Título: O Axioma Rubik
Autora: Lab Girl
Categoria: Arquivo X, 11a temporada, M&S, case file, hurt/comfort, family
Advertências: Um certo sofrimento emocional, um pouco de violência (nada explícito demais)
Spoilers: Episódio 11x05 (Ghouli)
Classificação: PG-13
Capítulos: 7/?

Notas da Autora: Tendo em vista o final do revival (que eu, particularmente, odiei!), resolvi continuar o universo desta fanfic não só de acordo com ideias que eu já tinha em mente antes de ver a finale, mas tomarei a liberdade de incrementar algumas coisas que julguei não bem desenvolvidas na temporada 11 - especialmente a personalidade dos personagens em alguns momentos e William, em particular, um personagem que ressurgiu cheio de promessas e acabou, ao menos para mim, sendo uma grande decepção ao ser reduzido a uma mistura de X-Men com um projeto de laboratório, tão frio e sem sentido assim #shameonchirscarter

Como aqui, no fantástico mundo das fanfics, posso lidar com isso de forma mais digna e satisfatória, por que não?


Capítulo 7


Scully piscou para espantar as lágrimas quando fechou o velho caderno que lia sobre a mesa da cozinha. A luz natural que entrava pela janela há muito já havia diminuído, sinalizando que a tarde ia avançada, inexorável. O dia havia sido cansativo de um jeito bom. De um jeito que ela nunca esperava. E sua mente, então, foi tomada pela lembrança das últimas dezenove horas...

Na noite anterior, no hospital, Mulder havia praticamente forçado que ela fosse para casa dormir, enfrentando com veemência seus protestos de que não se afastaria de William agora que o havia encontrado. E logo soube a razão para que ele insistisse tanto. Um exame de sangue havia revelado - um que Mulder solicitara depois de seu desmaio ante as notícias sobre Jackson Van De Kamp… o parceiro havia entrado em estado de alerta, com medo de que ela pudesse estar com algum problema mais grave, e, assim, pediu que checassem seu sangue pelo menos. O que foi feito prontamente ante seu histórico médico. E a prova estava nas mãos de Mulder, que a estendeu para ela. Positivo. Uma nova gestação. Tão fora de época quanto assombrosa.

Scully mal pôde acreditar ao ler o papel. Mas, estava lá. Em letras e termos absolutamente inquestionáveis: ela, Dana Scully, estava grávida aos 54 anos de idade. Sim, era absurdo. E, sim, era maravilhoso. Naquele momento, as lágrimas de alegria se misturaram às de preocupação quase instantaneamente e ela não pôde mais distinguir o que estava escrito no exame, embora seus olhos continuassem fixos nele, como se, ao deixar de olhar para ele, aquela notícia inacreditável pudesse sumir.

Não, ela não fazia ideia. Os sinais de seu corpo tinham sido muito sutis nos últimos dois meses para que pudesse detectá-los. Sua vida tinha sido tão revirada e abalada com sua internação no hospital, a busca desesperada por William e, enfim... a notícia de que ele os havia alcançado quando menos esperavam... que tudo em que ela pôde se concentrar foi nesses acontecimentos.

Ela ainda se lembrava de como se sentiu ao afastar os olhos do exame e encontrar os de Mulder fixos nela - o brilho que refletia a mesma alegria e a mesma preocupação que os dela... todas as dúvidas que perpassavam suas mentes envolvendo aquele novo milagre em suas vidas. E a única certeza que ambos tinham: de como havia acontecido. Desta vez não havia margem a dúvidas. Não havia abduções nem testes nem tentativa de inseminação... era resultado de uma concepção tão natural quanto qualquer outra. E isso a inquietava e maravilhava ao mesmo tempo.

Os dois, então, se abraçaram, sentados nas cadeiras de espera, do lado de fora do quarto de hospital onde o primeiro filho deles estava dormindo. E, após um tempo assimilando a novidade, começaram a pensar nas coisas práticas que deveriam ser feitas - ela teria que parar de trabalhar mais cedo nesta gestação, teria que dar início ao pré-natal o quanto antes; e, em meio a isso, dúvidas surgiram - eles contariam ou não ao superior deles? Quando? Ainda era arriscado, ainda mais arriscado no caso de Scully, o primeiro trimestre. E se... abortos espontâneos eram uma possibilidade nesse período em gestações de mulheres com mais de 40 anos...

Não. Eles não queriam pensar nisso. E Scully decidiu procurar sua obstetra naquele mesmo instante, deixando uma mensagem na secretária do celular dela, tendo em vista o avançado da hora, e solicitando um horário para o dia seguinte, o mais cedo possível, adiantando que um exame de sangue havia comprovado que estava grávida.

Depois disso, Scully foi até a capela do hospital, orar. Pediu por seus filhos... sim, filhos... algo que ela nunca pensou que fosse capaz de dizer. E agradeceu, obviamente, por seus dois milagres. Também orou por Mulder, seu companheiro de jornada, e pediu por ele. Pelos dois, na verdade, reconhecendo a nova chance que lhes estava sendo concedida de finalmente serem uma família, como deveriam ter sido desde anos atrás e lhes fora tirada tão brusca e dolorosamente. Enfim, orou pelas almas de seus pais, dos pais de Mulder, e pelo futuro da humanidade.

Quando terminava suas preces, virou-se para encontrar Mulder de pé, ao seu lado. Sorriu. Ele tocou sua mão e, ambos, juntos, acenderam uma vela. Ela sabia que ele não partilhava das mesmas crenças que ela quando se tratava de religiosidade - Mulder não tinha uma religião. Mas Mulder era crente. Ele cria em uma força maior que governava as leis do Universo e em possibilidades extremas. Ele cria em milagres, talvez mais do que ela.

Ao terminarem de acender o pavio da vela, ambos olharam a pequena chama tremeluzir e estabilizar-se com convicção. E se olharam. O que viria a seguir? Era o que ambos se perguntavam internamente. E aquela chama da vela parecia lhes responder que, fosse o que fosse, seria certo como sua luz e seu calor. E, mais uma vez, ao erguer o olhar, Scully encontrou Mulder a observá-la, atento, emocionado.

"Sempre me perguntei como isso terminaria" ele murmurou baixinho. "Nós. Nossa história."

Só havia os dois dentro da pequena capela, de modo que o momento tornou-se ainda mais intimista. Scully seguiu a encará-lo, esperando suas próximas palavras, que sabia instintivamente que viriam.

"Seja o que for, Scully... seja como for... quero que seja como foi até aqui. Juntos."

Ela pegou a mão dele, apertando-a com carinho numa confirmação. Então, Mulder também apertou-lhe a mão, e, depois de olhar seus dedos entrelaçados, olhou dentro dos olhos dela, tomando-a de surpresa.

"Quero fazer o que ainda não tive oportunidade esses anos todos. O que eu pretendia fazer logo depois que William nasceu, mas não pude porque tive que fugir. E depois, nossas vidas acabou se transformando num caos e eu pensei que nunca mais seria digno de lhe pedir isso."

"O quê?" Ela piscou, ansiosa.

"Quero me casar com você. Onde e como quiser. Mas logo."

O coração de Dana disparou naquele momento e ela sentiu o calor da vela espalhar-se por todo seu corpo, pelo ambiente. Sem conseguir falar, ela respondeu da melhor maneira que conseguiu, tomada pela emoção do momento - inclinou-se e, na ponta dos pés, tocou os lábios dele suavemente com os seus.

Aquela tinha sido a noite mais longa e mais maravilhosa da vida de Scully. Depois disso, foi menos difícil reunir forças para deixar Mulder aos cuidados de William no hospital e ir para casa dormir. Pela manhã, bem cedo, ela recebeu uma ligação de sua ginecologista chamando-a ao consultório antes mesmo da primeira hora em que costumava atender pacientes. Por sorte, tudo estava bem com o bebê. E com Scully. Apesar de ser uma gravidez potencialmente de risco, a princípio tudo estava como deveria ser, apenas maiores cuidados deveriam ser tomados. Depois de pegar a solicitação de uma bateria de exames, receitas de vitaminas e suplementos, ela voltou ao hospital para se encontrar com Mulder. Ele, então, foi ao lar de menores buscar as coisas do filho e retornou com uma mochila a tempo de encontrarem o médico que assinou a alta do garoto.

Tanto Scully quanto Mulder já haviam concordado que o melhor, por ora, seria levar o filho para a casa de Mulder - a antiga casa deles - visto que Scully estava morando em um condomínio impessoal e sem acomodações para um hóspede, portanto, não era o melhor lugar para levarem o garoto. A propriedade que um dia dividiram e onde Mulder ainda vivia, ficava num local mais afastado, portanto, discreto - o que iriam precisar ser dali para a frente - além de ter um quarto a mais disponível.

Ela havia pensado que William... ou Jackson... resistiria a princípio, mas ele não fez objeção ao lugar para onde o levaram. Ter a conversa com ele na sala, logo após entrarem na casa, acabou sendo menos difícil do que Scully esperava. Explicar como tudo ocorreu desde sua concepção, passando pelo nascimento conturbado, a fuga de Mulder quase em seguida e tudo que ela havia passado sozinha com ele até decidir deixá-lo ser adotado por outro família. Foram explicações que saíram mais em tom de desabafo, e, finalmente, após todos aqueles anos torturando-se por ter aberto mão do filho deles, pôde pedir desculpas olhando para William e perceber que ele realmente não lhe guardava rancor nem a hostilizava por isso.

Mesmo assim, ainda era um período difícil. Precisava, tanto ela quanto Mulder, conhecer melhor o filho, entendê-lo e criar pontes que pudessem acessá-lo. William era um adolescente, o que tornava a tarefa mais difícil, em tese. Mas Scully já estava se dando conta de que ele era um garoto diferente da maioria. Não era rebelde nem revoltado, muito provavelmente graças a tudo que havia passado em sua jovem vida. Ele poderia ser um menino altamente deprimido, ou até arredio, violento. Mas não. Ele era maduro e inteligente. Ainda assim, era reservado e isso era natural.

Felizmente, William se lembrava um pouco do breve convívio que tiveram, os três, como família; e, tendo em vista a conexão que se havia estabelecido entre o menino e Scully nos últimos meses, era um alívio saber que ele não lhe era indiferente ou hostil. Porém, após ler algumas páginas daquele caderno de escritos que ele começara na infância, ela se viu forçada a interromper-se antes que desabasse. Era forte demais. Ainda menino, com apenas sete anos, o filho tinha se tornado objeto de testes médicos. Ela, então, respirou fundo para recompor-se e dedicou-se a fazer um chá e se sentiu melhor quando o tomou.

Ela havia deixado Mulder sozinho com o filho se instalando no quarto de hóspedes porque os dois já haviam estabelecido um certo convívio nos últimos dias, e também porque pretendia aproveitar o tempo para ler o caderno de escritos de Jackson que agora estava fechado sobre a mesa da cozinha. Era uma forma de saber o que havia passado com ele esses anos todos em sua ausência, e entendê-lo melhor, de uma maneira que ainda não conhecia. E também de permitir que Mulder tivesse mais momentos entre pai e filho, o que ele quase não tivera no passado.

Quando Mulder apareceu na cozinha com Jackson ao lado, o coração de Scully saltou uma batida mais forte ante a visão. Os dois eram tão parecidos fisicamente. Ela tinha visto fotos da adolescência de Mulder e era como ver uma versão do parceiro no passado. Eles também tinham uma personalidade parecida em muitos pontos pelo que ela já tinha percebido - o gosto pelo sobrenatural, o ímpeto em lutar pelo que acreditava certo.

Os três acabaram tomando chá juntos na cozinha e depois saíram para os fundos da propriedade, caminhando enquanto Jackson falava sobre as semelhanças com o lugar calmo onde fora criado na infância, antes de tudo se complicar, e Mulder contando sobre as espécies de vegetação que costumava existir por ali. Scully os escutava com prazer, e chegou a fazer algumas comparações com sua própria infância cheia de brincadeiras ao ar livre com os irmãos. Assim caminharam por uma hora sem sequer perceber, entre histórias e lembranças e a descoberta de plantas e pequenas formas de vida que os faziam parar e tecer algum comentário a respeito antes de observá-las seguirem seu caminho naquele pedaço da natureza.

Um latido vindo na direção dos três os fez voltarem-se e perceberem o quanto se haviam afastado da propriedade. O pequeno cão veio correndo encontrá-los. Era Dagoo, o cachorro que Scully havia libertado, ou assim ela gostava de pensar, de um abrigo de animais em uma investigação do ano anterior. Como ela não contava com um espaço adequado para um cão em sua atual moradia, o destino do animal acabou sendo a velha casa que ela e Mulder dividiram anos atrás. A princípio, ela pensou que teria de convencer o parceiro a deixar o pobre Dagoo ficar por ali, mas logo ficou claro que Mulder não negaria esse seu pedido - não depois de tudo que ela havia perdido ao longo do caminho, ao menos a alegria de um pequeno animal ele não podia negar a ela.

Jackson e Dagoo fizeram amizade instantaneamente quando o garoto, surpreso com a aparição do cão, sorriu e abaixou-se, deixando-o cheirar sua mão até que, ao perceber que não seria atacado, ele acariciou as orelhas do bichinho. "Vocês têm um cachorro!"

Scully sorriu naquele momento, encantada por ver a interação entre seu cão e seu filho, o coração aquecendo. "Ele é meu, mas vive aqui. Mulder concordou em abrigá-lo desde que eu me comprometesse a mantê-lo alimentado e vacinado."

Jackson continuou sorrindo, sem tirar os olhos do animal com quem brincava, fazendo carinho na barriga de Dagoo que se virara de costas na grama, alegre em receber a atenção do novo membro da família.

Mulder também ficou feliz em ver a rápida conexão entre o animal e o garoto, e mais ainda por saber que era o responsável por isso quando decidiu que manteria o cachorro ali por Scully. Tal mãe, tal filho, ele pensou ao ver a cena.

Por fim, os três, acompanhados de um Dagoo agitado e cujo rabo abanava em clara demonstração de sua alegria, seguiram de volta para a casa. Fizeram um lanche na cozinha, cada um ajudando em uma tarefa até que sanduíches e chá gelado estivessem servidos sobre a mesa - até mesmo Dagoo recebeu uma refeição fora de hora para acompanhá-los.

E entre mordidas e goles, risos e histórias e curiosidades sobre animais em geral, a tarde foi avançando até que Jackson, que parecia ter se esquecido pelas últimas horas de seus sofrimentos, ficou sério. Cruzando as mãos sobre a mesa, em volta de seu prato vazio, ele olhou para os dois adultos sentados à sua frente.

"Não quero fazer parecer que não confio na palavra de vocês, ou que estou pressionando... mas gostaria muito de saber como vai ficar a investigação sobre as mortes dos Van De Kamps, meus pais adotivos."

Foi Mulder quem falou primeiro. "Já estávamos começando a cuidar disso, Jackson. Até que, bem, eu fui procurá-lo na instituição e tudo aconteceu. Mas agora que você está bem, e seguro aqui conosco, Scully e eu vamos dar início às investigações sobre as mortes deles. Vamos esclarecer o que aconteceu. Isso eu garanto a você."

"Também queremos saber o que realmente aconteceu com eles", Scully havia dito ao filho. "Afinal, tudo que tem a ver com você é importante para nós. Então, não será apenas uma questão profissional, mas pessoal também."

O menino olhou de um para o outro e meneou a cabeça. "Obrigado."

"E quanto a você, Jackson" Mulder acrescentou, "É melhor que continue aqui por mais alguns dias. Como já sabe, estou com sua custódia provisória. Ao menos por enquanto não vamos dizer nada a ninguém sobre nossa ligação, mas, quero que saiba que Scully e eu..." e, então, ele tocou a mão dela sobre a mesa, os dois trocando olhares, "...queremos cuidar de você e protegê-lo. Como não pudemos fazer antes."

E Scully pôde, enfim, dizer as palavras... "Desta vez não vamos deixá-lo, William." E, então, ao ver que o havia chamado pelo nome de nascimento, corrigiu-se, "Desculpe, Jackson... ainda não me acostumei."

O garoto apenas meneou a cabeça e levantou-se, empurrando a cadeira contra a mesa. "Se não se importarem, eu quero dormir um pouco. Acho que a caminhada e o lanche fizeram efeito."

Naquela hora, Scully sorriu para o menino e acenou sua compreensão. Mulder disse a ele que ficasse à vontade, pois a casa também era dele. Sem esboçar reação, apenas uma espécie de reserva ou timidez, ela não saberia dizer, o garoto virou-se e foi afundando em direção ao quarto onde estava hospedado.

Foi a partir daí que, pegando o caderno antigo do filho que havia deixado em cima da geladeira enquanto comiam, Scully tornou a sentar-se e, de comum acordo, ela e Mulder começaram a ler as linhas escritas em uma letra infantil, mas suficientemente caprichada e legível. E as horas tinham se passado sem que nenhum dos dois sentisse. Pelo menos até a luz do sol começar a se tornar escassa. Seria necessário acender uma fonte artificial de iluminação, porém nenhum deles o fez. Talvez por medo de quebrar o momento, Mulder sentado bem ao lado dela, o braço em torno de seus ombros, quase como um abraço confortador. Ela, com a cabeça apoiada no ombro dele.

Era muita informação para um só dia. Na verdade, era informação demais para processar desde a noite anterior, mas Dana Scully estava contente. O que viria a seguir ainda era uma incógnita. Os três passariam a viver juntos? Jackson/William se sentiria bem entre eles, acolhido? Ou, em algum momento, o garoto decidiria pegar suas coisas e partir, fazer sua vida por si mesmo? Ou haveria tempo para estreitarem aquele laço que parecia, apesar dos anos e da distância, existir entre eles desde que o vira acordar naquela cama de hospital?

"O que está pensando?" Mulder sussurrou a pergunta contra a orelha de Scully, trazendo-a de volta ao presente.

"No que virá."

"Tantas coisas virão, Scully." Ele suspirou, como se também estivesse cansado, porém satisfeito. "

"Será que estaremos preparados para elas, Mulder?"

Ele mexeu o queixo contra o ombro dela carinhosamente. "Se tudo que passamos até aqui não foi preparação suficiente... eu não sei o que pode ter sido, então."

Ela riu de leve, baixinho. Os braços seguraram os dele, que agora a envolviam num abraço por trás. Sim, eles estavam preparados para o que viesse. E ela tirava essa certeza não apenas das palavras e da força advinda da mera presença de Mulder ao seu lado. Mas, e principalmente, porque estavam juntos agora. Mulder, ela, William... e o bebê que estava a caminho. E algo lhe dizia que os quatro eram as peças fundamentais do quebra-cabeça que solucionaria tudo, enfim.


Continua...