Ao contrário do que Kurapika havia imaginado, aquele sábado transcorrera de uma maneira consideravelmente razoável. O dia havia se esvaído em um piscar de olhos, e já eram quase nove horas da noite quando ele finalmente entrou com o carro na viela estreita e mal iluminada onde pretendia estacionar. O farol baixo jogava uma luz amarelada na rua, clareando o espaço imediatamente a frente e dando forma ao que antes eram apenas sombras. Uma enorme caçamba de metal transbordava de lixo na calçada, ladeada por alguns sacos pretos igualmente cheios. As paredes de concreto tinham grafittis gastos e outros dois carros — um, que a julgar pelo estado, parecia abandonado há anos — também faziam daquele beco seu estacionamento.
Kurapika encontrou lugar próximo à esquina e manobrou o carro para entrar na vaga. Apagou os faróis e desligou o motor. O veículo mergulhou numa escuridão que só não foi completa graças ao único poste da ruela que ainda parecia funcionar.
Com as mãos ainda no volante, olhou para a avenida transversal que tinha logo à frente. Seus letreiros luminosos davam uma coloração artificial e kitsch ao lugar, criando sombras irregulares dos poucos pedestres que ainda passavam por lá. Do outro lado da avenida, ele reconheceu a porta verde-musgo enferrujada que servia de entrada para o clube de lutas subterrâneo. Uma porta de metal, com algumas pixações rabiscadas em um canto e um enorme cadeado, igualmente enferrujado, no outro. Nenhuma placa indicava o que se escondia por detrás daquela passagem. Apenas quem já tinha estado lá, como ele, poderia saber.
Kurapika se recostou no assento e esperou. Alguns minutos haviam passado até ele ser surpreendido pelo som seco de alguém batendo na janela pelo lado do passageiro. Se virou. A reconheceu no mesmo instante, apesar da iluminação fraca. Destrancou a porta e esperou que Lena entrasse.
— Toma, comprei pra você — ela falou, estendendo um copo de papel de onde saia um cheiro não muito forte de café. Sentou na poltrona do passageiro e fechou a porta. Na outra mão segurava o mesmo tipo de copo de papel, porém com o barbante fino de um sachê de chá pendurado do lado de fora.
— Obrigado.
O café, como ele suspeitava, não estava fresco ou muito quente, mas ele tomou mesmo assim. Tinha a quantidade ideal de açúcar, ao menos, e isso devia bastar.
— Está aqui há muito tempo?
— Acabei de chegar — Kurapika respondeu — Você não está atrasada.
Lena se voltou para a avenida, encontrando a porta do ringue subterrâneo do outro lado da calçada.
— E lá, alguém já chegou?
— Não. Mas está cedo. O ápice das lutas só acontece depois da meia-noite.
— A menos que as pessoas entrem por outro lugar, não é?
Kurapika pensou por um tempo. Tinha o semblante sério e desperto apesar das recentes noites mal dormidas.
— Não duvido que haja outra entrada para os organizadores ou sócios importantes. Mas o homem que me procurou na cafeteria é um peixe pequeno. Se vier esta noite, virá por aqui.
— É ele quem você está esperando então?
— Eu acho que ele é que vai estar me esperando — frisou — É por isso que não quero que vá comigo ao ringue esta noite.
— Eu podia ficar esperando no carro...
— Não — respondeu, seco, de um jeito que Lena sabia que não havia como contra argumentar.
Ele tomou outro gole do café sem tirar os olhos da porta de metal. Os poucos transeuntes que passavam por ela nem mesmo se davam conta de sua existência. A ignoravam como ignoravam qualquer outro elemento habitual da paisagem urbana.
— E você, descobriu alguma coisa na faculdade? — Kurapika perguntou.
Lena disfarçou a hesitação com um gole demorado do chá.
— Descobri que Kenji, aquele rapaz que morreu alguns dias antes de Leorio, não foi expulso como eu achava que tinha sido. Ele largou a faculdade por conta própria, antes do início do semestre.
— O que isso muda?
— Me fez pensar em algumas coisas. Eu acho que ele não era o junkie que todo mundo achava que era.
— Ele morreu de overdose, Lena.
— Mas fazia Medicina. Ninguém gostava dele, nem os professores, mas pelo que eu soube, ele sempre teve nota suficiente pra passar nas matérias, o que, sinceramente, não é nada fácil. E tem ainda toda a discussão dele com Leorio. Hum...
Lena interrompeu o discurso, adotando um ar pensativo. Kurapika se virou para ela.
— Onde você está querendo chegar?
Ela olhou de volta para ele, a testa enrugada como se estivesse pensando em algo. Abriu a boca para falar algo, mas parou no ato, como se ainda não estivesse certa de como se pronunciar. Kurapika a encarou com ainda mais curiosidade.
— Quem você acha que fez o pedido de inquérito sobre a morte de Leorio para a Associação? — ela acabou perguntando.
— Não tenho certeza — ele respondeu — Espero que isso não atrapalhe meus planos. Mas desconfio que foi por isso que recebi a visita na cafeteria durante a madrugada. No que você está pensando? Tem mais alguma coisa que queira me contar?
— Não é nada — Lena respondeu, balançando a cabeça — Só espero que a Associação não esteja envolvida com isso. Mas acho que não está, ainda mais agora que Pariston se desligou dos Zodíacos. Se ele fosse o presidente, aí eu talvez ficasse com um pé atrás. Ele não me parece muito confiável. Cheadle é mais razoável.
Kurapika franziu o cenho ao ouvi-la falar.
— Você sabe bastante sobre a Associação para alguém de fora — comentou. Balançou o copo, fazendo o café morno agitar o açúcar do fundo. Ele tomou o restante antes que o líquido ficasse frio demais. Um restinho de pó veio junto e ele fez um careta.
— Eu acompanho as notícias — ela disse, dando de ombros como se aquilo não fosse nada — Já quis ser Hunter uma vez.
— Você, Hunter? — Kurapika olhou intrigado para ela, que também terminava de beber as últimas gotas do chá. Pensou por um tempo e continuou — É por isso que gostava de Leorio?
A pergunta fez Lena engasgar na mesma hora. Ela afastou o copo da boca e tentou coibir a tosse inevitável que se formou na garganta.
— Como assim? — respondeu tão logo conseguiu se controlar — Então não posso ser amiga de alguém sem um interesse romântico por trás?
— Não foi isso que eu quis dizer! — ele se defendeu, se sentindo um pouco sem graça — Eu só queria entender melhor sua relação com Leorio.
— Já falei, éramos colegas — E Lena desviou o rosto, emulando uma pretensa naturalidade enquanto amassava de leve o copo agora vazio — Ele estava em um período mais avançado, então me ajudava com algumas matérias. A gente estudava junto. Não sei mais o que espera que eu diga.
Kurapika pensou em responder, mas notou o rosto e orelhas da garota começando a ficar avermelhados e achou melhor não continuar o assunto. Apenas largou o copo sujo com os restos de café no porta-copos perto do câmbio.
— Xi, está começando a chover! — ela disse, vendo os primeiros pingos ralos de chuva molharem o vidro da janela — E eu nem trouxe guarda-chuva, droga.
— Pegue um táxi. Não é seguro ficar andando sozinha por aqui de qualquer forma.
Lena concordou e continuou olhando pela janela, tamborilando com os dedos no vidro enquanto assistia a chuva ganhar forma. Kurapika afundou de novo no assento e voltou sua atenção para a porta do outro lado da avenida. A calçada estava agora totalmente vazia e começava a acumular algumas poças de água que refletiam o brilho neon dos letreiros. As gotas caiam cada vez mais grossas sobre o vidro do carro, deixando a visão turva. Ele gostaria de poder ligar o veículo apenas para acionar o limpador de para-brisas, mas temia que isso pudesse chamar a atenção e acabou optando por deixá-lo desligado.
O som da chuva crescia do lado de fora, ressoando dentro do automóvel. Os pingos antes finos engrossavam e criavam uma sinfonia ao bater no teto e no capô. Pelo vidro, luzes e sombras ganhavam formas abstratas, distorcidas pelo líquido que escorria no para-brisa.
Lena fez mais um comentário, abafado em parte pelo barulho. Kurapika não entendeu nem pediu para que repetisse. Tinha os olhos grudados em algumas silhuetas que se aproximavam da porta enferrujada que servia de acesso ao ringue.
Ele conseguiu distinguir ao menos três guarda-chuvas, todos escuros. As figuras pararam de frente para a entrada do clube por alguns instante, voltados aparentemente um contra os outros, e Kurapika deduziu que deviam estar trocando algumas palavras.
Passado um tempo a porta foi aberta e um dos guarda-chuvas sumiu ao passar pela entrada. Dois permaneceram do lado de fora. Kurapika estreitou os olhos. O paletó branco de uma das pessoas fazia contraste com a noite escura. Era um homem, alto e largo. A segunda pessoa não era tão alta, mas era igualmente larga. Fumava um cigarro, que ele logo terminou e jogou na sarjeta. A guimba sumiu em uma das poças.
Os dois continuaram sob a chuva, parados a pouco menos de um metro da porta. Aos poucos, outras pessoas chegaram. Todas entravam sem sequer serem incomodados pela dupla. Kurapika então suspeitou do que aquilo se tratava. Suspirou pesadamente.
— O que está acontecendo? — Lena perguntou baixinho.
— Lena — ele respondeu, ainda sem tirar os olhos das figuras escondidas debaixo da chuva pesada — Preciso que vá para casa. Agora.
(...)
Kurapika viu Lena correr debaixo da marquise para se proteger da chuva e esperou ela já estar a uma boa distância do carro para poder sair. Atravessou a avenida sentindo a água entrar pelos sapatos e caminhou em direção aos homens. Ele também não trazia um guarda-chuva, mas naquela hora, aquele era o menor de seus problemas. Agora, sem o vidro do carro para lhe embaçar a visão, podia distinguir claramente o que já desconfiava: o sujeito que o confrontara na cafeteria estava ali, na sua frente, olhando diretamente para ele, como se o esperasse do mesmo modo que o esperara naquela madrugada insone.
Ele e sua dupla deram alguns passos, se afastando da porta e se aproximando de Kurapika. Quando a distância entre eles se encurtou, se posicionaram lado a lado, em uma tentativa de bloquear a passagem da calçada e o impedir de alcançar a entrada do ringue. Guarda-chuvas ainda em pé, a água correndo com pressa pelas margens da rua em direção aos esgotos, calçada totalmente deserta.
— Achei que eu tivesse sido claro — Temir, em seu terno branco, falou, a voz se sobrepondo ao barulho da chuva.
— Eu também achei que tinha sido — Kurapika respondeu — Sua tentativa de me intimidar não funcionou.
— Estou te dando um aviso. Desista do Bratva antes que alguém se machuque.
— E eu recomendo que me deixem passar.
— Isso não vai acontecer. Acho que vamos ter que resolver as coisas aqui fora.
O segundo homem, que até então tinha permanecido calado, afastou a jaqueta, deixando a cintura à mostra. Nela, o cabo de uma arma se destacava, presa na calça.
Os três ficaram parados, se olhando. A jaqueta do homem se manteve afastada da cintura, em uma ameaça de que a arma poderia ser — e, muito provavelmente, seria — sacada a qualquer momento e com total desembaraço. Temir, ao seu lado, tinha a mão dentro do bolso da calça, com a mesma postura ao mesmo tempo alerta e casual que demonstrara no encontro no café. Kurapika desconfiava que ele não carregava uma arma de fogo, mas sabia que isso não era motivo para não ser cuidadoso.
O homem armado então fez um gesto com a cabeça, indicando que Kurapika contornasse a esquina e entrasse em outra rua lateral. Ele sentiu seu coração acelerar, mas calmamente deu alguns passos para trás. Virou de costas e entrou na rua indicada.
Era uma passagem estreita, ainda mais estreita do que a viela onde ele havia estacionado. Ali não havia espaço para carros, e as calçadas abrigavam apenas latas de lixo imundas e escadas de incêndio.
Kurapika se virou novamente para os dois. Ao notar que dessa vez o embate seria inevitável, conjurou suas correntes, que surgiram presas em seus dedos e desceram até o chão, tão reais quanto a pistola que seu adversário carregava.
O homem da jaqueta arregalou os olhos e fez uma careta de espanto. Puxou a arma e, sem hesitar, apertou o gatilho múltiplas vezes na direção de Kurapika. O barulho dos disparos foi violento, um seguido do outro de maneira quase frenética.
Kurapika não teve tempo de se esquivar, mas levou as correntes para a frente e as girou no ar, rebatendo as balas uma a uma. Elas ricochetearam e acertaram as paredes. Ao menos um vidro se estilhaçou com os disparos.
O atirador seguiu apertando o gatilho, obrigando Kurapika a agitar suas correntes com ainda mais velocidade. Temir, por sua vez, tinha apenas o corpo para trás, imóvel, observando a ação com olhos vidrados.
Assim que ouviu o primeiro click que denunciava o fim daquele round de balas, Kurapika soube que teria alguns segundos para agir. O homem já tinha jogado para longe seu guarda-chuva e agora apressava-se em recarregar o tambor do revólver, mas antes que conseguisse concluir o procedimento, as correntes de Kurapika estalaram e acertaram sua mão, fazendo a arma cair. Ela deslizou até a avenida e mergulhou em um poça, longe dos três.
O sujeito perdeu alguns momentos atônito com aquele gesto, mas logo tentou alcançar algo nas costas, que Kurapika pensou se tratar de mais uma pistola. Então com um novo movimento ágil, o golpeou sem dar tempo de sacar a segunda arma. Suas correntes o atingiram com força nas costelas, o fazendo soltar um gemido de dor e cair com os joelhos dobrados na calçada.
No terceiro agitar das correntes, envolveu o corpo do homem e o puxou para a parede perfurada de balas. Ele bateu a cabeça e perdeu os sentidos na mesma hora.
Kurapika então se deu conta do segundo adversário, Temir, que permanecera afastado por todo o tempo. Quando seus olhos se encontraram, percebeu que a expressão vidrada de antes dera lugar a um sorriso amplo, de orelha a orelha.
Irritado, Kurapika chicoteou seus grilhões novamente, e elas fizeram a água espirrar ao se arrastarem pelo chão. Quando os elos chegaram até o homem, no entanto, ele estendeu a mão e os agarrou no ar, interrompendo seus movimentos e fazendo Kurapika crispar os lábios diante do gesto inesperado.
Ele puxou as correntes, tentando inutilmente fazer com que o homem as soltasse. Notou que sangue começava a escorrer da mão de Temir, se misturando à chuva, mas ele continuava sorridente. Impaciente, Kurapika saltou para mais perto e o acertou com um chute nos joelhos, finalmente conseguindo que ele abrisse os dedos ensanguentados.
Kurapika o chutou novamente, dessa vez no rosto, para que caísse para trás. Temir levou a mão ao nariz e gritou de agonia. Tentou se apoiar para conseguir levantar, mas as correntes vibravam no ar novamente para impedir que isso acontecesse.
No entanto, no meio do ato, uma dor perfurante atingiu Kurapika na perna direita, vinda por trás. Aturdido mais pelo acontecimento repentino do que pela dor em si, ele se virou. Viu o atirador de antes correndo com dificuldades na direção oposta a ele, mancando, a mão segurando as costelas. Ele virou em uma via secundária e o motor barulhento de um carro sendo ligado se juntou ao som da chuva, para logo se afastar.
Kurapika e voltou novamente para Temir, mas ele também já desaparecia de vista, correndo como podia em direção à avenida principal. Pensou em o seguir, mas refreou o impulso. Naquela noite, sua prioridade era voltar para o ringue de lutas. Ganhar acesso ao Bratva. E fazer isso antes que fosse tarde demais.
Então se apoiou na parede por um instante, voltando a se preocupar com a dor na perna. Notou a lâmina de uma pequena navalha presa na pele e criando um filete de sangue que descia diluído pela calça encharcada. Arrancou a arma e atirou para longe. Destacou entre as correntes aquela que pendia de seu polegar, cuja ponta terminava em uma cruz. A encostou na ferida, que em poucos segundos se fechou. Em seguida, desmaterializou as correntes, afastou os cabelos molhados do rosto e se dirigiu para a porta enferrujada.
(...)
O lugar ainda estava praticamente vazio quando Kurapika desceu as escadas até o subsolo. Ele não se incomodou de esperar, em um canto, a chegada de mais espectadores, apostadores e lutadores, tomando o cuidado de observar qualquer ação que lhe parecesse suspeita.
Os dois homens que acabara de enfrentar não apareceram em momento algum, mas ele não conseguiu deixar de pensar no que tinha acontecido. Em como o homem, que no primeiro encontro se apresentou como um simples mensageiro, havia parado suas correntes com as próprias mãos nuas. Não conseguia imaginar que uma pessoa comum conseguiria fazer isso sofrendo tão pouco dano assim.
O que o levava a crer uma coisa: Temir era um usuário de Nen. E de razoável habilidade. Certamente havia protegido sua mão, concentrando a aura em volta dos punhos para que conseguisse aparar o golpe com o mínimo de prejuízo possível.
Isso só não explicava por que não havia atacado em momento algum.
Tais pensamentos o deixavam ansioso, e ele subitamente sentiu uma certa urgência em andar logo com aquilo. Kurapika já era experiente o bastante para conseguir controlar esse tipo de sentimento, e sabia que uma boa estratégia podia ser demorada. Mas sabia também que planos mudavam, que táticas deviam ser revistas e que saber improvisar era necessário.
Se alguém de dentro já sabia quem ele era, talvez devesse acelerar seu processo de entrada no clube. Antes que mais pessoas soubessem de seus planos. Antes que mais empecilhos aparecessem. Nos próximos minutos, se decidiu pelo caminho que devia tomar e isso fez com que seus batimentos voltassem ao ritmo normal.
Seu nome foi chamado para o ringue apenas duas horas depois. Ele subiu para o tablado se sentindo particularmente mais consciente de tudo e de todos, uma percepção aguçada de que todos os olhares caiam sobre si.
Quando a luta começou, Kurapika deixou de lado toda a cautela com que lutara nas semanas anteriores e nocauteou o adversário — uma massa gigantesca de músculos deformados pelo boxe amador — ainda nos primeiros minutos, evitando sem problemas os golpes do oponente. A torcida uivou, estrondosa, com o resultado, mais do que ele jamais ouvira. O juiz precisou gritar em seus ouvidos para que ele conseguisse ouvir alguma coisa.
E quando entendeu que ele estava o fazendo descer do ringue, Kurapika replicou:
— Eu ainda tenho mais três lutas.
O juiz o encarou, primeiro espantado, depois entusiasmado de uma maneira quase obscena com a tenacidade do contendor que tinha em sua frente. Animado, ordenou que o próximo adversário se aproximasse.
O lutador que subiu ao ringue era ainda maior que o primeiro. Enorme e pesado, feito mais de gordura do que de músculos. Mas era ágil, e disparou contra Kurapika com a gana de quem achou que conseguiria derrubar em um só tapa o magricela que tinha como rival naquela noite.
Não conseguiu. E foi nocauteado tal qual o anterior, em uma luta que não chegara nem aos cinco minutos.
O mesmo se repetiu com o terceiro e quarto confronto, e Kurapika tinha noção da atenção que estava atraindo para si com aqueles combates sucessivos e de curta duração. Mas não se importou. O único momento em que titubeou no tablado foi quando viu que seu adversário era um jovem, talvez de sua idade ou até mais novo, a inexperiência estampada no rosto. Ele era o quarto lutador que enfrentava naquela noite e estava visível que aquela era talvez a primeira luta que o rapaz se envolvia na vida. Não havia técnica, nem força, nem ao menos o orgulho típico dos frequentadores de lá.
Sentiu pena do garoto e diminuiu a intensidade de seus golpes. O derrubou com tanta facilidade que temeu tê-lo machucado mais do que deveria. Detestou aquele clube pela falta de critério como aceitava e pareava os lutadores. Certamente aquele rapaz ainda se machucaria feio se insistisse no boxe clandestino como forma de ganhar dinheiro.
Kurapika desceu do ringue sendo quase empurrado pela multidão que o ovacionava, eufórica e barulhenta. Foi direto até o balcão de apostas, onde o homem que agendava as lutas o acompanhava com um olhar genuinamente estupefato pelo que tinha acabado de assistir.
— Parabéns, meu chapa, to impressionado! Andou treinando, não foi?
— Mais quatro lutas — Kurapika pediu, com firmeza.
— Ou, calma aí, campeão! — ele falou, levantando as mãos com as palmas viradas para Kurapika — Olha, não sei o que tu andou tomando-
— Para esta noite.
O agenciador entortou o lábio, sem conseguir esconder sua surpresa. O encarou desconfiado, e quando estava prestes a responder alguma coisa, foi interrompido.
— Não precisa. Está tudo bem, Gil. Apenas o dê o dinheiro pelas vitórias.
Kurapika se virou, procurando o autor daquela frase. Um jovem moreno, de rosto quadrado e olhos escuros, estava ao seu lado. Usava uma camisa de seda branca aberta no peito e um colar dourado, o que lhe dava verdadeiros ares de cigano. Os lábios, emoldurados por um cavanhaque fino, sorriam amigáveis.
— Você pode vir comigo, Kurapika.
