Capítulo 3
Reseembool
Roy nunca mais olhou para Elicia, pelo menos não depois do que aconteceu na Cidade Central. Elicia concordou com Ed em vir para nossa cidade natal e começar o treinamento e fazer o implante da automail.
Gracia concordou em não pagar o implante, já que seria um presente nosso. Elicia garantiu que assim que recebesse o primeiro salário, iria devolver o dinheiro.
O trem atravessava sem pressa o país, havia tempo de sobra para admirar a paisagem que mostrava, Elicia olhava sem dar muita atenção para o movimento e parecia perdida nos próprios pensamentos. Estava usando uma capa em tom salmão que cobria todo seu corpo, abaixo dela, usava um vestido de tecido leve que não lhe dava cansaço.
Havia recebido alta do hospital a pouco menos de dois dias e já estava viajando com Ed para a cidade natal do Fullmetal. Não queria perder tempo, já que passara um mês internada e quase outro para voltar a caminhar normalmente; não sentia mais tanta dor no local amputado e o coração não lhe incomodava.
- Quando chegarmos, Winry irá avaliar as condições do ombro e o tamanho necessário para a automail. – Ed estava com o rosto apoiado no queixo, com a cabeça quase encostada na janela do trem. – Animada para o início do treino?
- Sim. – Elicia se voltou séria para o amigo.
- Vamos pegar pesado. – Ed continuou. – Você tem nove meses para se ajustar a automail e sair daqui num estado aceitável para o Exame, acha que consegue?
Elicia fez um aceno afirmativo com a cabeça e viagem seguiu em silêncio. Esperou ansiosamente para chegar e quando encontrara Winry, sentira-se mais tranqüila ao ver que ali não seria julgada pelos erros cometidos. Teria alguns momentos de paz.
Inicialmente, passara os dias apenas aprendendo com Ed as teorias que poderiam cair no Exame escrito do Exército, logo começou a receber as avaliações de Winry para implantar a automail.
- Precisamos ver qual será o tamanho e peso ideal, você ainda está em fase de crescimento e não seria bom colocar uma prótese definitiva. – A personalidade da mecânica viera à tona. Winry observava o espaço que restara do ombro esquerdo da garota e fazia anotações.
- Vou poder usar o braço normalmente?
- Claro que sim! Só precisa fazer as devidas manutenção e não quebrar o implante. – Ela frisou.
Já fazia um ano desde que a avó de Winry falecera e a mesma assumira o empreendimento familiar, não se deixara abater e continuara a trabalhar tranquilamente.
- Não podia ser grossa... – Pinnako resmungava diante de Elicia. A menina rira, para confusão de Winry.
Foi exatamente nessa época que Elicia começara a ver o espírito das pessoas. Inicialmente ela via apenas Pinnako que costumava aparecer para checar Winry e Ed, logo podia ver um ou outro espírito caminhando pelas planícies verdes de Reseembool; decidira se manter calada para não incomodar a família que a abrigava com tanto carinho. As visitas se tornavam freqüentes quando descobriam que podiam ser vistas pela menina, então havia dias em que Elicia fingia não vê-los.
Após duas semanas de estadia, a cadela idosa de Winry estava em canto da casa de madeira e não parecia dar mais sinais de melhora de uma doença que adquirira com o passar dos anos. Elicia acariciava o animal com tristeza, tentando esconder o choro.
- Ah, ela está aqui. – Ed se ajoelhou ao lado de Elicia.
- Ela vai morrer? – Elicia perguntou tristemente. As lágrimas surgiam de seus olhos com rapidez.
Edward acenou positivamente com a cabeça e olhou com pesar para a companheira de seus dois filhos e esposa.
- Esta é a primeira regra que irei te ensinar, a mais importante de todas, Elicia. – Ed começou em voz baixa. – Um é tudo e tudo é um.
- Ahn?
- Não se pode evitar que o ciclo pare, a vida continua e não podemos interferir com isso. Você teve a prova maior disso, não se pode trazer os mortos de volta a vida. – Ed acariciava a cadela que soltava alguns gemidos de dor.
Elicia acenou com a cabeça e continuou a observar o animal com dor.
- A vida é um ciclo que se renova sempre. – A menina murmurou. – Mas injusto.
- Necessário. – Ed sorriu para a menina.
E naquela noite, Elicia começara a entender como a vida era um bem precioso e único.
Um é tudo e tudo é um.
Sua mão cobria parcialmente os olhos claros, a cabeça erguida encarava o grande azul predominando no céu daquela tarde de verão. Estava suando com o calor forte que fazia, mesmo com as poucas roupas, aquilo o incomodava profundamente.
Sua calça marrom fora puxada por duas pequenas mãos, baixou sua atenção para as duas crianças o encarando com expressão de choro.
- Oh, vocês vieram tomar sol? – Edward Elric se agachara para ganhar uma altura razoável e ficar perto dos pequenos.
- Papa, ta quente~.! – A menininha de cabelos louros presos em um laço vermelho e espetados, olhava com lágrimas nos olhos. Seu vestido rosado com pequenas estrelas douradas ao longo do comprimento estava ensopado com água. – O Willy jogou água em miiiim.
Ed colocou a mão em sua nuca e soltou um suspiro de cansaço. Quem dera a idéia infernal de cuidar de duas crianças naquele dia quente?
A menininha de olhos azuis abraçara a perna de Ed e soltara um sorriso de alívio.
- Ahh, fresquinho!
- HEI. – Ed se irritara. – Mille, essa é minha perna, não é para ficar se agarrando nela para se refres-!
Ao lado de Mille, um garotinho com aproximadamente a mesma altura dela correra e agarrara a perna de Ed. Seus olhos dourados e cabelos castanho-dourados revelavam: Era Willy.
- Vocês dois... – Ed ficara de pé e soltara centenas de xingamentos dentro da própria mente.
- Heh, vejo que seus filhos são bem apegados, irmão. – O jovem Alphonse chegava com uma grande mala na mão direita e um casaco preto apoiado no outro braço. Estava aparentemente cansado.
Ed acenara para o irmão e pegara os dois filhos, um em cada braço, caminhara ao seu encontro. Era ainda cedo e a chegada do irmão estava sendo esperada com ansiedade por Ed, Winry e Elicia.
- Faz tempo, Al. Como foi a viagem? – O rapaz perguntou.
- May mandou lembranças. – Alphonse sorrira meigamente. Ele deixara a mala no chão e estendera os braços para pegar a pequena Mille. – Nossa, eles cresceram!
- E viraram uns demônios. – Ed murmurou descontente. – Se eu ainda tivesse Alquimia...
Alphonse rira da declaração do irmão, ambos se calaram ao ouvir um grito estridente vindo da casa de Edward. O irmão mais novo se voltara para Ed com surpresa.
- O que foi isso?!
Os filhos de Ed se agarraram nas pernas do pai com medo, porém o Fullmetal não parecia exaltado com o ocorrido.
- Winry está colocando a automail na Elicia. – Ele se limitou a dizer.
- Ah.
Alphonse fechou os olhos, tentando imaginar a dor que a menina deveria estar sentindo. Ele se lembrava do que Ed uma vez mencionara, a dor era tão forte que podia fazer qualquer pessoa comum desmaiar, a sensação dos nervos ao se conectar com a automail era terrível.
No interior da casa, na oficina de Winry, Elicia estava sentada em uma poltrona com os olhos vermelhos e marejados de lágrimas. Ela estava respirando de maneira pesada e suava muito, tinha os olhos fixos no chão para não ter de ver a automail. Tentava controlar mentalmente os batimentos do coração, não podia perder o controle.
- Tem certeza? – Winry olhava preocupada. A mecânica estava com o cabelo preso em um rabo de cavalo, vestia um grande macacão cinza. Ela segurava a automail metálica entre as mãos.
- ... Tenho. Vamos lá. – Elicia fechara os olhos.
Winry ajustara o objeto e novamente tentara conectar no ombro de Elicia. A menina soltara um berro em alto tom que ecoara por toda a casa, os eletrodos começavam a ser conectados e os fios eram colocados por Winry, a mecânica fazia rapidamente o serviço, enquanto Elicia rugia de dor.
A garota se debatia, mas tentava manter o ombro esquerdo imóvel até Winry terminar o serviço. Quando sentiu o braço mecânico se conectar por inteiro, a garota soltou um último grito desesperado e tombou para o lado, quase perdendo a consciência.
- Pronto! – Winry dissera rapidamente, ela esfregara o rosto, eliminando o suor. – Terminei!
Elicia respirava apressadamente e sorriu para Winry pelo fim do serviço. Ela sentiu a automail como se fosse seu próprio braço, mas o objeto era muito mais pesado e parecia ranger conforme mexia os dedos mecânicos.
- Ela é pesada. – Winry continuou. – Por isso vai precisar de tempo para se adaptar.
A menina assentiu com a cabeça e testou o implante com curiosidade; mexia os dedos, fechava a mão e tentava dobrar braço. Não sentia calor e nem dor da automail, pelo menos não teria problemas se a quebrasse.
Edward e Alphonse adentraram a oficina e sorriram aliviados ao ver Elicia sentada com a automail no braço, ainda havia sangue em volta do ombro por conta da instalação, mas nada muito grave.
- Pronta para testar? – Ed arregaçava as mangas da camisa.
- Com certeza!
Ao sair da casa, Elicia era amparada por Alphonse, conseguiu descer as escadas e ficar com os pés descalços no grande gramado que rodeava a casa dos Elric. Alphonse soltou a menina e ela conseguiu permanecer de pé.
- É bem pesada, parece até uma pedra. – Elicia murmurou.
- No começo vai ser assim, vamos trabalhar sua adaptação e então prosseguiremos com os treinos. – Ed disse satisfeito. – Consegue correr?
Elicia acenou com a cabeça e fez menção de correr, ao primeiro passo sentiu a perna perder o equilibro e o braço pesar, enfiou a cara na grama como uma fruta caindo do pé de madura. Ed e Al viraram a cara para não rir do ocorrido.
- PFF-! – Ed engoliu o riso.
- E-E-Eu vou conseguir! – A garota fizera uma careta quando ergueu o rosto e ao tentar levantar novamente, afundou no chão.
Levou mais um mês até que Elicia pudesse andar e correr normalmente com a automail no braço. Foi então que eu e Ed decidimos começar a treiná-la fisicamente, o que não esperávamos era que sua condição fosse tão limitada. A Transmutação Humana afetou internamente seu corpo, seu coração não agüentava exercícios extensos e pudemos presenciar isso da pior maneira.
- Qual é, estamos apenas começando! – Ed estava com as mangas arregaçadas e a calça estava suja com o barro, chovia forte naquele dia. O Fullmetal usava uma calça preta e camisa branca, estava em posição de luta, com o corpo completamente encharcado.
Elicia usava uma blusa simples de tom preto e shorts abaixo do joelho de mesma cor, usava uma bota com biqueira de aço para se acostumar com o calçado padrão do Exército. A menina estava caída de quatro, ofegando fortemente e com os olhos arregalados.
Ela estava sem movimento e parecia ter perdido a voz, respirava desesperadamente quando começou a sentir dores terríveis no peito; eram dores que pareciam paralisar cada extensão de seu corpo, seu peito parecia pulsar com mais força e Elicia percebia que ele poderia saltar do corpo a qualquer momento. A cada pulsação, o coração parecia querer explodir, a garota vacilou ao tentar se erguer e soltou um gemido de dor ao perceber que o coração dera uma batida violenta e dolorosa.
- ELICIA! – Edward correra até ela. – Está tudo bem?!
A dor oscilava entre momentos toleráveis e quase mortais, ela parecia perder respiração quando tentava se mover mais do que meio centímetro, seus músculos enrijeceram ao menor toque de Edward.
- Ah... me... cor... est... ndo... – Ela tombara no gramado molhado, sem qualquer chance de se mover.
Edward a pegara nos braços e carregara apressadamente para dentro da casa. Winry se assustara ao ver a menina ofegante e paralisada.
- Ligue para o Médico! – Edward correra para o quarto e pousara a menina na cama.
Não demorou a chegada de um clínico geral de Reseembool que não parecia ter notícias boas. Ele demorara algumas horas no quarto de Elicia e saíra com uma maleta carregada de remédios.
- O coração dela sobrecarregou, dei um coquetel de medicamente e apliquei algumas injeções. Vou deixar prescrita a medicação que deverá ser tomada todos os dias... O que vocês estavam fazendo? – Ele indagou.
- Exercícios físicos apenas. – Ed respondeu sinceramente.
- Bom, pelo visto, esse tipo de exercício não é permitido. Ela precisará de umas duas semanas de repouso absoluto, do contrário, o Marca-Passo não suportará outra descarga de... Exercícios. – complementou.
Ficou estabelecido que Elicia não poderia tolerar mais do que 30 minutos de atividade física extrema, seu corpo simplesmente não agüentaria uma luta viciosa por muito tempo. Fizemos o possível para que resistisse às crises ocorridas pelo excesso de tempo, mas o resultado era sempre o mesmo. Após os 30 minutos, seu corpo simplesmente paralisava e seu coração perdia o compasso.
- Temos 6 meses para o Exame. – Alphonse dizia. – Acho que em 30 minutos você consegue apresentar algo, não é?
- Será fácil. – Elicia sorriu. A menina estava recuperada e determinada.
- Ótimo. Vamos à prática de Alquimia. – Alphonse estalara os dedos para horror de Elicia.
No dia do Exame, Elicia fora uma das primeiras a entrar no teste de aptidão física e de Alquimia. Nocauteou com facilidade um pelotão de 30 homens utilizando as habilidades físicas que aprendera comigo e o Ed. Lembro que Elicia mencionou que Roy estava entre os avaliadores do Exame e pareceu surpreso com o desempenho de Elicia Hughes e a aprovação foi unânime.
Elicia foi aprovada para o Exército como Alquimista Federal aos 16 anos, sob o titulo de Alquimista da Morte – um título pesado para alguém que gosta de brincar com a vida dos outros, segundo a comissão. Ela recebeu seu uniforme, contudo decidiu não usá-lo de maneira convencional, pois disse que queria honrar Edward e a mim, usando algo que nos lembrava.
- Eu não queria ir embora. – Elicia fazia um bico de tristeza.
Ed e Al se entreolharam e sorriram. Estavam diante da casa de Ed, esperando o transporte do Governo que iria levar Elicia para um campo de treinamento, aonde receberia as devidas instruções para seu cargo.
- Hei, não é como se estivesse indo para o abate. Você poderá voltar sempre que quiser. – Ed disse animado. – Ser uma Alquimista Federal lhe dará grande liberdade e um salário bom!
Elicia não parecia contente. Ela olhava para sua automail com grande desgosto, não conseguia se esquecer da falha que cometera.
- Eu sou uma Alquimista Federal, mas sinto que não fiz o bastante ainda, tio Ed. Roy Mustang não olha em minha cara e minha mãe ainda está depressiva por causa do meu pai, sinto que sou a vergonha em pessoa.
- Veja bem. – Alphonse interveio. – Ed entrou no Exército para achar uma maneira de reaver meu corpo e os membros dele, porque você não estabelece uma meta assim?
- Reaver meu braço? – Elicia indagou.
- Ou a saúde do coração. Uma boa jornada não lhe faria mal. – Ed complementou sorridente. – Você só não pode se esquecer do que te levou até aqui, transforme isso no combustível que te manterá firme.
Elicia acenou com a cabeça. Ela se lembrou que podia ver pessoas que já haviam falecido, talvez se conseguisse se esforçar nessa busca, ela conseguiria uma maneira de deixar de ver esse tipo de coisa ou talvez uma maneira de ajudar esses espíritos. De um jeito ou de outro, ela não falaria desse objetivo para os irmãos Elric.
- Mas lembre-se que você se alistou no Exército por outros motivos, nunca se esqueça deles. – Edward dissera seriamente.
- Sim. Honrar a memória de meu pai. – Ela confirmou.
- E não se esqueça de nos visitar, a Winry vai querer fazer a manutenção sempre. – Al sorrira.
Elicia lhes dera as costas e começara a abaixar lentamente o zíper de seu colete, os irmãos se assustaram com a atitude, mas perceberam que em suas costas havia uma grande tatuagem com o mesmo formato do desenho que Ed usava nas costas, a cruz envolta de uma cobra com asas e um coroa acima. Era o símbolo dos alquimistas gravado em suas costas com uma data dentro da coroa: 15.03. Era o dia em que havia feito a Transmutação Humana.
- Um lembrete, hm? – Alphonse parecia surpreso.
- Eu quero lembrar sempre do que fiz e isso jamais irá sumir. – Elicia sorriu. – Mas acho que meu pai me mataria por isso.
- Eu ainda preferia o relógio de prata do governo. – Al parecia sem graça.
- Você está fazendo as coisas do seu jeito, não tem porque ninguém reclamar. – Ed concluiu.
Elicia partiu nesse dia e decidiu morar na Cidade Central com a mãe, porém o Roy nunca mais a visitou, deixando toda a responsabilidade por sua criação comigo e com a Gracia.
- Cara, mas quebrar um tabu? – Havoc parecia surpreso. – Nunca... Não... Sendo filha daquele cara...
- Eles eram muito próximos. – Maria Ross comentou. – Mas quanto tempo faz que não a vemos? Nem sabia que havia passado no exame!
Alphonse sorriu.
- Já devem ter ouvido falar da Alquimista da Morte, não? É ela. – O jovem pegara sua mala e fizera menção de sair. – Bom, preciso ir, há algo que tenho de fazer antes de voltar a Reseembool.
Havoc se ergueu e o acompanhou até a porta do bar.
- Alphonse, eu realmente não sabia. – O 1° Tenente dissera de maneira pesada. – Mas, para onde vai mesmo?
- Para o lugar aonde a Elicia foi. – Alphonse sorrira tristemente. – Já passou da meia-noite, né?
- Ahn, sim. – Havoc olhara para o relógio de pulso distraidamente. – São 4 da manhã.
- Hoje é o aniversário de morte do senhor Hughes. – Alphonse terminou com simplicidade.
E em algum lugar, Havoc podia imaginar que Elicia estivesse chorando. Porém, ele não tinha ideia de que na frente do túmulo de Hughes, uma pessoa já o visitava com flores e lágrimas.
- Papai, eu finalmente vim. – Elicia chorava ao se ajoelhar. Seu rosto tocou a placa com o nome do pai e sua voz oscilou. – E-Eu sinto muito pela demora.
Nem mesmo a Alquimia poderia acabar com essa tristeza. A Morte é plena e final, não há como mudá-la. Elicia precisou aprender da pior maneira, pagando com sua própria saúde e sanidade; quanto mais ela iria perder até finalmente encontrar o que buscava?
Paz.
