Elicia estava caída, com o rosto virado para o chão. A chuva caía de maneira pesada e sem trégua; seu corpo estava cansado de tanto lutar e seu peito doía freneticamente. Não tinha mais controle.
A Alquimista fechara os olhos e contraíra os lábios, precisava se erguer e continuar... mas... como?
Vamos, coração, só mais um pouco!
Quartel da Cidade Central
- Sala do Führer –
- A relações com o país estão ficando por um fio, precisamos definir um estratégia. – O homem dizia preocupado.
Roy estava de costas, ouvindo em silêncio os comentários de seu conselheiro. A mente divagava nas opções que possuía e como iria utilizá-las.
A sala era grande e toda acinzentada, haviam diversas mesas com os soldados em que Roy mais confiava trabalhando ao seu lado sem descanso. Riza possuía uma mesa ao seu lado esquerdo e estava ali, atendendo ligações.
Pouco havia restado da equipe original que havia formado quando ainda era Coronel, porém as poucas pessoas que estavam ali eram de confiança, como Havoc.
- Não queremos outro incidente como o de Ishval, não é? – Roy murmurou, soando mais cansado do que nunca.
O assessor do Führer balançou negativamente a cabeça.
- O país de Creta não estava tendo expressividade até então, senhor. Um país focado exclusivamente no artesanato e agricultura, com uma cultura voltada ao respeito para com os mortos. Subitamente, estão se armando a uma velocidade absurda. – O Soldado dizia seriamente. – Eles se localizam ao oeste do país e abaixo de Dracma, talvez poderia ser esperada essa mudança.
- Dracma, o país que tenta invadir pelas muralhas do norte? Faz sentido, mas... por qual razão iriam desejar nos atacar? – Roy questionou. – Creta nunca questionou nossas atitudes e o país possui muralhas gigantescas.
- É um país muito isolado e pouco se sabe dele, poderíamos mandar alguns emissários para lá, não? – O assessor continuou.
Roy pensou por um instante e acenou a cabeça. Havoc, Riza e mais dois soldados ergueram a cabeça em surpresa.
- Mandaremos Alquimistas Federais para avaliarem as condições políticas. Se possível, enviem algum General para acompanhar a conversa diplomática.
O assessor batera continência e se retirara em seguida, carregando as ordens de Roy.
Riza e Havoc se entreolharam, curiosos com a decisão de seu Führer.
- Não é por nada, mas por que mandar um General? – Havoc questionou.
- Porque estou com um pressentimento ruim. – Roy respondeu ao cruzar os braços. – Ter um general experiente em guerras pode ser a salvação desses Alquimistas.
E não houve mais discussão.
O que será que Creta está planejando?
CAPÍTULO 2
Alphonse Elric & Jean Havoc
2 ANOS DEPOIS
Já era noite, quase todas as pessoas haviam se recolhido para suas casas e as ruas se encontravam vazias. A única movimentação era dos soldados vasculhando os perímetros da Cidade Central, sempre buscando proteger os cidadãos de inconvenientes.
12 anos haviam se passado desde a última grande batalha na capital do país, não havia mais resquícios de que um dia a batalha fora travada ali. As ruas estavam em estado impecável e a iluminação não deixava nada escondido. A cidade vivia um momento próspero.
Duas figuras corriam apressadamente entre as fendas das casas construídas quase sempre coladas umas nas outras. Uma delas carregava uma enorme sacola, sendo forçada a correr de maneira mais lenta.
- Ah, droga! – O homem exclamou para o parceiro.
- Ande logo, ela vai nos alcançar! – O outro gritou.
Os dois homens corriam desesperadamente, tentando permanecer fora do alcance dos soldados federais, enquanto tentavam salvar sua sacola.
A corrida os levou a um beco que não possuía saída, tendo um muro impossível de ser escalado e paredes finas, sem qualquer chance de se esconder. Eles olhavam desolados para o muro, buscando um jeito de escapar dali, porém uma figura adentrara o local, cercando-os.
- Ah, ah... Mas vocês são... bons... em corrida, hm? – A voz feminina parecia exausta.
O primeiro homem que carregava a sacola se voltou assustado para a figura.
- Mas como?! – Ele exclamara incrédulo – Tinha certeza de que te tínhamos te despistado!
A figura feminina conseguira ganhar fôlego e sorrira para os estranhos. Ela apontara para a sacola, ela estava rasgada e liberando pequenos fracos de vidro que estilhaçavam conforme alcançavam o solo.
- AH! - O parceiro gritara. – Você rasgou!
- Quando disseram que eu precisava patrulhar o Laboratório de Fórmulas, não imaginei que fosse ser a sorteada da noite, já que nunca consigo algo assim. – A garota girava o braço esquerdo, tentando aquecê-lo. O mesmo parecia estalar a cada vez que ela fazia uma volta completa.
Um dos homens retirou de súbito uma pistola do bolso e disparou contra a garota. Ela estendera a mão esquerda rapidamente e o tiro atingira seu punho, atravessando-o sem dificuldades.
- Eh? – O homem que efetuara o disparo, olhava confuso para a situação.
Não havia sangue no local em que acertara o tiro, apenas um líquido escuro brotava. A menina de olhos esmeralda sorria para a dupla, o rosto arredondado estava iluminado pelas luzes da cidade, revelando uma pele alva e longos cabelos lisos e amendoados. Uma trança surgia da direita de sua cabeça e prendia os cabelos naquela região, ficando solto o restante, sendo que a esquerda tinha uma espessa franja cobrindo parcialmente o olho; os cabelos estavam soltos, caindo sob seus ombros e colados ao corpo franzino.
- Não pode ser você... – O homem tremera.
A garota caminhou na direção dos dois homens, revelando a vestimenta que utilizava. Estava usando um colete negro que mantinha sua cintura e peito firmes e protegidos de golpes, provavelmente também servia como proteção de balas – era sem mangas e cobria parte do pescoço e costas; uma grande luva negra cobria todo seu ombro e braço esquerdo, deixando apenas as pontas dos dedos à mostra e estes não possuíam sangue, apenas o líquido escuro encobrindo-os.
Estava com um longo casaco azulado preso a cintura, este casaco tinha uma faixa exibindo seu posto no exército e era preso com um grosso cinto dourado; estava usando uma calça igualmente preta e de tecido grosso, fechando o comprimento das finas pernas com botas de couro de sola branca.
- Essa luva no braço e esse casaco na cintura, o povo fala de você! – O homem exclamara. – É aquela que não tem medo de morrer, a...
- Alquimista da Morte. – O outro completou.
Elicia suspirou, parecendo incomodada com o título.
- Ah, não é um nome legal. Vocês nem têm idéia de como ele surgiu, não é mesmo? – Ela colocara o braço direito na cintura e curvara um pouco, encarando os homens sem preocupação. – Bom, vamos fazer do jeito simples, me entreguem o que roubaram e eu deixo que saiam impunes dessa.
- Haaaah? – O homem que carregava a sacola a encarou sem acreditar. – Nunca! Essas fórmulas valem uma fortuna no mercado negro, Xing compraria por milhões!
Elicia balançou a cabeça e se moveu lentamente na direção dos ladrões, estes pareciam desesperados e começavam a atirar a esmo; as balas não acertavam a menina que sequer parecia se esforçar em esquivar dos disparos, porém um deles foi em sua direção e ela novamente usara o braço esquerdo para se proteger, ferindo desta vez parte da mão.
Ela começara a correr e juntara as duas palmas das mãos numa batida rápida, Elicia tocara o chão próximo de onde os homens estavam e relampejos de luzes azuladas surgiram; colunas de pedra surgiam do chão e se prendiam os corpos dos estranhos que acabaram se fundindo com o cimento.
- Ahh, de onde isso surgiu?! – Um gritava.
Elicia se afastara num salto simples e olhava para os dois homens presos no concreto que saíra do chão. Ela cruzara os braços e sorria.
- Bom, vou avisar aos soldados que tenho dois bandidos aqui. – Ela dera as costas.
Porém, algo a fizera travar. Era a figura de uma menina de pouco mais de 4 anos, correndo diante dela e sorrindo ao cruzar seu caminho; era baixinha, mas tinha olhos expressivos e bochechas rosadas. A criança pareceu se assustar ao notar que Elicia a vira, correra para fora do beco e olhava com medo para a Alquimista.
Ah, era mais um deles. Elicia imaginou ao se aproximar.
- Q-Quem é você? – A pequena parecia apavorada com a presença de Elicia no lugar.
Elicia caminhou cuidadosamente e se ajoelhou diante da criança, ela dera um sorriso bondoso ao ver que a menina ainda a olhava com desconfiança.
- Eu me chamo Elicia Hughes. – Ela sorrira. – Eu moro por aqui. Logo ali, depois daquela esquina.
- Mas ninguém me vê, por que você... ? – A menina parecia intrigada.
- Ah. – Elicia apontara para os olhos e continuava a manter um sorriso bondoso. Suas mãos balançaram ao responder. – Eu tenho olhos mágicos, posso ver todo mundo. É um poder especial.
A menina sorrira com a declaração e parecera perder o medo, ela estava com algo atrás, vigiando-a.
- O que tem aí, atrás de você? – Elicia parecia curiosa.
- É o meu amigo, Alexander! – A menina parecia orgulhosa, ela acenara e um grande cachorro branco surgira de dentro da parede; o animal parecia estar cansado, mas olhava para Elicia com desconfiança.
O cachorro se aproximara lentamente e após cheirar cuidadosamente Elicia, ele a lambera rapidamente no rosto, balançando o rabo energeticamente. O estranho foi que a lambida não encostara propriamente na pele da jovem, atravessara seu corpo como se este não existisse; Alexander pareceu ignorar o fato e se afastou satisfeito.
- Há, há, ele é muito legal! – A Alquimista Federal parecia se divertir. – E você, como se chama?
- Nina.
Elicia acenara com a cabeça, ela se erguera tranquilamente e olhara em volta; os ladrões a encaravam com medo. A jovem caminhou em volta de Nina, observando suas roupas e seu jeito.
- O que faz aqui, Nina? – Ela perguntou.
- Eu sempre venho aqui, é onde eu me lembro. - A menina parecia perdida.
- Não tem para onde voltar? Mamãe, papai... ?
- Mamãe já aqui perto, visitando o papai. – Nina sorrira. A menina olhava em volta e parecia assustada, ela começara a andar e dera as costas para Elicia. – Ah, preciso ir, ela está me esperando!
Elicia sorriu e acenou para a menina, ela acompanhou apenas com o olhar Nina e Alexander desaparecerem ao entrar em uma parede. A Alquimista deu um longo suspiro e em seguida se voltou para os ladrões.
- Ela fala sozinha... – Um murmurou.
- Será que é louca?
- Ah. – Elicia fizera bico.
Desde que realizara a Transmutação Humana, Elicia já havia perdido a conta de quantas vezes isso havia acontecido. Não havia horário para surgirem e nem local, eles simplesmente apareciam e permaneciam ali por alguns minutos, no máximo horas; os espíritos de pessoas que haviam falecido, sempre voltavam ao local de suas mortes, fosse apenas para visitar ou porque haviam ficado presas naquele plano. Em um mundo aonde a Alquimia era aceita como ciência e que Deus – a grande e esmagadora verdade – não passava de mito, Elicia provavelmente passaria como louca, então nunca dividira sua habilidade com ninguém.
Talvez este fosse o castigo que a Verdade lhe lançou, o poder de ver os mortos, mas incapaz de tocá-los ou ajudá-los a ir para outro plano. Podia conversar com eles, podia sentir quando se aproximavam, mas nunca ajudá-los. Era uma realidade infeliz, quase como um peso que tivesse que carregar para a vida.
Ela via freqüentemente crianças que haviam morrido na Cidade Central e soldados nas imediações de outras cidades, muitos pediam para entregar mensagens aos familiares e outros simplesmente gostavam de ter alguém para conversar, como Nina. A Alquimista fazia o possível para não soar como uma pessoa surtada, mas nem sempre conseguia.
O seu maior castigo, provavelmente seria o de nunca ter visto seu pai. Havia se passado 2 anos desde a Transmutação e ela nunca o encontrara, nem mesmo visitando seu túmulo ou o local da morte. A Verdade realmente tinha um humor muito megro, se essa era a forma de fazer Elicia se arrepender do que tinha feito, provavelmente havia conseguido.
Bom, nem sempre a Troca era equivalente para o Todo-Poderoso.
- Tsc. – Elicia mordera o lábio, se lembrando daquela figura sem rosto que ainda parecia infernizar seus sonhos com aquele sorriso.
A Alquimista se afastou dali e logo após informar aos soldados de sua captura, se dirigiu para um bar próximo do centro da cidade. Era um bar conhecido pelos soldados do Exército, freqüentado em sua maioria por eles após missões e serviço; Elicia costumava ir ali para angariar informações e descansar após longos períodos de plantão nas ruas. Não era proibido para menores, porém não permitiam a entrada de pessoas que não possuíam relações com o Exército.
O bar era aconchegante, com grandes mesas redondas espalhadas por toda sua extensão; era completamente revestido de madeira, com forro em verniz e chão sempre encerado. Ao fundo do bar, havia um balcão com dois bartenders sempre atendendo aos pedidos dos clientes, o local era conhecido por ser um dos pontos que o Führer costumava freqüentar após o dia de serviço.
Elicia nunca vira Roy ali, talvez seus horários não coincidissem ou o Führer simplesmente evitava encontrar com a menina.
A garota caminhou até o balcão e se sentara, sorrindo para o funcionário.
- Oh, Elicia. – O homem de cabelos dourados, bigode absurdamente grande, sorrira para ela. Ele preparava um drinque quando a menina se sentou tranquilamente. – Terminou o plantão?
- Hm. – Ela acenou com a cabeça. Colocara o braço esquerdo, ainda perfurado pelas balas em cima do balcão. – Senhor Dean, tem água?
O bartender servira um corpo gelado para a menina que o pegara tranquilamente.
Elicia retirara do bolso de sua jaqueta azulada do exército três comprimidos, engolira de uma vez enquanto tomava a água. Eram os remédios rotineiros que mantinham seu coração batendo, pelo menos era isso que o médico dizia.
- Sempre esse coquetel, hm? – O bartender sorria.
- O que posso fazer? – Ela virou novamente o copo.
Elicia terminava de beber o copo de água quando uma figura sentou ao seu lado, era um jovem bronzeado que não parecia passar dos 30. O rapaz acenou para Elicia e a menina abrira um sorriso gigantesco.
- Ahhhh! TIO AL! – Ela exclamou saltando do banco rapidamente e abraçando o rapaz.
Alphonse abraçara a garota e dera leves tapas em seu ombro, tentando conter sua animação. O jovem irmão de Edward Elric não parecia ter mudado ao longo dos 12 anos, estava mais nutrido, porém visualmente continuava praticamente o mesmo; tinha os cabelos aparados e a barba feita, apenas a pele estava mais bronzeada que de costume, ficando num tom quase amendoado.
- Onde esteve? – Elicia perguntava animada.
- Creta. – Alphonse respondera ao se afastar da Alquimista. – Recebi um pedido para observar a cultura de lá, o Ed também chegou hoje. Foi uma viagem exaustiva, são 5 dias de trem e mais 2 de transporte animal.
- Creta, hm? – Elicia parecia curiosa. – Não ouço muito falar nos relatórios dos Alquimistas Federais, há algo incomum ocorrendo por lá?
Alphonse pareceu levar alguns instantes para responder.
- Não sei muito. Mas a cultura é interessante. Sabia que eles cultuam os mortos como se fossem vivos? Que uma vez que a pessoa morre, ela ascende para um plano não muito diferente do nosso e ainda caminha entre nós? – Ele parecia interessado na mudança de assunto. – E a Capital? Uma pedra de ouro maciço gigantesca, no meio da fonte e-
Elicia decidiu não questionar mais e continuou a perguntar sobre a viagem de Alphonse, ela não notara quando Havoc e alguns soldados adentraram o recinto. A jovem Alquimista não conseguia se aproximar dos assistentes pessoais de Roy, nem para conversar alguns instantes; ela sabia que Havoc havia retornado ao exército apenas pelo pedido de Roy e que em quesito físico, ele já não era o melhor soldado de todos. Todos os assistentes de Roy, com exceção de Riza, não estavam mais em sua plenitude física e em idade, então sempre se atinham aos trabalhos executados em escritórios.
- E então eu disse para ela qu- wooaaah! – Havoc fora ao chão.
- Senhor Havoc! – Maria Ross corria até ele para ajudá-lo a seguir e caíra junto com o soldado. Parecia um efeito dominó, um por um, todos caíam assim que adentravam o recinto.
Todo o bar voltara sua atenção para os soldados que escorregavam no chão, Havoc se erguera irado, com as mãos nas costas em sinal de dor e olhou em volta.
- Quem fez isso?! 'Tá procurando briga, só pode! – O agora 1° Tenente gritou.
Um homem grande e de braços fortes batera a mão na mesa e olhara irritado para Havoc, ali no bar eram comum as brigas começarem por coisas ínfimas, principalmente se fossem relacionadas a Elicia – parece que todos haviam feito um pacto para protegê-la ou evitar de que entrasse nas brigas.
- Haaaah? – Havoc olhara irritado. – VOCÊ!
- E se for?
E a briga começara. Elicia e Alphonse se afastaram em alguns passos para uma zona mais segura, garrafas começaram a circular por todo o bar, pessoas eram jogadas contra o balcão e muitos homens se aglomeravam no centro para se intrometer na briga, o barulho tomara conta.
- Que confusão. – Al parecia apreensivo. – É sempre assim?
- Quase sempre. – Elicia se divertia com a movimentação. Ela desviara de um copo cheio de cerveja em sua direção e olhava para Alphonse. – Mas então tio Al, quando vai voltar para Reseembool?
- Woah – Al desviara de um homem que era jogado contra o balcão. – Acho que amanhã, preciso descansar e a May também ficou de me encontrar aqui na Capital. Você também vai para lá?
Elicia acenou e apontou para o braço com as perfurações das balas, foi então que percebeu que Havoc e os demais soldados haviam escorregado em uma poça de óleo que escapara de sua automail, a garota congelara ao notar que o óleo ainda saía. Quanto líquido podia sair de um único braço?
A Alquimista da Morte olhou desesperada para Al e o mesmo parecia surpreso.
- Não me diga que...
- E-E-Eu não vou entrar na bri-! – Um copo de cerveja atingira o rosto de Elicia, um filete de sangue surgia em sua testa por conta do vidro que estilhaçara. A garota esfregara a face ensopada pelo líquido e fizera uma carranca pelo ocorrido, olhara irritada para a direção da briga, jogara a jaqueta para trás da cintura e estalara os dedos. – Só vai levar um minuto.
Alphonse acenou para a menina que se juntou para briga. E em menos de dois minutos, um enorme relampeio de luz azulada invadiu o local, todas as mesas haviam se tornado uma grande mão de madeira e que acertara todos os envolvidos na confusão; Elicia comandava a alquimia que fizera com que todos fossem nocauteados ou pelo menos, quase todos.
- Espera aí! Quem falou que Alquimia estava liberada?! – Gritara um Alquimista furioso.
- E está? Opa!
- Ah. – Elicia engoliu seco.
E então começaram a surgir dezenas de luzes das mais variadas cores e a briga se acirrara. Espadas surgiam na briga, assim como objetos transmutados e mesas sendo lançadas.
- AHH, MEU BAR! – O bartender colocara as mãos na cabeça.
- E então, como pretendem pagar os prejuízos, hm? – O dono do bar estava de braços cruzados, encarando aqueles que iniciaram a confusão.
Já passava das 2 da manhã e poucos soldados restavam dentro do bar. Alphonse fazia companhia para Elicia que havia sido apontada como o pivô da grande briga, Havoc e seus companheiros também estavam no local. Todos estavam reunidos no centro do bar, cabisbaixos. Alguns enfaixados e outros com grandes marcas ao redor do corpo.
- Eu sinto muito. – Elicia murmurou e se curvou em sinal de respeito. Em sua cabeça havia uma faixa cobrindo o local do corte causado pelo copo.
- É bom mesmo sentir! – Havoc retrucara. – A briga estava indo muito bem sem alguém entrar com Alquimia e-, espera aí...
Elicia encarou o homem com raiva. Ele estava bem diferente da época em que lembrava, ele estava menos flácido e com ar mais jovial – talvez fosse o boato de que a cura com a Pedra Filosofal tivesse lhe dado alguns anos de vida. -, não estava mais usando barba, apesar de estar com uma fina marca em seu rosto que precisava ser feita. Estava mais forte do que antes, talvez fosse a idade chegando e a necessidade de se manter a par com os jovens, Havoc começara a se exercitar com mais freqüência e seus braços eram o resultado, ainda tinha olheiras e parecia cheirar a cigarro; traços de um homem próximo ou já passara dos 40.
A Alquimista Federal torceu o nariz ao sentir o incômodo cheiro.
- Você me lembra alguém, pivete. – Havoc a examinara de cima abaixo. – Não é nenhuma bonitona peituda, um soldado de alta patente não... hm...
- O-O-O-O-O-O-Oiii! – Todos exclamaram desesperados.
Elicia fechara o semblante e aproximara-se de Havoc, impondo-se sobre o homem. Todos sabiam o quão complexada era com o corpo, já que este nunca mais iria crescer da maneira normal, seu corpo estava escravo da automail que fazia seu coração funcionar, afetando todo seu crescimento.
- Como é?! – Elicia aumentara ainda mais a carranca.
- Ah, vamos deixar isso de lado, sim? – Alphonse entrara no meio. – Elicia é Major, pela escala dos Alquimistas Federais e...
- ... Ela está em um posto maior que o nosso, Senhor Havoc... – Maria Ross abaixou a cabeça, a mulher estava de cabelos soltos caindo sob o ombro e não parecia ter mudado muito ao longo dos anos.
- HAH? Elicia? – Havoc voltara sua visão para a menina e se lembrara imediatamente. – Ela é filha daquele cara?! Mas... desde quando ela entrou no Exército?
- Ah, pelo visto a idade está afetando sua memória? Era de esperar, velhotes não são bem vindos no Exército. – Elicia olhava com pouco caso.
- Quem você está chamando de velhote, hm? – Havoc retrucara. – Aonde foi parar toda aquela fofura que víamos em fotos, não pode ser possível que você seja a mesma pessoa que conheci anos atrás! Nem em um milhão de anos! Cara, o que o Roy ia dizer disso!?
- Ah, Havoc! – Alphonse tentou impedir, mas já era tarde.
Elicia se irritara e num giro rápido, acertara a perna no rosto de Havoc e o fizera cair ao chão. Ela lhe dera as costas, ainda incomodada com a última fala do 1° Tenente.
- Eu não sou a mesma pessoa de 12 anos atrás e com certeza o Führer não me reconheceria, não com isso. – Ela olhava tristemente para a luva da mão esquerda, todos puderam notar que parte dela havia se rasgado durante a briga no bar, deixando à mostra o aço da automail e os fios que a faziam se mover. A Alquimista soltou um longo suspiro. – Não precisa me lembrar do que eu já sei, já aceitei conviver com isso.
Elicia se voltou para o dono do bar, o mesmo bartender que gostava dela.
- Senhor Dean, pode colocar na conta o conserto. Eu venho acertar semana que vem, sim? – E saíra do recinto.
Havoc, ainda confuso, se voltou para Alphonse que parecia carregar um semblante pesado no rosto.
- Hei, Elric, ela realmente é a filha daquele cara... O Hughes? O que aconteceu com ela?
- É. – Alphonse respondeu acenando a cabeça. Ele começou a caminhar para ir atrás de menina. Mas parou diante de Havoc. – Se importa de eu contar a história em detalhes?
Havoc puxara uma das únicas cadeiras conservadas do bar e assim todos os colegas o fizeram.
- Já estamos presos aqui mesmo, acho que mais algumas horas não farão mal. – Havoc observou.
Al cruzara os braços enquanto permanecia de pé. Ele suspirou e começou a falar:
- Tudo começou há dois anos...
E em dois anos muita coisa mudou. Uma guerra está para ser deflagrada, um tabu foi quebrado e uma menina perdeu a inocência; esta jornada apenas começou.
