Título: O Axioma Rubik
Autora: Lab Girl
Categoria: Arquivo X, 11a temporada, M&S, case file, hurt/comfort, family
Advertências: Um certo sofrimento emocional, um pouco de violência (nada explícito demais)
Spoilers: Episódio 11x05 (Ghouli)
Classificação: PG-13
Capítulos: 4/?


Capítulo 4


Ele se sentia sozinho desde sempre. Foi afastado da família que tinha como referência ainda pequeno, aos sete anos. Isto porque ele nunca ficava doente. Nunca teve nem mesmo uma febre ou um resfriado. Até o dia em que foi picado por uma aranha e os pais correram com ele para o hospital. Lá, os médicos descobriram que ele era diferente. E, desde então, passou a ser submetido a análises que nunca paravam, ao contrário, progrediam em intensidade e duração. Assim, ele ficou muito tempo fechado num quarto de hospital. Depois, foi transferido para um outro lugar tão grande, branco e estéril, onde os testes tornaram-se mais e mais complexos e extensos, e, a partir daí, não viu mais seus pais por um bom tempo.

Ele sempre soube que era adotado. Embora o casal que o adotou nunca tivesse dito nada. Mas ele sempre soube. Como? Nem mesmo ele sabia dizer. Só sabia que… sabia. A partir de sua internação em um grande complexo de testes, por volta dos 11 anos de idade, começou a... ver coisas. Visões de pessoas, lampejos de gente que ele nunca havia visto, ou, pelo menos não se lembrava de tê-las visto, mas eram imagens recorrentes, levando-o a crer - e depois a entender - que se tratava, sim, de pessoas que ele havia conhecido antes. Talvez antes de ser adotado pelo casal Van De Kamp.

Eram imagens vagas, a princípio, soltas, sem nenhum contexto. Que foram se tornando mais vívidas com o passar dos anos. Aos 14, o rosto de uma dessas pessoas que aparecia em suas memórias era nítido o bastante para que pudesse ter certeza de que se tratava de uma mulher. Cabelos ruivos. Olhos claros. Azuis. Muito bonita. Dela, ele tinha armazenadas imagens em diferentes situações - sorrindo; chorando; dormindo; acordada, olhando para ele; o rosto assustado. A outra pessoa que costumava aparecer em suas visões nessa altura, ele já distinguia tratar-se de um homem, mas não tinha um arquivo muito claro nem muito vasto sobre ele. As imagens desta segunda figura eram mais distantes, porém, aos poucos, conseguiu vislumbrar nuances de um cabelo escuro... e ele era alto. Em suas visões parecia ainda mais alto, talvez graças ao ângulo pelo qual o via nessas imagens armazenadas em sua memória. E, toda vez que tentava se concentrar, esforçando-se por formar o quadro completo dessa pessoa, a imagem parecia se distanciar ainda mais, como se o homem estivesse indo embora... e ele tinha vontade de gritar, de chamá-lo de volta. Ei, espere! Não vá. Quem era? Ele não sabia, e, mesmo assim, toda vez que isso acontecia, sentia como se uma parte de si mesmo estivesse partindo, indo para longe. Deixando-o incompleto.

Só aos 15 anos conseguiu entender. Numa noite em que acordou ofegante, suando e com a impressão mais vívida de todas que já tivera dessas duas pessoas. Seus pais. Sim. Eles eram seus pais. Seus verdadeiros pais. A constatação, longe de confortá-lo por finalmente haver decifrado aquele mistério, serviu apenas para deixá-lo ainda mais angustiado. Onde estavam eles? Por que o haviam deixado para trás? A partir de então, tais perguntas tornaram-se a maior de suas inquietações, pois, ele sabia, sentia, que não havia sido uma separação voluntária. E pouco antes de completar 16, começou a sentir uma ligação estreita com essas duas pessoas de quem apenas se lembrava, mas com quem parecia dividir muito mais do que o seu DNA.

Os testes a que o submetiam diminuíam sua capacidade de visualização dessas imagens, o que o frustrava. Depois, percebeu que era só nas primeiras horas logo após cada novo teste. Após três ou quatro horas, ele conseguia se conectar outra vez com essas imagens e lembranças, mas nunca deixou que ninguém mais soubesse disso. Nem seus pais adotivos, nem seus captores. Sim, ele os considerava captores. Pessoas que o arrancavam de sua casa, de sua família, de seus amigos - dos poucos que se lembrava de ter.

Quando já parecia que aquela tortura nunca teria fim, um dia, não mais que de repente, ele pôde, enfim, retornar para o lado dos pais adotivos. Eles haviam se mudado para a Virginia. Uma tentativa de ficar longe do pesadelo vivido nos últimos anos. Sua mãe estava muito doente. Ela faleceu poucas semanas depois de ele voltar para casa definitivamente. Apesar da tristeza que passou a abatê-la desde suas primeiras internações, e que havia piorado no último ano de testes, ele sabia que a mãe não se mataria como a polícia concluiu. Overdose de remédios. Uma intoxicação. Ela queria morrer. Não, ele sabia que não. Mesmo com a angústia que ela vivia, esperando a cada dia que fossem bater à sua porta e levá-lo novamente por semanas, meses... como fizeram tantas vezes. Estranhamente, depois da morte dela, ele nunca mais foi levado a nenhum laboratório ou hospital.

No último ano, ele tentou retomar a normalidade da vida. Ou, o que era normal para ele. Apesar da inconsistência em sua escolaridade, tendo em vista todas as ausências por causa dos testes desde a infância, entrando por sua adolescência, ficava feliz por ter conseguido concluir os estudos sozinho e antes do tempo, sem precisar ir para a escola. No grande laboratório em que havia passado os últimos anos entre idas e vindas, havia recebido estímulo para buscar conhecimento. Ele sempre gostou de ler. Sobre tudo. Ciências, Matemática, História. E coisas estranhas. Era sua distração naquela prisão esterilizada. Alguns professores foram vê-lo. Faziam perguntas. Estimulavam sua curiosidade e testavam para ver até onde ele era capaz de chegar sozinho.

Foi assim que, aos 17, ele conseguiu ser aprovado com louvor no ensino médio sem sequer precisar cursá-lo - o pai adotivo havia insistido com o diretor da escola secundária local para que lhe aplicassem uma prova especial. Sim, ele tinha um QI acima da média. Poderia cursar a universidade que quisesse do país. Mas, para ele, interessante mesmo eram as coisas curiosas que descobria pesquisando livros e recortes de jornais velhos na biblioteca municipal e navegando nos pântanos da internet, onde conheceu histórias muito mais incríveis do que o fechado mundinho acadêmico poderia oferecer. Era o campo aberto de pesquisa do mundo. Fenômenos e mistérios que o interessavam muito mais do que qualquer outra coisa.

Desde muito cedo, tinha gosto e talento para desenhar. Começou aos 5 anos. E, durante sua longa estrada de testes, esse foi um mecanismo de escape. À medida que lia histórias e relatos incríveis sobre criaturas e acontecimentos sem aparente explicação lógica, destinou um caderno a desenhá-los. Tudo começou com ilustrações do Pé Grande, Monstro do Lago Ness, Homens Mariposa. Depois, vieram as histórias. Sua imaginação o levava a escrever espécies de contos sobre coisas inacreditáveis, sobrenaturais. Era como passava seu tempo recluso. Sabia que a maioria dos garotos da sua idade, quando eram nerds - e ele se considerava um - tinham como passatempo jogos ou histórias em quadrinhos. Ele tinha seus desenhos e seus contos. Aos 16 anos já somava mais de vinte cadernos só com esboços e pelo menos quatro só com escritos - e então decidiu deixar o papel e passar tudo para o plano digital.

Quando descobriu que as pessoas podiam se comunicar sobre esses temas na internet, sob anonimato, interessou-se. Encontrou um blog cuja proposta se encaixava naquilo de que ele mais gostava - desenhar e escrever sobre monstros, aparições misteriosas, criaturas sinistras, avistamento de seres estranhos e compartilhamento de experiências inusitadas. Começou comentando algumas seções do site até que, um dia, criou coragem e enviou um de seus desenhos digitalizados juntamente com um conto sobre um garoto solitário que nunca ficava doente, mas que um dia foi levado ao hospital após ser picado por uma aranha e se tornou vítima de testes indesejados. Era sua história. Mas ninguém podia saber. Ele usava o nickname Rever. Os administradores do blog gostaram tanto que, não só publicaram o texto, como o convidaram para fazer parte do site como um dos colaboradores. Assim, toda semana a partir de então, "Rever" escrevia seus contos sombrios, quase sempre acompanhados de algum desenho.

Escrever e contar suas histórias, colocar suas dúvidas e angústias para fora sob o anonimato de um blog de assuntos sobrenaturais tinha sido a forma encontrada para lidar com tudo de extraordinário que era sua vida. Imaginava que era como escrever um diário. Ou fazer uma auto-análise. Eram suas experiências retratadas nessas histórias, mas ninguém sabia, somente ele. Uma forma de partilhar a dor e os medos com pessoas que nunca saberiam quem ele era, que nunca desconfiariam que esses textos não tratavam apenas de ficção imaginativa, mas que continham muito de verdade. Da verdade por trás de quem as escrevia.

Os contos começaram com o "personagem" ainda garoto, quando de sua experiência com a aranha. Depois, ele resolveu criar outras histórias e, uma delas, de um personagem chamado Billy Mullen. O nome lhe veio à cabeça numa noite de chuva em que observava através da janela como o vento e a lua faziam os galhos da árvore em frente parecer pequenas criaturas ameaçadoras. Não saberia dizer de onde veio a ideia, mas algo em sua mente o fazia sentir uma forte identificação com aquele nome, ou partes dele. Seria de alguém do seu passado pré-adoção?

Enfim, tudo começou como relatos fantasiados de ficção. Até que, começaram a acontecer. As visões. Não aquelas de antes, que mais pareciam flashes da sua vida com os pais biológicos. Essas eram de outro tipo. Apocalípticas. E a partir daí, soube que não poderia mais escrever somente sobre histórias que tinha vivenciado na infância ou nos primeiros anos da adolescência. Ele precisava passar a mensagem. Comunicar-se com as pessoas. Porque se o que ele via era realmente verdadeiro - e ele sentia que era - precisava dizer aos que estavam lá fora também. E, especialmente, às duas pessoas a quem ele se sentia mais conectado do que nunca antes.


...


Instituição Para Menores Lar St. Clare
Washington DC

O agente despejou as palavras com muito cuidado.

"Antes de receber sua chamada pedindo que viesse, eu estava vasculhando seus textos no blog. À procura de um que já tinha lido, dei de cara com outro, que eu também li antes. Mas, desta vez, com outros olhos. É um dos seus textos publicados mais recentes. Sobre um desastre apocalíptico. Nessa segunda leitura, não me pareceu mais se tratar de nenhum conto fictício. Você viu aquilo, não viu, Jackson? Era um alerta."

O garoto olhou para ele em silêncio por alguns segundos. Mas, então, sentiu-se impelido a dizer a verdade. Não sabia por que, mas sabia que contar ao outro era a coisa certa a ser feita.

No entanto, antes que pudesse confirmar, algo aconteceu. Estranho. Inesperado. Jackson olhava para os olhos de Mulder e foi como se algo tivesse aparecido ali que ele não vira antes. Uma espécie de força, de magnetismo. Era... era como se ele já tivesse olhado naqueles olhos antes... mas bem antes de que o agente batesse à sua porta no dia em que foi fazer perguntas sobre o caso envolvendo o Ghouli. Ele os conhecia... Jackson conhecia aqueles olhos.

E tudo foi engolido por um clarão cegante seguido pelo zumbido que parecia querer romper seus tímpanos. O garoto levou as mãos às têmporas e, esforçando-se para controlar a reação, dobrou-se sobre o estômago.

"Jackson! Ei, Jackson, o que está acontecendo?"

O garoto ouviu a voz do homem, ele ainda estava ali, mas parecia falar a quilômetros de distância. Jackson queria sair daquele momento, voltar ao entorno. Mas não foi capaz. Quando se deu conta de que imagens corriam por sua mente, uma após a outra, imagens daquelas pessoas que ele não via já fazia tanto tempo... ele quis retê-las, precisava acessá-las antes que o momento passasse e tudo sumisse de novo...

"Nãããão!" ele gemeu.

E, então, concentrou-se o melhor que podia, tentando alcançar alguma das imagens. Até que uma delas parou. Como se ficasse retida por trás de suas pálpebras apertadas. E ele arfou. Era ele. Era o homem.

Quando abriu os olhos e puxou o ar, como se tivesse acabado de emergir de um breve afogamento, Jackson focalizou a imagem do agente Mulder à sua frente. Ele segurava seus ombros e tinha uma expressão aflita no rosto.

"Você está bem?"

Queria responder. Mas tudo o que Jackson conseguiu fazer foi olhar para ele, estupefato, e murmurar as palavras que lhe escaparam da garganta, onde seu coração agora parecia bater.

"É você."

"Sim, sou eu, o Agente Mulder. Estou aqui com você."

Ele não tinha entendido. E os lábios de Jackson se moveram levemente no que acreditava ser um débil sorriso antes de pronunciar a palavra...

"Pai..."


...


Hospital Central, Washington DC
02:23 P.M.

Como em tantas ocasiões em que estivera sentado em uma cadeira de hospital à espera de que Scully abrisse os olhos e falasse novamente com ele, o mundo de Mulder havia se reduzido ao espaço branco e antisséptico em volta. Assim como seu coração estava reduzido a um lampejo de esperança.

De pé, do outro lado da porta, olhou através do vidro. O garoto ainda dormia. Estava sedado. Atividade cerebral super estimulada. Por um acontecimento recente ou algum trauma. A médica havia dito. E Mulder sabia. Sem precisar de nenhuma outra comprovação. Aquele garoto, deitado naquela cama de hospital, inconsciente no momento, era seu filho. E ele estava assim porque tivera a mesma percepção.

Pai.

Ele o havia chamado de pai.

Os olhos de Mulder arderam, os cantos dos lábios ergueram-se lentamente. Sim, era o pai dele.

O som dos saltos ecoando no piso liso o fez afastar-se da porta, mas apenas deixou de olhar para o garoto deitado do outro lado quando sentiu a mão dela em suas costas. Então, virou-se. Scully o encarava com olhos gentis. A voz dela saiu com a mesma suavidade.

"Como ele está?"

Ela ainda não fazia ideia. E Mulder não sabia como contar a ela. Então, pegou-a pela mão e puxou-a até uma das cadeiras de espera. Ficou olhando para suas mãos unidas, em silêncio por um instante. Respirou devagar.

"Scully, quando Spender a procurou semanas atrás, você disse que ele tinha lhe dado algo por onde começar a procurar nosso filho. Um nome."

Assim que ele ergueu os olhos para encará-la, viu a expressão de Scully assumir algo de compaixão. "Ah, Mulder. Eu não pensei que esse garoto do Ghouli mexeria tanto com você."

"Por favor, Scully" ele insistiu, apertando a mão dela. "Você nunca chegou a me dizer. Eu também não perguntei depois porque achei que era melhor não saber ou me sentiria tentado a ir atrás dele. E você me disse que não precisávamos, que ele iria nos encontrar."

Ela meneou a cabeça devagar. "Sim. Ainda acredito nisso."

"E então?" Mulder fez um sinal de cabeça para que ela seguisse adiante. "Eu preciso saber agora."

Ela o observou um instante. Então, falou baixo. "Van De Kamp. É o nome da família que o adotou."

Os olhos dela estavam marejados. Mulder tentou controlar o impulso de abraçá-la e precisou lembrar-se de ir com calma.

"Mulder, o que isso tem a ver agora?" As sobrancelhas de Scully franziram levemente. Ela estava preocupada com ele.

Mantendo a voz o mais controlada possível, Mulder falou. "Você não teve mais aquelas visões depois que recebeu alta, verdade?"

"Não, não tive."

"E você confirma que essas visões eram de William?"

"Sim, tenho a mais absoluta certeza."

Mulder meneou a cabeça enquanto a olhava por segundos que poderiam se tornar minutos. E Scully via neles o mesmo brilho que costumavam adquirir quando o parceiro estava prestes a comprovar uma de suas teorias sem embasamento científico, mas que, quase invariavelmente, estavam certas. Por fim, ele falou.

"Preciso que dê uma olhada em alguns textos."

Scully o viu sacar o celular e acessar o blog para o qual o garoto que agora se encontrava internado naquele hospital escrevia. Mulder abriu página em um texto que falava sobre a probabilidade de a raça humana não resistir ao que viria no futuro, um pequeno conto sobre a mortalidade humana e que apresentava uma personagem de cabelos vermelhos observando, sobre uma ponte, pessoas doentes, infectadas e enfraquecidas, atordoadas pela visão de uma grande nave espacial acima de suas cabeças.

O coração de Scully deu um salto. Mulder abriu outro texto...

Quando entro em crise, eu transmito. Não sei por que ou como. Eu nem sempre conheço a mensagem. Mas eu sei que é importante. E é importante que ela seja o receptor. Mas a transmissão significa dor para ambos.

Por fim, o dedo de Mulder deslizou pela pequena tela, alternando para um último texto...

Há uma pequena esperança, e é por isto que estou expondo isso ao mundo. Eu acredito que não estou experimentando essas visões perturbadoras sozinho. Dentro delas, sinto uma conexão com outros. Seus rostos são nebulosos, mas estão lá, subliminarmente ou simplesmente fora da minha visão periférica. O homem com as sobrancelhas. O homem observador. A médica de olhos azuis. Eles podem ajudar a impedir que esses pesadelos se tornem realidade? Eles me encontrarão ou devo encontrá-los?

Os olhos de Scully correram pelas letras e, ao final da leitura, os lábios cheios se abriram e deixaram escapar um suspiro quase dolorido. Ela continuou olhando para a tela do celular, em choque. Levou a mão aos lábios, cobrindo-os, mas sem impedir que um outro suspiro se seguisse a outro e estes a um pequeno gemido. E as lágrimas vieram em seguida, descendo pelo rosto bonito.

Mulder pegou a outra mão de Scully e a segurou. Estava trêmula. Ele sorriu. Ela levantou os olhos do telefone para encará-lo.

"Mulder... é possível...?"

A voz dele saiu num sussurro. "Jackson é William. Ele é o nosso filho, Scully."

De repente, a visão dela escureceu e tudo se apagou. Quando tornou a abrir os olhos e recobrar a consciência, viu o rosto familiar de Mulder. Ele estava debruçado sobre ela e lhe acariciava ternamente o rosto.

"Eu desmaiei?" ela perguntou, a voz fraca.

"Sorte sua que já estávamos num hospital" ele riu de leve, tentando levantar o humor como era típico dele.

Só então, Scully percebeu que estava deitada em uma maca. A sala em volta parecia um ambulatório. Só havia os dois ali. Ela pegou a mão que ele passava por seu rosto e o encarou.

"Eu estou bem, Mulder."

"Sim, eu sei" o sorriso dele expandiu-se, a voz ainda suave, rouca e com uma inegável nota de felicidade.

Ela se lembrou. Estavam conversando, ele lhe mostrou a página daquele menino... como era mesmo o nome dele?"

"Jackson é William?" Ela fez a pergunta de súbito, como se tivessem acabado de retomar a conversa do ponto em que pararam antes que tudo escurecesse.

O sorriso deixou os lábios de Mulder, mas a expressão de contentamento seguiu no rosto dele. "Sim, Scully. Jackson Van De Kamp é nosso filho, William."

"Como... como pode ser? Como você soube?"

"Não foram só os textos no blog. Eu senti uma identificação com ele desde que o vi pela primeira vez. E depois, lendo as coisas que ele escreveu naquele site, contos sobre um garoto que passou uma infância e uma adolescência difíceis, percebi que eram auto-biográficos de alguma maneira. E num desses contos ele revela que o garoto era adotado. Foi o que perguntei a ele hoje quando fui vê-lo na instituição."

"Ele... ele se chama Van De Kamp?"

"Sim, meu bem" Mulder sorriu novamente e puxou a mão dela para um pequeno beijo. "A princípio eu não entendi direito, confundi o sobrenome, mas quando estive na casa dele, o senhor Van De Kamp me corrigiu. É o mesmo sobrenome que Jeffrey deu a você. E, diante de todas as outras similaridades, sei que não se trata de nenhuma coincidência."

"É o que parece" ela sussurrou, a voz e o coração enchendo-se de esperança.

"E ele me reconheceu, Scully." Os olhos de Mulder brilhavam agora de uma forma que ela nunca viu antes. "A crise que ele teve, que o fez parar aqui, foi justamente por uma espécie de tempestade mental enquanto conversávamos sobre a história dele. Ele me reconheceu. Ele me chamou de pai antes de perder a consciência."

Era demais para ela. Scully queria vê-lo. Precisava ir até ele. E quando tentou se levantar da maca, Mulder a reteve ali. Mas ela precisava. Ele tinha que entender.

"Quero vê-lo, Mulder. Eu preciso."

"Acalme-se. Você vai vê-lo. Mas, primeiro, vamos levantar com calma, está bem? Você teve um mal estar e precisa ir devagar daqui para a frente."

Ela não se ateve muito às palavras de Mulder, apenas deixou que ele a ajudasse a se levantar e calçar os sapatos, e, então, saíram juntos do ambulatório, voltando ao corredor onde estavam tendo a conversa antes que ela desmaiasse.

"O médico já autorizou a entrada de visitantes" Mulder informou, para alegria de Scully.

Mesmo que não tivesse autorizado, ela entraria no quarto do menino de qualquer jeito. Não era médica por nada.

Com Mulder logo atrás dela, guiando-a com a mão no fundo das costas, a presença quente e firme a apoiá-la, Scully permitiu-se mergulhar na sensação de conforto tão necessária assim que entraram no quarto e ela avistou o garoto deitado sobre a cama. Ele parecia bem, mas a imagem dele ali a assustou um pouco. De todas as formas que havia imaginado reencontrar o filho, aquela não era uma delas.

Sentindo as pernas dela fraquejarem, Mulder a sustentou com um braço firme na cintura.

"Ele está bem, Scully. Só está dormindo porque foi sedado para acalmar o cérebro que estava super ativo." Ele sussurrou contra a orelha dela.

Scully levou a mão ao braço de Mulder que estava em sua cintura, apertando-o sem tirar os olhos da imagem do garoto deitado, adormecido. Ele não se parecia com o que ela havia imaginado esses anos todos. O cabelo, que da última vez que ela vira não passava de uma penugem clarinha, era agora uma vasta cabeleira castanha. E ele era comprido, alto como o pai. Não tinha sobrado muito dos genes Scully ali, ela riu ao constatar, entre uma lágrima furtiva que lhe escapou do olho direito.

"Ele se parece com você."

"Você acha?" Mulder perguntou, sentindo uma onda de orgulho invadi-lo.

"Muito."

"Isso é bom?"

"Depende" ela virou o rosto para ele, "Se ele tiver herdado sua obstinação e senso de humor, talvez nem tanto."

Mulder abafou o riso, no que foi brindado com um dos sorrisos mais lindos que Scully já lhe oferecera na vida. Ela, então, voltou a atenção para o garoto na cama.

"Sim, é ele" ela murmurou. "Nas minhas visões, ou melhor, nas visões de William, eu cheguei a enxergar vislumbres dele. É ele, Mulder. Só pode ser ele."

Suas mãos se encontraram e se apertaram, os dois com os olhos fixos no menino. Mulder não tinha mais dúvidas. Não diante do que havia descoberto no blog, do que presenciou acontecer com Jackson no quarto do orfanato, e agora diante da confirmação de Scully sobre o relato da visão apocalíptica que ela chegou a compartilhar com o garoto. Ainda assim, ele forçou-se a ir com calma.

"Mesmo com todas as evidências apontando nesse sentido, vamos esperar as análises de DNA. Sei que não seria leal à Scully que eu conheço se não recorresse à ciência para amparar minhas conclusões."

Ela se virou para ele dentro do que havia se tornado um abraço de Mulder em sua cintura. "Eu tenho certeza que é ele. Mas você tem razão. É preciso seguir o protocolo."

"Eu me responsabilizei pela custódia temporária dele antes de tirá-lo da instituição e trazê-lo para cá. Já pedi ao médico que retirasse material genético dele para análise logo que chegamos. E me submeti também a coleta do meu. Os resultados devem sair logo."

Ele havia pensado em tudo. E Scully era grata por isso. Apertou a mão de Mulder com carinho para demonstrar.

"Se forem começar a se beijar, vou pedir que façam isso lá fora."

A voz do adolescente fez os dois se virarem para vê-lo de olhos abertos. Um suspiro de surpresa escapou de Scully e um sorriso enorme de Mulder. As linhas em torno dos lábios do garoto se levantaram ligeiramente, repetindo o gesto de Mulder. Por alguns instantes, os três apenas ficaram se olhando sem a necessidade de dizer uma palavra. E foi como voltar no tempo. Dezessete anos atrás. Os três também num quarto. Não de hospital. No antigo apartamento de Scully.

Até que o garoto quebrou o silêncio novamente. "Acho que cresci um pouco desde aquela ocasião."

Scully soltou uma risada misturada às lágrimas que agora caíam de seus olhos sem permissão enquanto Mulder sentia os olhos queimarem. Todos eles sabiam que ocasião era aquela.

"Você se lembra da noite em que nasceu?" Mulder perguntou, fascinado.

"Tenho uma lembrança. Seus rostos sobre mim. Sorrisos. Cabelo vermelho e olhos muito azuis. Homem alto de sobrancelhas grossas me olhando. Do mesmo jeito que me olha agora. Com algumas rugas em volta e cabelos brancos que não estavam aí antes, claro."

Mulder sorriu, sentindo-se um homem mais completo naquele instante. Seu filho se lembrava dele. Não só isso como o havia chamado de pai horas antes. Scully estava segura em seus braços e ele a tinha levado até William. Ou ele os havia encontrado. Não importava. Seu mundo estava completo agora e se resumia àquele pequeno quarto de hospital.


Continua...