Título: O Axioma Rubik
Autora: Lab Girl
Categoria: Arquivo X, 11a temporada, M&S, case file, hurt/comfort, family
Advertências: Um certo sofrimento emocional, um pouco de violência (nada explícito demais)
Spoilers: Episódio 11x05 (Ghouli)
Classificação: PG-13
Capítulos: 5/?
Notas da Autora: Demorei um pouco para atualizar esta fanfic, apesar de o capítulo já estar adiantado há algum tempo, mas por outros fatores... Enfim, comecei a escrever esta fanfic ainda antes do episódio 11x05 (Ghouli) ir ao ar, com algumas ideias que tive inspirada por alguns spoilers. Logicamente, o que veio a seguir na série não teve nada a ver com o que escrevi aqui, e nem era minha pretensão me aproximar de nada que o show fosse mostrar - até porque, escrever fanfic é exatamente tentar completar ou suprir algo de que fomos privados pela obra original.
Esta nota é para esclarecer que o foco maior em Mulder aqui é proposital, uma vez que sempre senti falta de uma ligação maior entre ele e o filho, coisa que a série sempre fez questão de omitir. Como Scully é a mãe, sem margem a qualquer dúvida, sempre tivemos mais dela com William e minha tentativa aqui foi realmente a de reaproximar a família através de algum laço entre Mulder e William - logicamente, não descartando a pobre da Scully da equação! Afinal, até mesmo nesta fanfic, só chegamos aqui por causa da conexão entre ela e o filho. Então, pensei que seria a vez de Mulder também ter uma ligação com o filho, mesmo antes de saber quem ele era.
E foi isso que busquei explorar até aqui, e também nos dois capítulos que virão a seguir e que já estavam escritos na época do pequeno hiato que tivemos no meio dessa temporada 11 do revival (e por que eu não os postei antes se já estavam prontos? Não me perguntem, perguntem ao meu perfeccionismo que sempre achava coisinhas aqui e ali para corrigir até o ponto do desânimo e fui deixando pra lá xD ) mas aqui está, finalmente!). No tocante aos capítulos que virão daqui para a frente, vou deixar minha imaginação continuar a me guiar sem, na medida do possível, me influenciar pelo que seja lá que vão fazer no episódio final. Quero me manter dentro do pequeno universo que pensei para Mulder, Scully e William nesta fanfic.
Capítulo 5
Tirar Scully daquele quarto foi mais difícil do que teria sido impedi-la de entrar nele. E o próprio Mulder não teria saído se não fosse pensando nela. No bem estar dela. Ver o filho depois de todos aqueles anos, se essencial por um lado, por outro, mexeu muito com as emoções de Scully, e tendo saído recentemente de uma crise convulsiva que chegou a levá-la ao hospital, somado ao acidente de carro, Mulder não queria arriscar a saúde dela. O desmaio ao revelar a verdadeira identidade de Jackson tinha sido alerta suficiente para ele. Não queria que ela tivesse qualquer tipo de mal estar novamente.
Por isso a chegada da enfermeira no quarto de Jackson foi providencial. Mulder teve que insistir com Scully para deixarem o quarto quando a profissional recomendou que o garoto descansasse o máximo que pudesse até que o médico avaliasse a situação e se seriam necessários novos exames.
Mulder não deixou de ver o ligeiro desconforto transparecer na fisionomia do garoto e entendeu perfeitamente. Ele havia falado de testes… não devia ser nada agradável para ele estar num hospital e muito menos ser submetido a exames. Mas tentou confortá-lo da melhor forma que pôde.
"Vai ficar tudo bem. Você está bem. Nós estamos aqui e não vamos embora." Mulder murmurou com um meio sorriso, recebendo o mesmo gesto do menino deitado na cama.
"Temos muito que conversar" Scully falou, a voz afetada pela emoção enquanto olhava para Jackson e apertava a mão dele com carinho. "Vamos ter tempo para isso."
O garoto meneou a cabeça antes que a enfermeira pigarreasse, pedindo de maneira educada para que deixassem o menino repousar. E assim, agora se encontravam do lado de fora do quarto, sentados nas mesmas cadeiras onde estiveram antes que Scully soubesse o que Mulder já sabia - que Jackson Van De Kamp era William - e desmaiasse ante a intensa revelação.
Os dois ficaram sentados ali, partilhando um silêncio cúmplice enquanto mantinham a vigília do lado de fora do quarto de seu filho. O menino que durante tanto tempo… por anos... habitou os pensamentos deles e mesmo quando não verbalizavam isso, ambos sabiam. Sabiam que o outro pensava naquela vida que haviam criado juntos e que não puderam reter ao seu lado. Sabiam que nenhum dos dois jamais esqueceria.
"Creio que nosso filho nos deixou um vazio que nunca será preenchido." Mulder vaticinara uma vez. E não estava errado. Somente agora aquela profecia acabava de se romper. E ele nunca esteve tão feliz por estar errado.
"Ele voltou para nós, Scully."
Havia um sorriso embutido nas palavras dele. Um que transparecia nos lábios cheios e bonitos. Ela o encarava, um brilho de felicidade mesclado com um pouco de apreensão nos olhos azuis.
"Ele veio preencher nosso vazio, Mulder?" Ela quis saber, como se precisasse que ele confirmasse isso.
Mulder balançou muito de leve a cabeça, o olhar quebrando a conexão com o dela pelo mais breve instante antes de retornar a encará-la. "Eu quero acreditar, Scully."
Ele não precisava dizer mais nada. Ela também queria. E recostou o corpo cansado, física e emocionalmente, no dele. Os braços de Mulder a receberam e abarcaram com carinho e solidez, como sempre naqueles 25 anos. Era a única coisa certa em meio ao caos de suas vidas. A presença firme e sólida um do outro, de onde extraíam conforto e segurança. E era tudo de que precisavam agora. Um do outro. Para reafirmar que tudo estava bem. Que sua família estava inteira outra vez.
Mesmo em meio à felicidade e à certeza de que fariam de tudo para permanecer unidos, era inevitável que as dúvidas aparecessem. E foi Scully a primeira em verbalizá-las.
"Como vai ser agora?"
"O que quer dizer?"
"Se ele é nosso filho, e os pais adotivos morreram… ele está sozinho no mundo, Mulder. Não podemos deixá-lo voltar para aquela instituição. Ele precisa ficar conosco."
"Concordo" ele meneou a cabeça, acariciando os cabelos dela gentilmente com uma das mãos. "Por enquanto estou com a custódia provisória dele. Estava só esperando o resultado do DNA para saber como agir."
Scully afastou o rosto do peito dele e o encarou. "E se ele não quiser ficar conosco?"
Era uma possibilidade na qual Mulder não havia pensado até agora. "Acho que pela reação dele 5 minutos atrás naquele quarto, isso é altamente improvável. Ele se lembra de nós, Scully."
"Mas não sabe por que o demos em adoção."
Aquilo ainda a angustiava e a expressão dela não deixava margem à dúvida. Mulder tratou de tranquilizá-la.
"Talvez ele saiba. Ou, se ainda não sabe, como você disse lá dentro, vamos ter tempo para conversar. Ele vai entender que nós não o abandonamos, e sim, fizemos um sacrifício pensando no melhor para ele."
"Assim espero" Ela suspira, encostando a cabeça no ombro dele e fechando os olhos.
Scully estava cansada e Mulder só queria que ela descansasse. Os últimos dias foram cheios de autópsias e ela, ainda naquele mesmo dia, teve que fazer uma e depois a viagem de Quantico ao hospital, as emoções intensas que se seguiram… Mulder depositou um beijo suave no topo da cabeça ruiva, aspirando o cheiro delicado de xampu.
Dentro de cinco minutos, ela estava ressonando. Bom. Ele a admirou, tão em paz e relaxada, ainda que fosse por um breve cochilo, e só desviou o olhar quando escutou o som de passos leves se aproximando. Reconheceu o médico que atendeu Jackson e estava cuidando dele. O homem mais velho, de cabeça grisalha, parou diante deles e fez um sinal com a cabeça.
"Agente Mulder, podemos falar?"
Com cuidado, Mulder acomodou a cabeça de Scully contra o encosto da cadeira, sem acordá-la, e foi ter com o médico. Os dois caminharam alguns passos pelo corredor, parando próximo à porta do quarto de Jackson.
"O resultado dos testes de DNA que pediu ficaram prontos" O Dr. Bowman estendeu um envelope branco.
Mulder o pegou nas mãos, mas os olhos subiram novamente para encarar o médico. Algo pareceu ficar preso em sua garganta e ele levou alguns segundos para respirar e perguntar. "E?"
"E deram positivo."
O coração de Mulder disparou contra o peito. Ele já sabia. Mas ter essa certeza confirmada pela ciência trazia uma emoção diferente. Piscando, tratou de manter a postura e voltou a se dirigir ao médico.
"Quando ele terá alta?"
"Amanhã pela manhã. Até agora, segundo a observação, ele tem progredido bem. Não há nada de errado com o cérebro dele, a não ser a atividade acelerada que experimentou nas últimas horas, antes de dar entrada. Desde então, tem voltado ao normal e parece que não haverá nenhuma complicação."
Mulder respirou, aliviado. Porém, o Dr. Bowman voltou a falar, fazendo essa sensação durar menos do que esperava.
"É sobre a sua parceira que quero falar."
Os olhos de Mulder piscaram, confusos. "O que tem ela?"
"Conforme seu pedido, fizemos alguns exames nela por causa do desmaio."
"E não foi só um mal estar?" Mulder quis saber, já temendo que algo pior pudesse estar acontecendo com Scully, algo que ele não pudesse evitar, revivendo o passado em uma fração de segundo.
"Não, Agente Mulder" o Dr. Bowman estendeu outro envelope. "O mal estar dela tem um bom motivo. Sua parceira está grávida."
O quê? Como?
Bem, como ele sabia dizer. Mas, como era possível? Mulder ficou paralisado por um momento, sem reação. Scully grávida...? Seria possível? Bem, segundo o médico e o teste que lhe apresentava, sim. Sem conseguir articular palavra, ficou em silêncio enquanto o Dr. Bowman falava.
"Como a Srta. Scully já tem uma certa idade, fora da curva em que uma concepção natural é mais comum, será preciso fazer um acompanhamento rigoroso dessa gestação. Eu recomendo que ela dê início o quanto antes."
"Sim, cl-claro" Mulder balbuciou, ainda processando a notícia. "Obrigado."
Despedindo-se, o médico se afastou, deixando Mulder com os dois envelopes nas mãos. Que atestavam que ele era pai. Duas vezes. Virando o corpo lentamente, ele espiou pelo vidro da porta do quarto onde William estava. O garoto estava deitado sobre a cama, adormecido. Seus olhos, então, buscaram a imagem de Scully, pequena e encolhida na cadeira de espera, os braços cruzados protetoramente sobre a barriga... como se ela já soubesse. Ou, talvez, sentisse. Inconscientemente.
Mulder sorriu, sentindo os olhos arderem. Não era possível que tivessem tamanha sorte, era? Ele não sabia o que dizer a si mesmo. Então, deixou-se apenas sentir aquela onda quente que se apoderou de todo seu ser, aquecendo seus dedos que tocavam os envelopes, e sua garganta.
Dia seguinte
Farrs Corner, Virginia
9:36 A.M.
Na manhã seguinte, como o médico havia dito, Jackson teve alta. Foi com surpresa que o garoto recebeu a notícia de que não voltaria para o lar de menores, e sim, iria com Mulder e Scully para casa.
Casa. Era uma palavra que o jovem rapaz já não conseguia associar a nenhum lugar. Mas, ao chegarem ao distrito de Farrs Corner, na Virginia, a propriedade cercada de verde, afastada de tudo, chamou sua atenção. A fachada branca da casa com varanda na frente se parecia com a de alguns filmes antigos que ele já tinha visto. O lugar era calmo, a brisa soprava, balançando o gramado em volta. Se tivesse que definir o que via em uma só palavra, seria paz. Tudo ali parecia falar disso. Calma. Silêncio.
Assim que o carro que Mulder dirigia parou na frente da velha casa, os três ocupantes do veículo desceram. Jackson não tirava os olhos do entorno, como se estivesse absorvendo cada detalhe. Scully sorriu.
"Gostou?"
"Muito. É o tipo de lugar onde eu costumava viver com os Van De Kamps no Wyoming, antes de… bem, antes de tudo mudar" o garoto balançou a cabeça, preferindo deixar o assunto de lado.
Mulder e Scully trocaram olhares. Ela sabia porque ele havia lhe contado a história - de como o filho deles, ainda criança, passou a ser objeto de testes e exames médicos numa idade em que deveria estar correndo e brincando num lugar parecido com aquele, mas foi impedido disso graças a sua condição especial. E a vida dele e dos pais adotivos nunca mais foi a mesma.
Ainda pesava para Scully ter feito a mais dura escolha de sua vida pensando em poupar o filho de tudo aquilo que, fatalmente, ele viveu. Talvez não da forma que tivesse vivido caso tivesse ficado com eles. Teria sido muito pior, ela sabia. Mesmo assim, doía-lhe saber que seu sacrifício não foi suficiente para dar ao menino a vida feliz e tranquila que ela imaginou.
Sentindo a mão de Mulder em seu ombro, ela automaticamente pousou a sua sobre a dele, num gesto cúmplice de conforto. Foi ele quem rompeu o clima tenso que se instalava, dirigindo-se ao garoto.
"Então, não quer conhecer lá dentro?"
Jackson meneou afirmativamente a cabeça, parecendo animado com a perspectiva.
"Claro."
"Vamos entrar."
Mulder tomou a dianteira, guiando Scully e o filho para a casa. Subiram os degraus da varanda e ele abriu a porta da frente. O lugar se iluminou com o sol da manhã que entrou, trazendo consigo uma aura de renovação. E Mulder agradeceu por isso. E, de repente, a visão de Scully, William e a criança que ela carregava dentro dela, ali, junto com ele, naquela casa, o fez interromper os passos e parar ao lado da janela, ficando simplesmente a observá-los com fascínio.
Scully se voltou para o garoto que olhava cada detalhe da decoração - o velho sofá com a manta xadrez sobre o encosto, as estantes cheias de livros e fitas VHS que Mulder colecionava, os recortes de jornal pregados nas paredes, a televisão e o controle sobre a mesinha de café cuja superfície dividia espaço com um pacote amassado de sementes de girassol e uma latinha de goma de mascar de hortelã, esta última deixada por ela em sua última visita.
Da sala, era possível avistar a cozinha que ficava aberta - não havia porta separando a área da sala. Havia uma mesa de madeira com cadeiras do mesmo material, e do outro lado uma bancada abaixo da janela, cheia de utensílios e alguns itens como pó de café e embalagens de pão e biscoitos podiam ser vistas.
A decoração era, essencialmente, masculina. Mas era possível notar o toque de uma presença feminina aqui e ali, especialmente porque, nas últimas semanas, Scully vinha passando mais e mais tempo na casa. Então as coisas estavam mais em ordem do que costumavam ficar quando ela não aparecia com tanta frequência. E apenas uma ou outra peça de roupa de Mulder, como uma jaqueta e uma velha camiseta cinza se encontravam por ali, penduradas num cabideiro junto a um casaco e um guarda-chuva que ela havia deixado lá.
Mulder, particularmente, preferia quando ela também morava ali e as coisas eram menos a cara dele e mais a cara dos dois, com os itens de decoração que ela escolhia e o perfume dela que ficava sempre no ar. Aos poucos, porém, as coisas estavam voltando a ser como antes. Ele esperava que definitivamente.
Foi Scully quem rompeu o breve silêncio. "Você está com fome, Jackson?"
O garoto deixou de admirar o espaço e olhou para ela. "Na verdade, não."
Mulder viu Scully apertar os lábios, pensando em algo que poderia oferecer ao filho, mas não conseguindo. Então, interveio.
"Quer fazer o tour pela casa agora ou prefere descansar? Tem um quarto disponível no final do corredor, se for o caso."
"Não me leve a mal, mas eu me cansei de descansar, todas aquelas horas sedado no hospital."
"Claro." Mulder entendeu. Olhou para Scully e a viu aflita para saber o que fazer, como agir agora com o garoto para deixá-lo à vontade.
Aproximando-se da parceira, colocou as mãos sobre os ombros dela e olhou para Jackson, ali parado, no meio da sala. Era estranho, e, ao mesmo tempo, familiar. Decidiu que o melhor era deixar que o próprio filho decidisse.
"O que gostaria de fazer agora?"
Jackson os encarou sem hesitação. E disse, "Podemos conversar?"
Scully piscou, olhou de relance para Mulder antes de responder. "Claro."
Então, ela segurou - apertou - a mão de Mulder na sua, como pedindo coragem, e o puxou consigo até o sofá, sentando-se em um dos cantos, enquanto ele sentou-se ao lado dela, no braço estofado.
O garoto permaneceu de pé, olhando para os dois adultos.
"Sente-se." Mulder apontou a outra ponta do sofá.
Sim. Era hora de terem a conversa. A que esperavam para ter havia dezesseis anos.
Continua...
