Título: O Axioma Rubik
Autora: Lab Girl
Categoria: Arquivo X, 11a temporada, M&S, case file, hurt/comfort, family
Advertências: Um certo sofrimento emocional, um pouco de violência (nada explícito demais)
Spoilers: Episódio 11x05 (Ghouli)
Classificação: PG-13
Capítulos: 6/?


Capítulo 6


O garoto não saberia dizer por quanto tempo esperou aquele momento. Talvez toda a sua vida? Estar diante de seus verdadeiros pais, falando com eles - escutando o que eles tinham a dizer. Sabia que esse dia chegaria, mas não imaginava que fosse acontecer tão cedo. Ouvi-los narrar como sua chegada ao mundo aconteceu, toda a maravilha e o terror que sentiram desde o momento em que souberam de sua existência, era assombroso e esclarecedor.

Ele agora entendia por que passou tudo que passou. O que era. Por que era assim. E entendia as razões que os fizeram deixá-lo aos cuidados de uma outra família. Os Van De Kamps. E sabia agora que por anos seus pais biológicos não souberam quem o havia adotado, descobrindo o fato apenas recentemente, após os episódios de crise e convulsão que ele havia dividido com sua mãe.

Mãe. Era reconfortante falar dela assim. Ele já vinha pensando nela nesses termos nos últimos tempos. Nutrindo um carinho e uma preocupação inexplicáveis por ela. Vê-la em suas visões sempre o fazia preocupar-se por ela, pois sabia que, tal como para ele, aquela comunicação causava dor. E não queria que ela se machucasse.

Agora estava ali, diante dela. E diante de seu pai. O homem que também tinha visto por diversas vezes em seus flashes de memórias perdidas e que parecia mais distante do que ela nas lembranças fugazes que tinha. Finalmente, entendia a razão. O pai teve que fugir poucos dias depois de seu nascimento. De modo que passou os dez meses antes de sua adoção apenas com a mãe. Mas era possível, em suas lembranças, acessar algo do pai mesmo nesse período de ausência... ainda se lembrava de ver, através da mãe, a figura do pai indo embora… a sensação de perder algo que era parte dele mesmo… a sensação de ainda reter um pouco da presença dele em ocasiões e em comunicações como cartas… não, não, eram e-mails, sim, de acordo com o que sua mãe acabava de contar minutos atrás. Mensagens que seu pai mandou para ela quando ainda estava em fuga, desejando voltar a estar com eles.

"A verdade é que nunca foi nossa vontade deixar você para trás" a voz de Scully soava emocionada, lutando contra as lágrimas. "Foi minha decisão mais difícil, e eu tive que decidir por Mulder também... porque não tinha outra opção melhor para manter você seguro, ou assim eu pensei."

Ela sentiu as mãos de Mulder apertarem a dela que repousava na coxa dele. Ele estava bem às suas costas, sentado no braço da cadeira, apoiando-a com o corpo e com o espírito firme, que não a deixavam desabar. Era difícil demais reviver tudo aquilo, especialmente diante do filho por quem havia feito tudo e falhado.

"Eu falhei. Perdão." A voz de Scully, por fim, saiu quebrada, partida e alterada pela dor e pela vergonha.

Ela se permitiu fechar os olhos e respirou fundo, tentando não chorar. Sentiu os braços de Mulder envolverem seu corpo numa espécie de abraço e deixou-se afundar nele.

"Você não tem por que pedir perdão."

A voz era do garoto. William. Ou Jackson, ela ainda tentava se acostumar. Então ela abriu os olhos e o encarou. Era a imagem viva do pai. E parecia tão forte, tão maduro como ela não poderia ter imaginado para alguém que, na idade dele, já havia enfrentado tanta coisa.

"Você não tem culpa de nada, Scully." Desta vez foi a voz de Mulder a reforçar. "Nós entendemos por que fez o que fez, acho que isso já ficou claro, não?"

A voz do parceiro era suave e encorajadora. Ela deixou os olhos irem de William para Mulder, virando o pescoço para encará-lo, sentado atrás dela. Era impressionante a semelhança entre os dois e isso fez seu coração agitar-se um pouquinho dentro do peito. E se aquecer. Ela esboçou um fraco sorriso para ele e voltou a encarar o filho.

O garoto tornou a falar. "Não se culpe. Eu não tive uma vida tão ruim."

Oh, céus! Scully sentiu a dor na pequena risada que lhe escapou. Como ele podia dizer isso? Uma infância e adolescência quase inteira sendo submetido a testes, sem poder estar junto da família adotiva ou ter amigos, fazer o que os meninos da sua idade estavam fazendo e devia ser direito de toda criança.

Jackson remexeu-se quase imperceptivelmente no sofá, encarando as próprias mãos.

"Não podemos saber como teria sido se eu tivesse ficado com vocês."

Talvez. Era a isso que Scully se apegava para não enlouquecer. Quando o garoto voltou a encará-la, parecia só um menino frágil tentando entender questões complexas, dando de ombros e falando quase como se não fosse sobre si mesmo.

"Tudo que eu passei me fez mais forte. Acredito que me preparou para o que está por vir."

O que estava por vir. As visões apocalípticas. E isso era algo muito maior do que o pequeno drama familiar dos três, envolvia a humanidade inteira.

Mulder levou as mãos aos ombros de Scully, olhando para o filho. "As visões que você e Scully compartilharam. Sobre o fim da vida na Terra. Como tudo deve terminar."

O garoto meneou a cabeça, o olhar se perdendo por alguns instantes na sala, para, então, voltar a focar nos dois à sua frente. "Eu sei que é possível evitar. E vocês sabem também. São os únicos além de mim que acreditam nisso."

Mulder e Scully trocaram breves olhares antes de voltarem a encarar o filho.

"Eu sei como começa e sei como pode terminar." O menino sentenciou.

Scully meneou a cabeça. "Eu contei tudo a Mulder. Ele também já sabe."

Então, o olhar do garoto focou em Mulder. "Você precisa de mim. Das minhas células tronco."

"Isso pode esperar."

"Não. Temos que agir o quanto antes."

"Tomaremos precauções."

"Precisamos definir um curso de ação… nos antecipar aos movimentos deles..."

"Acalme-se" Mulder pediu com mais vigor na voz desta vez. "Temos tempo. O mais importante agora é que você se mantenha bem, acabou de sair do hospital, de uma crise."

"Sim, mas não posso nem quero ficar parado diante do que eu sei. Do que eu posso fazer. E vocês podem também."

"E vamos fazer, sim? Mas, por ora, você vai relaxar e se instalar no quarto. Se não quiser, não precisa dormir, mas vamos com calma. Agitação não vai ajudar em nada."

O garoto não soube se foi o tom de autoridade e cuidado paterno que o convenceu, mas deixou o assunto morrer. Especialmente ao vê-lo passar uma das mãos com carinho no braço da mulher ruiva, olhando para ela enquanto falava as próximas palavras.

"Scully também precisa manter-se sob controle, já tivemos mais do que fortes emoções nas últimas horas."

Jackson observou como ela sorriu, quase tímida, e trocou um olhar cúmplice com Mulder. Eles não estavam falando apenas da descoberta de que ele era o filho deles. Não, o garoto sabia instintivamente que tinha mais alguma coisa por trás daqueles olhares. Mas era algo tão deles que não se permitiu especular, preferindo desviar os olhos para outro canto qualquer da sala, como se fosse pequeno e tivesse acabado de flagrar os pais se beijando. Riu em pensamento da própria ideia até que os viu se virar novamente para encará-lo, e fez o mesmo.

Mulder guiou o caminho até o quarto que ficava no final do corredor. Era próximo ao quarto principal e a outro que fazia as vezes de um escritório. Ele levou a mochila com as coisas de Jackson que havia recolhido da instituição naquela manhã antes de buscá-lo no hospital após a alta médica.

Os três pararam diante da porta do quarto. E Jackson ficou surpreso. Era um quarto masculino, com uma cama e uma cômoda de madeira cheia de gavetas, havia um espelho logo acima dela, pregado à parede. A roupa de cama parecia nova. Ou aquele ambiente nunca havia sido usado ou havia sido especialmente preparado para recebê-lo. Nenhuma das duas opções o incomodava, ao contrário. Então Jackson aproximou-se da cama sobre a qual Mulder deixou sua mochila.

"Pode arrumar suas coisas como quiser. Use as gavetas à vontade. Tem toalhas limpas no banheiro ."

"Você tem um quarto de hóspedes legal."

"Na verdade, é a primeira vez que ele é usado."

O garoto voltou-se para os dois adultos parados logo atrás dele. Scully deu um sorriso nervoso. "Fico feliz que seja por você." Ainda que ela desejasse que ele não se sentisse um mero hóspede. "Mas queremos que se sinta em casa."

Casa. Era algo que Jackson já não tinha. Ou pensava não mais ter. Só que ali estava, na casa dos pais. De seus verdadeiros pais. Pelo que tinha entendido, os dois haviam morado juntos ali antes. Ele não queria ser indiscreto e perguntar por que agora viviam separados, então voltou sua atenção para sua mochila, abrindo o zíper e retirando seus velhos cadernos de desenho e escritos.

"Posso?" A voz suave de Scully o fez erguer o olhar para encontrar o dela sobre a pilha de cadernos que acabava de deixar em cima da cama.

"Tudo bem" ele murmurou e a viu pegar um dos cadernos com seus textos.

Ela parecia em transe, mergulhada num mar de emoções em que estava prestes a se perder, até que a mão de Mulder a tocou no ombro. "Quer comer alguma coisa? Tenho daquele iogurte de que você gosta na geladeira."

"Mais tarde. Agora acho que vou fazer um chá e me sentar um pouco à mesa da cozinha."

Mulder entendeu. Ela queria começar a explorar o mundo de William, aprender o que ainda não sabia sobre o filho. E aquele caderno era o primeiro passo para isso.

"Já vou ter com você" Mulder murmurou antes de deixá-la sair do quarto, não sem antes ela sorrir para os dois homens que ficavam.

Por um instante, o mais velho apenas observou o mais novo continuar a tarefa de retirar coisas da mochila - agora eram peças de roupa, duas calças jeans surradas e algumas camisetas, variando entre o cinza, o chumbo e o preto, além de três camisas de mangas compridas, uma delas xadrez. Viu-o retirar também um agasalho de moletom com capuz azul marinho e uns quatro pares de meias. Olhou para os pés do garoto que só tinha aquele velho par de tênis All Star preto. Mulder havia reparado quão parco era o atual guarda-roupa do menino ao recolher as coisas dele na instituição.

Quando Jackson abriu a primeira das gavetas da cômoda para começar a guardar as roupas, encontrou algumas coisas ali dentro. Dois livros velhos, uma camiseta cinza com a gola relaxada e um buraco no ombro, e um Cubo de Rubik que chamou sua atenção.

"É seu?"

Mulder se aproximou, parando às costas do filho. "Sim. Já nem me lembrava de ter deixado essas coisas aí. Vou levar tudo isso embora."

Antes que Mulder pudesse pegar as coisas da gaveta, a mão de Jackson avançou para o cubo cheio de pequenos quadrados coloridos. Ele realmente parecia interessado no brinquedo.

"Você gosta?" Mulder perguntou.

"É muito interessante. Um tipo de quebra-cabeça diferente de todos os outros, por isso sempre me fascinou."

"Já teve um desses?"

O menino negou com a cabeça. "Mas costumava brincar com o de um colega, era nosso vizinho quando ainda morávamos no Wyoming. Sempre que ia para a casa dele, gostava de ficar tentando fechar o desafio."

"Existiram diversas pesquisas para otimizar a solução do Cubo de Rubik. Chegaram mesmo a chamar de 'Algoritmo de Deus' o que consegue resolver qualquer cubo mágico no menor número de movimentos possíveis. Em 2010, foi provado que o número exato é 20."

Jackson virava o cubo nas mãos, fascinado, como se estudasse um objeto de outro planeta. "O que mais me fascina é o projeto. Um cubo com seis faces e cada uma delas dividida em nove partes, num total de 26 peças que se articulam entre si graças ao mecanismo da peça interior central fixa que fica oculta dentro do cubo."

"Graças a essa peça oculta, os movimentos são possíveis, e, com eles, a busca da solução perfeita."

O garoto meneou a cabeça sem tirar os olhos do objeto. "Sem ela, isto seria só um mero enfeite colorido."

De repente, Mulder percebeu como aquilo parecia tão próximo da realidade deles. William sempre fora a peça oculta no quebra-cabeças em que ele Scully eram uma das faces. Sem o filho, não haveria solução para o grande enigma que assombrava a humanidade. Sobreviver ao futuro.

Quando o garoto deixou de olhar para o cubo e ergueu os olhos para Mulder, ele soube que estavam pensando a mesma coisa.


Continua...