Título: O Axioma Rubik
Autora: Lab Girl
Categoria: Arquivo X, 11a temporada, M&S, case file, hurt/comfort, family
Advertências: Um certo sofrimento emocional, um pouco de violência (nada explícito demais)
Spoilers: Episódio 11x05 (Ghouli)
Classificação: PG-13
Capítulos: 2/?
Capítulo 2
"E então?" Scully perguntou assim que ele surgiu na sala do porão do FBI.
Ela estava sentada à mesa com o computador ligado. Mulder retirou o paletó, cansado, e colocou-o no gancho atrás da porta antes de andar até a mesa e sentar-se do outro lado.
"E então que os envolvidos com o site estão limpos. São três adolescentes, sendo que dois deles não têm nenhuma chance na vida e não querem nada além de um dia encontrar o Ghouli cara a cara, por isto criaram o tal site, na esperança de reunir relatos de avistamentos do bicho e um dia conseguirem topar com ele, e o outro é o único que teria algum motivo para usar essa história para se auto-promover."
"O dos desenhos?"
"Sim, ele mesmo."
"E...?" Scully arqueou as sobrancelhas do mesmo jeito que Jackson havia feito quando conversavam e Mulder não conseguiu evitar a comparação que fatalmente o fez pensar em William.
Os dois teriam a mesma idade. Jackson e William. Seu filho seria, tal como o outro adolescente, interessado em coisas estranhas ou sobrenaturais? Ele seria mais cético, como Scully? Ou seria aberto a possibilidades extremas, tal como o jovem Jackson Van De Kamp?
"Mulder?"
A voz de Scully o trouxe de volta ao mundo real. Mexendo-se na cadeira, Mulder procurou disfarçar seu desconforto. Não queria contar a ela sobre a forte impressão que o adolescente havia lhe causado, sabia que isso a faria sofrer pensando no filho deles.
"E não foi ele, Scully. É um garoto inteligente, tem talento e imaginação mas também tem os pés firmes na Terra. E não se interessa muito pelo Ghouli, só fez os desenhos porque os outros pediram. Ele gosta mesmo é de escrever contos de ficção."
"E isso não poderia ser motivo mais do que suficiente para tentar atrair público para o site? As pessoas entram pelo Ghouli, mas acabam lendo as histórias que ele escreve."
"O garoto prefere o anonimato."
"Mesmo assim, é mais interessante que 100 pessoas leiam seus contos do que 10."
Mulder suspirou. "Eu sei. Mas, acredite em mim, Scully, não é o caso dele."
Ela assumiu uma expressão analítica, observando-o com mais cuidado. "O que aconteceu? Parece que você se identificou de alguma forma com esse garoto."
"De certa forma" Mulder admitiu, sem querer revelar demais, no entanto. "Ele é mais como um nerd solitário que usa o computador para dar vazão a suas ideias e teorias. Gosta de encher a parede do quarto com os desenhos que faz sobre monstros e outras esquisitices. Quase como eu quando tinha a idade dele."
"Quantos anos ele tem?" Ela quis saber.
Mulder hesitou por um instante, mas não adiantava esconder, Scully podia descobrir sozinha com uma simples conferida na sua parte do relatório do caso que teriam que apresentar a Skinner. "Não sei ao certo, uns 16 ou 17."
Scully ficou em silêncio. Ele olhou para o rosto dela e detectou a suave mudança, a maneira como ela pareceu entender tudo.
"Mulder... sei que sou a última que deveria lhe dizer isso, tendo em vista que já passei por situações assim muitas vezes ao longo desses últimos 16 anos, mas talvez você esteja se deixando levar por uma identificação com..."
"William? Poderia ser. Mas, não neste caso, Scully. Não se trata disso, é que o garoto realmente não tem o perfil que procuramos."
"Mas existe a possibilidade."
"E eu não vou descartá-la até o final do caso. Prometo." Ele tentou parecer confiante. "Mas, pelo menos por enquanto, não é a linha a ser seguida para desvendar este caso."
"Então, o que você tem em mente?"
"O Ghouli, supostamente morto pelo cara que prendemos, foi avistado esta manhã na interestadual saindo da Virginia."
"O quê?" A expressão de Scully era típica de quem acabava de ouvir algo absurdo.
Levantando-se da cadeira, Mulder retomou seu ânimo. "Exatamente. E é para lá que o caso aponta."
Ela revirou os olhos antes de fechá-los e jogar a cabeça para trás. "Ah, Mulder. Tudo que eu quero agora é um bom banho e meu pijama."
"Tudo bem. Eu vou sozinho." Ele disse, virando-se a caminho da porta, puxando o paletó do gancho.
"Confesse, Mulder. Tudo o que você quer é reviver aquela experiência de caça ao Pé Grande do outro dia."
"Você me conhece, Scully." Ele sorriu para ela antes de se virar e sair pela porta.
Do corredor, ele ainda a ouviu suspirar antes de chegar ao elevador.
...
Estava quase escurecendo. O lugar era muito extenso para uma busca que levasse para o meio da floresta àquela hora. Antes que ficasse longe demais da beira da rodovia, Mulder fez o caminho de volta. Não havia encontrado pegadas nem o menor sinal de alguma espécie de animal maior do que um guaxinim. Nem nada que ajudasse a corroborar o depoimento de avistamento do Gholiu naquelas margens.
Caminhando na direção do carro estacionado à beira da estrada, ele ouviu o telefone celular tocar. Retirando o aparelho do bolso interno do paletó, reconheceu o número do Bureau e atendeu a ligação.
"Mulder."
"Agente Mulder, um Jackson Van De Kamp está procurando por você. Ele diz que é urgente e que não tinha seu contato direto."
Já entrando no carro, sentando-se no banco do motorista, ele apertou o telefone.
"Ele disse do que se trata?"
"Ele disse que só vai falar com você."
Algo estava errado ali. Mulder sabia. "Estou a caminho."
Desligando, ligou o carro e tomou a estrada de volta a D.C. Assim que chegou, foi direto para sua sala, onde encontrou Jackson sentado, à sua espera. A visão do garoto, sentado do outro lado da escrivaninha teve um impacto estranho que Mulder não soube explicar. Era como se estivesse vendo alguém de seu passado, mas a sensação logo deu lugar a outra. Mesmo de costas podia dizer que algo havia acontecido, os ombros do garoto estavam ligeiramente caídos, assim como a postura era a de alguém que carregava um peso grande nas costas.
Mulder adentrou o espaço e Jackson se virou para vê-lo. Ele tinha chorado. Isso podia ser dito sem dificuldade pelos olhos inchados e o rosto encoberto por uma tristeza que chegou a sentir como sua. Afastando aquela impressão, porém, Mulder avançou para mais perto.
"O que aconteceu?"
"Meu pai está morto."
Mesmo dizendo aquilo, e com a aparência inegavelmente afetada pelo fato, o garoto não parecia devastado como um jovem da sua idade estaria em tal situação. Era como se já fosse algo esperado, que não o surpreendia. Ou, talvez, fosse apenas sua imaginação, Mulder disse a si mesmo.
"Ele morreu? Como?"
No início da tarde, quando Mulder havia deixado a residência dos Van de Kamps e se despedido do pai de Jackson, o homem não parecia doente nem nada do tipo. Só podia ter sido um acidente ou…
"Ele foi assassinado."
Era uma afirmação séria. E feita com muita convicção.
"Como aconteceu?" Mulder quis saber se poderia ter alguma relação com o caso que estava investigando.
"Eu não sei. Logo depois que conversamos, eu passei mais ou menos uma hora dentro do meu quarto, escrevendo para o Ghouli net, e depois saí para comprar papel para desenho. Quando voltava para casa, vi o carro dele no meio da estrada, a frente esmagada contra uma árvore. Ele estava no banco do motorista, sem vida."
Mulder não sabia o que dizer. "Eu sinto muito, Jackson. Se não foi um acidente, você tem ideia do que possa ter acontecido?"
"Eu sei que não foi acidente. Alguém o matou e eu não sei porquê. Foi igual à minha mãe."
"Ela também morreu em circunstâncias parecidas?"
"Não. Ela morreu em casa. Disseram que ela se matou porque estava doente, mas eu sei que não. Ela me esperava voltar dos testes, tinha esperança de que eles parassem… ela não tiraria a própria vida sabendo que eu precisava dela."
O rosto do menino deixava ver uma angústia que pessoas da idade dele não deveriam conhecer ainda. Mas, apesar disso, ele era forte. Não parecia prestes a desabar ou revoltado. Parecia ter uma compreensão que poucos adultos teriam da situação.
"Você falou de testes. Que tipo de testes?"
Só então Jackson hesitou. Como se desse conta de que havia deixado algo que não devia escapar, ele suspirou e passou a mão pelos cabelos. Abaixou a cabeça e olhou para algum ponto da sala, menos para Mulder.
"Eu tenho uma condição especial. Desde os 7 anos, quando fui levado ao hospital por um acidente com inseto, passei os anos seguintes sendo submetido a testes e mais testes sobre a minha saúde. Eles só pararam depois que a minha mãe morreu, faz pouco mais de um ano."
Uau. Por aquilo Mulder não esperava. "E você acha que isso tem algo a ver com a morte dos seus pais?"
Por fim, Jackson conseguiu erguer o olhar e o encarou de novo. "Eu sei que sim. Não me pergunte como, mas eu sei. Eu sinto."
Ok. Mulder podia lidar com isso, ele próprio tendo vivido certezas que sentia mesmo sem prova concreta nas mãos. Mas aquilo era um outro assunto, que não tinha nada a ver com o caso que investigava no momento. Queria ajudar Jackson, mas também precisava solucionar o caso que tinha em mãos.
"Você me procurou porque pensa que eu posso ajudá-lo de alguma forma a descobrir quem fez isso com seus pais."
"Eu não sei" o garoto travou por alguns instantes. As mãos dele estavam apoiadas nas pernas, as palmas abertas para cima, e Mulder viu que tremiam um pouco. Ele se recompôs logo, no entanto, fechando-as com força. "Acho que sim. Alguma coisa me atraiu até aqui. Você é especialista em casos estranhos, não é? Essa coisa de Arquivo X."
O menino o olhou como se ele tivesse todas as respostas que procurava e isso mexeu com Mulder. De repente, ele queria ter as respostas para dar a ele. E não entendia a razão.
"Jackson, prometo ajudar você a desvendar a morte dos seus pais. Mas, acredito que a polícia local já esteja envolvida nisso."
"Eu não chamei a polícia. Não confio neles."
Então, era estranho que tivesse procurado por Mulder, não? Mas, como se lesse o pensamento do agente, o garoto tornou a falar.
"Sei que parece estranho eu ter vindo aqui, já que você também é um policial. Mas é diferente. Eu sei."
Sim, Mulder também sabia que aquele garoto era diferente de uma forma que o fazia identificar-se com ele. Então, o que Scully disse a esse respeito mais cedo voltou à sua mente, fazendo-o começar a duvidar de si mesmo e sua ligação com Jackson. Seria apenas por causa de William? Queria ajudá-lo, queria livrá-lo de qualquer suspeita porque o garoto o fazia pensar no filho?
Independente disso, Mulder tinha que ajudá-lo. Era só um adolescente perdido. Um solitário. Agora sozinho de verdade no mundo.
...
Nas 24 horas seguintes, o que tinha que ser feito, foi feito. Como ainda era menor de idade, Jackson foi enviado a uma instituição para menores. Ele não tinha mais parentes.
Mulder continuava a investigar o caso do Ghouli com Scully, mas ainda não tinham encontrado respostas além de que o sujeito preso pela morte da garçonete devia ser doido e a atacou num surto de delírio psicótico. E essa resposta não satisfazia Mulder nem um pouco. Ele sabia que tinha algo mais na história. Ao final da tarde, em vez de ir para casa descansar, foi visitar Jackson na instituição onde ele estava.
Ao entrar para vê-lo num dos dormitórios, o jovem parecia menos abatido do que Mulder esperava encontrá-lo. Estava sentado sobre a cama, rabiscando num papel.
"Desenho novo?"
Jackson ergueu os olhos do trabalho para registrar a chegada do agente.
"Talvez" ele respondeu simplesmente, voltando a rabiscar.
"Alguma chance de ser uma nova aparição do Ghouli?"
Jackson meneou a cabeça. "Desta vez não." Então, ele deixou lápis e papel de lado e o encarou. "E você, conseguiu pegá-lo?"
"Hum-hum" Mulder balançou negativamente a cabeça.
"Você foi até o lugar onde disseram que ele foi visto pela última vez."
O garoto era esperto.
"Sim. Mas não achei nada digno de nota além de pegadas que devem ser de guaxinim."
"Então, sem chance de fechar o caso com sucesso?"
"Depende do que chama de sucesso. No meu trabalho, os casos não costumam ter uma conclusão típica."
"Imagino que seja assim na esfera do paranormal. Uma porta sempre vai ficar aberta ao improvável."
Mulder sorriu sem querer. Aquele garoto o fazia lembrar terrivelmente seu espírito jovem de anos atrás. Mas estava ali por outro motivo. Então, sentou-se do outro lado da cama.
"Um outro sujeito disse ter sido atacado pelo Ghouli em um canteiro de obras ontem à noite enquanto trabalhava como vigia."
"E o que aconteceu?"
"O sujeito passa bem, não se pode dizer o mesmo da pessoa que ele agrediu."
"Aposto que ele descreveu o Ghouli como sendo a vítima da sua agressão, certo?"
"Certo" Mulder meneou a cabeça, sentindo orgulho do garoto. "O retrato falado é da mesma criatura, mas a vítima em questão é um homem muito humano. Minha parceira está realizando a autópsia bem agora."
"Você tem uma parceira?" Jackson perguntou com curiosidade. "Pensei que trabalhasse sozinho."
"Sim, a Dra. Scully é minha parceira há muitos anos na seção dos Arquivos X. Você vai gostar de conhecê-la."
"Desculpe se eu não pareço muito animado com a possibilidade de conhecer um novo médico na minha existência."
Mulder lembrou-se do relato dele sobre os testes médicos a que foi submetido por anos a fio. Tentou aliviar o clima. "Ela não é esse tipo de médica. Ela é do tipo legal, que está mais para cientista. Por isso trabalha comigo nos Arquivos X."
"Ela interpreta os casos de forma científica, então? Interessante."
"Sim, é. Muitas vezes ela conseguiu respaldo para as minhas impressões e teorias."
"Por mais que isso seja excitante, nem sempre a ciência pode provar tudo. O que não quer dizer que certas coisas não sejam potencialmente reais."
Sim, Mulder gostava do garoto. Ele tentou controlar o sorriso desta vez, ao passo que Jackson continuou a falar.
"E agora? Como pensa em conduzir o caso?"
"Bom, não temos muito com o que trabalhar no momento. Talvez seja só um caso de surto coletivo."
"Você não acha isso de verdade" Jackson afirmou, puxando o desenho de volta.
Não, Mulder não achava. Tinha algo ali e ele queria descobrir o que era. Seus olhos caíram sobre o papel que Jackson segurava e viu tratar-se da cabeça do Ghouli. A mandíbula estava aberta, as centenas de dentes afiados à mostra.
"Por que desenhou isso?"
"Não sei. Só senti vontade."
Mulder puxou o desenho para analisar de perto. Era impressionante, lembrava uma boca de tubarão faminto.
O garoto murmurou. "Se ele se alimenta de alguma coisa, é do medo dessas pessoas."
Algo estalou na mente de Mulder. Ele deixou o desenho de lado e se levantou, encarando Jackson.
"Você quer vir comigo?"
...
Ser do FBI às vezes tinha suas vantagens. O diretor da casa de menores permitiu que o garoto saísse por algumas horas com Mulder. Ele tinha feito o convite por dois motivos. Um, porque queria dar um pouco de distração a Jackson. Dois, porque gostava da companhia dele e achava que ele poderia ajudar. O modo de pensar do garoto nesse caso era muito bom. Que Scully não ouvisse seus pensamentos, mas era quase como ter um novo parceiro, um que tinha uma cabeça que trabalhava de modo muito parecido com a sua. O que era excitante, como se estivesse de volta aos tempos de escola e tivesse encontrado um novo amigo.
Os dois tinham ido visitar os cenários onde as pessoas que contaram suas experiências com o Ghouli no site diziam tê-lo avistado - curiosamente, sempre à noite. Eles contavam com a vantagem da luz pré-crepúsculo permitindo uma boa analisada em cada um dos pontos que visitaram. E, em cada um deles, não encontraram nada, nenhuma mísera evidência de que o Ghouli pudesse ter estado ali.
Em sua última parada, o fim da história parecia que seria o mesmo. Até que Jackson avistou alguma coisa no meio de um arbusto. Era um pedaço de papel, estava rasgado, mas na parte que sobrara ainda se via um esboço.
"Agente Mulder."
Mulder foi até ele e viu o que apontava. Retirando uma caneta do bolso, espetou a ponta no pedaço de papel, trazendo-o para perto para que pudessem ver. Era um desenho bem mal feito do Ghouli, mas podia-se dizer que era a tal criatura pelos traços característicos. Numa borda, algo estava escrito. Você é o mons- o resto não se lia porque a folha tinha sido rasgado bem ali. Mas a mensagem era clara. Você é o monstro.
Jackson, que estava logo ao lado, emitiu um assobio baixo. "Parece que o Ghouli não ficou muito satisfeito com o retrato."
Mulder riu. Então, seu celular tocou. Era Skinner, informando que um corpo havia sido encontrado num parque florestal sob jurisdição do FBI, e, ao que tudo indicava, a pessoa havia se matado, não sem antes gritar que era o Ghouli.
Desligando o telefone, Mulder viu o olhar atento de Jackson.
"Mais uma vítima do Ghouli."
O garoto era bom.
"Parece que sim. Tenho que dar um pulo no Parque Hover agora."
"Posso ir com você?"
Mulde havia pensado em deixá-lo de volta na instituição antes de se dirigir para a cena do crime, mas identificou um lampejo de esperança nos olhos do adolescente que o impediu de negar o pedido.
"Vamos."
Os dois partiram no carro rumo ao parque. O lugar era grande o suficiente para alguém se perder ali dentro com meros cinco minutos de caminhada caso não conhecesse bem os caminhos ou tivesse um mapa em mãos - e soubesse lê-lo, claro.
Guiados pelo guarda florestal que os recebeu, Mulder e Jackson chegaram ao ponto onde o corpo havia sido encontrado. Havia uma pequena aglomeração de pessoas ali, e, de acordo com o guarda Turner, três delas haviam presenciado o surto do sujeito que tencionava atirar nelas com um rifle até que, de repente, voltou a arma para o próprio peito e atirou.
"Ele gritava que elas eram o Ghouli e estavam atrás dele. Mas daí, de um minuto a outro, o cara entrou em parafuso totalmente e se matou." O guarda comentou com um tom trágico na voz.
Mulder viu uma mulher que fazia parte do pequeno grupo se aproximar. "Ele estava muito louco. Pensamos que estivesse drogado ou sob efeito de alguma coisa forte. Ele dizia que ia nos matar, que nós éramos esse monstro esquisito, mas, então, pareceu ver alguma coisa. Ficou com o olhar perdido em cima do nosso sobrinho e depois deixou a arma no chão, tirou um papel do bolso da jaqueta e olhou para ele uns instantes."
O homem que a acompanhava se aproximou também, completando a história de como tudo havia acontecido. "Pensamos em fugir nessa hora, mas ficamos com medo de que ele reagisse e... enfim, ele enfiou o tal papel de volta na jaqueta e murmurou alguma coisa, consternado, pegou a arma do chão e atirou em si mesmo. Foi bizarro. Assustador."
Mulder olhou para o garoto que acompanhava o casal e estava logo atrás deles. O menino não devia ter mais do que uns 15 anos, e algo que ele trazia pendurado no pescoço chamou sua atenção. Abriu espaço no meio do homem e da mulher e se aproximou do garoto.
"Isso é uma bússola com espelho?"
O menino abaixou o olhar para o objeto e, então, retirou-o do pescoço. "É, sim. Ganhei no Natal e hoje foi a primeira vez que usei."
"Posso?" Mulder esticou o braço.
"Claro" o garoto lhe entregou o objeto.
Mulder o analisou com detida atenção, um pensamento tomando forma em sua cabeça.
"Você acha que isso tem algo a ver...? Como?" A mulher perguntou, intrigada.
Sem tirar os olhos do aparelho, Mulder explicou. "Quando o espelho fica na posição em que forma um ângulo de 45° em relação à bússola, ele mostra a posição desejada da paisagem. Quando você posiciona a bússola a sua frente, vê alguns frisos que servem de mira e marcam o ponto no horizonte enquanto vê no espelho os graus dessa direção. É um recurso que torna possível traçar uma linha reta na paisagem. Em campos de altitude, por exemplo, é fácil se enganar e ficar dando voltas sem perceber. O espelho serve também para dar mais precisão quando usado sobre um mapa." Então, Mulder ergueu os olhos para as pessoas ao seu redor. "Mas parece que a vítima viu alguma coisa refletida no espelho quando olhou para o garoto, se a bússola estava pendurada aberta em seu pescoço do mesmo jeito que estava agora há pouco."
"Sim, estava" o menino respondeu.
"Como imaginei" Mulder murmurou, devolvendo o instrumento a ele.
Mais algumas perguntas e depois de um exame ocular superficial no corpo da vítima, o espaço foi evacuado com as devidas orientações até que o time de peritos chegasse ao local para sua remoção e coleta de possíveis evidências não detectáveis a olho nu.
Depois de ouvir o que cada testemunha tinha a dizer, Mulder já tinha um quadro quase formado na mente. Ao se ver a sós com Jackson, o jovem deu voz a seus pensamentos.
"E se o que o sujeito viu refletido naquele espelho foi o próprio reflexo?"
Mulder retirou do bolso a caneta onde havia espetado o papel colhido na cena onde haviam estado antes de se dirigirem ao parque e leu em voz alta, "Você é o monstro. Jackson, por acaso se lembra do nome usado no blog pela pessoa que deixou o depoimento sobre o avistamento do Gholi naquele lugar onde encontramos isto?"
Jackson estreitou os olhos, buscando recordar. "Se não me engano, era algo como T. T-bo, ou Thomp T-bo..."
"Thomas Thompson" Mulder falou, lembrando-se do nome no documento de identificação encontrado com o sujeito morto.
"Parece que o Ghouli não é exatamente o monstro desta história."
Mulder levou os olhos a Jackson e meneou a cabeça. "Todas as ocorrências deste caso apontam para pessoas que dizem ter visto e atacado o Ghouli, quando, na verdade, o alvo de seus ataques eram pessoas de carne e osso. O que diz que, talvez, elas estivessem vendo algo que não era exatamente o que pensavam ver..."
"Até que um deles viu o próprio reflexo."
"E percebeu que o Ghouli era ele mesmo."
"Você é o monstro."
E, naquela interação, em que um completava o raciocínio do outro, chegando à mesma conclusão, Mulder sentiu algo forte e vivo. Uma espécie de conexão com o garoto que o deixou intrigado, e, ao mesmo tempo, maravilhado. E isso, até certo ponto, o assustava, mas não tinha tempo para refletir sobre isso agora, tinha um caso para encerrar.
"Preciso ligar para a Scully" e, então, sacou o telefone e chamou a parceira para informá-la sobre o último corpo que teria que analisar.
Ciente de que ela teria uma bela dor nas costas ao final do expediente, Mulder sorriu para si mesmo, imaginando como poderia tirar vantagem da situação diante das imagens que percorreram sua mente de suas mãos massageando a pele macia e perfeita de Scully sob a luz do abajur do quarto.
Continua...
