Capítulo 4: Shiryu
Povs Shiryu
Voltar pro Japão e assumir a diretoria da fundação Kido em nome da Saori tem me tomado bastante tempo... E ainda tem a Shunrei, ela tem me estressado muito ultimamente, tá certo que eu a trouxe comigo pra não deixa-la sozinha nos cinco picos de Rozan, mas não tenho muito tempo pra ela enquanto cuido de negócios da fundação, assim ela fica sozinha a maior parte do tempo, apesar de sempre frequentar o orfanato em busca de companhia, que eu não posso dar a ela, e normalmente quando me vê, é o mesmo falatório de que eu não me importo com ela e nunca saímos e por aí vai.
Seiya vai me ajudar quando finalmente se formar na faculdade, mas ainda falta um ano, e vamos considerar que o Seiya não tem lá muito talento pra vida de negócios, ainda não sei por que ele escolheu essa área. Pergunto-me ainda se a decisão de Hyoga de seguir a carreira de detetive não foi precipitada, ele parecia incomodado com algo, parecia sofrer em silencio, mas eu não podia ajuda-lo, o Hyoga que eu sempre gostei não existia mais e apareceu esse Hyoga frio e calculista e sem sentimentos de agora, mas que eu ainda gosto como nunca. Sinto muita falta dele, ele se comunica sempre comigo por cartas, e acho que é só comigo, diferente das que ele manda direcionando a todos nós, as que ele manda em particular são direcionadas somente a mim, não deveria me impressionar já que éramos bons amigos, e ainda somos, posso dizer que até íntimos, fico até lisonjeado com isso, ele me conta tudo, sobre os casos que está resolvendo, suas dúvidas, anseios, planos.
Gostaria que Hyoga seguisse a mesma carreira que eu, ele se sairia muito bem, se bem que ele se sairia bem em qualquer área que decidisse seguir, mas antes de argumentar ele já tinha decidido, foi a única vez que ele não me pediu minha opinião sobre algo, fiquei até irritado, afinal era o nosso futuro e eu gostaria que tivéssemos o seguido juntos, pois somos muito amigos mesmo, mas ele já tinha decidido e eu o respeito muito pra ir contra decisões dele, apesar de nunca ter tido receios em dar a minha opinião, que ele considerava e acatava muito bem, até mesmo já tomou decisões baseadas nelas, e isso me enchia de orgulho, afinal era o Hyoga, e as únicas opiniões que acredito que ele considerava além das minhas eram a de Atena e Camus, e até entendo, era Atena, e só o nome basta, e seu mestre a quem ele respeita muito, é muito lisonjeiro receber todo esse apresso de Hyoga, que sempre parece saber perfeitamente o que faz e pedir minha opinião é como se ele me considerasse um igual e isso realmente enche meu ego, pois Hyoga é um gênio e todas as decisões que ele toma são baseadas em pura lógica e são sempre precisas.
Porem ele nem sempre foi assim, como somos amigos a muito tempo pude acompanhar seu amadurecimento e como ele se tornou a pessoa de grande valor que é hoje, eu o respeito muito e gostaria de algum dia alcançar o seu nível, embora ele sempre me diga que somos iguais em inteligência, e ainda que eu sou superior por equilibrar minhas emoções e raciocínios, mas eu penso que não, a verdade é que o Hyoga era bastante emotivo embora genial, e isso me deixava em vantagem com ele, pois eu sou um pouco assim, muito tranquilo e sereno a maior parte do tempo, competíamos quanto a isso ou pelo menos da minha parte sim pois ele parecia não se importar em passar em minha frente, embora ele nunca precisasse se esforçar muito pra me alcançar em inteligência, mas as emoções dele sempre falavam mais alto e ele acabava cedendo a elas, as vezes ele parecia muito perturbado quando a situação envolvia seu lado pessoal e emoções. Mas algo aconteceu, não sei precisar exatamente quando, acho que foi com o passar do tempo em que estivemos em batalhas, ele mudou, e mudou muito mesmo, se tornou mais frio a cada dia, parecia se distanciar cada vez mais, não sei o que aconteceu exatamente mas acho que a batalha no inferno o desgastou emocionalmente de vez, e depois disso ele não expressou mais nada, contudo acho que poucos perceberam, pois apesar de antigamente ele não conseguir controlar suas emoções ele sabia disfarça-las muito bem, então acho que para os outros ele estava se comportando como sempre, mas eu o conhecia muito bem e sempre soube o quanto ele mudou pois ele não disfarçava suas emoções diante de mim, mas depois ele não fingiu mais, pude notar isso logo depois das batalhas, ele realmente se tornou tão frio quanto seu mestre Camus ou até mais, acho que ele deve estar até orgulhoso disso, finalmente conseguiu algo tão almejado por ele, ser igual ao mestre, mas ele não parecia feliz, muito menos satisfeito. Além do mais eu gostava do antigo Hyoga, ele era muito emotivo sim, mas ainda acho que ele equilibrava muito bem suas emoções, considerando tudo que ele já passou nas inúmeras batalhas que travamos, ele até agia bem consciente, pois ele sempre foi de todos nós o que mais perdeu, começando pela mãe, que alias é muito traumatizante, pois com exceção dele, nenhum de nós conheceu qualquer familiar que tivemos, mas o Hyoga viu a mãe morrendo na frente dele, tem coisa pior que perder tudo em um único dia diante de seus olhos? Pelo amor de Deus, ele era uma criança, deve ser a pior coisa pra se passar, não desejo isso nem pro meu pior inimigo, depois teve o amigo dele, Isaak, com o qual foi criado como um irmão, de quem ele teve que suportar a perda, duas vezes, e nas duas Hyoga se martirizou de culpa, ele se considerou sendo o único responsável, e desde então tem carregado esse fardo, apesar de Atena ter revivido o ex-marina, ainda assim não muda o fato de que Hyoga carrega o sentimento de culpa, que pra mim como espectador é completamente descabido, pois foi escolha de Isaak resgatar o Hyoga do fundo do mar, mas sou grato a ele por ter feito isso, senão Hyoga não estaria aqui hoje, e depois teve a batalha no reino de Poseidon, mas estávamos em batalha, e é claro que tudo tinha que ser feito pra salvar Atena, então ele teve que matar o amigo de novo. Ainda teve a morte de seu mestre Camus, com mais um trauma em sua vida, sim, pois Hyoga considerava seu mestre como um pai, imagine o sacrifício de ter que matar o próprio pai.
Acho que nunca vou entender Hyoga completamente, pois nunca passei por qualquer dessas situações pelas quais ele passou, mas eu o admiro muito por isso, pois no fim ele sempre reagia com altivez e elegância, embora eu sempre soubesse que ele estava destruído por dentro, eu o vi superar cada um desses desafios impostos e sempre seguir em frente chegando enfim onde está agora, com grande esplendor e gloria, e ele ainda me coloca ao seu lado no mesmo patamar, mas como eu poderia considerar isso? É mais que obvio que eu nunca irei estar a sua altura, ter toda essa grandeza, ter todo o peso que ele carrega e ainda assim me manter de pé, ele realmente é alguém admirável, e foi assim, com o passar do tempo que eu comecei a gostar dele, primeiro com admiração, depois com amor, que foi passando de amizade para amor fraternal e em seguida para o amor entre duas pessoas que tem um relacionamento afetivo e desejoso, me apaixonei por ele, então comecei a enxerga-lo de outra forma, a deseja-lo, mas eu já sabia que mesmo que tentasse algo era um caso perdido, pois eu o conhecia muito bem, e sei que ele nunca gostou de homens, e nunca gostara, mas quero conservar ao menos nossa amizade... Por isso reservei esse sentimento só pra mim, o tranquei pra nunca usar, pois nunca teria a oportunidade, nunca seria correspondido, mas eu sabia que Hyoga ao menos me reservava um amor fraternal, ele me considerava um irmão e nada mais, e pra mim isso bastava, desde que ele sentisse algo por mim já estava bom... e que estivesse sempre perto claro, mas isso não aconteceu, e embora nós mantermos contado não é a mesma coisa, foi assim que me foquei em Shunrei, eu a considero uma irmã querida, nada mais que isso, mas sei que o que ela sente por mim é diferente disso, e eu sei que é errado mas comecei a corresponder aos sentimentos dela, não sentia a mesma coisa, mas eu me esforçava pra que um dia eu conseguisse sentir o mesmo amor por ela, e vê-la como vejo Hyoga, é difícil, mas estou tentando, porém a cada dia que passa não considero Shunrei mais do que uma irmã, e isso me dói muito, pois sei que esse amor fraternal que sinto por ela é o mesmo que o Hyoga sente por mim, me sinto o lixo por usa-la dessa forma, mas não tenho outras opções, por isso continuo tentando, quero seguir em frente, construir uma família e ter uma vida tranquila e normal, embora não seja ao lado da pessoa que eu amo.
Mas aí teve aquela ultima carta que ele me mandou... Fiquei sem reação quando li... e então reli de novo e de novo, não acreditando no que ela dizia. Ele fez menção de voltar pro Japão... Hyoga vai voltar... eu o veria de novo... só essa novidade fez um turbilhão de emoções invadir o meu ser. Mal poderia me conter de felicidade, muito menos esperar seu tão inquietante retorno.
