N/A: A ideia neste capítulo era para ser nomeado Purgatory, porém mudei de última hora. Escrevo o capítulo ouvindo Sanctuary~full version~ de Utada Hikaru, acho que essa música traz a tonalidade dos acontecimentos e o ritmo rege o capitulo.

x.x

Para Elicia, a possibilidade de ver seu pai mais uma vez a cegou completamente. Dizem que a Verdade tem um humor negro e possui o costume de nos castigar tirando aquilo que é mais precioso para cada pessoa que resolve transgredir as regras. A ironia está em como esse castigo será aplicado.

Para aqueles que sempre olharam a frente de seu tempo e a frente desta realidade, a Verdade os presenteia com o negro absoluto, o vazio. A cegueira.

Ela já sabia, havia sido ensinada que uma lição sem dor não tem significado, porque não se recebe nada sem dar algo em troca.

Capítulo VIII

FullMetal Alchemist

O buraco surgira no escuro, o céu negro se iluminara levemente com o vórtice que parecia ter surgido de uma explosão. Pedaços de plantas, construções e todo tipo de coisas começavam a sair do buraco e serem cuspidas para o chão.

Estava escuro, não se podia ver a que altura estavam caindo. Elicia, Edward, Selim e Kimblee foram expulsos do vórtice no instante seguinte. Inconscientes, os corpos giravam em espiral até o solo, era como estivessem em câmera lenta, com a cabeça guiando o restante do corpo.

Olhos de tom esmeralda se abriram lentamente, ainda dispersos e sem noção alguma do que acontecia em volta. Elicia recobrava a consciência enquanto seu corpo era lançado ao solo.

A jovem então recobrara completamente a consciência e a pupila dos olhos se dilataram, seu rosto ganhou a expressão de urgência e só então Elicia notou o que ocorria. Ela olhou em volta e viu os cabelos balançando violentamente com o vento, assim como Edward, Selim e Kimblee sem ação. Precisava agir rápido.

- Mas que droga. – A Alquimista olhou em volta, porém na via nada que serviria para amortecer a queda.

Elicia juntara a palma das mãos e fechara os olhos, rezando para que seu plano desse certo. Ela criara um círculo de transmutação em pleno ar, juntando os resquícios das construções que haviam sido expelidas e uma grande parede surgira amortecendo a queda do grupo. Edward e Selim gritaram ao sentir o concreto contra seus corpos, Kimblee abrira os olhos no mesmo instante.

- Onde nós-? – Edward erguera a cabeça, estavam caídos na parede que continuava a deslizar para o solo. – EH?

Selim arregalara os olhos e notara que Elicia sinalizava algo com a boca, ela parecia dizer 'faça alguma coisa'.

- Ah. – O Homúnculo parecia ter se concentrado, fechara os olhos para realizar algo invisível aos humanos,

O grupo tocara o chão com violência, porém o chão não parecia tão rígido quanto antes, algo havia amortecido a queda. Pelo menos o suficiente para mantê-los vivos.

Elicia olhou para Selim que admirava fixamente para o chão, ele parecia controlar as sombras que existiam ali. Edward e Elicia se puseram de pé, ainda ofegantes com a queda. Kimblee ajeitara o chapéu de coco que por alguma razão, não saíra de sua cabeça na queda.

- Desculpe. – Selim murmurou. – Devo ter desmaiado.

- Você controla as sombras? – Edward retrucara, ainda estava surpreso com tudo. – Desde... ?

- Não se esqueça que não sou aquele Homúnculo que você enfrentou anos atrás. – Selim retorquiu. – E sim, controlo sombras. Trevas se assim desejar chamar, é fácil de controlar se souber como fazê-lo.

- O Exército sabe dessa sua habilidade? – Ed indagara de maneira pouco sutil.

Elicia suspirou e interrompeu a conversa. Ela estendera a mão chamando a atenção do grupo.

- Temos problemas maiores, não?

- Hmm... – Kimblee olhava em volta, as trevas tomavam o lugar salvo de dezenas de postes de iluminação que estavam espalhados até onde os olhos podiam ver. – Estamos no Purgatório.

E três se voltaram para a única pessoa que sabia de fato aonde haviam ido parar.

Havia chance de voltarem?

UMA HORA ANTES

- Sim? – Roy indagara rispidamente.

- Preciso de um momento da sua atenção, sim? – Safyia sorrira.

Riza notara o olhar do Führer e se afastara do local, o homem seguira Safyia até uma parte mais afastada da festa aonde seguranças da Imperatriz os mantinham distantes dos demais convidados.

Roy percebeu que o assunto parecia sério quando Safyia apertara seu braço com certa violência, seu corpo sentiu a necessidade de ficar na espreita para o contra ataque.

- Parece ser sério, Imperatriz. Se não, o que a levaria a desejar ver o braço do Führer quebrado? – Sua entonação era calma, porém tentava colocar um toque de hostilidade no fim.

Safyia soltara seu braço, deixando o tecido vermelho de seu quimono esconder a mão. Ela continuava com um sorriso no rosto, acenando delicadamente para os presentes que a cumprimentavam de longe.

- Eu quero propor um acordo que irá nos beneficiar. – Ela dizia sem olhar diretamente para o Führer.

- Estou ouvindo. – Roy sorrira.

Safyia o encarara com frieza.

- Nossos países irão se unir através do nosso casamento, suponho que daqui um mês seja uma data confortável para a cerimônia. – Roy empalidecera com a fala, mas não perdera a compostura. – Iremos anunciar o noivado nesta festa, assim como os detalhes do benefício desta aliança.

Roy ficara em silêncio por alguns instantes, mas sorrira de ponta a ponta ao ver o absurdo que acabara de ouvir; não pôde deixar de dar uma risada em alto tom que acabara assustando a Imperatriz.

- Minha cara Safyia, você realmente tem consciência do que está dizendo? Convencer-me de um matrimônio sem nenhum benefício para meu país? – Seu tom era de deboche. – Até onde vejo, apenas seu país fraco irá receber a melhor parte deste acordo. Além do mais, apenas aturo sua presença em meu país por motivos políticos, sem ofensa.

- Nenhuma ofensa recebida. – Safyia rira, ela parecia estar se divertindo com a situação. Caminhou delicadamente para ficar diante do Führer, seus delicados dedos percorreram as medalhas no peito do homem; um sorriso brotara em seus lábios. – Mas verá que não tem muita escolha, a não ser a aceitar o acordo.

- E como eu verei isso? – Roy questionou friamente, seu olhar parecia mais ameaçador.

Safyia revirou os olhos e indicou com o rosto, seu olhar estava fixo em Elicia que apresentava rosto pálido; Roy arregalou os olhos ao perceber que a filha de Hughes estava visivelmente consternada com algo.

A Imperatriz ainda apontou delicadamente na direção de Riza, dois seguranças de Safiya caminhavam ao seu lado e observavam a assistente de Roy com interesse; os seguranças pararam por alguns instantes e fizeram uma reverência na direção dos dois. Carregavam espadas em suas cinturas, sempre segurando suas bainhas para brandir as armas a qualquer instante.

Roy voltou sua atenção para a Imperatriz que continuava a expor um belo sorriso.

- Ora. – Roy sorrira, enquanto escondia o nervoso crescente.

- Eu não tenho o que perder, senhor Führer. O senhor, por outro lado, tem diversas pessoas que julgo serem importantes. – Safyia dizia calmamente. – Vim para este país com a convicção de que ganharia muito mais do que uma aliança.

- Um casamento?

- Poder. – Ela corrigiu.

- Vá em frente, mate-os. – Roy sorrira. – Não são tão importantes assim, sempre posso arranjar novos Alquimistas e funcionários. Não vejo como sua ameaça está me afetando.

Safyia revirou novamente os olhos.

- Tudo bem. O senhor deseja uma amostra da verdade? – A Imperatriz estalou os dedos.

Roy olhou em volta e notou quando o conhecido homem se aproximou de Elicia; seu olhar congelou ao reconhecer a figura de Kimblee, o rosto tornou a encarar Safyia. Ele tinha a certeza de que o homúnculo estava morto fazia tempos, então como ele poderia estar fazendo uma reverência à Elicia?

O Führer mudou seu foco de pensamento e se lembrou de Lust, ela também estava morta e reaparecera no dia da chegada da Imperatriz; algo começava a fazer sentido.

Kimblee parecia conversar com Elicia que não notava o real perigo que se encontrava.

- Mas-! - Roy pigarreou, tentando manter a compostura. – Você?

O pensamento começou a fazer sentido. Safyia, de alguma maneira, havia conseguido trazer os antigos inimigos de Amestris de volta. Mas como?

Roy fechara os olhos por alguns instantes, tentava descobrir como a Imperatriz havia conseguido trazer os mortos de volta. Não sabia como explicar, mas tinha a certeza de que essa mulher estava envolvida no reaparecimento dos Homúnculos.

- Você é uma Alquimista, hm? – Roy rira consigo mesmo.

- Muito observador. – Safyia respondera ironicamente.

Roy viu quando Elicia saíra da festa acompanhada por Kimblee, ele a acompanhava até o jardim da residência oficial. Seus pés se moveram inconscientemente para persegui-los, porém Safyia se pusera a sua frente.

Safyia balançara negativamente com a cabeça.

- Eu disse, não estou fazendo ameaças leves. Quanto a sua dúvida, sou uma Alquimista de fato. – Safyia respondera sem deixar o sorriso delicado sumir de sua face. – Eles me chamam de Necromante. Deveria saber, se pesquisasse um pouco, que o país de Creta é conhecido pelo culto aos mortos.

Roy respirou fundo, o nervosismo já dominava os punhos que tremiam incessantemente.

- A Alquimia dos Mortos não é um tabu em nosso país, nós a estudamos e a aperfeiçoamos. Eu posso trazer qualquer pessoa de volta se for de minha vontade; pode imaginar um exército com os melhores soldados contra seu país? Por isso, quero que pense um pouco em meu acordo, acho que uma aliança seria proveitosa para seu país fraco. – Ela rebatera a ironia anterior do Führer com fulgor. Os olhos reluziam com a vitória da discussão.

- É, de fato. – Roy assentiu com a cabeça. Precisava pensar rápido.

O Führer sentira a pequena caixinha, contendo o anel de Riza, balançar com o movimento de seu corpo. Ali estava o seu futuro, não somente pessoal, mas o futuro do país que comandava; tinha que agir em prol do bem maior, mas seu egoísmo estava impedindo-o de tomar a decisão correta.

- Sabia que eu comecei a desenvolver certo sentimento pela vossa alteza? – Roy olhara para a jovem de maneira charmosa.

- Tão rápido? De que tipo está falando, meu Führer?

- Ódio. – Roy sorrira e lhe tomara as mãos. O frio tomara conta de sua expressão, ele a odiava com todas as suas forças e faria de tudo para demonstrar o sentimento. – Venha, vamos anunciar o nosso esperado noivado.

- É o que mais desejo.

- Mas tenha em mente que assim que puder quebrar o acordo, eu o farei. E quando esse dia chegar, não queira estar perto, minha amável futura noiva. – Roy falou friamente. – Irei lhe queimar desde o começo destes pés até os pequenos fios de cabelo, mas de uma maneira muito dolorosa e, por ter certeza, lenta.

Sua mão apertara fortemente as de Safyia, num ato quase brutal enquanto abria um sorriso. Safyia apenas lhe devolvera o sorriso falso.

- É o que veremos, não é mesmo?

- Mantenha isso em mente.

- Sempre.

PURGATÓRIO

- Nós estamos no Purgatório. – Kimblee sorria de canto. – Não imaginava que aquele gordo pudesse nos trazer para cá.

- Aqui não é o mesmo lugar para onde fui mandando há alguns anos atrás? – Ed murmurava para si mesmo.

Elicia olhou em volta e tudo o que via era destruição; restos de construções e alguns postes iluminavam pessimamente a imensidão, o local parecia ser infinito em quesito de tamanho e não havia um caminho seguro a ser seguido.

Seus olhos pareciam captar figuras caminhando por todos os lados, mas a alquimista não tinha certeza se aquilo era real.

- Aqui é para onde as almas vão quando desencarnam no plano terreno. – Kimblee continuava a dizer, caminhava tranquilamente pelo chão negro e observava os destroços da queda do trio. – Vocês deveriam imaginar esse lugar como uma primeira parada, aonde essas almas perdidas são guiadas para seu local final de descanso.

Um pensamento distante passou pela cabeça da jovem Hughes, sua atenção se voltou mais do que imediatamente na direção do Homúnculo.

- É possível meu pai estar aqui?

- Elicia! – Ed dissera apressadamente.

- Não. – Kimblee respondeu. – Seu pai morreu há anos, não é? É mais provável que já tenha passado deste ponto. O problema no momento é como tirar vocês daqui.

Ed assentira com a cabeça, sendo seguido por Selim.

- O que ocasionou essa mudança de coração? – Edward Elric indagara. – Não me lembro de você ser tão cooperativo.

- Ah, a influência dela não me afeta tanto aqui. – Kimblee erguera sutilmente a cabeça e respirou profundamente. Esticou os braços e os estalou, estava se aquecendo. – Deve ter haver com a distância, hm...

- E então?

- Não tenho controle sobre mim, pelo menos não totalmente. Todos os que reapareceram estão ou estavam na mesma posição que eu, não temos o livre e arbítrio. – Kimblee respondera seriamente, seu olhar frio fizera Elicia arrepiar. Ele mostrara a palmas das mãos, completamente escuras com uma pequena pedra vermelha iluminando o centro da mão esquerda.

Elicia notara a pedra pulsar na mão do Homúnculo e sabia que havia visto isso em outro lugar, como no dia do confronto com Lust. Não era somente ela capaz de ver o pequeno elemento, Ed e Selim viam por igual.

- Um fragmento. – Elicia se aproximara do Homúnculo.

- A influência dessa pessoa não me permite revelar muito a vocês, mas posso dizer que ela nos controla em todos os aspectos. Cada vida que ela trás de volta, um novo poder surge.

- Por isso os homúnculos têm habilidades diferentes... – Ed levara a mão ao queixo.

- Exato. – Selim concordou. – Quando renascemos, ganhamos novas habilidades e um novo futuro.

- Mas o que essa pessoa ganha com isso? – Ed questionou. – Pensei que os empós de guerra haviam acabado!

Kimblee balançara negativamente a cabeça.

- É o que você pensa, Fullmetal. Neste exato momento, garanto que o plano dessa pessoa está em ação e uma guerra está prestes a eclodir; tendo vocês como os principais empecilhos.

Elicia prendeu a respiração por alguns instantes e viu Ed empalidecer; a afirmação de Kimblee os pegara desprevenidos.

- O que nós temos a ver com isso? – Edward retrucou.

- Tudo. – Kimblee rira. – Aposto que a pequena Hughes já notou isso, não é mesmo? Seus olhos podem ver o mundo, apesar do preço, você tem uma visão ilimitada.

Elicia engolira seco, sua preocupação estava se concretizando. A jovem se lembrava do médico falando sobre sua miopia, mas talvez a pequena falha na visão estivesse se originando de outra coisa, algo mais grave.

- P-Preço? – Gaguejou.

- Precisamos sair daqui. – Ed dissera por fim.

- A jovem Hughes tem o caminho, seus olhos podem levá-los à saída daqui. Basta apenas que ela saiba procurar. – Kimblee explicou.

- Como assim? – Elicia perguntou surpresa.

- Olhe em volta, seus olhos podem localizar a saída. Você enxerga acima do plano comum, pode ver os mortos e pode ver além do plano real. Sei disso, você possui os mesmos olhos daquela pessoa. – Kimblee dizia calmamente.

Elicia assentira com a cabeça. Sabia que tinha esse poder, mas por algum motivo não queria ter a certeza de tê-lo.

- Elicia, não se preocupe. – Edward sorrira para a jovem. – Lembre-se, eu e o Al confiamos em você.

- Eu sei. – Elicia sorrira. – Mas, esta habilidade pode ser muito mais poderosa do que eu imaginava.

- Isso você irá descobrir apenas se tentar. – Kimblee afirmou.

Elicia concordou com a cabeça.

A jovem começou a olhar em volta, se concentrando em procurar uma saída dali; sentiu os olhos arderem, pareciam queimar por dentro conforme mudava o foco. Notou que a visão se tornava turva conforme demorava a encontrar a saída, a íris de seu olho ganhava uma tonalidade mais clara e os olhos se dilatavam.

- Isto é- - Selim se voltara para Kimblee.

- Necromancia. – Kimblee sussurro.

Elicia caminhou por alguns metros e estendeu a palma de sua mão para o vazio a frente, um grande círculo de transmutação se abrira e o brilho azulado tomou o lugar. A Alquimista via com perfeição uma porta se abrir com o círculo, estava ali seu caminho para sair.

Ed cobrira parte do rosto para se proteger da poeira que levantara, ainda estava surpreso com o grande círculo que se formara.

- É aqui! – Elicia se voltou para o grupo. Ela tocara a face, notando que algo úmido invadia as maçãs do rosto; era sangue saindo dos olhos, escorrendo em grande volume. – Eh?

Elicia se voltou para Ed que empalideceu ao ver os pequenos filetes de sangue saírem dos olhos da aprendiz. A Alquimista sentiu o corpo enfraquecer e a visão turvar, mas não demonstrou para os demais.

- O portão não ficará aberto por muito tempo, andem. – Kimblee segurava seu chapéu de coco, se protegendo do vento forte que surgia do círculo de alquimia.

Ed e Selim caminhavam na direção de Elicia para atravessar o portão. Os dois se aproximaram da jovem que limpava o rosto com a manga da roupa.

- Você não vem? – Edward perguntara de longe.

- Eu já fiz o que deveria, meu propósito em seu mundo acabou! – Ele sorrira.

- Tsc! – Ed virara o rosto, incomodado com a resposta do homúnculo.

Selim fora o primeiro a cruzar o estranho portão de luz azul que surgira na imensidão, Elicia lançara um último olhar para Kimblee e sumira através da luz; Edward se voltou para trás por um último momento, o rosto dominado pela tristeza.

- Venha!

- Você continua o mesmo, Elric. – Kimblee retirara o chapéu de coco e continuara a sorrir. – Mas não se esqueça de que os mortos precisam continuar mortos.

E ele se curvara para uma última reverência.

- Idiota. – Seu olhar continuava pesaroso.

Ed lhe dera as costas e atravessara sem mais nada a dizer, fechando os olhos para não sentir o arrependimento preenchê-lo por deixar o bom homúnculo ali.

Kimblee viu o portão se fechar e as trevas dominarem o local; sorriu ao perceber que continuava a ter controle de seu corpo.

- Muito bem, hora de dar adeus. – Tocara na pedra filosofal na palma de sua mão e de súbito a estilhaçara. O corpo começava a desaparecer, porém o sorriso permanecia.

Boa sorte, Fullmetal e Alquimista da Morte.

O corpo havia parado, caído em algum lugar plano. Não estava quente, porém a sensação era de que o corpo formigava com o calor interior.

Edward abrira os olhos lentamente, encontrando Elicia de pé e diante dele. Tentou se endireitar e levantar do chão, sua boca começou a pronunciar algumas palavras, mas se conteve ao ver onde estavam.

A imensidão branca, o local sem fim com apenas uma pessoa a sua frente: A Verdade.

- E aí? – A figura sorrira largamente para Elicia.

A jovem estava com o corpo completamente encardido, o rosto ainda manchado pelo sangue que escorrera, a face completamente lívida.

- O que eu... ? – Seu olhar percorreu todo o perímetro e atrás dela, duas imensas portas mantinham sua retaguarda. As portas que representavam a verdade de uma pessoa, as mesmas portas que sugaram Elicia outrora.

- Estava demorando a aparecer de novo, imaginei que nunca mais viria. – A Verdade estava sentada a sua frente, de pernas dobradas e mãos sobre as coxas.

Edward se erguera e caminhara cambaleante até o lado de Elicia, a expressão de raiva se apossara dele.

- Por que nos trouxe aqui? – Edward gritara.

- Eu? Estou apenas lhes dando o que me foi pedido. – A figura mantinha o sorriso de escárnio na face sem detalhes. Estendera a mãos em direções opostas, como se mostrasse todo o ambiente em que estavam. – Estou lhe devolvendo a habilidade de ver, Fullmetal.

- O quê? – Edward se voltara para trás e vira a sua porta reconstruída, a porta que lhe dava a capacidade de usar a Alquimia. – Co—Mas como?

A figura se ergueu, um grande pulsar avermelhado surgia em seu peito. O brilho vermelho invadia as veias que agora apareciam em todo seu corpo.

- O pagamento foi feito, estou apenas cumprindo o trato. Embora não concorde, recomendo que aceite.

Braços negros surgiram de uma das portas, agarrando cada membro de Ed e o derrubando no chão; o Fullmetal começara a ser arrastado pelo local, contra sua vontade.

- ME SOLTEM. MAS O QUE ESTÁ ACO- - Ed se debatia, sem entender o que acontecia.

- Tio Ed! – Elicia gritara, desesperada.

- Estou apenas devolvendo seus poderes, Fullmetal. Sejam bem-vindo de volta.

- O quê?! – Ed arregalara os olhos. Os braços forçaram suas pernas e ele fora arrastado para mais perto da porta.

- Mas quem fez o pagamento?! – Elicia se voltara desesperada para a figura.

- De que importa? Acho que você tem outras coisas para se preocupar do que com a vida dos outros, não é mesmo? – A Verdade continuou impassível.

Ed tentou se agarrar ao chão, porém o mesmo não conseguia se manter e continuava a ser arrastado. Batera a cabeça ao sofrer outro puxão e entrara com parte do corpo no portão.

- Mas que droga! – Ele exclamara.

- Tio Ed, eu-! – Elicia se moveu em sua direção.

- Não! Eu vou ficar... bem... Ugh—Ed fechara os olhos, tentando se manter no lugar. Ele apontara o indicador na direção da figura esbranquiçada e lhe lançara um olhar feroz. – Se fizer alguma coisa com ela, você sabe que eu voltarei, não sabe?

- Minhas intenções são as melhores. – A figura respondera.

- Ótimo. – E Ed desaparecera pelo portão que acabou se fechando.

- Ah! – Elicia perdera o ar, não podia demonstrar o medo que estava sentindo para a Verdade. Ela sabia que a figura poderia se aproveitar da sua fraqueza.

Elicia abaixara a cabeça, olhando para os próprios pés.

- Por que eu estou aqui? – Sua voz falhara.

- Ahhh, esta é a verdadeira pergunta! – A ironia tomara conta da figura. – Esperava que você me respondesse.

A Alquimista olhara para a Verdade, tocara sutilmente um dos olhos e o cobrira com a palma da mão mecânica. Tinha medo de perguntar, mas juntou as forças que tinha e falou:

- Eu estou ficando cega?

- Toda Alquimia tem um preço. Você decidiu ter este poder, não eu. Quis ver além do que poderia, queria ver seu pai, não é? Eu lhe dei apenas o que queria.

- Mas em compensação ficarei cega!

- É o preço a ser pago por usar uma visão além daquela estabelecida. Você está vendo o que os mortos veem. Você vê o que eu vejo. – A Verdade era terrível.

- Eu vejo...

- Se continuar a usar esta habilidade, garanto que sua visão será a primeira coisa que irá perder. – A figura dizia sutilmente.

- Eu preciso continuar com ela. – Elicia foi firme. – Uma guerra está começando e sem minha habilidade para ver os mortos, de nada serei útil!

A Verdade parecia ter esboçado uma expressão de decepção, o sorriso sumira de sua face.

- É isso o que deseja?

Os olhos esmeraldas de Elicia reluziram ao encarar a figura.

- Preciso saber mais sobre esse poder. Preciso proteger meus amigos e minha família, não posso deixar que essa guerra comece.

A Verdade um longo suspiro.

- É isto o que deseja?

- Sim.

- O risco está por sua conta, pequena Alquimista. Não venha até mim chorando, depois que perder aquilo que lhe é mais precioso. – Ele erguera o braço e a mão começara a se mover delicadamente, estalara os dedos de maneira que Elicia pudesse ouvir.

A jovem assentira com a cabeça.

- Estou ciente dos riscos.

- Espero que esteja.

A Verdade lhe sorrira e naquele instante, Elicia começara a berrar sentindo cada parte de seus olhos arderem com violência. A jovem caíra, sentindo o rosto queimar e tentara segurar a face, sem sucesso; os olhos perdiam a esmeralda e ganhava uma tonalidade tempestuosa, a tonalidade cinzenta das nuvens em dia de chuva.

- Ahhh! – Ela gritava desesperada.

- Lembre-se que irá perder sua visão a cada segundo que usar estes olhos, você que tanto quis enxergar a frente jamais poderá ver a face daqueles que mais ama. Espero que viva com esta escolha, pequena.

Elicia sentira o corpo ser puxado por algo, braços a levavam até o portão e a faziam se afastar da figura da Verdade.

- Pessoas que eu am- AHHH-! – Os olhos sangravam novamente, era como se agulhas penetrassem todas as extremidades e se mexessem.

- Imagina como será, não poder admirar os azuis daqueles olhos e ver os cabelos loiros balançarem ao vento? – A Verdade rira, mas Elicia não conseguia identificar de quem a figura se referia. – Mas o amor vence tudo, não?

- Do que você- - Elicia vira a porta se fechar a sua frente. – NÃO!

A figura ficara sozinha na imensidão branca, colocara os braços para trás e sorrira.

- Por que tudo envolve a Alquimia? – Falava consigo mesmo. – Oh, bem. Vejo que aqui ficará mais movimentado daqui para frente, hi hi.

As pessoas que mais amo, não poderei mais vê-las.

Porém, com a minha visão, irei protegê-las.

Já dizia Edward Elric uma lição sem dor não tem significado, porque não se recebe nada sem dar algo em troca. Esta é a Lei da Troca Equivalente, uma lei que nunca foi tão absoluta como agora.