Título: O Axioma Rubik
Autora: Lab Girl
Categoria: Arquivo X, 11a temporada, M&S, case file, hurt/comfort, family
Advertências: Um certo sofrimento emocional, um pouco de violência (nada explícito demais)
Spoilers: Episódio 11x05 (Ghouli)
Classificação: PG-13
Capítulos: 1/?


Capítulo 1


As maneiras pelas quais você pode morrer são ilimitadas. Mas, sejamos realistas. Quantos de vocês realmente já pensou que seria em um apocalipse alienígena? Ora, ora. Para aqueles de vocês que levantaram a mão, sua hora chegou.

Os olhos de Fox Mulder foram para as etiquetas ao final do texto.

aliens, apocalipse, morte, praga

Um dos comentários no espaço logo abaixo perguntava, num tom confuso e desesperado,"Isso foi uma visão que você teve?"

Ele subiu novamente a página. Releu o título. Devemos Não Sobreviver No Futuro. Enviado por Rever.

O mesmo autor dos textos que ele andou lendo nas últimas horas ao escarafunchar o computador de uma das vítimas do último caso. Um blog que tratava de coisas estranhas e bizarras, aparentemente elaborado por jovens ou malucos. O nome da página era Ghouli net e havia textos ficcionais misturados a narrações de gente que teria visto a tal criatura com quatro braços e cauda, uma mistura improvável de Jurassic Park com Godzilla e um quê de Tubarão. O sujeito que haviam prendido por matar a mais recente vítima afirmava que a garota que dilacerou era o tal Ghouli e não só seu computador pessoal mostrava essa página adicionada aos sites favoritos como ele tinha acessado um dos textos 6 horas antes de cometer o crime.

Vasculhando a página, Mulder havia se pegado madrugada adentro imerso na leitura dos diversos textos ali postados. Tudo havia começado com o tal do Ghouli, mas progredira para outras histórias narradas em forma de micro contos que prenderam seu interesse. A maioria do autor que se identificava como Rever. Procurando no twitter, não encontrou o perfil de referência, então, concluiu que o usado era apenas parte do charme da assinatura. O cara era bom, tinha que admitir. Não parecia com um paranoico qualquer, estava mais um artista. Seus textos quase sempre vinham acompanhados de desenhos interessantes. Alguém que poderia certamente estar trabalhando em alguma editora de quadrinhos ou contos de ficção científica. Mulder gostava do estilo.

Ao ouvir os saltos ecoando no corredor anunciando a aproximação de Scully, ele fechou o laptop em cima da mesa do escritório. Olhou para ela sentar-se na cadeira em frente.

"E então, encontrou alguma coisa útil nesse site maluco?"

"Alguns relatos de avistamento do tal Ghouli aqui e ali, além de desenhos do monstro. Você viu ontem."

Ela balançou a cabeça. "Sim. E continuo pensando que a exposição a esse tipo de estímulo gerou alguma espécie de delírio ilusório que levou Richard Bing a assassinar uma garçonete indefesa no final do expediente."

"Sempre tão prática, Scully" Mulder sorriu. "Mas eu gostaria de dar mais uma sondada a respeito dessa criatura."

"O que pretende fazer?" As sobrancelhas dela se ergueram em clara suspeita.

"Quero falar com um dos escritores do blog."

Scully franziu a testa. "O que acha que vai conseguir com isso?"

"Se não compreender as razões que levam tanta gente a acreditar no bicho, ao menos saber se ele não é resultado de uma imaginação suficientemente fértil e talento para arte que alguém está usando para ganhar notoriedade e número de visualizações."

"Acredita que o responsável pelo site pode ter inventado tudo isso e fomentado a paranoia e delírio coletivos para fazer sucesso na internet? Faz sentido."

"Eu ainda estou tendendo a acreditar mais na primeira opção, mas a segunda não está descartada, em sua homenagem." Ele se levantou e deu uma piscada antes de sorrir para ela, carregando o laptop embaixo do braço.

"E como vai chegar ao responsável pela página?"

"Não quero o responsável. Quero o artista que fez os desenhos."

"O Bureau já conseguiu fazer a localização?"

"Sim, nossos hackers do bem já me forneceram nome e endereço."

"E de quem se trata?"

"Um tal Jackson Kramp. O endereço fica numa região aqui perto."

"Eu iria com você, mas tenho que concluir o relatório da autópsia."

"Tudo bem. Ligo assim que terminar de falar com o sujeito."

E com um aceno de cabeça, ele se foi. A casa não ficava muito longe. Em vinte e cinco minutos, Mulder estava lá. Era grande e simples, branca e com gramado em volta. O lugar era pacato. Ele subiu as escadas e tocou a campainha. Em menos de um minuto, um senhor por volta dos sessenta e alguns anos abriu.

"FBI, Agente Mulder. Estou procurando por Jackson, é o senhor?"

"Não, é o meu filho. Aconteceu alguma coisa? Ele não está metido com nada ilegal, eu posso garantir" o senhor falou, visivelmente preocupado.

"Aparentemente não, fique tranquilo. Só quero fazer umas perguntas sobre um site do qual ele participa com artigos e desenhos."

A expressão do senhor abrandou e ele abriu mais a porta para que Mulder entrasse. Por dentro, a casa era tão comum quanto do lado de fora. Uma casa normal, de uma família aparentemente normal. Seus olhos passaram rapidamente pelas fotos em dois porta-retratos sobre um móvel de madeira, um casal mais velho e um garoto adolescente. Pareciam uma família qualquer à exceção da idade dos pais, que deviam ter conseguido engravidar tarde.

"Jackson, venha até a sala, por favor."

A voz do senhor chamando o filho fez a atenção de Mulder voltar-se para ele. O homem ainda parecia preocupado e o agente sentiu-se quase na obrigação de dizer palavras que o tranquilizassem ao imaginar o que ele sentiria se um policial batesse à sua porta procurando seu filho. Então, a mera ideia provocou um aperto em seu peito, um desses a que ele já devia estar acostumado, mas não estava.

"Como eu disse, só quero fazer algumas perguntas. Seu filho não é suspeito de nada." Mulder disse, esperando que o outro não pescasse o por enquanto implícito.

"Jackson é um bom garoto" o pai disse, como se sentisse obrigação de advogar pela idoneidade do filho. "Ele só é introvertido, vive fazendo seus desenhos e escrevendo suas histórias no computador. É muito inteligente e isso não parece atrair muitos amigos, na verdade. Mas ele é incapaz de prejudicar alguém de qualquer maneira."

"Acredito que sim" Mulder meneou a cabeça.

Então um jovem de uns dezesseis, dezessete anos apareceu na porta da sala. Ao ver Mulder, o garoto hesitou em continuar avançando. Ele era magro, alto, tinha a pele clara e os olhos de uma cor que à distância Mulder não conseguia definir bem. Algo entre o castanho claro e o verde, talvez. Os cabelos, castanhos, não tinham corte e parecia que já por um bom tempo, cobrindo as orelhas dele. O adolescente usava um jeans surrado e uma camiseta cinza por baixo de uma camisa de mangas compridas de cor preta. Olhando para ele, parecia tímido e reservado, de poucas palavras.

"Jackson, este é o agente Mulder do FBI, ele quer falar com você a respeito do seu site, pelo que eu entendi."

Os olhos do menino brilharam com um lampejo de surpresa antes que ele deixasse de encarar o pai e olhasse para Mulder, que se aproximou um pouco mais dos dois.

"Gostaria de fazer umas perguntas sobre alguns dos seus desenhos que foram publicados na internet."

O garoto deu de ombros, como se fosse algo sem muita importância. "Tudo bem."

"Posso ver alguns dos seus trabalhos?"

Jackson meneou a cabeça. "Por aqui."

Mulder esperou que o dono da casa fizesse sinal para que ele acompanhasse o filho e foi atrás dele. O garoto passou por um corredor e adentrou uma porta à direita. Quando o agente entrou, logo atrás dele, percebeu tratar-se de um quarto de adolescente. Havia desenhos feitos a mão colados em uma das paredes, alguns de monstros e insetos. Havia uma aranha enorme com olhos pintados de verde. E, no meio deles, um retrato de uma mulher mais velha sorrindo.

"Minha mãe. Ela faleceu."

Mulder voltou-se para olhar para o garoto. "Sinto muito."

Jackson simplesmente lhe deu as costas e foi andando até uma mesinha de madeira com uma cadeira que ficava em frente à janela. Do lado oposto do quarto, havia uma cama de solteiro desarrumada. Um aparelho de som dividia o espaço sobre um móvel juntamente com uma tv e aparelho de DVD. Uma luva surrada de beisebol estava jogada no chão, junto a uma grande almofada azul.

"Você gosta de beisebol?" Mulder perguntou, curioso.

"Jogava quando tinha uns 6, 7 anos. Depois, não joguei mais?"

"Por quê?"

"Problemas de saúde."

Mulder percebeu que aquele era um tema no qual Jackson não gostava de tocar, então, decidiu concentrar-se no que era realmente importante. Porém, antes que pudesse dar voz à primeira pergunta que tinha ido ali fazer, o garoto o surpreendeu ao falar.

"Está aqui por causa do Ghouli, certo?"

Mulder meneou a cabeça antes de responder. "Você fez um desenho da criatura, está em seu blog."

"Fiz um esboço com base nos depoimentos de pessoas que disseram ter avistado o Ghouli."

"Você mesmo nunca o viu?"

"Não" Jackson negou com a cabeça também.

"Não fosse pelos desenhos, eu diria que o tal Ghouli não parece interessar muito a você. Os seus textos no blog não falam sobre ele."

"Gosto de escrever sobre outras coisas. Quanto aos desenhos, sempre gostei de desenhar e um dos caras do blog me pediu para fazer. Eu fiz."

"Simples assim" Mulder levou as mãos aos bolsos da calça, encarando o garoto que estava de pé diante da mesa onde um laptop estava aberto ao lado de um scanner e sobre a qual havia uma garrafa de água e alguns papéis e lápis próprios para desenho.

"É."

"Quem é o responsável pelo , Jackson? Você?"

"Não. Eu só posto lá. Não sei quem são os outros. Só falei algumas vezes com dois membros que já postavam antes de me convidarem para fazer parte.

"É curioso você fazer parte de um blog que se chama Ghouli e não se interessar pelo Ghouli, não?" Mulder insistiu.

Desta vez, Jackson o encarou. Ele estava calmo. Não parecia estar se sentindo pressionado, pelo contrário. Parecia bastante tranquilo. No entanto, Mulder sentiu algo estranho ao olhar nos olhos dele, como se reconhecesse algo ali… mas era impossível, tratava-se da primeira vez que o via.

"Tudo começou com o Ghouli, mas depois começaram a postar outras coisas na página. Tudo gira em torno de assuntos parecidos, na essência. É um canto para os solitários, paranoicos ou nerds que gostam de coisas esquisitas, como queira chamar."

Jackson desviou os olhos e Mulder sentiu aquela estranha e breve sensação ir embora. O garoto sentou-se na cadeira e abriu o site no laptop.

"As ilustrações fazem parte. É uma forma de chamar a atenção para o visual também. Eu acho que é legal."

"Eu também. Você desenha muito bem e seus textos são ótimos." Mulder comentou sinceramente.

Diante do elogio, Jackson ergue os olhos para ele por alguns segundos e Mulder viu o que pensou ser um esboço de sorriso, mas logo o menino voltou a olhar para a tela do computador.

"Eu sempre gostei das duas coisas. Desenhar e escrever."

"E tem potencial para as duas. Tanto que nunca pensou em alçar voos maiores?"

Jackson olhou para Mulder, intrigado. O agente, então, prosseguiu.

"Você se daria muito bem trabalhando em algum site ou editora de desenhos, quem sabe quadrinhos? E poderia se lançar como escritor de contos de ficção científica. Por que ficar preso ao anonimato de um site com pouca expressão na internet?"

Ele viu o garoto se ajeitar na cadeira, como se o que acabasse de dizer o deixasse incômodo de alguma maneira. E Mulder aguardou a resposta que veio na sequência.

"Talvez porque esse não seja o meu perfil. Prefiro ficar incógnita. Isto é, a menos que o FBI descubra meu endereço e bata na minha porta para me interrogar."

Mulder sorriu. O garoto parecia sincero e não estava assustado, além do que, apesar de introvertido, como o pai dele havia dito, Jackson era bem eloquente quando precisava.

"Então, já que o FBI descobriu a sua verdadeira identidade e bateu à sua porta, tenho que fazer esta pergunta: você entende o que é o Ghouli?"

Jackson olhou para ele como se fosse óbvio, arqueou as sobrancelhas num gesto que lembrou terrivelmente Scully aos olhos de Mulder antes de responder.

"É um monstro."

Mulder estreitou os olhos, tentando entendê-lo. "Real?"

"Bom, não sei" Jackson apoiou as mãos sobre a mesa, empurrando a cadeira para trás. "Eu nunca o vi, mas várias pessoas já relataram tê-lo avistado."

"Mas você acredita que ele é real?"

Jackson virou um pouco o corpo na cadeira, de modo que pudesse encará-lo sem ter que virar o pescoço. "É uma possibilidade extrema que eu não descarto."

Um outro sorriso dobrou as linhas em volta dos lábios de Mulder. Ele simpatizava com o garoto, e agora isso era evidente. O quarto, o fato de ser um jovem solitário em seu próprio mundinho aberto a hipóteses extraordinárias, o gosto por beisebol… Mulder percebia a identificação. Ele havia sido assim quando da idade do garoto. Mas, de repente, percebeu que talvez estivesse se deixando levar pela impressão causada por um adolescente que devia ter a mesma idade que seu filho. O aperto involuntário no peito voltou e ele precisou se concentrar em seu trabalho de novo.

"O seu desenho do Ghouli é a exata descrição feita pelo sujeito que prendemos ontem, ele atacou uma moça dizendo se tratar disto" Mulder sacou um papel dobrado do bolso do paletó e o abriu, exibindo o retrato falado que havia sido feito com a descrição da criatura. "Ele disse que foi atacado por essa criatura e que, por isso, reagiu e a matou."

Os olhos de Jackson observaram o desenho no papel por alguns minutos. Era um pouco diferente do que ele desenhou para o blog, mas, em comparação, era muito semelhante à descrição que as pessoas que já tinham visto o Ghouli faziam. Um estranho animal bípede com quatro braços com garras fazendo as vezes das mãos, uma cauda longa como de um criatura pré-histórica e uma cabeça que lembrava a de um tubarão, embora não tão comprida, com espinhos no alto das costas que mais pareciam uma corcunda.

"Ele não pode ter matado o Ghouli mesmo. Hoje de manhã o site recebeu um relato de avistamento na região sul da Virginia."

"Posso ver?"

O garoto tirou os olhos do retrato falado que Mulder guardou novamente no bolso do paletó e acessou a página da internet justamente em um depoimento recente.

Enviado por L.W. Wicker
26 de janeiro, 2018

Avistei o Ghouli hoje de manhã quando saí para fazer minha caminhada matinal. Ele não me viu, mas eu o vi. Estava lá, passou entre os arbustos que ficam ao lado da estrada interestadual, na altura do km 40. Pena que não estava com meu celular, teria sacado uma foto. Pensando bem, isso poderia ter feito o Ghouli vir atrás de mim. Talvez esteja procurando alguma coisa, ou alguém, aqui na região da Virginia.

Ok. Mulder já sabia sua próxima parada assim que terminasse de visitar os outros dois sujeitos que publicavam no site.

"Obrigado, Jackson."

"Então, é isso?" O garoto perguntou.

"Sim. Por enquanto. Se precisar que me responda mais perguntas, volto a procurá-lo."

"Está bem" o garoto fechou o laptop bem quando o pai aparecia na porta do quarto.

"Fiz café. Aceita uma xícara, Agente Mulder?"

"Não, obrigado senhor Krampler."

"É Van De Kamp."

Mulder sabia que devia ter soado descuidado de sua parte, mas, droga, não tinha conseguido gravar aquele sobrenome.

"Desculpe, Sr. Van De Kamp. Já estou de saída. Mais uma vez, obrigado pela colaboração."


Continua...


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