Aquela era a terceira vez naquela semana que Kurapika saía para uma caminhada no meio da noite. Vinha sofrendo fortes crises de insônia ultimamente, tão agudas que as únicas vezes em que conseguia dormir era quando seu corpo atingia um grau extremo de cansaço físico e mental. Ele literalmente desmaiava, caindo em um sono ininterrupto e sem sonhos, apenas para ser novamente visitado pela insônia na noite seguinte.

Nessas noites, ele preferia sair de casa a continuar se revolvendo na cama. O próprio colchão se tornava um estorvo, um lugar inóspito, de mais desconforto que conforto. Era como se continuar ali só piorasse o seu estado de espírito. Então ele saía. Saía a pé, às vezes em direção ao escritório, às vezes apenas até o café 24 horas que ficava a três quadras de casa para uma dose extra de cafeína. Kurapika sabia que não devia despejar ainda mais estimulantes em seu organismo, mas usufruir da bebida amarga — que ele atenuava sempre com dois sachets de açúcar — era um dos poucos prazeres que se dava a liberdade de manter. Não era ela que o mantinha acordado de qualquer forma.

O café costumava estar praticamente vazio todas as vezes em que Kurapika se decidia por um gole — hábito que estava virando cada vez mais corriqueiro. A região costumava ser muito movimentada durante o dia, mas à noite, apenas bêbados querendo curar a ressaca ou moradores de rua procurando um lugar aquecido para se aconchegarem frequentavam as ruas em busca de estabelecimentos ainda abertos.

Dessa vez, porém, ele não era o único cliente insone daquela madrugada. Em uma mesa encostada na quina, um homem de meia idade e paletó branco observava casualmente a porta de vidro enquanto segurava com as duas mãos um copo de café. Uma sensação desconfortável preocupou Kurapika no instante em seus olhos encontraram os dele. Talvez fosse a estranheza de encontrar outra pessoa, que não mendigos ou ébrios, ali naquela hora. Talvez fosse a impressão, inexplicável, mas ao mesmo tempo inexorável, de que o homem estava ali precisamente por sua causa, como se o estivesse aguardando.

Kurapika desviou o rosto e se dirigiu ao balcão. Fez o pedido de sempre. Evitou o olhar do desconhecido que, ele sabia, estava pregado nele. Nem mesmo o cheiro inebriante do café repeliu a incômoda sensação de estar sendo observado.

Ele estava abrindo seu primeiro sachet de açúcar quando ouviu a cadeira se arrastar. O movimento do paletó. Os passos. O homem podia estar simplesmente indo embora, mas Kurapika sabia que não era para a porta de vidro que ele se dirigia.

— Kurapika? — o homem falou.

Ele se virou. O sujeito estava ao seu lado. Tinha os cabelos ralos. Era mais alto do que ele, quase tão alto quanto Leorio, mas nem de longe tão magro. O pescoço era muscular e o tronco, por baixo da camisa de pano, parecia um bloco maciço de gesso.

— Eu conheço você?

— Ainda não. Podemos conversar? — E ele fez um movimento indicando a mesa onde até agora estivera sentado.

— Por que eu deveria?

— Digamos que é do seu interesse — O homem fez uma pausa — A menos que já tenha desistido de entrar para o Bratva.

Esboçou um sorriso discreto ao pronunciar aquela última palavra, observando atentamente a reação de Kurapika. Havia algo de satisfeito na feição do homem, como se soubesse que o seu pedido não poderia, nem seria recusado.

— O que você sabe sobre o Bratva? — Kurapika perguntou.

Evitou alterar o tom de voz ou a expressão corporal, mas a verdade era que sua respiração havia chegado a falhar por um instante ao ouvir o nome do clube. Nem mesmo o corpo cansado sentia mais o peso das noites mal dormidas. Ao contrário, agora era tomado por uma súbita ansiedade. Estava mais desperto do que nunca.

Mas o homem apenas indicou novamente a mesa, em silêncio. Mantinha no rosto o sorriso satisfeito, o que lhe dava um ar sorrateiro.

Kurapika continuou parado, analisando a situação ao mesmo tempo em que estudava o sujeito a sua frente. Os últimos dias de Kurapika se resumiram em tentar encontrar qualquer informação relevante que fosse sobre o Bratva — tarefa que estava julgando não apenas impossível, mas também incrivelmente exaustiva. E agora, sem que fosse solicitada, a oportunidade se apresentava a sua frente pronta para ser agarrada.

Mas estava fácil demais, óbvio demais. Kurapika precisou conter sua ansiedade. Não era mais ingênuo para acreditar que encontraria o que estava procurando de maneira tão simples, sem atropelos ou percalços pelo caminho. Não, aquele era um campo minado. Tais informações teriam um preço — e ele estava disposto a pagar.

— Certo. Você primeiro — respondeu, deixando o homem seguir na frente enquanto ele ainda apanhava o segundo sachet de açúcar.

Sentaram um na frente do outro. O copo do homem já no fim, o café possivelmente morno. O de Kurapika, fumegando enquanto ele mexia o açúcar no fundo.

— Qual o seu interesse no Bratva? — o desconhecido perguntou.

— Quero fazer parte dele.

— Por quê?

Kurapika estreitou os olhos de leve, pensando na resposta.

— Meus motivos, por ora, são particulares. Por que estou sendo interrogado a essa hora?

O homem suspirou, batendo com o copo de leve na mesa.

— Você é um Hunter. Não, não foi uma pergunta. Eu sei que você é.

Kurapika ficou imóvel, sem esboçar a reação que talvez seu interlocutor esperasse. Ele sabia que o homem o estava testando, medindo suas atitudes ao demonstrar conhecimento sobre sua identidade. Estratégica básica de desestabilização do adversário.

— Eu não tenho nenhum contato com a Associação, se é isso que o preocupa — respondeu, calculando cuidadosamente cada palavra antes de a proferir — E você parece saber bastante sobre mim, mas eu ainda não sei nada sobre você.

O homem balançou a cabeça, concordando.

— Meu nome é Temir. Digamos que eu sou apenas um mensageiro.

— De quem? Dos sócios do Bratva?

— Oh não, não. Eles nem imaginam que eu estou aqui. Quem me enviou é apenas um dos membros do clube. Meu chefe não ficou muito feliz com um Hunter bisbilhotando por aí, fazendo perguntas, participando das lutas. Ele acha que você está atrás de alguma coisa.

Kurapika esperou. Guardou aquela informação na cabeça. Um dos membros. Não os sócios.

— E você veio aqui para tentar descobrir do que eu supostamente estou atrás, é isso?

— Eu vim aqui para dizer que, seja o que for, seria melhor se você deixasse esse assunto de lado.

— Melhor para quem?

— Para você mesmo.

Eles se encararam, deixando um espaço de tempo para que as palavras se assentassem. O mensageiro já sem o sorriso escroque de antes. Kurapika igualmente impassível. Não esperava que pusessem alguém atrás dele. Não esperava ter sua identidade como Hunter descoberta tão cedo assim. Mas certamente esperava que fosse incomodar algumas pessoas.

— Isso é uma ameaça? — Kurapika perguntou.

— Isso é um aviso.

— Quem é seu chefe?

— Eu não fui autorizado a dizer.

— Por que minha presença o incomoda?

— Veja — E Temir inclinou o corpo ainda mais para frente, reclinando sobre a mesa — eu recebo ordens e as cumpro. A dessa noite era apenas pra trazer um recado, não pra responder suas perguntas. E eu detesto retrabalho. Então, se eu fosse você, pensava direito no que você está se metendo.

Kurapika apertou as mãos em volta do copo de café. O calor da bebida se espalhou pelos seus dedos. Percebia a clara tentativa do homem em o intimidar. Conhecia perfeitamente tipos como aquele.

— Você disse que essa conversa seria do meu interesse, mas até agora não me teve utilidade alguma. Esperava que pudesse me esclarecer algumas coisas.

— Eu nunca disse que seria útil.

— Então nesse caso eu vou ter que descobrir o que preciso por conta própria — disse, levando o copo pela primeira vez à boca.

O líquido quente fez a garganta arder, mas, ao mesmo tempo, se acalmar. Aquele sabor — amargo, forte, doce — chegava até ele como um bálsamo reconfortante e necessário. Começava a entender o que estava acontecendo.

— Você tem quatro lutas marcadas para este sábado — o homem falou.

— Eu sei disso.

— Recomendo que não apareça por lá. Ou perca as lutas, se preferir.

— E se eu não seguir essa recomendação?

— Bem, então meu chefe não vai ficar muito feliz.

— Diga a seu chefe que eu sinto muito. Atender esse pedido está fora de questão.

Temir fechou os punhos. O rosto endureceu ainda mais, as linhas da testa e pescoço se acentuando. Por um instante, Kurapika pensou que ele fosse atacá-lo e que seria preciso usar suas correntes para contê-lo. Mas o homem não se mexeu.

— Estou disposto a negociar caso você ou seu chefe tenham alguma informação que eu julgue relevante — Kurapika acrescentou.

— Meu chefe não aceita negociações!

— Então estamos perdendo tempo nessa conversa. Você está claramente na desvantagem aqui, por isso tenta me intimidar. A verdade é que seu chefe não sabe as minhas intenções, mas ao mesmo tempo, prefere não partir para um ataque agressivo para impedir de vez que eu apareça no ringue este sábado. O que significa que ou você e seu chefe não possuem poder de me enfrentar, ou estão com medo das consequências.

Ele não respondeu, mas as mãos se apertaram com ainda mais força sobre a mesa. O pescoço começava a ganhar um aspecto avermelhado.

— Seria mais inteligente uma abordagem mais discreta, talvez negociar uma troca de informações para tentar descobrir minhas intenções. Mas como optou por essa aproximação, não tenho outra escolha a não ser declinar seu pedido e avisar para não entrarem no meu caminho.

Kurapika levantou da cadeira, novamente com a sensação de que poderia ser atacado. Por via das dúvidas, carregou o copo consigo na mão esquerda, deixando a direita livre caso fosse necessário se defender.

O homem chegou a se levantar, rápido como um raio, empurrando a cadeira para trás. O balconista lançou um olhar assustado para o movimento brusco, mas Kurapika sequer interrompeu seus passos. Prosseguiu porta afora, ignorando o olhar assassino que o acompanhava de dentro do estabelecimento.

Chegou em casa ainda sentindo a eletricidade daquele encontro em cada parte do seu corpo. Um de seus maiores medos era de que esse tempo todo, estivesse perseguindo a própria sombra, que a morte de Leorio não passasse de um acidente que ele havia recusado a aceitar. Temia que o luto o estivesse o cegando, que tudo não passasse de um delírio inconformado. Mas todo aquele diálogo o fazia crer que estava no caminho certo.

Talvez não devesse ter enfrentado o homem. Continuava sem saber absolutamente nada sobre o Bratva, e a conversa não havia esclarecido muita coisa. Em termos de conhecimento, se mantinha na estaca zero. Porém, sentia agora uma satisfação rara, uma determinação rejuvenescida em descobrir a verdade. E naquele momento, era tudo que precisava.

Jogou o copo vazio de café na lixeira da cozinha. Estava acordado demais para tentar dormir — e mais uma vez, a cafeína nada tinha a ver com aquele estado de alerta. Ainda assim, foi para a cama. Reviveu a conversa em sua cabeça e memorizou as feições daquele homem.

Sábado nunca esteve tão longe.

(...)

— Você conhecia ele, Lena?

— Ele quem, mãe?

Lena se virou distraída para a banca de jornais que a mãe apontava. Não demorou para ver o rosto de Leorio entre o emaranhado de letras, ocupando um pequeno espaço na coluna de um dos jornais.

Era uma foto recortada, de um Leorio sorridente em seu típico blazer que, apesar da imagem ter apenas tons de cinza, Lena sabia ser azul.

— Meio difícil não conhecer, né? Ele estudava na minha faculdade, vivia dando em cima das meninas... mas por que ele ainda está rendendo notícia até hoje?

Lena se aproximou para ler as letras miúdas do jornal. Naquele dia completava-se exatamente um mês da morte de Leorio. Um mês que fora encontrado morto boiando na piscina da Universidade nas primeiras horas da manhã. Um mês que ele não fazia mais parte da sua vida acadêmica, das suas tardes de estudo na biblioteca, dos seus almoços no refeitório. Lena não conseguiu conter uma exclamação tristonha ao perceber que havia deixado a data passar. De repente a falta dele voltou a doer.

— Deviam proibir pessoas tão novas de fazerem o exame de Hunter. Profissão mais arriscada... Ainda bem que você desistiu dessa ideia.

— Foi só um acidente, mãe, não tem nada a ver ele ter a licença ou não. Aliás, naquela faculdade é mais fácil a gente morrer de tanto estudar praquelas provas dos infernos do que sendo Hunter — respondeu, se contendo para não expor todas as dúvidas que ela própria tinha acerca da morte de Leorio. E nem mesmo chegar a mencionar o nome de Kurapika — E vamos, que eu ainda quero voltar hoje pra casa. São duas horas de trem e eu tenho aula amanhã!

— Por que não volta no fim de semana? — pediu, a tomando pelas mãos — A casa ficou vazia sem você

— Porque eu preciso estudar. Você quer uma filha doutora, não quer? Como é que o pai falava? "Cada escolha, uma perda." Pois então...

E ela puxou a mãe pelo braço, se afastando da banca de jornal e das lembranças.

(...)

Mais tarde, naquele mesmo dia, o trem que levava Lena para casa sacolejava forte demais para que ela conseguisse fixar os olhos em alguma leitura. Mas ela tentava.

O jornal que antes estava na banca agora repousava em suas mãos. A notícia relembrando a morte de Leorio aberta em seu colo. O movimento dos carros fazia sua cabeça doer a cada linha enquanto ela espremia os olhos e forçava a mente a ignorar o desconforto da leitura.

A matéria apenas recapitulava a breve trajetória de Leorio como Hunter, sua passagem pela faculdade de Medicina e a conjuntura de sua morte. Nada que Lena já não tivesse lido anteriormente em edições anteriores.

Mas dessa vez, uma informação diferente chamou sua atenção, algo que tinha a impressão nunca ter tomado conhecimento antes. Ela leu e releu o parágrafo, para ter certeza de que havia entendido.

"Recentemente, um pedido de abertura de inquérito para investigar a morte de Leorio Paradinight foi recusado pela Associação Hunter."

O resto da notícia continuava sem mencionar quem havia feito o pedido, o motivo da recusa ou precisar exatamente quando isso teria ocorrido.

Lena franziu a testa. Não lembrava de ter lido isso antes em parte alguma. Primeiro, pensou em Kurapika. Achou que ele poderia ter feito o pedido do inquérito. Ao mesmo tempo, por que ele faria isso, se estava empenhado ele mesmo em ir a fundo no caso por conta própria? Não teria ele dito a ela que não possuía vínculos com a Associação?

Com ainda um pouco de incerteza sobre a importância daquele novo fato — e com uma hora e meia de viagem pela frente — Lena pescou o celular da bolsa e brincou um instante com o aparelho. Ponderou o que devia fazer, e por fim, acabou apertando a tecla que completaria a ligação.

Esperou, ansiosa, por cada sinal. Quando achou que seria atendida, a voz eletrônica da caixa de mensagens anunciou, para sua frustração, que Kurapika não estava disponível para responder no momento. Pensou se devia deixar um recado, mas acabou desistindo e desligando o aparelho. Poderia perguntá-lo pessoalmente no sábado. Ele havia dito que sua presença no dia não seria necessária, argumentou que as lutas eram muito tardes e que ela não devia se envolver naquela história além do necessário. Mas ela rejeitou cada alegação com um despretensioso balançar de ombros.

Com um bocejo, Lena jogou o celular de volta para a bolsa. Separou as páginas com a notícia sobre Leorio, a recortou grosseiramente com a mão e atulhou a pequena lixeira perto da porta do vagão com o restante do jornal.

Caiu no sono logo em seguida.

(...)

Em seu escritório, o celular de Kurapika vibrou algumas vezes dentro da gaveta sem que ele se desse ao trabalho de conferir. Só veria a chamada perdida de Lena horas depois, no dia seguinte. Naquele exato momento, outra coisa tomava completamente sua atenção.

Aberto na mesa, o mesmo jornal. A mesma matéria sobre um mês do falecimento de Paradinight. A mesma frase com a informação nova, lida e relida por Kurapika.

Alguém havia de fato solicitado à Associação que investigasse a morte de Leorio. Alguém publicamente insinuava que o óbito talvez não fosse acidental como se pensava. E esse alguém não era ele.

Kurapika praguejou baixinho para si mesmo. Aquelas eram péssimas notícias.