Capítulo 6: Pesadelos
Primeiro foi a neve caindo, o vento forte, e em seguida houve um grande estrondo. Era uma grande tempestade, o vento gélido era cortante, o frio era intenso, desesperador, tinha a sensação que poderia congelar instantaneamente a qualquer momento. Estava em um navio, mas o estrondo que se ouviu não provinha da tempestade e sim do próprio navio que estava afundando no mar gelado, logo se surpreendeu com as pessoas que corriam pra todos os lados desesperadas, gritando, chorando, se esbarrando, em choque, pessoas caiam e eram pisoteadas, a cena era apavorante e desesperadora.
Havia muitas crianças, a maioria chorando, perdidas, ele estava sozinho também, quando se deu conta disso uma dor imensa tomou seu peito, começou a chorar compulsivamente era torturante e a dor não passava, nem mesmo suas lagrimas eram quentes, o desespero crescia cada vez mais, sentiu que ia cair, até que um abraço lhe acalentou, olhou pra ver o dono desde ato, e surpreendeu-se quando avistou dois orbes de um azul claro e intenso e que transmitia muita paz, logo em seguida viu um sorriso lindo da mulher de cabelos longos e dourados que lhe acolheu, tinha um semblante sereno, ficou aliviado com aquele olhar, parecia querer dizer que tudo ficaria bem, deixou-se levar, fechou os olhos e afundou naquele abraço tão quente e materno que lhe socorreu.
Quando deu por si estava em um bote salva-vidas, e a mulher que lhe socorreu estava no alto da proa do navio lhe dizendo adeus, mais ainda assim tinha o olhar sereno, estava só de novo, suas lagrimas começaram a cair, percebeu que tinha algo em mãos, um crucifixo, a cruz do norte, olhou dele pra mulher que se despedia no navio, então começou a gritar e se impulsionar pra fora do bote.
–MAMA. MAMA. MAMA - estava sendo puxado insistentemente pra dentro do bote por duas mulheres.
–HE MAMA, MAMA, MAMA - chorava, chorava como nunca na sua tão curta vida.
Mas por um momento se impulsionou tão forte que não puderam segura-lo, e ele caiu na agua, tentou nadar o máximo que podia pra perto do navio, mas a corrente era forte e a agua extremamente fria, eram como muitas facas atravessando seu pequeno corpo, se debatia, mas de nada funcionava, já estava perdendo as forças e também a consciência, quando novamente sentiu dois braços o acolhendo, puxando de volta pra cima, mas eram braços diferentes, mais fortes, recobrando um pouco de sanidade descobriu que quem o puxava era um rapaz de cabelos curtos, verdes, e olhos verdes também, estava concentrado em alcançar a superfície, olhou pra baixo e viu que o navio já jazia no fundo do mar, restava apenas ele e o rapaz que tentava salva-lo, mas uma corrente forte os puxava para o fundo, mas o rapaz não desistiu, estava quase lá, até chegar ao seu limite, utilizou suas ultimas forças para impulsionar o garoto em seus braços pra fora da agua, e conseguiu, mas não pode se salvar também, e foi puxado pelas aguas. Já na superfície e no limite de suas energias viu o rapaz que o salvou e que reconheceu agora como um irmão sendo levado pelas aguas, desesperou-se novamente por mais uma perda, não aguentou e desmaiou.
Acordou atordoado em um grande salão com várias colunas e imerso em uma semiescuridão, com exceção de um forte brilho de energia que saia de suas mãos e colidiam com o extremo das mãos de outro alguém, ainda podia sentir frio como nunca. Ouviu que o chamavam insistentemente, reconheceu as vozes como sendo a de seus queridos companheiros, quando acordou de vez percebeu que estava descarregando uma grande quantidade de energia congelante contra alguém, observou melhor e reconheceu quem era, um alguém muito querido por ele, o qual respeitava muito, não entendeu de imediato o porquê de estar fazendo isso contra a pessoa que considerava como um pai pra ele, mas enfim lembrou-se de tudo e a razão de toda a luta, lutava por todos, por seus ideais, por Atena. E sabia aonde aquilo chegaria e que não tinha escolha, seus motivos eram mais importantes agora, e quando se agarrou nessa ideia terminou de aumentar sua energia e a descarregou no homem que antes o olhava com desapontamento e que agora o olhava complacente, como se entendendo seus motivos, e isso o angustiou mais ainda, teria que chegar até o fim com aquilo, e o olhar daquela pessoa parecia lhe dar permissão agora, embora não parasse de descarregar energia também, isso o afligiu por inteiro, mas teria que acabar, e acabou. Na sua frente jazia o corpo da pessoa que tanto admirava e respeitava como mestre e mais ainda como um pai.
Desfaleceu, não tinha forças pra mais nada, e desejava como nunca a morte, fez uma coisa terrível, e nenhum motivo parecia importante agora, a culpa o instigava, e não queria que parasse, achava que merecia aquela dor, e ninguém poderia lhe reconfortar, e dizer que foi por uma boa causa, nada nem ninguém o faria acreditar que merecia perdão. Para ele aquele ato foi bárbaro, repugnante, o mais ínfimo inseto merecia mais a vida do que ele, afinal muitas mortes seriam evitadas se ele não existisse. E aquela ideia foi lhe consumindo, uma voz sombria e medonha veio até seus ouvidos e o censurava.
–Você não merece viver. Era você que deveria ter morrido, e não esse bom homem. Você causou muitas mortes, todos morreram pra te salvar, mas pra que? Sua existência não tem nenhuma serventia, um inseto tem mais a oferecer do que você... Mas você vai viver, e vai conviver com a culpa até o fim de seus dias, que serão repletos de angustia e solidão... Você não caminhara sobre a terra, você rastejará. Não merece perdão, não merece companhia, não merece o amor, não merece nada... Sinto pena de você...
E a voz continuava o castigando, rindo do seu estado, zombando, censurando, não tinha forças pra reprimi-la, e não queria, achava que era bastante apropriado, e concordava com todas aquelas duras palavras. Era assim que viveria, com a dor constante, como a voz dizia... Não merecia o amor, não merecia nada.
E assim chorava, e chorava, as lagrimas não cessavam, e desfazia-se nelas.
Acordou aturdido, zonzo, suando, estava extremamente nervoso, imerso em lençóis ensopados de suor, estava em seu apartamento em Nova York, tentava se acalmar aos poucos. Teve mais um de seus pesadelos, que o mantinham angustiado e nunca cessavam. Desde a batalha no inferno quando viu como era feito o julgamento das pessoas, nunca mais teve paz, a culpa das mortes de pessoas queridas já o atormentavam antes, mas ele procurava ignorar o máximo que podia senão iria ser consumido pelas emoções, e precisava estar imerso nas batalhas por Atena, e seus sentimentos já o atrapalhavam bastante então decidiu nunca contar a ninguém pelo que estava passando, precisava estar concentrado nas batalhas e um problema a mais pra todos não seria uma boa coisa, não queria ser egoísta, e pensar em si mesmo nessas horas só iria atrapalhar.
Mas a luta no inferno mudou tudo, não podia mais ignorar o que sentia, o que o afligia, por isso usou todo seu empenho pra esconder sua agonia, decidiu trancar todo esse reboliço de emoções no canto mais obscuro de seu ser, porém isso endureceu seu coração, o tornou áspero, ríspido, mas não se importava mais, se essas emoções voltassem ele seria um inútil sentimental, e se mais alguma batalha acontecesse ele teria que estar integro e pronto para fazer tudo que fosse preciso para proteger Atena e seus companheiros. Era um cavaleiro e esse sacrificio era necessario.
Mas decidiu que devia fazer valer sua existência, não seria um inútil como aquela voz que o atormentava o fazia sentir-se, assim procurou punir da sua forma as pessoas que faziam o mal e acabar com as abominações da sociedade que tantas vezes se sacrificou para proteger e o obrigou tantas vezes a fazer o que não queria. Mas a sociedade estava se rendendo a perversidade, os maus elementos que persistiam nela tinham que ser eliminados a fim de purificar o que ainda restava de bom em tudo isso.
Essa era sua missão agora, proteger o que valia a pena e eliminar o que não prestava, tanto como cavaleiro quanto um civil diante das regras que regem a sociedade, estava pagando sua divida com o universo, pagando pela sua existência... E a carreira que decidiu seguir se encaixava muito bem na missão que designou pra si mesmo. Parecia um ato bastante altruísta, mas tinha que fazê-lo, tinha que mostrar para aquela voz que gritava em sua cabeça que ele podia fazer algo de bom, não sentiria mais pena de si mesmo, porém ainda concordava que não merecia ser recompensado, depois de todas as mortes que causou não merecia mais nada, deveria somente pagar pelo que fez. E fazendo esse tipo de trabalho poderia ao menos tentar aproveitar a oportunidade de poder fazer alguma diferença nas vidas das pessoas mesmo que elas não tenham conhecimento sequer de sua existência.
Trabalhou em muitos casos depois que se formou, e solucionou todos, mas nunca demostrava satisfação, nunca era o bastante, nada do que fazia parecia suficiente, ele ainda devia muito, e talvez nunca pudesse pagar essa divida, então queria ao menos fazer o que podia, enquanto podia. Sempre o parabenizavam pelo seu sucesso e inteligencia, mas ele pouco se importava, ignorava os elogios que pensava não merecer.
Apesar de Atena ter ressuscitado as pessoas que tanto amava, com exceção de sua mãe, ainda assim não negava nem justificava seus atos, e mesmo essas pessoas terem o perdoado ele ainda não tinha perdoado a si mesmo.
Começou a pensar nessas pessoas... Ainda mantinha bons laços com elas, Camus e Isaak, um pai e um irmão pra ele, ansiava muito pela felicidade deles, e qualquer um que quisesse lhes fazer mal se tornava automaticamente seu inimigo, assim como também prezava pelo bem estar de seus companheiros de batalha, e principalmente de Atena.
Todas as manhãs eram assim, pesadelos à noite e um turbilhão de emoções pra começar o dia, além de uma grande frustração de muito trabalho não cumprido. Estava cansado, não tinha ânimo pra nada, apenas sobrevivia, não tinha mais expectativas, sonhos, apenas o objetivo de cumprir sua missão pelo tempo que lhe fosse permitido. Estava praticamente se afundando na auto piedade, sentia-se ridiculo por isso.
Teria que terminar o treinamento de seu pupilo, ao menos isso seria capaz de concluir, deixaria ao menos um sucessor.
Seus pensamentos ainda vagavam, praticamente esqueceu-se do pesadelo... Começou a pensar nos amigos. Amava Shun pela sua sensibilidade e amabilidade; Shiryu pela sua sabedoria e serenidade, Seiya pelo seu carisma e persistência; e até mesmo Ikki por sua bravura e prestimosidade nos momentos que mais precisavam de sua ajuda. Deixara de conviver com eles, mas ainda assim amava a todos, nunca os esqueceria, sabia que estavam preocupados com seu bem estar, e vez ou outra procurava mantê-los informados de seus passos para não angustia-los. Lutou ao lado deles muitas vezes, eram sua família e disso nunca abriria mão, apesar de estar distante a muito tempo, nunca deixou de pensar em todos eles, Camus sempre o mantinha informado de como todos estavam, e aparentemente todos seguiam suas vidas e pareciam felizes, e para ele isso bastava.
Decidiu voltar não somente por obrigação mais também porque queria ver a todos, presenciar a felicidade deles, como que pra certificar-se pessoalmente de que estavam todos bem... Estava a muito tempo afastado, tinha que voltar, afinal adiou esse momento por tempo demais.
E ainda tinha que encontrar alguém ao qual deixou esperando todos esses anos, com quem sempre manteve contato particularmente, principalmente pela pressão que foi submetido... Eire... Ela praticamente o intimou a voltar, divertia-se com a atitude dela, que ansiava vê-lo mais que tudo, mas que esperava dele mais do que ele poderia oferecer, quando voltasse procuraria esclarecer isso de novo, por muitas vezes tentou convence-la que não poderia devolver nem a metade dos sentimentos que ela alimentava por ele, mas ela parecia não se convencer, decidiu então ceder ao que lhe era oferecido, apesar de se convencer que não merecia tanta consideração, mas somente para deixa-la feliz, pois ela merecia a felicidade, gostava muito dela, e ela merecia alguém melhor do que ele, que a amasse de verdade. Mas por hora tentaria corresponder aos sentimentos dela, mas já havia esclarecido que talvez nunca pudesse sentir o mesmo, e ela acatou mesmo contraditória, parecia que por hora apenas tê-lo por perto já era o suficiente... Que pensamento tolo, quanto antes ela percebesse que nunca poderiam dar certo juntos melhor seria, mas ainda assim tentaria, com o tempo quem sabe isso mudasse.
Chega de pensar... Levantou-se, tinha muita coisa pra resolver antes de retornar... A começar por um telefonema... Pegou uma agenda e o telefone e discou um numero, esperou chamar, e logo foi atendido...
E do outro lado da linha...
