos que acompanhariam cada prato.
Agora, só precisava de Nathan.
Enquanto caminhava pelo quarto, viu seu reflexo na vidraça. Estava com um vestido preto, sapato de salto de cetim preto e o colar e os brincos de pérolas e diamantes de sua mãe. Nunca os usara antes, preferira guardá-los para uma ocasião especial. Não conseguia imaginar uma ocasião mais especial do que esta.
O relógio marcou seis horas. Ele chegaria a qualquer momento.
Estava ansiosa e exultante.
Vagava pelo quarto; moveu o prato um centímetro para o lado e colocou-o de volta no lugar onde estava, arrumou a prataria, ergueu uma taça de vinho, mirou-a contra a luz e pousou-a exatamente no mesmo lugar.
Caminhou um pouco mais e parou em frente à janela. Ouviu uma sirene ao longe, apenas mais um barulho que cortava o silêncio do hotel.
Então, ouviu o tiquetaque do relógio, que marcava seis e quinze.
Foi até o quarto e pegou seu relógio para conferir se era aquilo mesmo. Era.
Seis e meia. A ansiedade tomava conta dela.
O telefone tocou. Sobressaltada, Tess quase saiu de si. Ele estava atrasado, era isso, e estava ligando para avisar.
— Alô — atendeu, esperançosa e sem fôlego.
— Srta. Evans. — Não era ele.
— Sim.
— A senhorita está pronta para que o jantar seja servido?
— Ainda não, preciso de mais tempo. — Ela disse que ligaria para avisar quando estivesse pronta, o que seria por volta de seis e quinze. — Eu ligo para vocês assim que puder.
— Claro. Boa noite.
Tess suspirou. Onde estava Nathan? Não havia deixado nenhuma brecha para o acaso, até mesmo avisara sobre o envelope. No entanto, estava parada, olhando para a porta do hotel e esperando ouvi-lo chegar. Mas o silêncio ecoava ao fundo.
Sete horas. Oito. Apagou as luzes e acomodou-se no sofá.
Ele não ia aparecer. Aparentemente, havia pensado sobre o que ela dizia no bilhete e tomara sua decisão. Mas ele disse que ia ligar, de uma maneira ou de outra, e não havia ligado. Nathan costumava ser um homem de palavra. Talvez ela tivesse sido muito insistente. Suas expectativas estavam muito altas.
Mas ele também telefonara. Queria conversar. O que isso significava?
Às 21h35, cancelou o jantar e colocou a cadeira de frente para a janela. As luzes do trânsito coloriam a paisagem noturna. Confundiam-se em um cordão luminoso, vermelho em uma direção, branco na outra. Buzinas soaram. A vida continuava.
Mas não a dela.
Por que Nathan não a queria? Será que ela geraria muitos problemas? Talvez tivesse sido muito ousada, desconsiderando-o como homem. Talvez ele a tenha achado muito dramática, ou muito difícil de agradar.
Tudo bem. Talvez ela tenha confundido um pouco sua vida, mas não era a rainha do drama. E não havia nada mudado nele. Ele continuava sendo a pessoa tranquila e calma que era.
Talvez este fosse o x do problema. Ela era muito intensa. Ele, muito calmo.
Fogo e gelo. Bons na cama, mas não na vida.
Tess olhou para o quarto. A decepção dolorosa que sentia começou a esvair-se. Como podia ignorá-la dessa maneira? Tudo bem, ela não o encorajara a manter a relação depois que Lily os descobrira. Na verdade, o desencorajara a continuarem juntos. Mas era um homem cortês. Devia tê-la avisado que não iria.
Ele disse que ia, e era um homem de palavra.
A menos que estivesse ferido.
Ao pensar nisso, Tess riu e desejou ter pedido o champanhe de qualquer maneira, para brindar à sua imaginação fértil. Assistira muito à Tarde Demais Para Esquecer, só isso. No entanto, lembrava-se de ter escutado a sirene mais cedo. Havia parado bem em frente ao hotel, não? Será que era uma ambulância?
— Com certeza, Tess. Ele estava olhando para o hotel e foi atropelado enquanto ia encontrá-la.
Frustrada, voltou à janela, encostou a cabeça na vidraça e ficou olhando para fora. Só queria, ou precisava de um motivo para ele não estar lá. Sua imaginação o colocava em algum hospital, sangrando, inconsciente, chamando por ela.
De repente, pegou suas coisas e se foi. Só queria deitar-se na cama e nunca mais ver o Hotel Ritz-Carlton novamente.
No carro, abriu a janela e sentiu o vento em seu rosto. Tentava apagar todas as lembranças dessa noite. A curta viagem até sua casa parecia infinita e, ao mesmo tempo, instantânea.
Chegou ao edifício, abriu a porta da garagem e viu sua vaga vazia, assim como sua vida.
Estava em casa.
Nathan estava com um uísque na mão, o primeiro da noite, e o anel na outra. Não deixou de perceber a semelhança deste momento, parecia um déjà vu. Queria estar tão ébrio quanto estava da última vez.
Um ruído na porta fez com que se virasse. Havia algo ali debaixo. Colocou o anel na mão, foi até lá e pegou o envelope. Finalmente, o envelope de Tess havia chegado. Instintivamente, abriu a porta, já que, se fosse o porteiro, ele teria interfonado.
Havia uma mulher parada de costas para ele, esperando o elevador. Não havia erro dessa vez.
— Tess. — Ela se virou.
— Achei... — Ela hesitou, parecia insegura. — Seu carro não está aí.
— Está no mecânico. — Esperou que ela se aproximasse, o que não aconteceu, deixando-o confuso.
A porta se abriu. Ela olhou para o elevador vazio e não entrou.
Ele abriu o envelope e pegou um pedaço de papel.
— Obviamente, não queremos as mesmas coisas — escrevera ela. — Adeus.
Era isso? O grande mistério do envelope? Ela já havia se despedido e devolvido a chave de sua casa. O que este novo adeus significava? Havia mudado de idéia, e mudado de novo?
— Entre — disse.
— Estou bem aqui.
Tess transformava tudo em um desafio. Perto dela, ele ficava mais cuidadoso, e fascinado. Nathan segurou o papel.
— Não estou entendendo. O que quer que eu faça? — Ela empinou os ombros para trás, como se se preparasse para a guerra.
— Eu queria continuar nosso relacionamento.
— Continuar de que maneira?
— Como estava, ficando juntos. — Como estava?
— Escondido? — perguntou ele, espantado. — Nos momentos que nos encontrássemos durante a semana? Talvez uma noite no sábado? Um fim de semana de vez em quando?
— Isso.
Ele a estudou. Não era o que esperava. Achou que fosse eliminá-lo de sua vida por completo, como um sacrifício em nome de sua relação com Lily, ou que exigiria mais dele. Achou que ela quisesse pelo menos a última noite, que haviam perdido no dia em que Lily os surpreendeu.
— Amantes de meio-dia? — perguntou ele, aproximando-se.
Ela recuou.
— Tudo será como no último mês — disse. — Exceto que, dessa vez, teremos as bênçãos de todos.
— Até de Joseph?
— Acho que ele está amolecendo.
Nathan não teve tempo para considerar as consequências daquilo.
— Não — disse.
O silêncio que se interpôs pareceu durar dias. Finalmente, ela chamou o elevador. Uma porta do outro lado do corredor se abriu e um vizinho olhou para fora, vendo os dois parados.
— Desculpe, Keith — disse Nathan, tentando segurar Tess antes que o elevador chegasse e a levasse embora. O vizinho fechou a porta.
Em voz baixa, disse:
— Esta proposta não me interessa, por mais tentadora que pareça.
— Já havia imaginado isso. A palavra não, não tem outro significado. Esta conversa acabou.
— Nada disso. Mas, a menos que você queria que meu vizinho escute o resto, sugiro que entre. — Segurou seu braço e levou-a ao apartamento.
— Não há mais nada a dizer.
— Há muito a dizer.
Depois de um momento, ela concordou, embora tenha se livrado de suas mãos. Caminhou até o sofá e não se sentou.
— Posso pegar seu casaco?
— Não vou demorar — disse, cruzando os braços.
— Acho que faltou uma peça do quebra-cabeça de comunicação entre nós. Você está agindo como se eu tivesse que saber o que quer.
— Se você tivesse ido ao hotel, saberia.
— Que hotel?
Ela o fitou como se ele estivesse louco.
— O Ritz-Carlton, óbvio.
— Óbvio — repetiu ele, sem entender o que aquilo queria dizer. — Eu devia estar lá, entendi.
— Estava no envelope — disse, fitando-o ferozmente.
Ele olhou para o bilhete. Estava ficando maluca?
— Não este. O outro.
— Só recebi este.
— Mas... Foi entregue cinco minutos depois que nos falamos. O mensageiro confirmou.
Ele a fitava, perplexo.
— No escritório?
— Eu disse que estava chegando. — Suas palavras saíam repletas de frustração.
— Meu pai apareceu lá. Queria falar comigo sobre negócios de família, então fomos para o bar. Liguei para o porteiro e pedi que me avisasse quando... — Ele
parou. — Achei que você mandaria para cá.
— Não.
No bar, com seu pai, ele quase enlouquecera esperando pelo telefonema.
— Sente-se, por favor. Posso lhe servir algo para beber?
Ela balançou a cabeça e deixou o corpo cair no sofá. Nathan sentou-se em uma cadeira à sua frente. Não era o único que não sabia o que dizer. Uma comédia de erros, pensou, só que não tinha graça.
— Você está com um dos ternos novos — disse ela, depois de alguns instantes. — Está muito bem.
Fuga. Estava tentando se recompor. O que havia naquele envelope?
— Você tinha razão. Recebi elogios.
— Por que ainda está vestido? — Ele ignorou a pergunta.
— O que havia no outro envelope, Tess?
— Uma chave para o quarto do Ritz.
— E, quando não apareci, achou que eu a deixara para sempre? Parece que você não me conhece.
— Não sabia o que pensar — disse, calmamente, olhando pela janela.
— Por que não me ligou?
— Porque, se você estivesse me ignorando intencionalmente, não queria ser humilhada.
— Então, preferiu vir aqui pessoalmente? — Ele sorriu, não podendo seguir seu raciocínio lógico, mas contente de ver como ela estava emocionalmente envolvida.
— Isso não vai nos levar a lugar algum. É melhor eu ir embora. Adeus, Nate. — Encaminhou-se para a porta.
— Antes, quando eu disse não, quis dizer que não estava interessado em deixar tudo como estava — disse, seguindo-a. Ela não parou. — Estou interessado em um relacionamento integral, aberto ao público.
Ela desacelerou o passo.
— Amo você, Tess.
Ela parou e virou-se, encontrando seus olhos. Sua expressão demonstrava surpresa. Nathan a abraçou, mas ela não disse nada.
— Esta é a parte em que você diz que também me ama. — Seu coração batia forte. Estava se arriscando baseado em tudo o que vira em seus olhos, escutara em sua voz e sentira em seu toque naquele último mês. Ainda assim, não saberia até que ela dissesse...
— Eu me apaixonei por você há um ano — começou, em um sussurro, como se tivesse medo de admitir.
— Há um ano? Mas.
Ela colocou a mão sobre sua boca.
— Então, você é o homem pelo qual eu achei que tinha me apaixonado.
Há um ano. Ela se apaixonou por mim há um ano. Aquelas palavras inacreditáveis ressoavam em sua cabeça. Então, percebeu que ela estava falando no passado.
— Como assim? — perguntou.
— Você era um ideal, e eu amava o ideal sem conhecer o homem — disse, brincando com a lapela de seu terno. — Eu não havia visto as entrelinhas até este mês. Agora, você é real, e meu amor também é real.
O mundo se acertou. Ele a puxou para si, precisava abraçá-la, envolvê-la em seus braços, apertá-la. Tess apoiou o rosto em seu pescoço.
— Quer saber quando comecei a me apaixonar por você? — perguntou ele, regozijando-se com a sensação daquela respiração quente e irregular contra sua pele. Sugeria emoções intensas. — No Country Club, na sala de conferências. Quando você não me deixou fazer amor com você naquela mesa. Não era meu objetivo quando a levei para lá. Eu só queria um beijo, mas as coisas cresceram. Você faz isso comigo.
Nathan acariciou seu cabelo, deliciando-se com o som de prazer que ela fazia enquanto se aconchegava em seus braços.
— Você é muito mais complexa do que eu imaginava, e quero conhecê-la. Quero você.
Beijou-a demoradamente, demonstrando tudo que sentia naquele beijo. Então, segurou seu rosto, mantendo-a o mais perto possível.
— Quero me casar com você, Tess. Você quer casar comigo?
Ela sorriu, com os olhos marejados.
— Quero — disse. — Mas há um pequeno problema. Lily quer uma festa grande e suntuosa. Leva tempo para organizar algo assim.
— O que os planos de Lily têm a ver conosco?
— Ela gostaria de fazer um casamento duplo.
Ele não ficou surpreso com a ideia. A união das irmãs gêmeas era muito forte. Não se surpreendeu ao ver que elas já haviam discutido o assunto.
— E você? O que você quer? — perguntou ele.
— Quero me casar com você, ponto final.
— Mas você quer fazer o espetáculo com sua irmã. Como em um conto de fadas.
— Prometo que não será um circo, mas uma festa de bom gosto, com classe e...
Ele a beijou, desta vez sem nada que o impedisse e com a intenção de fazê-la pensar em outra coisa, nele.
Neles. Agora.
Segurou-a nos braços e levou-a para o quarto, como fizera da primeira vez. Em seu bolso, estava o anel. Não era apenas um simples diamante. Era uma mulher complexa, e precisava de um anel de noivado diferente, diferente dos modelos tradicionais, algo original.
Ele havia escolhido no dia anterior e tentara não pensar no que faria se ela dissesse não. Teria que lutar por ela.
Não queria lhe dar o anel esta noite. Hoje, lhe daria ele mesmo. No entanto, no dia seguinte, encontraria uma maneira criativa de dar-lhe o anel. Sua formatura com louvor nas aulas de cortejo não seria desperdiçada.
— Amo você — disse ela.
Ainda havia muito a ser dito, feito e descoberto. Mas tudo começou e terminou com uma única verdade.
— Amo você também — declarou ele. — Para sempre.
Fim!
Finalmente depois de um ano encerro a história de Lily e Tess (Summer e Agora Eu e Você). Muito obrigada de coração Joana Patrícia por ter acompanhado até o fim e pelos comentários maravilhosos, obrigada também Thaty pelos comentários. Nos vemos em Milão e Para Sempre, e em breve teremos novidades, beijo :*
