Capítulo 3: Ikki

Povs IKKI

Porque o Shun sempre me força a vir nessas reuniões idiotas? Não há nada que me interesse nelas, mas se eu não for ele vai ficar me dando broncas por horas e horas me deixando mais estressado ainda, pois é assim que tem seguido meus dias, bastante estressantes e entediantes.
Agora estou aqui num canto da mansão da Saori bebendo pra me distrair, enquanto todos conversam qualquer coisa as quais não dou à mínima, a única pessoa que poderia me despertar o interesse de vir nessas reuniões nunca apareceu nelas, e eu não tenho nenhuma familiaridade com qualquer outro cavaleiro, exceto com Shaka com quem tive uma aventura, mas não deu certo e agora somos apenas amigos, além do que ele está com Mú agora, gostaria de conversar, mas não quero atrapalhar nada entre ele e Mú, que estão num canto se agarrando... eles não são tão discretos quanto pensam.

Olho pela janela para a noite gelada, para a neve caindo e começo a pensar nele de novo, Hyoga... Pato idiota... É só isso que tenho feito nos últimos anos, tenho esperança que ele volte e eu possa vê-lo de novo, porque ele sumiu depois que conseguiu sua maldita bolsa de estudos e foi embora e ninguém mais o viu. Hyoga... Admiro sua genialidade, aliás, admiro tudo em você, confessei pra mim mesmo que gosto muito de você, que estou apaixonado, mas nunca passamos de colegas de batalhas, nem mesmo amigos nós éramos de verdade. Você sempre foi o mais inteligente de todos nós, mas sempre foi muito quieto, frio, melancólico, distante e arrogante. Logo depois da ultima batalha que travamos você ficou pior ainda, até mesmo com as garotas com quem você saia, acho que até mais do que eu, e assim eu sempre quis quebrar essa barreira de gelo que você criou a sua volta, nossa interação nunca foi amigável, especialmente de minha parte que de alguma forma quis sempre te ferir pra ver alguma reação sua, e ela raramente vinha, normalmente você me ignorava ou me respondia de uma forma que me deixava sem palavras, nunca levava desaforo e isso me desconcertava, o que me deixava mais furioso ainda, sua apatia era quase palpável e só me instigava mais em quebrar essa sua pose de superioridade... Alias aprendeu bem essa lição com Camus, mas ainda ele demostra mais reações que você.

Sempre quis me aproximar de você, te conhecer melhor, saber do que gostava: livros, músicas, comidas, lugares, sonhos, mas você os trancava em seu intimo, e aparentemente todos menos eu poderia chegar perto, nem mesmo pra conversar, apesar de eu nunca ter tentado de fato uma aproximação amigável, está certo que eu nunca fui bom em me expressar de forma adequada, mas você deveria...Não, tinha a OBRIGAÇÃO de entender a mensagem subliminar das minhas investidas agressivas contra você, deveria ter visto que eu só queria sua atenção.

Meu irmão sempre foi um dos seus melhores amigos, e eu tinha inveja dele, às vezes interrompia a proximidade de vocês com o argumento de que não queria Shun perto de você, mas o ciúme que eu sentia era de você e não dele, sempre notei que Shun sentia algo mais por você, mas você nunca notou ou fingia não notar, e isso me acalmava um pouco... Sei que é errado pensar assim do meu irmão, mas ninguém manda no coração né, e a ultima coisa que eu queria era ver vocês dois juntos. E você sempre se dedicou a ouvir todos os longos monólogos dele atentamente e nunca reclamou, pois eu confesso que o Shun sabe ser muito chato às vezes, mas ele só queria prender você perto dele o maior tempo possível, e você sempre o ouvia, sorria e lhe respondia as perguntas que lhe fossem feitas, sempre foi um ótimo ouvinte, gostaria que seus sorrisos fossem direcionados a mim, mas só o que me sobrava era a apatia.

Shiryu era outro que chegava a ser seu quase intimo amigo, mas com ele você falava mais do que com meu irmão, contava seus planos a ele, sonhos e pontos de vista sobre tudo, pelo menos era isso que aparentava, pois vocês conversavam por horas afim, eram as únicas ocasiões que eu podia ouvir sua voz em mais de uma frase, você sempre foi muito objetivo... Certo, certo, eu ouvia as conversas de vocês escondido, não gostava da aproximação de vocês, mas eu não podia simplesmente separa-los como fazia com você e meu irmão... Até mesmo Seiya conseguia um pouco da sua atenção, mesmo em meio a brincadeiras, e mesmo você sendo sempre sério, correspondia muito bem ao humor dele, eram as poucas vezes que podia ser audível o seu riso, que era musica para meus ouvidos, e era muito bom vê-lo assim tão calmo, sereno e alegre, me deixava feliz também.

Como as batalhas acabaram tínhamos nosso tempo de treino, missões, estudo, ao qual você se dedicava bem mais que todos nós, e até mesmo lazer, era uma rotina boa, por assim dizer apesar de nossas brigas, pois eu o tinha sempre perto mesmo às avessas, eu poderia conviver com isso. E mesmo com o seu jeito único você era muito querido... Por todos.

Mas chegou aquele fatídico dia em que o correio chegou com várias cartas direcionadas a você, eram das universidades que lhe aceitaram, ou seja, todas em que você se inscreveu e todas lhe aceitaram... Fazer o que se você é um gênio... mas daí eu soube a noticia, você iria embora, e por anos, e eu não o veria mais, nem seu sorriso, seu rosto, seus olhos, nada, eu não tinha mais nada, eu poderia ter ido com você, ter me declarado, mas era mais do que obvio que você não correspondia aos meus sentimentos, como eu disse, sua apatia por mim era quase palpável. Sem você não vi motivos pra continuar na mansão com os outros, tá certo que eu ainda tinha meu irmão, mas ele já sabia se cuidar sozinho, e eu não queria ficar preso em um lugar onde tudo me fazia lembrar de você, fui embora também, tentar te esquecer.

Conheci vários lugares, pessoas, aprendi coisas novas, mas nada preenchia o vazio que você deixou, tentei... tentei mesmo te esquecer, mas simplesmente não consegui, depois de um ano achei que a melhor alternativa era voltar, terminar os estudos e viver de meu hobby que adquiri em minhas viagens... fotografar, e eu sou muito bom nisso, fui morar com Shun em um apartamento até muito grande pra nós dois, mas o Shun gosta de grandes espaços, a herança da fundação Kido nos ajudava e custear as despesas, cada um de nós recebeu uma parte, era direito nosso, já que éramos todos adotados de Mitsumasa Kido... Pelo menos aquele velho serviu pra alguma coisa.

Relacionei-me com algumas garotas e até mesmo com alguns rapazes, foi assim que tive minha aventura com Shaka, mas ele não conseguiu fazer eu te esquecer também, mas serviu de ótima companhia, contei a ele o que sentia por você, e ele foi até um ótimo consolador. Mas daí vem o Shun e me obriga a ir nessas reuniões que só acontecem em lugares que me fazem lembrar você... Fico aqui na janela vendo a neve e consequentemente me lembrando dos vários momentos que o vi pela mansão lendo alguma coisa, conversando com alguém, treinando, sorrindo, mesmo que não seja pra mim... Droga, isso está me sufocando... Tenho que sair daqui.

Vou até o Shun e digo que estou de saída, ele me lança seu olhar pidão, mas eu não estou pra isso hoje, apenas me despeço e vou embora, chego em casa e me jogo no sofá e ligo a TV, ao menos isso tem que me distrair, fico mudando de canais freneticamente, estava nervoso e frustrado, é o que acontece quando penso muito em Hyoga, paro em um canal onde vi um cisne, logo vi que era um documentário... Droga deve ser conspiração, mas mesmo assim paro pra assistir, começo a me interessar, afinal é só um documentário mesmo..mas que me faz lembrar você... MERDA, até essa elegância toda do cisne você tinha, realmente é um animal muito belo, ou será que penso assim só porque ele lembra você? Afinal, como você está agora? Acordo dos meus devaneios até que ouço a porta abrir e Shun passar por ela, penso que ele não deve ter se interessado muito em ficar na tal reunião depois que eu sai, ele ainda é muito dependente de mim, foi isso ou eu fiquei muito tempo mesmo lembrando do meu loiro que nem vi o tempo passar. Ele me diz oi e eu não respondo, ele senta ao meu lado e diz uma coisa que prende a minha atenção... HYOGA VAI VOLTAR, DEPOIS DE TANTO TEMPO ELE VAI VOLTAR... Fico realmente chocado e contente, Shun fica me olhando com seus grandes olhos a minha reação, aí percebi que estava dando bandeira demais, tento disfarçar, acho que ele aceita minha súbita mudança de comportamento e termina de falar a grande noticia, mas essa ultima parte me desanima um pouco, era só uma possibilidade, nada concreto, mas ainda assim estou feliz... era A possibilidade, e havia grandes chances de eu ver o Hyoga de novo e eu me agarraria nessa possibilidade. Vejo Shun dizer mais alguma coisa e se retirar, não presto mais atenção e meus pensamentos voam em uma única pessoa... Hyoga.