Elicia cuspia muito sangue, não conseguia sequer erguer a cabeça para encarar a figura. Sentia-se fraca e o corpo não parecia se manter, seu coração palpitava de maneira insana e o local aonde ficava o braço esquerdo, jorrava sangue.

Naquele lugar, o infinito parecia pouco. O branco tomando toda a paisagem e a Verdade sorrindo diante dela, com o braço que pertencia a Elicia agora em seu corpo. A menina de 15 anos podia ver o pulsar do coração no corpo da Verdade, era vermelho e vivo; ela tentou se erguer e ao conseguir manter a cabeça frente a frente com a figura, vomitou novamente sangue.

- Poucas pessoas conseguem sobreviver ao ricochete. – A figura sorrira. – Quem sabe você não consegue e acaba por se dar bem, hm?

- Ah... hm... o que? – Elicia murmurou ainda cabisbaixa. Não conseguia se concentrar, a mente ainda estava cheia de lembranças do que vira, o cérebro queimava com as informações obtidas de maneira forçada.

- Você que tanto quis trazer os mortos de volta à vida, deveria saber que existe uma maneira. Uma Alquimia que pode mantê-los no plano vivo. – A Verdade dava risada em tom de deboche. – Mas cada coisa tem seu preço.

- Preço... ?

- Vocês são tão cegos quanto ao mundo vivo. Sacrificam suas vidas por coisas ínfimas e quando chegam aqui, acabam esquecendo tudo o que viram. Mas se sobreviver – o sorriso sumira – espero que não pratique esse tipo de coisa. A Alquimia da Morte.

- Alqu... da... Morte? – Elicia soltara outra bola de sangue da boca, tentava respirar, mas ficava complicado a cada momento.

- A habilidade de estar aqui e lá. – A Verdade respondera com simplicidade. – Poder ver, tocar e criar.

Nessa jornada sem fim sempre que estamos prestes a chegar a uma parada.

Nós dois suspiramos profundamente.

Embora tentássemos segurar, acabou indo para longe novamente.

Mas agora nós não vamos esquecer nunca mais.

Capítulo 5

Alquimia da Morte

Elicia não conseguia acreditar, aquele pequeno ponto no centro do peito de Lust estava reluzindo com a cor da Pedra Filosofal. A pedra parecia estar dentro do corpo da mulher e lhe fornecia energia, provavelmente o que a fizera sair do plano dos mortos e se materializar na praça da Cidade Central.

A questão era quem podia ter feito essa Alquimia? Não podia ser a própria Lust, já que esta deveria estar morta, alguém provavelmente deveria ter feito a Transmutação.

- Ah... – Elicia abaixou a cabeça, ela sentira o sangue do corte em seu rosto escorrer face abaixo.

Foi então que uma idéia lhe ocorrera, se retirasse a pedra de dentro do corpo da mulher, provavelmente conseguiria pará-la. O que acabaria matando-a no processo.

- Havoc! – Elicia se voltara para o Primeiro Tenente. – Me ajude!

- Ahn? – O homem olhara confuso, mas em questão de segundos parecia ter percebido o plano. – Entendido!

Lust acertara novamente Elicia que fora lançada para longe, seu corpo havia sido projetado para fora do beco em que estavam; Havoc conseguira agarrar o braço metálico da Alquimista e como se a mesma fosse um bumerangue, lançara de volta na direção de Lust.

O Homúnculo parecia surpreso e partira para o ataque, porém algo a imobilizara. Lust perdeu a expressão ao ver que não conseguia se mover.

- Mas o que?! – Ela exclamara surpresa.

Lust permanecera na posição do ataque, com o braço curvado para frente e a coluna inclinada na direção da Alquimista. Elicia conseguira ser lançada em sua direção e com um golpe rápido, porém violento, cravou seu braço de aço no peito do Homúnculo.

Lust soltara uma exclamação de surpresa assim que o buraco surgira em seu peito, mas não parecia sentir dor. Elicia notou que ao enterrar o braço no peito da mulher, sua automail parecia tremer. Ela começara a zumbir em tom alto conforme aprofundava o braço no peito.

- Elicia! – Havoc exclamou.

A Alquimista sentira a pedra em suas mãos e num movimento rápido a esmagou por entre os dedos da automail. Lust soltara um grito e começara a se desfazer em cinzas negras, o braço de Elicia começara a se despedaçar e por fim se destruiu por completo lançando a Alquimista para longe.

Elicia arregalara os olhos ao ver que toda sua automail se destruíra em pedaços minúsculos quando entrara em contato com a Pedra Filosofal, era como se a automail houvesse quebrado de dentro para fora, explodindo e lançando todos os pedaços para os lados. A Alquimista da Morte ainda olhava abismada, enquanto era jogada pelo ar, a figura de Lust se desintegrar e dar lugar a uma mulher comum. A mulher ainda estava com o buraco que fora criado com a automail de Elicia, porém agora começara a sair sangue e a estranha gritava de dor.

- Ah, Elici... – Alphonse tentou se erguer, mas ainda estava zonzo com o golpe que levara.

Havoc correra e abrira os braços, conseguindo pegar Elicia que o atingira com violência. Ambos caíram para trás com o soldado a segurando firmemente entre os braços.

- Você está bem? – Havoc perguntara ofegante.

- Ah, sim, mas... – Elicia olhara para o ombro completamente exposto, a automail do braço esquerdo havia sido destruída e no lugar restara apenas parte do ombro que estava com a entrada para o aparelho; para sua sorte, não teria que passar por todo o processo de instalação e sentir a dor horrenda.

Alphonse surgira andando de maneira cambaleante, os olhos ainda semicerrados por causa da dor da pancada. Sua expressão passou para surpresa quando viu a mulher que surgira no lugar de Lust cair, já sem vida no chão. Armstrong também se levantava, ainda com a cabeça inchada pela batida violenta.

Elicia ergueu a cabeça, ela ainda estava nos braços de Havoc; a garota entrara em pânico ao ver que matara uma pessoa comum; tentou se levantar, mas sentira algo.

Bem no fundo, ela sabia o que era isso. Aquela pulsação pequena que em poucos segundos se tornava constante.

Badump.

Seus olhos pareciam ter paralisado, o rosto havia perdido a cor e o corpo não respondia mais aos comandos.

Oh, não.

- Vocês estão bem!? – Edward Elric chegava correndo. Ele deslizara ao entrar no beco e se aproximara ofegante. – O que a Lust estava fazendo aqui? Não havia sido destruída?

- Roy a queimou. – Havoc confirmou. – Não sei te dizer como, mas ela estava de volta. A Elicia enfiou o braço dentro do corpo daquele Homúnculo e simplesmente essa mulher apareceu no lugar, morta.

Elicia não conseguia mais ouvir direito a conversa. Ela agradecia mentalmente por Havoc a estar segurando, do contrário teria desmaiado na frente de todos.

Seus olhos pareciam ficar pesados e a respiração mais rápida, ela estava tendo novamente problemas com o coração; teria Elicia errado o tempo e ficado na ativa por mais de 30 minutos?

Badump.

- Eu corri em volta para ver se encontrava algo ou alguém que estivesse por trás disso. – Edward comentara, ainda estava cansado do exercício que fizera. – Encontrei um círculo de transmutação não muito longe daqui, funciona da mesma maneira que o Retanjutsu do povo de Xing. Parece que isso pode ter haver com o súbito retorno de Lust.

- Eu esmaguei uma Pedra Filosofal... No peito dessa mulher. – Elicia, ainda nos braços de Havoc, dissera com dificuldades. – Essa Pedra a mantinha ligada a esse mundo.

Ed, Al, Havoc e Armstrong se entreolharam.

- Como? Não vi nada demais nela. – Alphonse parecia cauteloso com as palavras. – Havia alguma Pedra Filosofal na Lust?

Elicia fechou os olhos, estava ciente que Ed e Al não conheciam suas habilidades adquiridas após o encontro com a Verdade. Ela sabia que iria demorar a convencer duas pessoas tão céticas, fazer com que aceitassem a realidade.

Ela fez um gesto para Havoc e o mesmo a colocou no chão, suas pernas ainda fracas cambalearam quando tentaram sustentar seu corpo. Elicia olhou em volta e soltou um suspiro, estava na hora de contar a verdade.

- É uma longa história. – A Alquimista Federal começou. Sentiu que o corpo não agüentaria o cansaço. – Será que posso descansar um pouco?

Foi então que todos notaram o cansaço evidente da jovem. Havoc olhara em volta e acenara para alguns soldados que surgiam por entre os destroços das paredes perto do beco, alguns paramédicos surgiam logo atrás com equipamentos para primeiros socorros.

- Desculpe-me por ter que abandonar vocês, mas preciso verificar as condições lá na praça. - Armstrong se despedira. E correra atrás de outros soldados do Exército.

Elicia acenara e antes que pudesse perceber, acabara desmaiando.

- O-O-Oi! – Havoc exclamara surpreso.

- Passou dos 30 minutos? – Ed perguntara preocupado.

- Acho que não. – Alphonse respondera depressa. – Deve ser apenas o desgaste físico por causa dos ferimentos ou o choque de ter arrebentado a Automail.

Havoc segurara Elicia pelo ombro direito, ele a pegara nos braços novamente e encarara os irmãos Elric com preocupação.

- Montamos uma unidade de emergência a poucas quadras daqui, vou levá-la. – Ele dissera com firmeza.

Ed assentiu com a cabeça.

- Eu vou com você, acho que ainda tenho a lista dos remédios da Elicia comigo. – Alphonse dissera apressadamente e partira para acompanhar o militar.

Quando se afastaram, Ed se voltou para o corpo da mulher desconhecida. O corpo que servira de hospedeiro para Lust estava caído e com um grande buraco no peito, porém não havia nenhum sinal de haver símbolos desenhados ou resquícios da Pedra Filosofal.

Edward se agachara para admirar o ferimento da desconhecida e procurar algo que lhe desse pistas do ocorrido; alguns soldados surgiam a sua volta para isolar a área.

- Ah, Fullmetal! - Um soldado exclamara batendo continência de maneira apressada.

- Ei, não precisa disso. – Ed balançou a mão, dispensando o título. – Não sou mais do exército.

- Ah...

Ed olhara para as próprias mãos, ele as contraíra num momento de frustração e se ergueu sem dizer uma palavra. Seus olhos estavam avermelhados e o suor ainda estava impregnado nas roupas finas e claras.

Ah, se eu ainda tivesse a capacidade de praticar a Alquimia. – seu olhar parecia nostálgico, até mesmo triste.

Sem desviar meus olhos da realidade

Conseguirei a coragem para encarar isso

Transformando tristeza e raiva em força

O destino está ao meu lado

- A situação está controlada? – Roy questionava impaciente.

- Sim, acabamos de voltar do local. – Falman batera continência.

Roy assentira com a cabeça e fizera um gesto com as mãos para que todos começassem a se movimentar em volta das carruagens. Os soldados reunidos na praça começaram a rodear a comitiva real de Creta e posicionaram suas armas em modo de descanso, estavam preparados para outro incidente.

A porta da primeira carruagem se abrira e Roy correra para saudar a Imperatriz. Uma jovem de aparentes 18 anos surgira de dentro, sendo guiada pela mão direita do Führer, ela descera elegantemente da escada da carruagem.

A imperatriz tinha os cabelos negros presos em um belo coque, este possuía jóias presas no contorno do coque que soltavam longas faixas avermelhadas até o chão. Havia um galho singelo de flor de cerejeira mantendo seu coque preso, com a flor rosada aparecendo do lado direito da cabeça. Uma franja delicada sob a parte esquerda de seu rosto, impedindo de se ver o olho, que era verde em tom esmeralda.

Usava um quimono em tom off-white, em seu ombro esquerdo havia o desenho dos galhos de um cerejeira e pequenas flores rosadas em todo o comprimento. O obi era em tom vermelho com um laço elegante atrás, este era totalmente detalhada com flores amarelas e em linhas brancas. O quimono tinha longas mangas que impossibilitavam de ver as mãos da Imperatriz, assim como parte de seus pés que calçavam uma sandália de madeira.

A pele alva brilhara quando o sol batera em seu rosto, os lábios avermelhados contrastavam com a pureza da face, os olhos esmeraldas se fixaram no Führer. O corpo era pequeno, não passando de 1,60 de altura; as mãos eram finas e delicadas assim como o restante do corpo.

- Me desculpe pela confusão, Führer-san. – Ela dera um pequeno sorriso.

Seu olho estava delineado com um tom preto, era semicerrado e pequeno. Talvez fosse apropriada por ter um rosto fino e pequeno, lábios não muito volumosos, porém chamativos com o batom avermelhado. Até mesmo Roy se surpreendeu com a aparência da governante do país de Creta.

- Sou eu quem pede desculpas, Imperatriz. Alguém ficou ferido? – Roy lançara todo o charme que podia.

- Não. – Ela sorrira enquanto abaixava a cabeça. – Sua proteção foi bem-vinda.

Roy lhe estendeu a mão, a Imperatriz a pegara com delicadeza e caminhara ao lado do Führer. A jovem parecia encantada com a cidade e as pessoas que lhe encaravam com surpresa, ela sorrira para a população que retribuía com gritos.

De fato, a Imperatriz era encantadora e possuía um carisma que atraía qualquer um. Roy olhou-a, avaliando seus passos e até sua postura; precisava tomar cuidado para não se deixar levar pela beleza delicada da moça.

- Imagino que tenha acontecido algo grave, minha senhorita. – Roy fizera um gesto e soldados abriram caminho par que caminhassem tranquilamente até a residência do Führer, que não ficava longe dali. – O que a traz aqui, em Amestris?

A Imperatriz se voltou para ele com tranqüilidade.

- Creio que o senhor sabe. – A língua era afiada nas respostas. – Estamos em uma época delicada, nossos países não estão exatamente em um momento muito amigável. Meus sacerdotes acreditam que chegou a hora de selarmos uma aliança, não?

- Ah, sim, de fato. – Roy concordou com um sorriso gentil. – A sua comitiva ficará bem acomodada na região central, espero que fique hospedada em minha residência para discutirmos mais sobre esse assunto.

Ela acenou com a cabeça e o grupo acabou de afastando. Não muito longe, Riza admirava o grupo se movendo com uma expressão melancólica. Seu olhar seguia a figura de Roy até que desaparecesse completamente de vista.

- Então estamos com ciúme? – Um oficial do governo surgira por detrás de Riza.

- Eh? – Riza se voltara de supetão para a colega. Uma mulher de 30 e poucos anos, cabelos castanhos e lisos que estavam caídos sob os ombros. – Lisandra!

Lisandra, uma oficial do Exército, sorrira alegremente para Riza. Com a posição de Primeiro Tenente, ela era uma das poucas amizades que a assistente de Roy havia feito. Uma jovem relativamente forte, com alguns quilos a mais, cabelos sedosos e em tom castanho, além de olhos expressivos de mesma cor. A mulher usava um uniforme azul do exército, assim como Riza.

A diferença era que a – agora Coronel – Riza Hawkeye estava com os cabelos novamente longos e presos em um coque simples, dificilmente os oficiais do alto escalão viam a assistente de Roy com os cabelos soltos.

- Claro que não. – Riza respondera de maneira aborrecida. – Tal sentimento é dispensável.

- Mesmo depois de tantos anos juntos? – Lisandra sorria para a amiga.

- Mesmo depois. – Riza confirmou ao fechar os olhos. – O Führer não tem tempo para perder com uma pessoa qualquer. E mesmo que tivesse, provavelmente não seria comigo. – O final da frase soou de maneira melancólica, como ela estivesse tentando se consolar.

- Não se pode pensar assim. – Lisandra passou a mão no ombro de Riza.

- Bom, ao menos ele tem olhos para alguma mulher. – Riza parecia se divertir. – Não tirou os olhos da menina do Maes Hughes por um minuto.

- Ah, Elicia. – Lisandra murmurou.

Lisandra e Riza se entreolharam e contiveram o sorriso. Ambas prosseguiram com suas atividades sem mais delongas.

Um calor cheio de amor invade meu corpo

Memórias que nunca desaparecem

Elicia abrira os olhos assustada. Erguera-se da cama rapidamente e olhou em volta, estava em uma barraca branca grande com vários médicos circulando pelo local. Alphonse e Edward conversavam ao fundo, próximos da saída do local, pareciam preocupados com algo. A Alquimista voltou-se para o lado oposto, o direito, e viu Havoc discutindo calmamente com alguns médicos sobre suprimentos.

Ela sorriu ao ver que não havia muitos feridos com o incidente, notou que continuava sem automail no lado esquerdo do corpo; Elicia tentou não pensar muito na vergonha de andar por aí sem uma parte do corpo.

- Oh, já acordou jovem Hughes? – Havoc se aproximara da menina, ele cruzara os braços e sorrira. – Quem diria, a dona daquele chute violento recebendo um nocaute?

- Ah. – Elicia se divertira. – Foi sorte aquele chute.

- Realmente. – Havoc massageava o queixo em tom de zombaria. – Bom, sente-se melhor? O médico aplicou uns medicamentos que estavam em uma lista do Alphonse Elric.

- Ah. Eu sinto. – Elicia parecia ter perdido o sorriso. – São muitos remédios, né?

- Já vi pessoas mais novas tomarem muito mais. – Havoc a tranqüilizou.

- Oh! – Ed se voltara para a direção dos dois.

Ed e Alphonse se aproximaram rapidamente e procuraram bancos para se sentarem, Havoc permanecia de pé como que se estivesse protegendo a Alquimista Federal.

- Bom, acho que está na hora de você falar, não? – Ed cruzara a perna e olhara atentamente para a aprendiz.

Elicia assentiu com a cabeça. Ela se sentara de maneira mais apropriada, jogara os longos cabelos para trás e começara a falar.

- No dia em que recebi o rebound, o efeito sobre a Transmutação Humana... fui para um lugar branco, aquele que você foi um dia. – Ela dissera em tom baixo, parecia estar revivendo as lembranças horrendas do dia. – A Verdade me mostrou muitas imagens, muitas informações... E disse que por causa do que eu fiz, eu iria receber uma habilidade que poucos tinham.

- A de Transmutar sem o círculo? – Al indagou.

- Também. – Elicia concordou, ela estendera sua única mão e a encarara com tristeza. – Mas subitamente, consegui ver pessoas que já morreram. Vejo seus espíritos, mas não os toco. Posso conversar, porém nunca consigo saber de onde vêm. É uma habilidade que me ajudou em inúmeras ocasiões. Porém é horrenda...

Edward olhava para a aprendiz sem expressar os sentimentos, ele parecia sério e cético quanto a isso.

- Você está dizendo que pode ver espíritos? – Ele murmurou, levara a mão ao queixo e parecia pensativo.

- Sim. – Elicia o encarava como se pedisse desculpas, abria um sorriso pequeno e tímido. – Eu nunca contei, porque não sabia qual seria a reação de vocês.

- Por que não disse antes? – Ed retrucou. Ele parecia irritado. – Poderíamos ter achado um jeito de trabalhar com isso!

Elicia arregalara os olhos, incrédula com a fala do Fullmetal.

- V-Você não está bravo? – Ela parecia surpresa.

- Por que deveria? Essa habilidade foi nossa salvação hoje e se você consegue ajudar pessoas, espíritos a encontrar seus caminhos, por que eu deveria achar ruim? – Ed coçara a cabeça. – Ahhh, mas isso é confuso demais! Esses espíritos estão cientes de sua presença?

- Sim. – O rosto de Elicia ganhou uma expressão pesarosa. – Acho que esta habilidade foi mais uma maldição do que dom, uma forma que a Verdade achou de me punir por ter tentado superar Deus. Heh.

Havoc olhava com preocupação para a jovem Elicia. A impressão que possuía, era que a Alquimista parecia ficar mais velha a cada vez que falava de suas habilidades, um fardo tão grande que a destruía internamente e que acabava exigindo demais da mentalidade de uma mera criança.

Criança, huh. – Havoc pensou. – Pelo visto, as pessoas envolvidas com os Elric nunca tinham preocupações normais.

- Você ao menos viu seu pai? – Alphonse perguntara gentilmente.

- Não. - Elicia abrira um largo sorriso. – Ele não deve querer me ver... Provavelmente... – A garota engolira seco, tentando esconder o choro que queria surgir.

Ed e Alphonse se entreolharam, pareciam culpados pelo assunto ter vindo à tona.

- Tio Ed, tio Al, vocês se lembram da frase que me disseram há dois anos? – Elicia indagou.

Você só não pode se esquecer do que te levou até aqui, transforme isso no combustível que te manterá firme.

Edward acenara com a cabeça, assim como Al parecia estar escutando. Elicia parecia sorrir, mas era um sorriso melancólico, como se estivesse prestes a chorar; ela parecia decidida, pois segurava com firmeza o lençol que cobria parte de seu corpo.

- Vocês me disseram para não esquecer, me disseram para achar algo pelo qual eu quero lutar. – Seus olhos encararam Edward com firmeza. – Eu já sei o que eu quero.

- É mesmo? – Ed sorrira. O Fullmetal parecia orgulhoso com a menina. – E o que é?

- Quero ter paz. – Ela respondera com simplicidade. – Vou buscar uma maneira de deixar de ver estas coisas, quero ter uma vida comum.

Ed e Alphonse abriram um sorriso com sinceridade para Elicia. Ed estendera o polegar e concordara com a Alquimista.

- O mínimo que podemos fazer, é ajudar você a atingir este objetivo. – Alphonse dissera animadamente. – Está pronta para buscar isso?

- Sim! – Elicia respondera energeticamente.

- Eh, pelo visto eu não tenho escolha. Estou te devendo desculpas. – Havoc descruzara os braços e sorrira para o grupo. – Eu vou com vocês atrás dessa cura.

Elicia piscara os olhos, sem entender o motivo pelo qual Havoc tinha de acompanhá-los. Ela não entendia por qual razão, uma pessoa que a odiara em primeira instância estava tão disposta a lhe ajudar, mas Elicia não podia ser orgulhosa.

- Heh, será que o idoso agüenta nos acompanhar? – Ed olhava torto para o homem.

- O que quis dizer com isso? – Havoc retrucou. – Na época em que você estava pra lá e pra cá atrás da sua cura, eu ajudei muito mais do que imagina.

- Ah, sim, com certeza. – Edward dera de ombros.

- Muito engraçado. – Havoc parecia irritado.

- Toda ajuda será bem-vinda, isto é, se você realmente desejar. – Elicia sorria calmamente. – Mas ainda não tenho muita idéia por onde irei começar.

- Comecemos do início. A Transmutação e os resultados dela. – Alphonse observou. – Temos um plano?

O trio concordou. A jovem Elicia parecia verdadeiramente feliz, nunca havia andado em um grupo de pessoas tão grande como agora. Tinha amizade com os Elric, Havoc e até mesmo Armstrong.

- Vai ser interessante. – Edward parecia satisfeito.

Sem desviar meus olhos da realidade

Conseguirei a coragem para encarar isso

Transformando tristeza e raiva em força

O destino está ao meu lado

HORAS ANTES

Roy olhava de maneira tensa a Havoc. O Primeiro Tenente adentrara a sala de reuniões e estranhara a reação do Führer.

Roy estava sentado ao fundo da sala, com as pernas cruzadas e semblante preocupado.

- O que aconteceu para me chamar de súbito? – Havoc coçava a cabeça, estava inquieto.

- Estive pensando... – Roy murmurou, o Führer ficara cabisbaixo e respirara fundo. – Você é a única pessoa com quem posso sanar tal dúvida.

Havoc caminhara cautelosamente pela sala branca e procurara uma cadeira para se sentar. Não era um local grande, quadrado e com uma única mesa retangular em tom marfim; Havoc procurara a primeira cadeira e sentara rapidamente.

- Depois de tantos anos, acho que mereço ser uma fonte de confiança. Quase fiquei sem mover as pernas para o resto da vida! – Havoc ria do próprio infortúnio de anos atrás.

Roy retirara algo do bolso, uma pequena caixinha quadrada e avermelhada, ele a colocara em cima da mesa com as mãos ainda trêmulas. Havoc analisou o objeto com curiosidade, não conseguia ter noção do que seria aquilo.

Uma nova arma para a guerra contra Dracma? Ishval? Ele nunca conseguia adivinhar o que o Führer estava pensando.

- A chegada da Imperatriz me fez lembrar algo que havia esquecido, ou melhor, que resolvi esquecer. Meus assessores vieram me aconselhar sobre um pequeno problema a ser resolvido. – Havia ironia em sua voz. – Eles acham que um Führer deve ser o exemplo da nação, um homem de família e acolhedor.

Havoc desatou a rir, esquecendo-se que estava diante do chefe maior. Porém Roy não fez menção de se irritar com a reação, apenas admirou o amigo soltar uma deliciosa e sincera risada.

- Você certamente é um cara familiar! – Ele se divertia.

- O fato é: Decidi acabar com essa espera, vou me casar. – O Führer mostrara a caixinha, ao abri-la revelara uma aliança dourada com um único diamante na ponta; era uma aliança elegante e de gosto singelo, até mesmo Havoc olhara admirado. – Mas gostaria de saber o que acha.

Havoc olhara feliz para o amigo e assentira a cabeça.

- É para a Riza, não? Eu acho que já estava mais do que na hora. Você demorou bastante. – O Primeiro Tenente soltou a fala sem rodeios. Ele fechara os olhos e abaixara a cabeça sutilmente. – Como eu queria ver a reação dela.

Roy parecia feliz.

- Ah, como eu queria estar em seu lugar! – Havoc abrira um sorriso. – Uma mulher bonita, um cargo bom e uma vida tranqüila.

- A sua definição de mulher bonita é o que eu mais temo, Jean. – Roy dissera seriamente. – É por este e outros motivos que estou preocupado com o que preciso lhe pedir.

- Hm? Pode falar.

- Eu estou em uma posição complicada para agir livremente. Eu sempre almejei o topo e agora preciso me manter nele a todo custo, fiz essa promessa e a manterei. Contudo, por causa desta posição não posso proteger qualquer pessoa de maneira livre.

Havoc perdera o sorriso, ele tinha quase certeza que Roy se referia à pequena Elicia. O Tenente ainda se lembrava de Al contando a história e como Roy acabou abdicando da responsabilidade pela menina, talvez houvesse mais coisa do que o sabido.

- Eu sei que você reencontrou com Elicia Hughes e Alphonse Elric, pense que talvez pudesse me ajudar.

- Ajudar em como? – Havoc parecia surpreso.

- No momento, se eu demonstrar favoritismo a Elicia, estarei assinando o fim de sua carreira no Exército. Não posso simplesmente estender minha mão e protegê-la. Posso estar parecendo frio demais, mas é para o bem dela. – Roy lamentou-se. – Mas você sabe, Jean, que na minha posição não posso simpatizar com uma praticante de Transmutação proibida.

Havoc assentiu com a cabeça, estava com pena da situação.

- E o que sugere, meu Führer? – Ele fora irônico, mas Roy relevara a fala.

- Cuide dela por mim. Você será meus olhos e ouvidos, irá me ajudar a cuidar dessa menina. Eu prometi ao Hughes, prometi que sempre estaria do lado da família dele. – Roy dissera em voz baixa. – Pelo menos até esses problemas com Creta acabarem. Não se preocupe com seu trabalho, irei me certificar que não dêem por sua falta.

Havoc riu.

- Isso mais parece um castigo. É medo por me ver entrar na batalha? – Ele se divertiu. – Ainda se sente culpado pelo problema daquele Homúnculo?

- Heh, eu também fico imaginando se seria isso. – Roy parecia rir da situação. – mas não, este é o pedido de um amigo. Faria isso por mim?

- É o mínimo que posso fazer. – Havoc revirara os olhos e por um segundo, uma estranha idéia passou por sua cabeça. – Até porque, ela é bem bonit—

- Nem pense. – Roy advertiu de maneira ameaçadora.

- Ok, ok. – O Tenente abrira um sorriso.

Além de onde nós olhamos, está o céu.

Um mundo brilhante.

- Ed? – Winry adentrara o quarto escuro, estava com sua filha nos braços já adormecida. Ela parecia surpresa. – O que está fazendo?

Edward estava segurando um casaco velho por entre as mãos, era vermelho e bem gasto; o Fullmetal parecia se lembrar de várias coisas apenas por admirar a vestimenta.

- Winry... – Ed se voltara para a esposa. – Acho que...

- Você vai voltar? – Ela interferiu com simplicidade.

- Hm. – Edward concordara. – Amanhã irei ao Comando Central, vou pedir para reativarem meu registro. O Fullmetal precisa voltar, eu preciso ajudá-la.

Winry se aproximou do marido e encostou sua cabeça nas largas costas de Ed. Ela sorrira de maneira acalorada.

- Você sabe que tem meu apoio, não?

- Dividimos nossas vidas, como na troca equivalente. – Ed sorrira. – Você me perdoa por isso?

- Eu já disse. – Winry murmurou. – Odeio homens que ficam parados em algo por muito tempo.

E Edward dera uma risada alta, acordando sua filha de supetão.

Agora só falta uma pessoa.

Esse ânimo que agita meu corpo,

Não vou traí-lo.

Pelo futuro em que viveremos juntos,

Ficaremos aqui por um período

Com a verdade em nossos dedos.

N/A: Period embalando esse capítulo, parte das frases são da música. A última pessoa do grupo será apresentada no próximo capítulo. Não sei se irão descobrir, mas é um personagem conhecido no universo de FMA.
Não irei investir em personagens originais, apenas nos existentes.