Capítulo 9: Reunião – I
Chegou ao santuario e dirigiu-se logo para o templo de Atena, e não encontrou qualquer resistência ao ultrapassar as doze casas. Cumprimentou a todos, mas não falou muito com ninguém, e todos entenderam que seu assunto com Atena era urgente além do mais se falariam com mais calma quando estivessem na reunião, mas ao chegar à ultima casa, a de peixes, parou pra falar um pouco com Afrodite e agradece-lo por tudo que o ajudou, e ele assim que sentiu o cosmo do amigo foi logo de encontro a ele .
–Hyoga, finalmente.- Aproximou-se e abraçou o loiro.
–Oi Afrodite, é muito bom revê-lo.
–Minha nossa você está ótimo, e tá muito bonito, o pessoal aqui já deve ter reparado. disse piscando depois de observar melhor o rapaz.
–Você só repara nessas coisas Afrodite... Mas você me parece muito bem também... Parece feliz. disse pensativo e um pouco melancólico agora.
–É, eu estou realmente feliz, me sinto muito realizado com tudo. E eu não penso só nisso, mas sua beleza não passa despercebida garoto, devia estar acostumado com elogios, deve ser paquerado em todo lugar, né?
–Bom, eu não saio muito e não reparo em nada disso.
–O que? Você é lindo Hyoga, você só pode ser cego, devem te mandar olhares cobiçosos o tempo todo. disse afagando os cabelos do loiro.
–Não me importo com essas coisas, e realmente acho que você está exagerando, não me acho bonito. - já estava ficando constrangido com os comentários e o contato do pisciano, ouvia muitos elogios, mas Afrodite era diferente, era seu amigo e as palavras dele tinham certa importância, logo o cavaleiro de peixes que reconhecia muito bem a beleza, mas ele realmente não se achava bonito como diziam, recebia muitos elogios pra onde quer que fosse, mas nunca relevou qualquer comentário quanto a sua aparência, sempre foi muito distraído nessas ocasiões e só percebia que estava sendo paquerado quando a pessoa era muito descarada, e foi muitas vezes paquerado até mesmo por homens, achava aquilo muito estranho, mas não se importava, afinal não tinha a mínima intenção de corresponder a qualquer um que fosse.
–Você já se olhou no espelho? E não devia sair assim na rua, é perigoso, ainda mais aqui, não se esqueça que você é um hetero raro entre nós cavaleiros.
– Certo, vou me cuidar. Mas eu não vim aqui falar da minha aparência... Só vim pra agradecer por tudo Afrodite, o seu trabalho foi excelente, ficou do jeito que eu queria e obrigado por arrumar minha mudança também, não precisava fazer tanto.
–Mudança? Mas você disse que o Shiryu iria recebê-la, eu só entreguei as chaves pra ele.
–Se não foi você deve ter sido ele. Então porque ele não disse nada quando eu fui vê-lo hoje?- disse mais pra si mesmo, pensativo.
–Deve ter esquecido, ele tem muita coisa na cabeça.
–Deve ser. - ficou pensando em como Shiryu pudesse esquecer-se de dizer algo assim. - E eu estranhei quando senti seu cosmo aqui no santuario, não devia estar ajudando o Shun na ilha?
–Sim, mas eu tenho um trabalho pra terminar, e hoje o Shun não precisa da minha ajuda, quem precisa é a Saori.
–Saori precisa de ajuda?
–Er... Não é nada de mais.
–Hum... Mas eu tenho que vê-la agora, ela esta ocupada?
–Não, pode ir, ela já está te esperando.
–É, imaginei que ela me esperaria hoje. Então tenho que me apressar, até mais tarde Afrodite. - disse já se retirando.
–Até a noite... estava feliz com a volta do cisne, pensou em Shun e ele voltaria a sorrir mais, nos anos que Hyoga sumiu Shun entristeceu-se muito, embora tentasse disfarçar sua alegria pra não preocupar ninguém, mas eram amigos então ele percebia a agonia do virginiano com a distancia de seu amado, e Afrodite já sabia como era passar por isso, sofreu muito antes de revelar seus sentimentos pra Carlo, então entendia como era doloroso não ter a pessoa a quem amava perto. E Hyoga agora estava deslumbrante, se ele mesmo já achava isso imagine Shun.
Chegando ao templo de Atena que aparentava estar vazio, foi observando tudo e nem sinal de Saori, adentrou um quarto logo atrás da cortina depois da grande poltrona de centro, avistou a garota sentada num sofá com seu típico vestido branco e estava distraída com alguma coisa que tinha em mãos que ele não reconheceu de imediato, ela parecia a mesma e ainda muito bonita.
–Atena. falou baixo.
Ela não o olhou de imediato, só esboçou um sorriso ainda observando o objeto que tinha em mãos, colocou-o de lado e levantou-se, dirigindo agora o olhar pra seu cavaleiro. Hyoga curvou-se formalmente, estava diante de Atena, e embora fossem amigos ainda era o cavaleiro e ela a deusa Atena.
–Não precisa ser tão formal Alexei. - ela era uma das poucas que o chamavam pelo primeiro nome. E ela falava de uma forma tão carinhosa, parecia uma irmã mais velha, embora fosse o contrario.
Direcionou o olhar pra ele da forma doce e carinhosa que só ela sabia demostrar. Hyoga ficou de pé e sorriu também, ela foi até ele, cada movimento seu parecia majestoso, até seu cosmo transmitia conforto. Ficou perto e o olhou nos olhos por um tempo, o loiro pareceu confuso agora, ela parecia querer desvendar todo seu ser com aquele olhar. O sorriso dela cresceu e enfim o abraçou, e ele a retribuiu. como era bom, transmitia uma paz que ele não possuía há muito tempo em seu interior, e aquele abraço parecia conforta-lo de todos os seus conflitos internos e todo o peso emocional que carregava sumiu de repente. Separaram-se, mas ela continuava a segura-lo pelas mãos e o observou dos pés a cabeça sem nem disfarçar, parou em seus olhos novamente e demostrou preocupação.
–Como você está meu amigo?
–E-Eu, estou bem Saori. - ela conseguia desconcerta-lo, como podia parecer tão divina e humana ao mesmo tempo? pensou.
–Não, não está.
Ele não discutiu, só pelo olhar ela podia sentir o todo seu sofrimento, como poderia mentir para uma deusa. Ela direcionou-o pro sofá e sentou-se ao seu lado, mas ainda o olhando de frente.
–Os pesadelos continuam não é mesmo?
–Como voc...?
–Hyoga... Eu sei pelo que tem passado, não precisa tentar parecer mais forte do que já é, pois você já é muito determinado, e só de estar aqui já prova isso, mas receio que você esteja afundando mais ainda em sofrimentos.
–Não quero falar sobre isso Saori... - já imaginava que a conversa seguiria esse rumo, mas não pensou que ela tocasse nesse assunto logo de cara.
–Vamos parar com isso Hyoga, não quero falar de coisas superficiais com você a quem considero um irmão, coisas como santuário, missões, pupilos não são importantes agora, quero apenas ajuda-lo a superar o que tem passado, e adiar ainda mais essa conversa é pura perda de tempo.
–Não é isso. - suspirou - se dando por vencido. - Só não acho que seja necessário falar disso de novo, foi um dos motivos de eu ter partido da ultima vez, não queria aborrecer ninguém com meus problemas pessoais. Além disso, não quero que pare, não mereço, não mereço nem estar na sua presença agora Atena.
–Me chame de Saori, e você assim como todos os meus cavaleiros honrados merece estar aqui. E já estou extremamente feliz que tenha voltado pra todos nós por conta própria. Mas estou preocupada com você, pensei que esse tempo que passou sozinho tivesse amenizado tudo que estava sentindo antes de partir.
–Você sabe meus motivos por ter partido, então deveria saber que nada mudaria com meu retorno... Mas não queria que se preocupasse, eu estou bem, na medida do possível, ainda estou aqui, e ainda pretendo cumprir a promessa que fiz pra mim mesmo.
–É um fardo muito grande pra uma só pessoa.
–Eu acho que posso carrega-lo pelo tempo que me for permitido.
–Hyoga, isso é tarefa pra mim e todos os cavaleiros juntos, e você quer cumprir essa missão sozinho, eu sei como se sente, e seu trabalho tem ajudado muitas pessoas também, mas o que você quer é uma utopia, sei que isso é importante pra você e é importante pra mim também, mas eu sei como os seres humanos têm vivido, mas eles têm escolhas, têm o livre arbítrio. Assim como você, que pode parar de sofrer quando quiser, já falei que nada do que aconteceu foi culpa sua e também não tem relação com o que você quer para o mundo agora, apenas deixe que as pessoas que o amam te ajudem, não quero que pare de fazer o que tem feito, e acho que tem feito muito bem, o que quero é que você não torno isso uma obsessão. O primeiro passo pra conseguir paz é perdoando a si mesmo, mas parece que você não quer paz e quer pagar por uma dívida que acha que tem, tentando transformar o mundo, mas não há divida alguma. Há coisas que são inevitáveis, você não pode controlar tudo a sua volta Hyoga.
–Mas eu ainda posso tentar evitar que as ruins aconteçam, enquanto eu viver estarei tentando, meu trabalho não se limita a prender as pessoas que causam mal, mas garantir que elas não voltem a fazer.
–Como eu disse, esse tipo de pensamento é utópico. Não há duvidas que você é uma cavaleiro da justiça. E está de parabéns, pois você realmente tem feito a diferença. Mas Hyoga, não há divida, não há o que perdoar, sua mãe ficaria muito infeliz se visse o modo como tem vivido, posso sentir sua tristeza emanando, e que você não consegue e nem quer ser feliz, está desperdiçando uma vida que poderia ser repleta de alegria. deu uma pausa pra olhar o cavaleiro do gelo nos olhos, que parecia bastante frustrado. - Você já arriscou sua vida muitas vezes pela humanidade, não sacrifique agora sua felicidade pra uma sociedade que teve tantas chances de ser destruída e sobreviveu por sacrifícios que todos vocês dispuseram-se a fazer, mas agora a humanidade está em outro momento e paz, e você deveria aproveita-lo também. Você sequer percebe que há muitas pessoas que o amam de todas as formas e morreriam por você e sua felicidade é muito importante pra todas essas pessoas.
–Do que esta falando?
–Ah Hyoga. - suspirou - você está tão perdido em seu interior que mal percebe qualquer movimentação no exterior, queria muito te ajudar, queria lhe fazer sentir melhor, mas tudo depende unicamente de você meu amigo... Meu irmão. - segurou as mãos geladas do cavaleiro, que estavam tremulas. -Mas eu posso ao menos lhe guiar, se assim aceitar.
Hyoga apenas ficou calado e olhou pra um canto, e avistou o objeto que Saori tinha em mãos momentos atrás, era um quadro com uma fotografia deles cinco e Saori juntos, lembrava muito bem daquele dia, foi o dia que Seiya saiu do hospital depois de se recuperar da batalha contra Ártemis, foi o período que a paz finalmente reinou e todos seguiriam seus caminhos, e foi quando ele fez aquela promessa pra si mesmo, e lá estava ele depois de seis anos sendo repreendido pela própria Atena por tentar fazer do mundo um lugar melhor, mas estava irritado consigo mesmo por ser tão fraco e deixar que sua tristeza transparecesse tanto, odiava sentir-se digno de pena, ainda mais de Atena, a quem deveria proteger e não o contrario.
–Não seja tão orgulhoso Hyoga. O orgulho fere as pessoas e as faz perder oportunidades únicas... Sei que uma pessoa extremamente racional como você pode entender o que quero dizer.
–Não há nada que possa fazer por mim Saori, apenas gostaria que não me fizesse parecer mais digno de pena do que já pareço.
–Não tenho pena de você, não há do que ter pena aqui cavaleiro de cisne, você apenas não quer aceitar ajuda pra não parecer fraco, mas isso é impossível Hyoga, todos nós somos fracos em algum momento, até mesmo eu. Nunca foi minha intenção deixar que tivessem passado tanto sofrimento em tantas batalhas, mas foi inevitável e eu acabei sendo fraca e vocês cinco, meus cavaleiros mais fieis, sofreram por causa da minha fraqueza, mas me socorreram e eu socorri vocês no final... Quero um mundo perfeito tanto quanto você, mas sei que algo tão grandioso não se conquista sozinho, o amor que nos uni é o que vai nos fortalecer pra seguir em frente e alcançar nosso intento, eu preciso de todos os meus cavaleiros, eu preciso de você Hyoga, cavaleiro de cisne, mas como poderia nos ajudar se você precisa de ajuda mais do que qualquer um? Por isso quero que se perdoe, que siga em frente, que encontre a felicidade. Não estaria feliz se meus cavaleiros também não estivessem. Seu sofrimento também é meu e sua felicidade é tão importante quanto a minha.
–De-Desculpe, não sabia que pensava assim. A última coisa que quero é fazê-la sofrer Saori.
–Espero que entenda que só quero o seu bem meu amigo.
–Certo, entendo.
Ficaram em silencio por um tempo. Parece que Hyoga finalmente entendeu.
–Por hora quero que saiba que seu retorno vai mudar muita coisa por aqui Hyoga.
–Como assim?
–Assim como seu distanciamento afetou a todos, o seu retorno significa muito também.
–Sei que sentiram minha falta, mas nunca achei que tinha afetado tanto a todos.
–Mas afetou, e até que você se recupere nada vai seguir em frente. Entenda Hyoga, quando uma peça do tabuleiro se perde deixa-o incompleto, e a harmonia se perde também e só retorna não somente se a peça reaparece, mas sim se ela ainda se encaixa no tabuleiro... Você deixou um vazio na vida de muitos, que esperaram ansiosamente pelo seu retorno, mas você ainda está em conflito, então nada vai mudar se você não mudar também o que há em seu interior, você pode ter voltado, mas não ira se encaixar como deveria, então precisa se readequar a todos... A primeira coisa que quero que saiba é que todos mudaram, o tabuleiro mudou, então você precisa mudar também pra encaixar-se no tabuleiro de novo. Agora compreende que sua felicidade também é importante pra felicidade de todos?
–Acho que entendo. Mas nunca pensei que fosse algo tão complexo. Nunca pensei que tivesse atirado todos nessa situação, seja lá qual for.
–Então vai nos ajudar a recuperar a harmonia?
–Eu quero, mas não sei como.
–Vou lhe ajudar.
Hyoga sorriu, realmente nunca pensou que tudo e todos tinham mudado tanto, apenas pretendia seguir a vida da mesma forma, a diferença é que agora estaria perto de todos novamente, mas nunca passou pela sua cabeça que todos precisassem dele pra ser felizes, que até então não fazia nenhum sentido ainda, como assim estavam incompletos sem ele a ponto de prejudicar suas felicidades? O que realmente sentiam por ele?
–Tudo bem. - disse determinado, não entendia, mas iria descobrir o significado das palavras de Atena.
E assim fizeram uma espécie de acordo, que Saori já entendia muito bem, mas Hyoga ainda estava confuso, nunca foi bom em lidar com sentimentos, uma prova era o conflito que ele passava, Saori não tratou de explicar tudo de imediato, apenas deixaria as coisas seguissem seu curso, o que tinha que acontecer que acontecesse, apenas se envolveria dando conselhos quando fossem necessários, mas não se envolveria mais do que isso, somente se fosse extremamente necessário, seus cavaleiros teriam que conseguir achar a harmonia entre eles juntos, e a peça que faltava retornou, e era crucial que ela se encaixasse de novo pra que o tabuleiro voltasse a estar completo de novo.
–Ótimo. - era bom ouvir isso de seu cavaleiro e isso amenizou o clima entre eles, estava feliz por tê-lo convencido de que era o melhor a se fazer, finalmente as coisas iam começar a andar. Primeiro, quero que continue com sua rotina, mas que passe ao menos um pouco mais de tempo com nossos amigos, eles ficariam muito felizes, dê a chance deles entrarem em sua vida, TODOS ELES. - disse em um tom mais alto. o que ela queria dizer com isso? pensou.
–Eu me dou bem com todos Saori... ou quase. - disse depois de pensar um pouco.
–Você sabe de quem eu estou falando.
–Sei.
–Então não discuta.
–Tá, desculpe. - Saori sorriu mais, Hyoga parecia bastante submisso agora.
–E converse mais, não só ouça, mas dê sua opinião também, partilhe com eles coisas que você achava desnecessário revelar, as coisas mais simples e que parecem irrelevantes podem fazer uma grande diferença, podem até desenterrar coisas do passado que você poderia ter esquecido... Procure ser mais intimo deles, mas não dissimule, nem tente, você não se sairia bem, vamos admitir que você nunca soube mentir.
–Sei sim.
–Você não pode me convencer disso Hyoga. Sempre foi muito transparente.
–Hunf. - Saori só riu, ao menos ele tentava cooperar, mesmo discordando ao mesmo tempo.
–E nunca deixe sua personalidade de lado, é o que te faz único e você jamais deve perder isso.
–Nem precisava dizer isso.
–Bom saber então. Por enquanto é só, e sempre que precisar de um conselho é só me procurar.
–Obrigado Saori, farei isso.
–Mas vamos esquecer essas preocupações por enquanto, vamos conversar sobre outras coisas, quero te fazer umas perguntas...
...
Dirigiu-se pra mansão, estava atrasado, ainda tinha ido falar com Dohko, antigo mestre de Shiryu e atual mestre do santuario, pra se apresentar disponível pro santuario. Tinha ido à Sibéria também e se atrasado mais ainda, sua conversa com Saori tinha sido mais longa do que ele previa, mas foi muito reconfortante, precisa ouvir tudo aquilo, e foi bom que tenha ouvido dela, então decidiu que se daria uma chance de ser feliz, somente pra ajudar a todos também, não entendia ainda porque, mas seguiria o conselho de Saori, se a felicidade de todos dependia dele então faria o seu melhor.
Já na entrada da mansão havia vários carros de seus amigos, aparentemente todos compareceram, ou a maioria. Estacionou.
Procurou vestir-se formalmente, estava com uma calça social preta, um blazer preto e uma camisa de mangas longas branca, seus cabelos estavam presos por uma trança de novo, normalmente era assim. Bateu na porta e Millo apareceu.
–E aí garoto, entra aí. - Millo não estava surpreso em vê-lo, pois sempre conversavam quando ele ia visitar Camus na Sibéria, e a maioria dessas vezes Hyoga estava lá, e foi o que aconteceu horas atrás quando ele foi a Sibéria, também se tornaram grandes amigos principalmente pra fortalecer o laço de Millo com seu mestre Camus, no começo se desentendiam muito, mas pra manter a harmonia resolveram suas diferenças e agora eram até mesmo confidentes, e isso deixava Camus muito feliz, embora ele pouco demostrasse. Abraçaram-se e Millo o guiou pra dentro.
–Desculpe o atraso Millo, todos já estão aqui?
Entrou e pode ver que todo o lugar estava arrumado com uma decoração azul com branco, ele sorriu, aquilo era pra ele, ficou muito feliz em saber que tiveram o trabalho de recebê-lo assim.
–Sim, e Camus já estava perguntando por você. Começou com o sermão e que não foi assim que ele te educou, que você sempre foi pontual e bla bla bla... o engraçado é que ele fala isso pra mim. E não foi só ele, TODOS já perguntaram por você. - parecia mais entediado do que aborrecido.
–Desculpe, você ouviu por mim então, estou atrasado, mas ao menos eu apareci né. - falou divertindo-se, Camus e Millo pareciam casados a anos pra estarem nesse nível do relacionamento. E pra Hyoga eles eram perfeitos um pro outro, pois mesmo com algumas desavenças eles se entendiam muito bem, eram dois teimosos, mas acabavam entrando em acordo de algum modo, em qualquer situação. Eles se completavam.
–É, já é um avanço.
O salão de reunião era mais pra dentro da mansão, a casa de Saori era realmente exagerada. Enquanto caminhavam iam conversando banalidades.
–Olha só... Você está ótimo Hyoga, devia vestir-se mais assim. - disse olhando de lado pro loiro. Normalmente ele vestia roupas largas pra ficar mais a vontade em casa, e realmente parecia um desleixado, embora se vestisse bem em ocasiões formais, que alias era a maior parte do tempo, pois vivia investigando cenas de crime e deveria vestir-se de acordo, e Millo só disse aquilo pra irrita-lo, adorava fazer aquele loiro perder a pose.
–Tá dizendo que normalmente eu sou um desleixado?
–Das vezes que eu vi sim, mas desse jeito até que você convence. - disse rindo um pouco.
–Hunf... Não sou desleixado.
–Se você diz... Ah, o Isaak está aqui.
–É mesmo? Que bom, faz um tempo que não o vejo, três meses eu acho.
–E veio com a noiva.
–Já é noiva? Nossa, que bom.
–E você Sr. Alexei, quando vai pedir a Eire em casamento?
–O que? Bateu a cabeça e está alucinando agora? Ou já andou bebendo demais, o Camus não vai gostar nada disso. E você sabe muito bem que eu e a Eire não nos vemos faz muito tempo, nem posso chamar o que temos de relacionamento, talvez isso mude daqui por diante, mas ainda está muito longe de se tornar casamento.
–Você tá é enrolando a garota, diz logo que não gosta dela e parte pra outra, devia prestar mais atenção nas pessoas em sua volta.
–Millo... Já falou de mais, é melhor você ficar quieto se não quiser ser congelado agora mesmo. falava baixo, mas em seu sutil tom de ameaça. - E que historia é essa de prestar mais atenção em volta?
–Não me venha com ameaças de novo garoto, o Camus não me assusta mais, imagine você. E não vou entrar em detalhes de nada agora. -Millo só ria da tentativa do loiro em intimida-lo, ele sempre tentava, mas nunca funcionava.
–Hunf. - ficou irritado com as provocações de Millo, ele era sempre assim, o tratava como um irmão mais novo, e ele odiava ser tratado feito um garoto que não sabe nada.
–Vamos parar de discutir, não quero estragar a noite lhe dando sermões de novo. E seja gentil com todos por favor.
–Eu sempre sou. - pareceu indignado agora, ele nunca ousaria destratar seus amigos.
–Certo, certo, mas pelo menos sorria, ou está com medo do seu rosto estalar? São seus amigos e eles merecem o seu melhor.
–Eu sei Millo, tá parecendo meu pai, inclusive tá pegando mais no meu pé do que o Camus.
–Então deveria estar feliz... é melhor ouvir de mim, porque dele vai ser pior.
–É, eu sei, desculpe, sei que só está preocupado comigo. disse arrependido.
Millo parou e virou-se pro loiro.
–Hyoga, este é um novo começo, há coisas que vão mudar muito com seu retorno, e você vai ter que tomar algumas atitudes, mas quero que saiba que eu e Camus sempre estaremos aqui pra ajuda-lo, e dar conselhos. Mas por favor, não se isole de novo, todos sentiram sua falta, e estão ansiosos pra recebe-lo, apenas haja naturalmente e cumprimente a todos.
–Claro. Eu não sou mais criança Millo, já sei me comportar. E eu não entendo o que está acontecendo. Saori me disse algo parecido com olhar em minha volta, mas ainda não entendi. Agradeço muito Millo, mas porque está falando assim? Você falou alguma coisa com a Saori? Está me avisando do que exatamente?
–Não há tempo pra isso agora, vamos entrar. - e cortou o loiro antes dele falar mais alguma coisa, virou-se e abriu a porta dando visão completa do grande salão da mansão Kido, que também estava decorado, e tinha uma faixa de boas vindas enorme, todos estavam presentes e disseram em uníssimo.
–BEM VINDO HYOGA.
Hyoga quase levou um susto ainda estava pensando no que Millo disse, mas logo se recuperou, sua frieza era bastante eficaz nessas horas. Lá estavam todos os cavaleiros de ouro e bronze, e alguns de prata. Parecia que não faltava ninguém. A maioria foi logo se aproximando, todos o abraçaram, deram boas vindas, o arrastaram pra um canto pra responder as perguntas que o faziam. Os cavaleiros de ouro foram os que pareceram menos surpresos, afinal já o tinham visto mais cedo. Saori, Shiryu e Seiya também não demostraram tanta surpresa. Os mais curiosos em conhece-lo eram os pupilos de seus amigos, que nunca o tinham visto, eram os quatro propensos a armaduras de prata, Ariel pupilo de Seiya, Lien pupilo de Shiryu, Lorenzo pupilo de Shun e Theodoro pupilo de Ikki, e eles também eram bastante respeitados por serem treinados pelos cinco legendários. Jacó também estava lá e também muito feliz em ver seu mestre comparecer pela primeira vez à reunião de cavaleiros.
...
Alguns minutos antes do loiro chegar...
Num canto estavam Shun e Afrodite conversando. Shun estava uma pilha de nervos, mal podia se conter em saber que veria Hyoga a qualquer momento. Enquanto isso Afrodite tentava distrai-lo.
–Desculpa Shun, eu disse pra ele que você queria leva-lo, e ele disse que ia pensar.
–Tudo bem, pelo menos vou vê-lo daqui a pouco.
–E é melhor se preparar.
–Porque diz isso?
–Eu já o vi hoje.
–O quê?
–Eu já o vi hoje.
–Droga Afrodite, lá vai você de novo, quero saber quando, onde, por que... - disse irritando-se.
–Você fica uma gracinha com raiva desse jeito Shun, fica todo vermelhinho, quem sabe se você mantiver esse tom de pele quando o Hyoga chegar...
–Afrodite. - disse já muito irritado dando um beliscão no pisciano.
–Ai Shun, com essa agressividade você não vai fazer o Hyoga gamar em você e...
–Fala logo onde você o viu, droga.
–Tá muito estressado, mais tarde eu posso lhe fazer uma massagem se quiser, pra relaxar um pouco.- disse ainda atormentando Shun, que já estava uma pilha de nervos, e Afrodite adorava ver ele perder a calma, ele sempre preferiu manter a imagem de alguém calmo, que odiava brigar por qualquer coisa, mas em se tratando de Afrodite a imagem do garoto calmo e angelical ia pelos ares. Enquanto isso Afrodite só ria cada vez mais.
–Certo vou falar, vou falar. - e ficou quieto em silencio.
–...
–Fala. Você disse que ia falar.
–Ah é, era sobre o que mesmo?
–Arg... Afrodite, se eu tivesse com minhas correntes agora...
–Calma aí, nada de ameaças, além do mais se você me deixasse inconsciente nunca saberia do que eu ia falar daquele loiro lindo.
–L-Lindo?
–Tá, já me diverti bastante, vou falar serio agora.
–Shun voltou a olha-lo atentamente.
–"Sério agora". Hahahahahahahahahaha.
Shun foi de uma cara de poker face pra full, e beliscou o amigo mais forte ainda.
–Tá,tá... O Hyoga foi ao santuario hoje.
–Ah... - parou no meio do caminho de torcer o braço do pisciano. - E-e como ele tá?
–Bom, digamos que você pode gostar mais ainda dele agora. Eu estava terminando de fazer aquela planta que eu te falei, e ele foi lá pra falar com Saori, então aproveitou pra me agradecer pelo apartamento que arrumei pra ele, não falei que ele ia gostar?
–É, você ficou o tempo todo se gabando disso.
–É claro, agradar os cubos de gelo não é nada fácil.
–Mas como é que ele tá? Fala logo.
–Você vai ver agora mesmo. - disse apontando pra porta de entrada do grande salão de onde Hyoga de Millo apareceram.
Hyoga pareceu até um pouco surpreso pelas boas vindas tão calorosas, mas logo mudou pra sua típica inexpressão, mas ainda com um leve sorriso.
Shun o viu de longe, estava do outro lado do grande salão, e avistou o loiro que despontava na entrada e era abordado por todos de uma só vez. Perdeu o folego, ele não poderia estar mais lindo, agora entendia do que Afrodite tinha falado, pois quando ele dizia que algo era belo, era porque era belo mesmo. Ficou ali paralisado com a imagem daquele deus nórdico por um tempo, até ser acordado por Afrodite que o puxava pelo braço.
–Anda Shun, vai ficar aí só olhando? Levanta e vai cumprimenta-lo.
–Hã? O que?
–Acorda Shun, todos já estão lá.
Quando deu por si, estava de boca aberta olhando pro loiro que já tinha cumprimentado a todos e já estava sendo atolado de perguntas, e respondia sem pestanejar.
–Ah tá. - levantou-se e foi guiado por Afrodite, estava tão abobalhado que poderia tropeçar nos próprios pés, e isso seria o cúmulo, pois tinha tentado se preparar psicologicamente pra quando visse Hyoga de novo, pra que não passasse vergonha como quando falou com ele por telefone, mas agora estava falhando miseravelmente.
Foi no caminho até o aquariano tentando acalmar seu coração, repetia pra si mesmo manter a calma e não fazer vexame. Mas a imagem do loiro que se tornava cada vez mais próxima o desconcentrava, mal sentia os próprios pés. Porque ele apareceu assim, deveria ser crime andar assim tão bonito. pensou.
–Calma Shun... Calma Shun... Calma Shun... - droga, isso não vai dar certo, pensou.
–Calma Shun... - disse Afrodite que percebeu o nervosismo do rapaz.
–É fácil falar...
A maioria dos cavaleiros já tinha dado um pouco mais de espaço pra Hyoga pra que respondesse as perguntas depois que cumprimentasse todos. Ele falava com Aldebaran, quando avistou Shun vindo com Afrodite em sua direção. Quando o viu abriu mais o sorriso e foi até ele. Shun estremeceu mais ainda quando viu que Hyoga se direcionava a ele agora.
Pararam de frente um pro outro. Hyoga observava atentamente cada movimento de Shun, ele parecia muito nervoso, e não entendia ainda por que. O cavaleiro de Andrômeda só continuou o observando e nada lhe dizia, seus os olhos estavam marejados e estava tremulo, era até adorável, Hyoga nunca achou que somente sua presença pudesse causar tudo aquilo, então decidiu quebrar o silencio.
–Oi Shun.
Shun não se segurou mais. Que se dane a postura, o autocontrole, esperou tanto por esse momento que não pensaria mais em nada, não se importou que estavam todos ali os olhando apenas se jogou nos braços do loiro que tanto amava. Hyoga assustou-se com a reação do amigo, Shun o agarrou de uma forma possessiva e desesperada, e ele apenas retribuiu o abraço. A diferença de altura, força, musculatura era mais que evidente, Shun ainda parecia um garoto frágil apesar de também ter crescido bastante e ter ganhado um pouco mais de corpo, seus cabelos estavam mais cumpridos, tinha a pele rosada o jeito angelical de sempre e um pouco infantil embora também mais maduro, juntando tudo sua aparência parecia um pouco mais feminina e máscula ao mesmo tempo, era um completo contraste. E tinha bastante força, agarrava o loiro tão forte como se ele fosse fugir a qualquer momento.
Shun não se importou mais e desabou em lagrimas, nunca pensou que se emocionaria tanto, ficaram até bastante tempo assim, mais por Shun que não afrouxava o abraço. - é tão bom, tão aconchegante... ele não é gelado, é quente, é terno, suave. - pensou, nunca mais queria sair dali, mas Hyoga fez um pouco mais de força e foi desfazendo o contato aos poucos, de um jeito afetuoso pra não assustar Shun.
–Tudo bem Shun?
Shun apenas acenou positivamente com a cabeça. Hyoga desfez-se completamente do abraço e segurou o menor pelos ombros que ainda segurava o loiro pela cintura, estava de cabeça baixa e as lágrimas continuavam a cair. Hyoga lhe afagou os cabelos.
–Tudo bem, estou aqui.
Segurou o queixo do menor para que ele o olhasse nos olhos. Shun pareceu mais fofo ainda, suas lágrimas ainda caiam e molhava seu belo rosto, seus grandes olhos verdes encontraram os azuis claros de Hyoga, este esboçou um doce sorriso e lhe acariciou a face enxugando as lágrimas.
–Está melhor?
–S-Sim.
–Que bom... Agora pare de chorar que eu não vou mais à parte alguma, e mostre aquele lindo sorriso pra mim.
Apenas acenou de novo, e soltou o loiro. Começou a enxugar suas lágrimas com as costas das mãos, e o olhou de novo, esboçou o sorriso que lhe foi pedido, e não foi difícil, estava realmente muito feliz e extasiado com a simples presença da pessoa que amava.
Mas não poderia ter sido mais constrangedor, fez tudo que não queria fazer, foi possessivo, chamou muita atenção, e chorou, chorou depois que tinha prometido pra si mesmo que não seria tão fraco, a ponto de demostrar tão facilmente suas emoções, sua tentativa de passar despercebido com a volta do cisne tinha falhado miseravelmente. Agora só restava deixar as coisas seguirem seu rumo.
Ninguém percebeu, mas Ikki observava tudo de um canto do salão.
