Título: O Axioma Rubik
Autora: Lab Girl
Categoria: Arquivo X, 11a temporada, M&S, case file, hurt/comfort, family
Advertências: Um certo sofrimento emocional, um pouco de violência (nada explícito demais)
Spoilers: Episódio 11x05 (Ghouli)
Classificação: PG-13
Capítulos: 3/?
Capítulo 3
Na manhã seguinte, o relatório do Arquivo X - 112113, catalogado na letra G sob a rubrica "Ghouli", estava finalizado e na mesa de Walter Skinner. A conclusão do mistério: um monstro imaginário que algumas pessoas diziam ter visto em outras, quando, na verdade, elas próprias eram o monstro em que se haviam transformado. Uma analogia trágica ao fato de que, muitas vezes, somos aquilo que acusamos o outro de ser, sem olhar para nosso próprio reflexo.
Era a primeira vez em muito tempo que um caso terminava tão bem. E Mulder estava satisfeito por tê-lo resolvido. Scully, por sua vez, estava aliviada por não ter mais cadáveres para examinar e agradecida pela bela sessão de massagem da noite anterior.
Ambos os agentes estavam sentados do outro lado da mesa do superior, que, então, fechou o arquivo e olhou para eles.
"Muito bem. Bom trabalho."
"Obrigado" Mulder meneou a cabeça, no que foi acompanhado por Scully.
"Estão dispensados."
"Ah, senhor..." Mulder remexeu-se na cadeira, chamando a atenção de Skinner.
Scully, que já começava a se levantar, parou na intenção e deixou o corpo fazer contato com o assento novamente, olhando para Mulder com curiosidade, à espera do que viria.
"Agora que encerramos esse caso, existe outro em que eu gostaria de me envolver."
"Do que se trata, Agente Mulder?"
"De um garoto que conheci durante essa investigação, ele é um dos escritores do blog do Ghouli. Ele perdeu os pais em circunstâncias estranhas e eu gostaria de investigar isso a fundo. Pode estar relacionado a testes médicos aos quais ele diz ter sido submetido desde a infância. Desconfio que possa se tratar de um Arquivo X."
"Tudo bem" Skinner cruzou as mãos sobre a mesa. "Vocês têm meu aval para isso."
"Obrigado, senhor." Mulder se levantou, seguido por Scully.
Os dois agentes saíram do escritório de Skinner, andando pelo corredor a caminho das escadas que levavam ao subsolo do prédio do FBI - descartando o elevador pela maior privacidade que teriam para conversar.
"Por que não me disse nada sobre isso, Mulder?"Scully o questionou sobre o que havia acabado de ouvi-lo dizer ao chefe.
"Desculpe, Scully. Não tive tempo para comentar com você, entre as suas sessões de autópsia e meu trabalho de campo, o assunto acabou ficando em suspenso. Jackson pediu minha ajuda porque tem certeza de que as circunstâncias envolvendo a morte dos pais têm algo de incomum e podem guardar relação com os testes médicos aos quais ele foi submetido durante anos. Eu fiquei curioso, quero saber mais sobre isso."
"Você acha que ele foi mais uma cobaia na conspiração que estamos investigando esses anos todos?" Ela estacou no alto da escada.
Mulder virou-se para encará-la. "Sim. De alguma forma, acho que tem a ver, sim. É por isso que quero investigar."
Scully retomou o passo, começando a descer os degraus, e Mulder fez o mesmo.
"Pensei que o assassinato do pai dele tivesse sido um acidente."
"Logo que Jackson me procurou para contar que o pai tinha morrido, disse que desconfiava se tratar de assassinato. A mãe faleceu coisa de um ano atrás, embora tenham alegado se tratar de suicídio, o garoto está convicto de que ela não tiraria a própria vida. Nessa época ele ainda estava sendo submetido a exames que o afastavam da família por semanas, meses até. Depois que a mãe dele morreu, Jackson disse que nunca mais foi levado para ser submetido a nenhuma experiência médica. Agora que já fechamos o caso Ghouli, estamos livres para nos envolver nessa investigação."
Scully ficou calada até que chegassem à sala do porão. Então, sentou-se de um lado da mesa, esperando que Mulder sentasse do outro.
"Mulder, você acha mesmo provável se tratar de um Arquivo X ou está querendo se envolver nesse caso por outro motivo?"
Por causa de William. Sim, ele sabia que era essa a dúvida de Scully. E a princípio teve suas próprias dúvidas sobre sua motivação, mas agora sabia, sem duvidar, que não podia deixar de ajudar aquele garoto. E, sim, era por causa do seu próprio filho.
"Scully, se fosse William numa situação como essa, eu gostaria que alguém de confiança o ajudasse. Portanto, não posso negar a minha ajuda ao Jackson."
Scully o encarou por alguns minutos. O olhar dela, a expressão do rosto, diziam tudo. Ela entendia. E sentiu o apelo das palavras dele.
"Está bem. Vou acreditar nas suas boas intenções antes de ficar com ciúme de ter meu parceiro roubado de mim por um adolescente que desenha monstros e ajudou a resolver um Arquivo X sobre um."
Mulder riu, contente por ela descontrair o clima. "Não se sinta preterida, Scully."
"Só por que ele ajudou você a resolver o último caso?" As sobrancelhas dela se ergueram atrevidamente.
"O garoto é bom com coisas bizarras, isto eu devo admitir. Mas você, minha cara…" e ele inclinou-se um pouco sobre a mesa, murmurando numa voz provocante, "...é insubstituível."
Ele viu Scully corar por um breve segundo antes de fingir interesse no porta lápis sobre a mesa.
...
Três horas depois
11:21 A.M.
Mulder atravessou o grande corredor da instituição para menores seguido pelo suave eco de seus sapatos sobre o piso e uma opressão aguda que fazia seu peito parecer à beira de uma explosão. Os pensamentos sobrepunham-se em sua mente. Ele não queria permitir-se acreditar... e, ao mesmo tempo, a possibilidade era um precipício que o desafiava a saltar. Sem freios. Sem proteção. Se caísse, não haveria como evitar os danos.
Por sorte Scully havia sido chamada pouco depois que deixaram a sala de Skinner para ajudar na realização de uma autópsia na Academia de treinamento, em Quantico. Ela era a mais gabaritada para cobrir as especificidades do caso em questão. De outro modo, Mulder teria inventado qualquer desculpa para não deixá-la acompanhá-lo. Não neste momento. Não até que obtivesse as respostas. Se alguém tinha que arriscar se machucar, que fosse ele. Não ela. Não mais.
À medida que se aproximava do seu destino, Mulder sentia a respiração tornar-se mais irregular. Pouco antes de receber a chamada para ir até lá, enquanto navegava novamente no site em busca de um conto que já tinha lido e queria ter fresco na memória para perguntar ao garoto sobre alguns detalhes que lhe pareciam auto-biográficos, o texto de um mês atrás sobre uma visão apocalíptica chamou sua atenção de novo. Um que ele também já tinha lido antes, mas, por alguma razão, pegou-se relendo.
Só então, Mulder se deu conta de que as imagens narradas no texto eram muito familiares... algo que ele já havia escutado antes. Onde mesmo? E, então, o baque. Cabelos de fogo. Olhos azuis. Doença disseminada pelo mundo. Pessoas morrendo. Apenas ela não era afetada.
Essas visões não são minhas, Mulder.
A voz dela lhe dizendo essas palavras semanas atrás assaltaram-lhe a memória. E a noção de que estava diante de algo muito maior fez sua mente trabalhar furiosamente diante disso. Seus olhos, então, vasculharam a página em busca de um conto sobre um garoto com poderes sensoriais, como era mesmo o nome dele? Billy Mullen. Sim. E quase no final da história era revelado que o personagem era adotado.
Mulder parou diante da porta de acesso ao quarto já conhecido. E encontrou Jackson lá dentro, como imaginava. O eco que seus batimentos cardíacos produziam em seus ouvidos era quase ensurdecedor, mas, ao ver o menino, tudo pareceu ficar menos audível de repente.
O garoto estava sentado sobre a cama, nas pernas um caderno de desenho. Mas ele não desenhava nada. Parecia absorto nos próprios pensamentos. Sua expressão, que Mulder via de perfil, refletia isso enquanto ele olhava pela janela. E, então, não mais que de repente, sem sequer virar o rosto em sua direção, ele falou.
"Obrigado por vir."
"Olá, Jackson." Mulder entrou no quarto, esforçando-se por parecer calmo e no controle de seus próprios pensamentos e emoções.
Só então o rapaz virou o rosto para encará-lo. "Eu sei que viria de qualquer maneira, mas resolvi chamar."
"Sem problema. Imagino sua ansiedade agora que fechamos o caso do Ghouli. Com a sua ajuda, claro" Mulder sorriu brevemente. "Deve estar esperando notícias da investigação sobre o seu pai."
Aquela última palavra queimou sua língua assim que foi pronunciada, jogada no ar que os envolvia ali dentro.
Os olhos de Jackson responderam a pergunta antes mesmo de fazê-lo verbalmente.
"Sim."
Mulder parou bem ao lado da cama. "Minha parceira, a Agente Scully, vai analisar o relatório do exame que fizeram no corpo dele. Em breve teremos uma resposta segura."
"Vão confirmar o que eu disse. Alguém o matou. Ele não se mataria."
"Diante de uma confirmação, será possível dar início a um caso formal."
"Eu sei que se trata de um Arquivo X."
A certeza com que Jackson disse aquilo poderia ter assustado Mulder, mas não o fez. Porque tinha a mesma convicção que o garoto. Mas não queria garantir nada antes que pudesse confirmar suas suspeitas.
"Agora eu estou pessoalmente envolvido nisso. Vamos desvendar o que aconteceu com seu pai, Jackson."
Desta vez, a palavra não queimou como antes, mas deixou um gosto agridoce na língua de Mulder. O garoto meneou a cabeça antes de tornar a olhar pela janela. Lá fora, o dia estava claro e vibrante, os outros meninos estavam no pátio, conversando, rindo, jogando ou simplesmente aproveitando o sol.
"Por que não está lá fora também?" Mulder perguntou cautelosamente.
"Prefiro ficar aqui."
"Acha que os outros não vão entender você?"
Jackson deu de ombros. "Eu converso com alguns caras que dividem o quarto comigo, mas não me interessa o que pensam sobre mim. Sei que a maioria acha que sou estranho."
"Sinistro, talvez?" Mulder não resistiu à brincadeira referindo-se ao apelido que ele próprio havia ganhado na Academia do FBI, muitos anos atrás.
Jackson olhou para ele com a expressão neutra. Claro, o garoto não entendia a piada interna, então Mulder explicou.
"Eu mesmo sempre fui visto assim pelos meus colegas. O estranho, o esquisito... Mulder, O Sinistro. Era como alguns me chamavam."
A identificação que sentia com o menino parecia mais forte agora, à luz das últimas horas. Porém, Mulder procurou manter-se no prumo. Não queria se precipitar nem assustá-lo. No entanto, quando um leve sorriso surgiu nos cantos dos lábios do garoto, o agente sentiu o peito se expandir. Era bom tê-lo feito sorrir em meio ao caos que ele vivia.
"As pessoas gostam de rotular o que não entendem" Jackson disse, por fim, numa demonstração de maturidade que Mulder tinha visto poucas vezes na vida, menos ainda em alguém da idade dele.
Então, na brecha de seriedade, o agente viu a oportunidade para aprofundar o tema que o levava até ali.
"Fale-me sobre os testes, Jackson."
Os olhos do menino brilharam com uma faísca de dor e coragem. Mulder já sabia. Havia lido os textos do garoto naquele blog, e, mesmo antes de sua descoberta recente, soube sem dificuldade que se tratavam de escritos confessionais. A maneira que o adolescente havia encontrado de lidar com medos e angústias, sob um pseudônimo e o disfarce de se tratarem de mera ficção. Mas não eram. Aqueles escritos continham mais realidade do que Mulder queria acreditar ser possível um garoto da idade dele ter encarado em sua curta existência. Qualquer garoto. Mas, especialmente, aquele garoto.
Então, deu voz àquilo que também havia descoberto decifrando os textos auto-biográficos do menino.
"Você foi adotado, não foi?"
A expressão de Jackson não se alterou. "Eles não sabiam que eu sabia."
Mulder sentou-se na beirada da cama, apoiando a mão sobre o colchão, indicando que estava pronto para ouvir toda a história. E também porque sentia que suas suspeitas estavam mais perto de serem confirmadas do que quando entrou naquele quarto.
Continua...
