Capítulo 1

Decepção

Costumam dizer que os filhos herdam os traços dos pais. Que estes traços costumam ser sempre os negativos, sendo que os positivos são aprendidos da pior maneira possível. Diziam que ser filha do Brigadeiro General Maes Hughes era um honra e também um azar, já que era impossível de superar alguém como ele.

- Ah, Winry! – Gracia exclamou.

A mãe de Elicia descera lentamente do trem, caminhava na direção da saída aonde uma mulher a aguardava; de aparência jovem e com uma criança nos braço, Winry Rockbell estava com os longos cabelos dourados presos e usava um vestido preto. Sua filha usava um vestido florido e duas maria-chiquinhas, não parecia ter mais de 5 anos.

Gracia sorria ao se aproximar da menina, que em tempos distantes, parecia ser tão nova e despreparada para a vida. Era de se surpreender como Winry crescera e se tornara uma pessoa tão segura e forte.

- Como tem passado? – Gracia perguntou.

Winry fez um sorriso forçado, fechara os olhos e nada respondeu. A mãe de Elicia parecia ter entendido e perdera completamente o semblante feliz que carregava.

- Não me diga que...

- Ligaram da capital e... – Winry parecia pesarosa. – Ed e Al pegaram o trem não faz 15 minutos. Disseram que Elicia está bem.

Gracia contraíra os olhos e se segurara para não sair dali correndo e embarcar no primeiro trem que encontrara.

- Acho que se eu voltar agora vai ser pior, não vai? – Ela murmurou.

- Quer que eu vá com você? Nossa família está no ramo de Automails e próteses, lembra? Podemos ajudar. – Winry esboçou um sorriso ainda cheio de dor.

- Por favor. – Ela respondeu, cansada. – Seria uma grande ajuda.

Winry sorrira e com a mão livre, pousara-a no ombro esquerdo de Gracia. A jovem esposa de Edward Elric acompanhou a amiga até um funcionário da estação e logo comprara as passagens para retornar à Capital o mais breve o possível.

O problema não precisava ser dito com palavras, todos sabiam que um dia isso iria acontecer; a questão era só quando Elicia iria tentar trazer o pai de volta. Pois a menina, que na época não parecia entender nada da vida e morte, não parecia tentada a cometer os mesmos erros que os irmãos Elric.

Mas todos sabiam que ela tentaria, um dia seguir os passos daquele que ainda é seu maior ídolo e que a Alquimia seria uma saída.

- Como ela está?

Os hospitais haviam melhorado muito desde a batalha que ocorrera na Cidade anos atrás. A tecnologia havia acompanhado esse desenvolvimento e conseguia salvar mais vidas.

Isso se devia ao grande esforço do Führer Roy Mustang que assumira há quase 4 anos o posto de governante de Amestris. Ele dizia que devia a uma pessoa melhorias do sistema médico do país e que isso seria a prioridade em seu governo. Esta pessoa provavelmente não se encontrava mais ali, mas Roy era conhecido por sempre manter as promessas.

Roy Mustang estava de pé, com seu quepe entre os braços, aguardando o médico sair da sala de cirurgias. O hospital era gigantesco, dezenas de pessoas cruzavam pelo Führer e faziam as devidas reverências para o comandante maior; Roy estava acompanhado de Riza e mais dois seguranças que o escoltavam aonde fosse. Ele olhava agoniado para a sala mais distante e esperava que alguém surgisse e lhe desse boas notícias.

- Ela ficará bem. – Riza se limitou a dizer.

- Onde essa menina estava com a cabeça? – Roy rangeu os dentes. – Eu prometi a ele que cuidaria dela, mas Elicia não está facilitando!

Riza balançou a cabeça.

- Ela estava pensando no pai. Todos cometem erros e este foi o primeiro de muitos que ela fará. Se sair dessa, provavelmente terá aprendido a lição.

- A um custo grande. – Roy murmurou. – Sabe do que estão chamando a filha do Brigadeiro General Hughes? A Alquimista da Morte.

Riza não parecia ter entendido o termo, mas não disse nada. Fez apenas uma expressão de indagação.

- Estão dizendo que é uma Alquimista com grande potencial no Exército, mas que lida com os mortos da maneira que não devia. Você viu aquela coisa no quarto dela, aquilo não era humano. Como posso autorizar a entrada de alguém com um título tão... mórbido?

- Ela é uma criança. Sempre pode recusar sua entrada. Haverão tantos exames, logo esquecerão do que ela fez.

O médico surgira no corredor e a conversa se encerrara ali. Roy correra até o cirurgião que ainda estava paramentado com as vestimentas cirúrgicas; por ser um hospital militar, o médico era forte e tinha uma expressão carregada, logo Roy sabia que ele não mentiria sob as condições da protegida.

- E então, doutor? – Roy indagou.

Como toda pessoa que sabia da posição de Roy, o médico batera continência e prosseguira.

- Foi um caso não usual. Nunca vimos nada parecido. – Ele disse com sinceridade. – A jovem aparentou ter perdido duas costelas do lado esquerdo do corpo, o braço inteiro se foi e não conseguimos entender como o corte foi tão preciso. Foi preciso utilizar bolsas de sangue para conter a hemorragia causa pelo estranho sumiço do membro.

Ah, eu entendo. Roy imaginou ironicamente.

- O mais intrigante foi o interior. Seus órgãos estão conservados e pudemos conter a hemorragia ocasionada pela perda do braço, porém... o coração parece ter sido afetado.

- Como? – Roy arqueara um das sobrancelhas, confuso.

- Parte dele simplesmente sumiu. É como se o coração não conseguisse mais bombear sangue corretamente, notamos que as veias que trazem o sangue sequer existem. Tivemos que implantar um aparelho que irá monitorar seus batimentos e prevenir que o coração falhe. Foi uma cirurgia inédita, Senhor. – O médico parecia orgulhoso com o trabalho que executara. – Ela está sedada, mas acredito que acordará em breve.

- Que tipo de aparelho estamos falando? – Roy questionou.

- Chamamos de Marca-Passo. É uma automail simples que acompanha o coração e o auxilia quando necessário. Agora, com relação ao membro perdido da paciente, sugiro que busquem alguém especializado em automails para a instalação correta. Fizemos pequenas correções para habilitar o implante, porém nada além disso.

- Há... Há algum risco iminente de vida? – Roy suspirou.

- Não. Está estável e fora de risco, Senhor.

- Entendido. Nós iremos fazer isso, doutor. – Riza declarara por fim e o médico se afastara.

Roy abaixara a cabeça e procurara o banco mais próximo para sentar. Levou suas mãos ao rosto e o enterrou com pesar; ele soltara um longo suspiro de decepção.

- Como eu fui deixar isso acontecer? Eu sempre estive de olho e estava tudo sob controle. – Lamentou-se.

Riza se conteve a ouvir os lamentos do Führer e nada disse. As pessoas passavam e não pareciam notar que o tão orgulhoso governador de Amestrtis estava ali, tão incapaz de fazer algo quanto todos.

Elicia, acorde.

Elicia!

Seus olhos se abriram num súbito, a respiração parou por segundos e seu corpo se ergueu desesperadamente. Pensou estar no chão, mas quando olhou ao seu redor, notou que estava em uma confortável cama num quarto de tons pastéis. Notou que estava enfaixada do pescoço para baixo e que havia uma agulha fincada no braço direito, introduzindo soro e alguns medicamentos na veia.

Elicia olhou para o quarto e não sabia como havia chegado ali. Tentou se levantar da cama, apoiando os braços, mas percebeu que faltava algo; o braço esquerdo não mais existia, assim como dava a falta de algo ao tocar na lateral esquerda do peito e notar que simplesmente afundava a pele. Não existiam mais costelas ali, nem mesmo o braço, restava apenas o vazio.

Este vazio lhe fazia lembrar-se do grande erro que cometera e a vergonha invadia seus pensamentos. A garota fechou os olhos, tentando fugir da realidade, para não ter de enfrentar as pessoas que um dia jurou não decepcionar. Estava envergonhada por ter cometido um erro tão banal e sequer conseguia encarar o corpo deformado que adquirira.

Os olhos de Elicia percorreram o quarto e se depararam com a mãe, Gracia, encostada ao lado de sua cama em uma poltrona.

Já no canto mais distante, no lado oposto da cama de Elicia, estava Edward; o antigo Alquimista Federal estava sentado na beirada da grande janela e parecia dormir. Os longos cabelos loiros presos em um único laço, caíam sob seu ombro direito, sendo iluminados pelo sol.

- Tio Ed? – Elicia murmurou confusa. – Mas...

Ed deixara o pescoço entortar e acordara de súbito. Abrira os olhos e encarara Elicia com preocupação; o homem se ergueu e ajeitou as calças pretas de seda e ajustou o suspensório que as mantinha no lugar, a camisa branca estava mais impecável do que nunca, Winry devia ser uma boa dona de casa ou... Edward quem deveria ser. Só a ideia fazia Elicia tremer de medo.

- Achei que nunca mais fosse abrir esses olhos! – Ed caminhou apressadamente até ela.

Elicia notou que Edward crescera. Haviam se passado 10 anos desde a morte de Hughes e o fim da batalha com o Pai. Elicia sabia que Ed havia se retirado do exército e mantido uma vida pacata desde então, com exceção de algumas viagens que costumava fazer para realizar pesquisas sobre Alquimia. Ele provavelmente já passava dos 1,70cm e sempre se gabava quando crescia milímetros; embora estivesse saudável, sempre vinha à Cidade Central para fazer exames e verificar as condições do braço e perna que havia reconquistado. A vida do ex-Alquimista de Aço – ou Fullmetal Alchemist – era tranqüila, não raro, a filha de Hughes ouvia de Winry que Roy ou outros Generais pediam conselhos a Ed e Al, sobre problemas nos países vizinhos. Edward Elric era uma das poucas pessoas que Elicia admirava, porém nunca fosse admitir tal fato.

Mas ao ver o rapaz que já passara da casa dos 20, seu olhar se enchera de tristeza e a mente fora inundada por lembranças da Transmutação Humana falha; ela se envergonhara.

- Ah, tio Ed! – Ela contraíra os lábios e abaixara a cabeça. – Eu, eu, eu...

- Hei. – Ed acariciou sua cabeça. – Eu não vou ser a pessoa que irá te culpar por isso. Todo mundo erra, principalmente eu e o Alphonse. Eu deveria ter sido mais precavido e lhe explicado sobre as conseqüências de uma Alquimia falha e o ricocheteio que ela causa.

Elicia balançou a cabeça.

- Eu só queria vê-lo de novo, sabe? Vejo minha mãe chorando todos os dias, às vezes de noite de também. Queria tê-lo de volta, mesmo que fosse por alguns minutos, mas aquilo que criei... Não era humano. – Ela lamentou. Lágrimas surgiram dos olhos com força e escorriam de maneira rápida pelas bochechas rosadas e rechonchudas. – Eu fiz tudo, paguei um preço e parece que perdi mais ainda!

Ed acenou com a cabeça.

- A Transmutação tem um preço equivalente pelo que você ofereceu. Na época, ofereci sangue e perdi um corpo e dois membros. Talvez tenha sido injusto, mas foi o preço pelo que eu pedi. Uma vida não se troca por algo tão ínfimo como um braço ou uma gota de sangue.

- E-Eu vi aquela coisa, ela me mostrou muitas imagens e, subitamente, parece que sei mais do que estudei. Eu vi meu pai e vi...

- A Verdade. – Edward Elric se afastou de Elicia. Ele sentou-se a cama com uma das pernas dobradas, ele pensou por uns instantes e continuou – Ele te mandou para dentro do Portão?

Elicia acenou com a cabeça.

- Não devia ter feito isso, mas eu precisava. Precisava ter certeza de que... mortos não voltam a vida. – A menina se entristeceu e pareceu se encolher entre o braço e a colcha da cama.

Ed perdera a expressão carregada e lhe dera um sorriso de compaixão.

- Bom. Mas você continua aqui, é o mais importante. – Ele disse. – Agora, precisamos ver o que irá ser feito nesse braço, sem ele não pode ficar.

A garota arregalou os olhos, incrédula com a afirmação do Elric. Ela notou que estava sem blusas ou jaleco, apenas com gases em toda a extensão do peito e parte do ombro esquerdo.

- Oh! Mas Automails são caríssimas, não posso gastar o dinheiro de minha mãe assim! Ela já fez demais, custeando meus estudos com Alquimia.

Edward riu alto, esquecendo que Gracia dormia ao lado.

- Não se preocupe! – Balançou a mão como se não se importasse com o assunto. – Winry e eu podemos arcar com os custos e, além do mais, ela continua sendo uma mecânica excelente!

Naquele instante, a porta do quarto se escancarou e Roy Mustang adentrou o quarto pisando duro e com a expressão fechada. Gracia despertou do sono e se assustou quando Roy se dirigiu a Elicia e desferira uma bofetada na menina. Riza estava na entrada do quarto, cuidando para que ninguém entrasse.

Elicia sentira o peso da mão do Alquimista que manipulava o fogo, seu Führer parecia extremamente furioso e não poupara a força ao bater na menina.

- R-R-ROY! – Gracia se erguera depressa e entrara na frente de Elicia.

Roy contraíra o punho e olhara irritado para Elicia.

- Isso foi pela irresponsabilidade que quase lhe custou a vida. Sabe por quanto tempo ficou inconsciente? Uma semana! – Gritava indignado. – Você perdeu tanto sangue que precisou de transfusão, seu coração não irá agüentar quando fizer exercícios extensos e já não tem um braço para lhe ajudar. O QUE ESTAVA PENSANDO?

Elicia tocara o local avermelhado da bofetada, o rosto estava inchado e os olhos marejados de lágrimas.

- Tio Ro—

- Não quero ouvir! Você me decepcionou imensamente! Como a pessoa responsável por cuidar de você, me sinto no direito de dizer que estou extremamente envergonhado, não consigo olhar mais para você. Como pôde? – Dissera com a expressão de nojo no rosto, ele parecia horrorizado com toda a situação. Talvez fosse pelo fato de se tratar da filha de Hughes e não qualquer pessoa, não se lembrava de ter reagido assim com Ed e Al.

Elicia fechou os olhos.

- Eu sinto muito.

- Não sente. Se tivesse, não teria feito essa burrada. – Ele retrucou.

- Oi. – Ed interrompeu. – Ela não precisa disso. É uma menina.

Roy olhara irado para Edward e balançara a cabeça, ignorando a fala do loiro.

- Estou dizendo isso para o bem dela.

- O bem dela é se recuperar de tudo isso e DEPOIS conversar. – Edward retrucou em alto tom.

Elicia acenou a cabeça, concordando com tudo que Roy falara. A menina parecia chocada com a atitude de Roy Mustang, que nunca havia dito que se sentia decepcionado com suas atitudes, aquela havia sido a primeira vez.

- Eu prometo que irei lhe dar orgulho, não irei para f—

- Como Führer – Roy a interrompeu ao erguer a mão e fazê-la se calar. – Admirei sua determinação, possuiu uma habilidade única de criar um ser que viveu por poucos instantes, sua Alquimia possui técnica e acredito que poderá ser um excelente soldado. Porém, sua condição física não me permite aceitá-la no exército, aconselho que se prepare para isso. Se passar no Exame Admissional, poderá conseguir um título e um salário interessante, talvez consiga curar essa condição. Acredito que irá conseguir.

Elicia abaixou a cabeça.

- Isso é tudo, meu Führer? – A menina indagou, seus olhos ficaram fixados na cama, segurando o choro que ainda queria sair.

- Sim. – Roy disse de maneira pesada. – No Exame, eu estarei assistindo e esperarei resultados. Como responsável pelo seu bem-estar, sinto no dever de passar essa honra para outra pessoa.

Roy acenou e Riza o acompanhou até a saída. Ao desaparecer, Gracia correu para colocar uma compressa no rosto da filha e verificar se o ferimento havia sido grave.

- Esse cara me estressa. Não acredito que conseguiu se tornar o Führer, apesar de tudo. – Ed colocara a mão na cintura, incomodado. – Entrar e falar dessa maneira, ah se eu ainda tivesse meu braço antigo...

Elicia segurou a mão da mãe e a afastou, ela olhou determinada para Ed que ainda estava praguejando para Roy.

- Tio Ed, eu quero que me ajude a passar nesse exame. Quero me tornar uma Alquimista Federal e provar que consigo ser mais do que uma deficiente, eu vou provar para Roy Mustang que não sou uma vergonha. – Ela dissera com convicção.

Edward se voltou para a menina com surpresa.

- Tem certeza? A Automail irá incomodar nos primeiros meses e provavelmente você não virá para a Cidade Central no período de treinamento, fora que eu e o Al podemos acabar pegando pesado. – Ele indagara.

- Eu quero seguir os passos do meu pai e me alistar. Ainda não sei a condição do meu coração, mas quero tentar. – Ela continuou.

Gracia sorriu.

- Você vai conseguir, acho que seu pai ficaria orgulhoso. – A mãe de Elicia sorrira amigavelmente, tentando parecer forte diante da situação.

- O dinheiro não vai ser problema. – Ed cruzara os braços. – Minha aposentadoria e pesquisas para o Exército renderam alguma coisa, consigo te ajudar e custear a Automail.

- Mas não posso deixar que faça isso! – Gracia parecia incomodada. – Eu quero pagar ao menos isso.

- Não se preocupe. – Ed sorriu. – Elicia é como uma irmãzinha. É o mínimo que posso fazer depois de tantos problemas que eu e meu irmão causamos no passado, sabe? – A lembrança de Hughes ainda ecoava na memória de Ed.

Gracia parecia um pouco chateada com a situação, mas acenou com a cabeça.

- Pelo menos posso visitá-los?

- Claro que pode, mamãe! – Elicia sorrira. – Vou me tornar uma Alquimista que lhe trará orgulho!

- Você já me dá. – Gracia dissera ao beijar a filha.

Edward esticara os braços e estalara os dedos. Estava com um sorriso animado e parecia ter se interessado com a idéia de treinar a menina.

- Então iremos partir assim que tiver alta!

- Hm!

Talvez houvesse ainda uma chance, talvez Elicia conseguiria achar uma maneira de reconquistar o orgulho de Roy. Isto porque nada nesse mundo é perfeito, nem mesmo os humanos. Estão sempre querendo algo que jamais conseguirão. Querem ser belos, inteligentes e acima de tudo, ao alcance de Deus ou até mesmo além. Um longo caminho surgia para a menina.