Capítulo 17: Criando laços
Ficaram um tempo ali, com Ikki relembrando o passado, quando sentiu uma presença atrás de si, virou-se e viu que Hyoga tinha voltado com um pano e um copo com agua gelada.
─Vamos tira-lo daí Ikki. – disse se posicionando pra ajudar o leonino a erguer o irmão. Ikki não tinha reação pra aquilo.
─Ele voltou, está aqui pra todos nós de novo, ele finalmente voltou. – pensou e sorriu pra Hyoga que sorriu de volta.
Ikki ficou um tempo observando o aquariano antes de aceitar a ajuda dele. Estava feliz que ele tivesse voltado, achava que na hora que ele tinha se retirado era pra ir pra bem longe deles, depois do que disse a ele, achava que o russo desprezaria seu irmão... Mas ao invés disso o russo tinha um olhar triste, parecia pedir desculpas para os dois em silencio, só com aquele olhar. Então resolveu aceitar... Jogaram agua em Shun e o limparam, parecia que cuidavam do irmão mais novo de ambos.
─O que faremos agora? – Hyoga perguntou.
─Vou leva-lo pra casa, se ele dormir de uma vez não vai fazer tanto drama. – disse Ikki.
─Hm. Vou com vocês. - disse Hyoga.
─O quê? - Ikki o olhou agora descrente.
─Vou ajuda-lo, eu vi que ele estava exagerando na bebida e não fiz nada. - disse se explicando e olhando pro virginiano com expressão complacente, não poderia deixa-lo, não depois do que Ikki lhe contou.
─Não é necessário pato, eu sei cuidar do meu irmão sozinho. - disse o olhando nos olhos já estava arrependido do que disse para o loiro.
─Eu não vou discutir isso com você frango, eu vou junto e ponto final, faço isso pelo Shun que é meu amigo. - disse sério, pra convencer o leonino tinha sempre que se manter firme.
─Hunf. Faça o que quiser então, não ligo. - disse já se retirando com o irmão. - é sempre pelo Shun, sempre, ele só pensa nele. – pensou.
Chegaram à mesa pra junto dos outros e Ikki ainda segurava Shun que se apoiava em seus braços.
─E aí? Acordaram? - disse Seiya.
─O Shun não, vou leva-lo pra casa. - disse Ikki.
─Mas já? A noite mal começou. - disse Seiya.
─É preciso. Mas tudo bem, nos divertimos um pouco. - disse com um leve sorriso enquanto olhava pro irmão.
─E você Hyoga? - disse Seiya.
─Eu vou com o Ikki pra cuidar do Shun. - disse o loiro.
─Mas por quê? O Ikki pode fazer isso sozinho, fica aqui com agente. - disse Shiryu.
─Estou cansado e sonolento também Shiryu, é melhor eu ir agora enquanto ainda posso dirigir. - disse o loiro mais serio.
─Mas... - disse Shiryu.
─Tudo bem Hyoga... Está preocupado com Shun, então é melhor ir junto pra ficar mais tranquilo. - disse Saori percebendo o que se passava.
─Então vamos Ikki. Até logo gente, o dia com vocês foi ótimo. Até outro dia senhoritas. - disse o loiro com um sorriso.
─Tá bom então. Tchau Hyoga. - disse Seiya um pouco triste.
─Tchau Hyoga. - disse Shiryu triste.
─Tchau pra vocês. - disse Ikki simplesmente e já se retirando.
Quando chegaram lá fora viram que um tempo chuvoso estava se formando. Chegaram aos carros e Ikki procurava as chaves nos bolsos, mas estava difícil ter que segurar Shun ao mesmo tempo.
─E o carro dele? - Hyoga perguntou.
─Amanhã ele vem buscar. - disse Ikki ainda procurando as chaves.
─Hm... Deixa que eu seguro ele. - disse Hyoga vendo o aperreio do leonino que preferia se virar sozinho a pedir ajuda, parecia irritado com alguma coisa então puxou Shun de uma vez pra ele antes do leonino começar a discutir.
Shun estava tão sonolento que ia de um lado pra outro e nem acordava.
─Não precisava fazer isso pato idiota. - disse Ikki vendo que Shun foi logo se agarrando ao loiro inconscientemente e ainda sorrindo e Hyoga simplesmente o acolhia.
─Porque está tão irritado? Para de reclamar e abre logo o carro. - disse abraçando mais Shun pra que não caísse afinal o virginiano só parecia, mas não era nada leve.
Ikki suspirou irritado e procurou melhor as chaves, a encontrou e abriu a porta do banco de trás do carro pra colocar Shun deitado lá.
─Pronto, me dá ele agora. - disse o leonino já pronto pra segurar o irmão.
Mas Shun tinha agarrado o loiro de novo e não queria soltar, foi acordando aos poucos e olhou pra cima e viu que o aquariano o segurava.
─Oi Oga, quanto tempo. - disse sorrindo com os olhos quase fechando.
─Oi Shun, faz tempo mesmo, vamos leva-lo pra casa agora, mas me solta um pouquinho pra entrarmos no carro, tá bom. - disse o loiro um pouco serio e acariciando a face do virginiano.
─Não, quero ficar aqui com você. - disse e o apertou mais.
─Viu só porque eu não queria deixar ele com você? Agora ele não te solta mais. - disse Ikki irritado.
─Deixa de drama frango, é só fazer um pouco mais de força que... - disse tentando se desfizer do abraço apertado de Shun. ─ Nossa, quando ele quer colocar força ele coloca mesmo. - disse ainda tentando tirar os braços do virginiano de si, mas estava difícil, Shun o abraçava inconscientemente, mas tinha uma força e tanto.
Hyoga suspirou. ─Aff, deixa que eu levo ele então. - disse pegando Shun de vez no colo, o virginiano se agarrou de vez no pescoço dele e se aconchegou mais em seu peito.
─Mas nem pensar pato, devolve meu irmão aqui. - disse Ikki que não gostou nem um pouco daquilo.
─Ah para de reclamar frango, não tá vendo que ele não me larga? E se ficar insistindo ele vai acordar de vez e chorar como você disse. Vamos logo que eu o levo no meu carro, não tem problema, onde vocês moram? - disse o loiro.
─Hunf... Tá bom... Vou indo na frente e você me segue. - disse o leonino dando-se por vencido.
E assim seguiram pra o apartamento deles. Shun foi junto com Hyoga ainda abraçado fazendo o russo dirigir com dificuldade. Quando chegaram Ikki estacionou lá dentro e Hyoga estacionou na calçada, saiu do carro com Shun no colo de novo, Ikki foi à frente e pegaram o elevador.
─Como ele tá? - disse chegando mais perto pra ver o irmão.
─Dormindo feito uma pedra. - disse o loiro olhando pro virginiano.
─Melhor assim, mas amanhã ele vai acordar com uma ressaca e tanto. - disse Ikki com um sorriso, Shun parecia uma criança, nem parecia que já era maior de idade.
Chegaram e Ikki abriu mais a porta do apartamento dando passagem pro loiro entrar com seu irmão.
─Onde é o quarto dele? - perguntou o loiro olhando em volta.
─É por aqui. - disse o leonino fechando a porta e se dirigindo pro quarto de Shun.
Chegaram e Hyoga foi colocando o virginiano com cuidado na cama, Shun foi se aconchegando mais e enfim o soltou, mas ainda segurava a manga da camisa de Hyoga.
─Não é melhor dar um remédio pra ele não acordar tão ruim amanhã? - disse olhando pra Ikki que estava na porta.
─Pode ser, eu vou ver se tenho algum remédio, espera aí.- disse já se retirando.
O loiro ficou olhando Ikki saindo e se assustou quando Shun o chamou sonolento.
─Oga? Onde estamos? - disse esfregando os olhos tentando se localizar.
─Você está em casa Shun, agora deita pra descansar, que seu irmão vai trazer um remédio pra você se sentir melhor. - disse o loiro de forma mansa.
─Você vai ficar aqui comigo? - perguntou fazendo bico.
─Não, vou embora daqui a pouco. - disse o loiro afagando os cabelos de Shun.
─Mas porque Oga? Fica aqui comigo por favor. - disse com a voz chorosa.
─Mas...
─Por favor, Oga, fica comigo. - disse com as lágrimas já saindo e agarrando o pescoço do loiro de novo. - como podia dizer não pra aquele garoto? Estava adorável, um pouco vermelho e com lágrimas querendo sair, parecia uma criança carente.
─ Tá bom, tá bom eu fico, mas não chore, por favor. - disse enxugado as lágrimas do menor.
─Obrigado Oga... Gosto de você. - disse baixando os olhos aos poucos e deitando a cabeça no travesseiro.
─Eu sei, eu sei, agora deita e fica quietinho. - disse o aquariano.
─É sério Oga, gosto muito de você, muito, muito, muito. - disse sorrindo divertido.
─Eu também gosto de você Shun. – disse acariciando a face do menor.
─Mas eu... Eu gosto mais, mais que isso aqui oh. - disse abrindo os braços e rindo.
─rsrsrsrsrsrs. Certo, certo. Eu gosto isso aqui tudo de você também. - disse abrindo os braços também e entrelaçando as mãos do virginiano e as trazendo juntas de novo com as suas.
Shun fechava os olhos aos poucos e ainda sorrindo.
─Te amo. - disse bem baixinho que o aquariano quase não ouviu.
─O quê? - assustou-se com aquela ultima frase. –será que eu ouvi bem?–pensou.
Shun já tinha adormecido de novo, mas ele queria esclarecer aquilo logo, estava ficando louco ou Shun tinha dito que o amava, talvez fosse até um efeito da bebida, mas tinha que comprovar.
─Shun, Shun, acorda... Anda... o que foi que você disse? Repete. - disse tocando em seu rosto tentando acorda-lo.
─Pronto, achei o remédio... - disse Ikki aparecendo na porta com uma cartela de remédios e um copo d'água. - O que foi? - perguntou vendo a expressão confusa e angustiada do loiro.
─O Shun disse... Ele disse que... -suspirou. -Ah deixa pra lá, foi só minha imaginação. - disse o loiro olhando pra Shun de novo que já tinha adormecido.
─O que ele disse? - Ikki perguntou com uma expressão preocupada. - será que Shun se declarou?
─Nada não... Vai dar o remédio ainda? Acho que agora ele dormiu de vez. - disse o loiro olhando pras mãos de Ikki com o remédio.
Ikki suspirou aliviado, se Shun tivesse mesmo se declarado o aquariano diria alguma coisa.
─Temos que acorda-lo de novo então, senão amanhã ele vai acordar estressadíssimo e vai querer descontar em mim. - disse o leonino sorrindo.
Hyoga saiu de perto pra Ikki poder dar o remédio. O leonino sentou-se onde o loiro estava, colocou o remédio e o copo no criado mudo e tentava acordar o irmão.
─Shun, Shun... Vamos, acorda, acorda. - tentava, mas o virginiano já dormia pesado.
─Aff. Acorda logo Shun. - disse o agitando mais forte agora. E finalmente Shun desperta.
─Hã? Quê que foi Ikki me deixa dormir, droga. - disse tentando se virar de costas pro irmão.
─Ah não, nem pensar Shun, levanta que você tem que tomar um remédio pra amanhã não acordar tão mal. - disse erguendo o tronco do irmão com um braço em suas costas e o trazendo pra perto.
─Nãaao, não quero... isso aí tem gosto ruim, sai daqui Ikki. E cadê o Oga? Ele disse que ia ficar aqui comigo. - disse manhoso e empurrando o peito do irmão pra longe dele.
─Ele tá aqui, e você tá pagando o maior mico pra ele desse jeito, deixa de manha e toma logo o remédio garoto, anda. - disse pegando o comprimido e colocando na boca de Shun que tinha os lábios crispados pra impedir do leonino colocar o remédio e de olhos fechados.
─Aff, parece uma criança birrenta. - disse irritando-se.
─Oga tira meu irmão daqui. - disse ainda de olhos fechados.
─Me deixa tentar Ikki tenho uma tática infalível pra lidar com situações assim. - disse o loiro cheio de confiança.
─Você que sabe, ele tá mais marrento do que de costume. - disse o leonino. O loiro sentou-se de novo onde Ikki estava e puxou Shun como o leonino fez.
─SHUN, deixa de birra e toma o remédio que é pro seu bem. ANDA LOGO - disse o loiro sacudindo o virginiano pelos braços.
─Essa era sua tática? Obrigar ele desse jeito? - disse Ikki vendo o loiro balançar seu irmão como se fosse uma boneca de pano e o deixando mais tonto ainda.
─É assim que eu convenço o Jacó quando ele tá doente e fica com birra pra tomar os remédios. - disse o loiro com uma expressão engraçada.
─Aff, sai daí que você não tem o mínimo jeito com crianças pato. - disse o leonino.
─Espera, tive uma ideia, e quero comprovar uma coisa também. - disse o loiro mais sério.
Chegou mais perto do virginiano e cochichou no ouvido dele tão baixo que o leonino não pode ouvir nada.
Shun abriu mais os olhos e estremeceu quando ouviu o loiro.
─Então estamos de acordo? - disse o loiro.
─Anram. - disse acenando positivamente, olhando o loiro atento e sorrindo abertamente. Ikki ficou muito surpreso por Shun ter concordado com seja lá o que for que o loiro disse, normalmente quando Shun ficava com birra Ikki ficava horas e horas adulando o irmão e no final acabava perdendo a paciência e fazia a força mesmo e só não tinha feito isso ainda porque o loiro estava ali com eles.
Ikki se aproximou de novo e Shun abriu a boca e deixou que ele lhe desse o remédio, fez tudo certo e enfim deitou de novo.
─Nossa... O que você disse pra ele ficar obediente assim? - Ikki perguntou olhando do loiro pro virginiano que já bocejava.
─Segredo nosso. - disse olhando suspeito pra Shun que ainda o olhava atentamente da cama.
─Oga. - disse com voz chorosa.
─Depois. - disse cruzando os braços, ele estava sério e parecia analisar alguma coisa.
─Você promete? – disse o olhando esperançoso.
─Tá, tá. Claro. – disse com o olhar distante, e mal pensou no que disse, só pensava no que estava percebendo aos poucos.
─Mas eu quero...
─Já falei. Agora durma. - disse já se retirando.
─Você disse que ia ficar comigo Oga. - disse choroso.
Suspirou. ─Tá bom, tá bom, mas só até você dormir. - disse voltando pra perto de Shun de novo. Ikki observava desconfiado para os dois.
─Vai ficar mesmo pato? - disse o leonino.
─Só vou ficar até ele dormir mesmo, e acho que não vai demorar muito. - disse sério sentando-se na beirada da cama perto de Shun e de frente pra Ikki e começou a acariciar seus cabelos verdes. Shun se ergueu e deitou a cabeça no colo do aquariano sorrindo, parecia um imã que o atraia sempre, foi fechando os olhos de novo e adormecendo.
─Ok. - disse Ikki se levantando depois de ver que estava sobrando ali.
Foi pra sala esperar Hyoga ir embora. Estava irritado consigo mesmo, ele abriu as portas pra Shun quando disse tudo aquilo pro loiro que ainda fazia tudo que seu irmão pedia.
Hyoga estava com um turbilhão de pensamentos fluindo, estava percebendo muitas coisas que só faziam sentido pra ele agora. ─Como pude ser tão cego por tanto tempo? – olhava pra Shun que já tinha dormido de vez e estava sorrindo.
Lembrou-se de vários ocorridos do passado, quando o virginiano se preocupava tanto com ele... Quando ele o salvou em libra, e segundo Ikki, a depressão pela qual o menor passou quando ele foi embora, essas não eram atitudes de um simples amigo, ou até mesmo um irmão.
Shun sempre foi sensível, sempre se preocupou mais com as pessoas, principalmente com ele, era o mais amável, mais atencioso, mais gentil e carinhoso... Sempre pedia que tomasse cuidado quando ia a alguma missão, lembrou-se que quando foi pra Asgard em missão investigativa o virginiano disse que tinha tido um pressentimento ruim e implorou pra que ele não fosse, mas o loiro foi mesmo assim e não deu outra ele foi aprisionado por Durval e ainda por cima foi induzido a ficar contra seus amigos nessa batalha, sentiu-se muito mal quando tudo voltou ao normal, tinha que se desculpar com Shun, não tinha acreditado nele, nem mesmo Atena sabia que aquilo iria acontecer e o virginiano já previa. Então naquela vez ele começou a pensar no quanto Shun se importava com ele, não havia duvidas com o quanto ele o considerava um amigo, então nunca imaginou nada além de uma amizade muito forte que o virginiano alimentava por ele, um amor fraternal que até achava que se comparava com o que Shun sentia por Ikki.
E agora que voltou acaba descobrindo que o virginiano sofreu muito por ele, como Ikki disse: que ele chorou muito... sofreu, não queria mais continuar com sua vida normal por achar que o aquariano o tinha abandonado, sofria por pensar que nunca mais o veria, mas isso não era normal, não podia ser... Ele sabia que todos sentiam saudades dele, mas nem tanto, nunca achou que seu distanciamento causaria tudo aquilo no amigo, logo aquele a quem nunca queria causar nenhum mal, que sempre achou o mais sensível e se magoava facilmente então não deveria em hipótese alguma fazê-lo sofrer... Começou a analisar as reações do amigo desde que o reencontrou, ele chorou como nunca, estava muito emocionado, se perdia olhando pra ele, mas o loiro ainda não compreendia aquele olhar, o virginiano por várias vezes se esquivava de seus olhos quando era pego o observando... o que podia ser aquilo?
Mas nunca, nunca levou isso muito a serio, afinal ele também sempre teve um grande apreço por Shun, decidiu ser sempre amável e suscetível a contato quando se tratava dele, o acolhia, o ouvia e o ajudava sempre que fosse possível, afinal ele lhe devia a vida, o virginiano se sacrificou por ele na batalha das doze casas então teria que retribuir de alguma forma, embora o virginiano nunca tivesse pedido nada, ele tinha o coração puro, inocente, e cheio de amor... ─Como Hades pode ter difamado e usado tão displicentemente alguém assim tão puro? – pensou.
E então teve a hora em que conversavam na boate e que ele lhe disse algo revelador quando ainda estava um pouco sóbrio, ele disse que gostava de rapazes, tá certo que Shun com todo aquele jeito único já era bastante suspeito, mas nunca, em hipótese alguma lhe passou pela cabeça levar essa possibilidade mais a serio, achava que era só a personalidade dele que o fazia ser assim, mas depois de saber disso ele lembrou que o virginiano sempre era mais carinhoso com ele, e era o único que o loiro permitia se aproximar dessa forma, e o amigo sempre o abraçava intensamente, o acariciava de formas mais ousadas, mas ele não se importava, eram íntimos o suficiente pra estarem nesse nível de amizade, então não sentia que o virginiano tivesse segundas intenções em quaisquer desses atos embora às vezes ele fosse um tanto possessivo, mas pra ele isso era normal, perfeitamente natural, embora nenhum outro amigo seu ousasse se aproximar tanto, e ele até entendia, nunca foi muito de contato físico com ninguém, e sua personalidade arrogante e fria afastava de certa forma as pessoas, mas o virginiano não, ele quebrava essas barreiras, e o loiro deixava, era o único que ele permitia chegar tão próximo. Depois do que Ikki lhe disse àquela hora no banheiro, aí sim as coisas começavam a fazer sentido, como tinha sido tolo por tanto tempo, não tinha duvidas que Shun gostava dele, só não sabia ainda até onde ia esse gostar que não era o gostar de um amigo, era algo maior, mais forte, talvez fosse até por isso que ele nunca tivesse sentido atração por mulheres, pois isso não era de agora, era de muito tempo atrás, era da época em que ainda lutavam juntos, o virginiano já estava apaixonado por ele há muito tempo, e ele nunca percebeu, nunca prestou atenção nisso, sabia agora o porque de Shun ter se estressado tanto depois de saber que ele ainda estava com Eire, estava com ciúmes.
Seria aquilo tudo deduções inúteis da sua cabeça? Afinal ele era um detetive e lidar com deduções que se esvaiam do nada faz parte de qualquer investigação.
Teria que tirar a prova... Então teve uma ideia que o faria esclarecer de uma vez aquela duvida. Pra fazer Shun tomar o remédio e parar com a birra ele lhe disse que lhe daria um beijo, devia ser algo pelo qual o virginiano ansiasse há tempos se realmente gostasse dele dessa forma, então achou a ideia boa, e o virginiano embora estivesse fora de si, e sem consciência do que fazia ele ainda sabia o que queria, e assim comprovou, Shun aceitou de bom grado, ele queria muito aquilo, e isso explicou tudo... Shun estava mesmo apaixonado por ele, e ele não sabia como reagir àquilo, nunca sentiu atração por homens e mesmo Shun sendo um amor de pessoa não era assim que o aquariano o via, sempre o viu como um irmão menor que precisava de proteção.
Não tinha a mínima atração pelo mesmo sexo, sempre esteve com garotas, todas eram lindas e era assim que ele imaginava que seria a pessoa por quem se apaixonaria, mas ele nem sabia como era, nunca tinha se apaixonado antes, embora sempre imaginasse alguém assim pra ele, sensível, adorável, carinhosa que eram as qualidades de sua mãe, e talvez fosse até isso que ela quisesse pra ele, então um homem não se encaixava nessa descrição, afinal o que tinha em um homem afinal de contas? Ele mesmo percebia que às vezes era um tanto bruto e insensível, e as pessoas deveriam ter alguém que as completasse não que se igualasse a elas... Foi aí que se tocou, Shun era o seu contrario... Ele tinha todas as qualidades que ele procurava em uma garota... – Não, não acredito que estou pensando nisso, sem chance, sem chance, estou começando a pensar besteiras demais. – pensou e sacudiu a cabeça pra tentar afastar esses pensamentos.
Observou o virginiano que dormia profundamente em seu colo, tinha que admitir que ele era bonito, não era de ficar reparando na beleza de outros homens, mas Shun não passava despercebido, tinha aquele ar angelical que o deixava adorável, tinha o corpo delicado, aquela aparência andrógina tinha até a sua graça, e ele se vestia muito bem, simples e elegante ao mesmo tempo, ele tinha traços suaves e aqueles olhos esmeralda intensos, o rosto afinado e a pele macia e sensível, era ótimo toca-lo. Pensava enquanto acariciava o rosto do virginiano. ─Não, está errado, não posso pensar essas coisas, ele é meu amigo, sempre o considerei assim, e isso não vai mudar agora que sei a verdade.– nunca aconteceria, ele não gostava de homens, não podia gostar, estava ficando confuso agora, saber dos sentimentos de Shun o estava deixando atordoado, tinha que sair dali, senão acabaria chegando a conclusões precipitadas. E apesar do que disse pro virginiano na boate sobre não ter nada contra a opção sexual dele, era totalmente diferente de ele mesmo ter essa opção também e que agora parecia muito errado, parecia um pensamento bastante hipócrita, mas estava muito confuso por descobrir tudo aquilo agora.
–Mas que droga de amigo eu sou, vou deixa-lo de novo, não sirvo pra nada, aquela voz tinha razão, todos os dias ela me mostra de alguma forma que tem razão, por isso prefiro conviver com a dor pra saber que estou sempre errado, só assim eu percebo o quanto eu sou desligado, um tapado, todos esses anos Shun demostrou seus sentimentos por mim e eu não notei, só sirvo pra causar dor em quem estiver próximo de mim, é uma doença, minha existência só faz ferir principalmente as pessoas que amo... Era disso que Saori falava, mas ela estava errada, meu retorno só fez piorar as coisas, se eu continuasse longe Shun poderia me esquecer de vez e tentaria ser feliz com alguém melhor, que o mereça... nem eu mesmo sei o que sinto agora, nunca poderia corresponder aos sentimentos dele desse jeito, seria injusto, ele não merecia isso, merecia ser feliz, merecia alguém muito melhor do que eu. Nunca me perdoaria se o usasse pra comprovar minhas duvidas. Sinto muito, muito mesmo Shun, mas eu não te amo. – levantou e afastou-se de Shun o ajeitando na cama, retirando seus sapatos e o cobrindo, ele já dormia profundamente então não protestou. Estava triste pelo amigo sentir tanto por ele e não poder retribuir, não o amava... não desse jeito, estava confuso demais pra pensar em qualquer outra coisa agora, tinha que se afastar até descobrir o que ele mesmo sentia, teria que fingir que não sabia de nada pra não magoa-lo. ─Perdão meu amigo. – deu uma ultima olhada no virginiano e se retirou.
...
Ikki esperava sentado no sofá da sala e viu quando o aquariano saiu do quarto, ele parecia abatido e confuso, seu olhar ia longe.
─Ele dormiu? – Ikki perguntou.
─Sim, vou ligar amanhã pra saber como ele está. – disse já indo pra porta. ─Tenho que ir logo, parece que a chuva vai piorar. – disse olhando pela varanda fechada com uma porta de vidro, estavam no terceiro andar, e viu que lá fora a chuva já estava caindo e castigava a cidade.
─Toma cuidado. – disse Ikki fazendo o loiro olha-lo desconfiado.
─Terei... Até logo. – disse estranhando aquela atitude do leonino parecia que ele queria dizer alguma coisa, ficou esperando, mas o leonino continuou quieto.
Ikki abriu a porta e Hyoga saiu sem dizer mais nada.
Assim que Hyoga saiu Ikki desabou no sofá, pensando no dia e na noite que passou com o loiro. Martirizou-se por não ter aproveitado mais a companhia dele, assim como Shun fez.
─Droga, devia ter pedido pra ele ficar, está chovendo forte, podia ser uma excelente desculpa, só penso nas coisas quando já é tarde demais. Afff. Como sou idiota. – pensou já se levantando e indo pro quarto do irmão, viu que ele dormia profundamente, ele é que foi sortudo, teve vários momentos com o russo, observou cada momento que eles passaram juntos durante o dia, viu quando o loiro curou os ferimentos de seu irmão, a conversa deles na boate de longe, não tirou os olhos do loiro quase nenhum momento do dia.
Ele já sabia dos sentimentos do irmão há tempos, e lógico que a opção de seu irmão também já era mais que óbvia pra ele, mesmo que Shun nunca tenha lhe confidenciado nada a respeito do loiro. – quem ele pensa que engana? – por isso ele aconselhou Shun para que ele entendesse melhor o que sentia, se gostava de homens então que confessasse de uma vez e começasse a pensar em um substituto para o loiro em sua vida, afinal antes ele pensava que Hyoga nunca mais voltaria, então era melhor que seu irmão começasse a se acostumar com essa possibilidade assim como ele, mesmo que isso doesse muito.
Quando isso começou? Nem lembrava direito, só recordava que desde que lutaram nas doze casas o leonino notou algo diferente em Shun quando estava na presença do loiro, os olhos dele brilhavam e ele vivia abobado, estava apaixonado, ele sabia como era, pois era assim que ficou quando estava com Esmeralda na ilha da Rainha da Morte, talvez o virginiano estivesse apaixonado desde que viu o loiro no torneio galáctico, mas nessa ocasião ele não estava presente então apenas deduziu, pois o comportamento de Shun o denunciava e tinha sentimentos que pareciam ter aflorado há tempos, e na casa de libra quando Shun salvou o loiro deve ter sido o momento em que ele finalmente entendeu seus sentimentos e desde então vivia atrás do loiro que era mais avoado que tudo e nunca notou nada diferente em Shun. Mas na época o leonino pegou uma raiva descomunal do loiro, por isso viviam brigando e o russo nem entendia porque, antes ele pensava que essa raiva provinha de ciúmes de seu próprio irmão, e não queria que aquele loiro metido o tocasse, mas com o tempo as implicâncias foram tomando outro rumo, começou a notar que não era de seu irmão que ele tinha ciúmes, era do aquariano, da atenção que ele disponibilizava somente pra Shun. Porem continuou com as brigas que era a única forma de se manter perto do loiro. Nem sabia quando começou a ter atração por homens, muito menos por Hyoga, mas tinha vagas lembranças de sua infância com o loiro e começou a perceber que aquela atração não era de agora. Pensando melhor sua implicância com o loiro só começou quando ele viu que Shun, mesmo criança, já estava interessado no loiro mesmo que inocentemente, desde a época que conviviam no orfanato, eles brigavam por qualquer coisa, ainda mais depois de perceber que o loiro defendia tanto seu irmão quanto ele mesmo no orfanato, as crianças implicavam muito com Shun por ele ser sensível daquele jeito.
Então se manteve afastado do loiro, afinal Hyoga era super-educado, tinha a boa educação que recebeu de Camus, tinha aquele jeito único, arrogante e frio, mas ainda assim hipnotizante, era elegante e delicado ao mesmo tempo, embora também fosse muito forte, ele realmente fazia jus a sua constelação e todos gostavam dele, era querido por todos sem exceção, até mesmo por ele que preferia fingir que odiava o loiro... Nada faltava ao loiro, ele era inteligente, bonito e querido, então não entendia porque ele parecia sempre tão infeliz... e Shun era igual, elegante, sensível, delicado, eles eram iguais. Ele do contrario era grosseirão, mal educado, implicante, odiava conviver com os outros... é claro que Hyoga nunca olharia pra ele, ele via um desprezo imenso nos olhos do loiro quando o via, podia ser até impressão, mas era assim que se sentia. E ainda por cima o aquariano era hetero, sempre foi, então o leonino descartou de vez qualquer possibilidade de ter o amor do aquariano... Até mesmo Shun não era opção para o loiro. Por isso tranquilizou-se um pouco, mesmo não tendo o loiro em seus braços ele sabia que seu irmão também não teria... Podia parecer egoísmo, a forma mais baixa de pensamento, mas como podia pensar em seu irmão com a pessoa que amava, não suportaria ver aquilo, mesmo que desejasse a felicidade de Shun mais que tudo, e era assim que sempre pensava, Shun sempre vinha primeiro, o bem estar de seu irmão era o mais importante, então mesmo que o loiro pudesse algum dia corresponder aos sentimentos de seu irmão ele não ficaria pra ver, não suportaria e teria que partir, fugir de novo.
Por isso estava tão arrependido de ter contado os sentimentos de Shun para o aquariano, ele não disse exatamente os sentimentos, mas o loiro não era idiota, ele sabia que aquela informação abriria uma serie de deduções na cabeça do loiro e ele acabaria descobrindo tudo, então ficou com medo da conclusão que o loiro pudesse chegar, se ele corresponderia aos sentimentos de seu irmão ou não depois de saber... Mas pelo jeito que o loiro saiu não havia duvida, ele finalmente percebeu os sentimentos de Shun, mas pelo jeito estava confuso, se estava confuso não tomaria nenhuma decisão agora, talvez até fingisse que não sabia de nada, então estava tranquilo por enquanto. Tranquilo e triste ao mesmo tempo, se Shun que era o Shun não tinha chances com o loiro, imagine ele.
Ficou um bom tempo ali no quarto do irmão o observando, pensando em tudo que enfim estava se desenrolando com a volta de Hyoga. Foi aí que acordou com batidas insistentes na porta, saiu do quarto e foi atender.
Quando abriu qual foi sua surpresa ao deparar-se com o dono de seus pensamentos de frente pra ele, completamente encharcado e com expressões bastante irritadas.
─Por que demorou tanto? Estou batendo faz tempo. – disse irritado, era raro vê-lo daquele jeito.
─Eu não ouvi... O que houve? – perguntou dando passagem pro loiro entrar e recobrando a postura depois de vê-lo com a roupa colada ao corpo mostrando seu corpo esbelto.
─Por que não disse que sua rua alagava frango? Lá fora tá o maior temporal, mal consegui chegar ao meu carro e quando cheguei vi que a agua entrou até dentro dele, e agora ele não quer pegar. – disse indo pra varanda e abrindo a porta displicentemente mesmo com o temporal que caia lá fora, já estava molhado mesmo então não se importou, então foi olhar seu carro que estava lá embaixo na calçada e sendo tomado pela agua aos poucos.
─É que tá tendo uma obra no fim da rua e... Tá doido pato, sai daí. – levou um susto depois que viu o aquariano simplesmente saindo na chuva daquele jeito e o puxou de repente pra dentro.
─Que foi? – perguntou ainda irritado.
─Por que saiu assim? Ficou louco pato? – disse estranhando aquela afobação do russo em querer sair daquele jeito.
─Eu preciso ir pra casa, droga. – disse puxando o braço que o leonino segurava.
─Olha só pra você pato, tá encharcado, pode acabar adoecendo desse jeito e seu carro não vai se consertar sozinho só porque você quer... Espera aí a chuva passar e liga pro seguro do carro, oras. – disse irritando-se também, principalmente por causa da forma que o Hyoga rompeu o contato com ele, isso o magoou.
─Eu já falei que preciso ir pra casa, e eu nunca peguei uma gripe na vida, não seja tolo, sou um cavaleiro do gelo droga e uma chuvinha dessas não vai me fazer mal. – disse indo de um lado pro outro e ainda todo molhado.
─Se não faz mal então porque não usa sua velocidade pra chegar em casa, droga? – perguntou vendo o russo molhando todo o piso enquanto andava, parecia transtornado com alguma coisa.
─Não seja idiota... Ainda são dez horas, as pessoas iriam notar. – disse olhando pro relógio de pulso e ainda andando de um lado pra outro. – o que deu nele pra ficar assim tão irritado? Ele sempre teve uma paciência de Jó, nunca se aborrecia com nada. – Ikki pensou.
─Não me interessa o que você seja pato, pode adoecer como qualquer um, e olha só o que você tá fazendo, tá molhando a casa toda, vai pro banheiro e se troca que eu te empresto uma roupa. – disse empurrando o aquariano pro banheiro.
─Mas...
─Mas nada... pato teimoso, anda logo antes que eu perca a paciência. – disse quando o loiro entrou no banheiro e fechou a porta mesmo com os protestos dele.
Hyoga tirou as roupas molhadas a muito contragosto, as espremeu na pia, e se enrolou com a toalha que tinha no banheiro, ele queria ir pra casa de uma vez, senão corria o risco de estar lá quando Shun acordasse, e ele nem sabia ainda o que dizer pro virginiano, então queria se preparar psicologicamente antes disso, caso Shun se lembrasse de alguma coisa quando despertasse.
Sentou-se na beirada da banheira e ficou esperando Ikki lhe trazer as roupas que tinha dito. Cruzou os braços numa expressão irritada, a culpa nem era do leonino e ele estava descontando suas frustrações nele, teria que pedir desculpas depois.
Ikki bateu na porta.
─Entra. – disse o loiro levantando.
─Eu trouxa as roup... – perdeu a fala depois de ver como o russo estava... só de toalha com todo aquele corpo a mostra e escondendo só aquela parte, e parecia um pouco mais calmo.
─Obrigado frango. – disse se aproximando e pegando as roupas que Ikki lhe trouxe, vestiu a camisa e ia tirar a toalha pra vestir a calça quando percebeu o leonino com os olhos presos nele.
Ikki ficou sem palavras em ver o loiro seminu daquele jeito, o viu assim quando o visitou mais cedo naquele dia e ainda quando o viu na piscina, mas em nenhuma dessas vezes ele esteve tão perto. Como era lindo, sentiu uma vontade imensa de toca-lo, mas aí o loiro o acordou daqueles pensamentos.
─Algum problema? – perguntou inocentemente.
─Er... nada, se veste. – disse já saindo e fechando a porta.
Hyoga deu de ombros e continuou se vestindo. Ikki foi pra sala frustrado. – droga, isso é tão difícil, como ele podia ser tão lindo e sexy e ainda ter aquela cara inocente. – pensou sentando-se no sofá e cobrindo o rosto com as mãos.
Pouco depois Hyoga aparece com as roupas do leonino, uma calça moletom preta folgada e uma camiseta branca, ele era menor e mais magro que Ikki então elas ficaram bastante folgadas nele.
─Obrigado pelas roupas frango, desculpe por ter sido rude antes... é que... - suspirou. - deixa pra lá... Posso fazer uma ligação? - perguntou o olhando e sentando no braço do sofá perto de Ikki.
─Cl-claro, mas o que houve com seu celular? – disse sentando-se direito enquanto via o loiro de perfil.
─Tá aqui oh. – disse mostrando o aparelho celular com o visor apagado e molhado, tinha queimado quando o loiro saiu na chuva, e o aquariano voltou a ficar serio e parecia ter se irritado de novo. – porque será que ele quer tanto ir embora? – Ikki pensou.
─Ele molhou quando eu sai, ainda bem que é o meu telefone pessoal, se fosse o de trabalho eu estava ferrado, por sorte eu deixei ele em casa hoje e só trouxe esse aqui. – disse olhando pro aparelho.
─Tira a agua dele e tenta ligar. – disse Ikki pegando o aparelho das mãos do loiro.
─Não adianta, ele queimou mesmo, mas amanhã eu compro outro... o que eu quero mesmo é ligar pra seguradora do carro, porque amanhã tenho que trabalhar mais pra compensar o que não fiz hoje e aí não vai dar tempo de ficar batendo cabeça com essas burocracias de seguro. – disse Hyoga.
─Liga aí então. – disse Ikki apontando pro telefone fixo na mesinha ao lado do sofá.
─Obrigado. – discou o numero e começou a falar, Ikki o observava discretamente de canto. – Ele parecia sempre tão sério, tão seguro de si mesmo, embora ainda triste e melancólico, mas parece que ele lida tão bem com isso e as esconde tão bem que somente quem o conhecia bem podia perceber... como eu gostaria de ser assim, apenas aparento, mas tenho tantas perturbações quanto ele e a maioria das vezes não sei lidar com elas, fora que e a maioria delas é causada por esse loiro. – pensou enquanto o observava.
Hyoga desligou e suspirou.
─E aí? – disse o leonino.
─Eles só vão poder buscar meu carro amanhã de manhã por causa da chuva, ao que parece estão tendo problemas de transito em toda cidade por causa do mal tempo. – disse suspirando e levantando-se e colocando as mãos nos bolsos olhando pra varanda de novo, o vento forte batia na porta e fazia o vidro vibrar, causando um som pouco estridente, e a chuva não cessava e só piorava.
─Então você não vai poder sair agora, acho que vai chover a noite toda, pode passar a noite aqui se quiser. – disse o leonino já esperançoso em ter a companhia do loiro que agora parecia já conformado em ficar ali, parecia ter recobrado sua postura calma e fria de sempre.
─Obrigado, mas não quero incomoda-lo, vou sair quando estiver um pouco mais tarde e ninguém vai notar se eu usar minha velocidade, amanhã cedo vão rebocar o meu carro, mas eu não preciso estar aqui pra isso, falo com eles depois. – disse suspirando, não queria ficar ali até de manhã, pois Shun poderia vê-lo e não saberia o que falar pro virginiano ainda, não depois de perceber a verdade.
─Não precisa ser tão orgulhoso pato, pode pedir ajuda de vez em quando, não tem problema em dormir aqui, tem espaço. – disse Ikki franzindo cenho, parecia que Hyoga estava fugindo.
─Orgulhoso... Olha quem fala. – disse olhando o leonino de lado, ele era outro orgulhoso e ainda ficava dando sermão. ─Não tenho problemas em pedir ajuda, eu só não quero incomoda-lo. – disse, mas sabia que também era orgulho, mas nunca admitiria.
─Sei, sei. Não tem incômodo algum nisso. – disse já se irritando, porque eles sempre tinham que discordar por tudo? Por mais banal que fosse sempre acabavam discutindo.
─Tá bom, se a chuva não passar logo eu fico. – disse, mas na verdade ele pensou: "até parece, fico nada", disse isso só pro leonino parar de insistir. – voltou a olhar pra varanda e pensou melhor e sorriu discretamente.
─Qual é a graça? – perguntou o leonino confuso com aquela mudança de humor.
─Estou rindo da minha situação, é ridículo um cavaleiro como eu ficar preso em um lugar por causa de um mal tempo. – disse baixando o olhar.
─Realmente é ridículo. – olharam-se e riram juntos.
Ficaram um tempo em silencio, o loiro voltou a observar a chuva com os pensamentos longe e Ikki o observando discretamente.
─Está com fome? – Ikki perguntou do nada.
─O quê? – acordou de seus pensamentos.
─Perguntei se está com fome, posso preparar alguma coisa pra comermos, ainda é cedo. – disse o leonino um pouco sem jeito.
─Estou sem fome, obrigado. – disse se virando e observando melhor o apartamento. Era bastante espaçoso, sala de estar espaçosa e tinha um balcão que a separava da cozinha, um corredor que levava pros quartos e banheiro dos dois irmãos, e a varanda na frete dele, era até um lugar aconchegante e a decoração harmoniosa e tinham retratos em toda parte.
─Foi o Shun quem decorou. – disse o leonino quando observou o olhar do aquariano analisando o local, ele sempre fazia isso, parecia que tinha que vistoriar todo o território por onde passava.
─Shun... Ele sempre teve bom gosto. – comentou com o olhar perdido e triste de novo, mas o leonino percebeu e começou a falar antes do loiro começar a pensar demais.
─Eu vou tomar um banho e depois vou preparar alguma coisa, e você vai comer também, nem que eu tenha que te forçar a isso pato, será possível que você tem que discordar em tudo? – disse já se levantando e dirigindo-se pra cozinha, queria distrair o loiro de alguma forma.
─Hunf. Já falei que estou sem fome, e eu não discuto por qualquer coisa, você que é insistente demais... fora que eu nem sabia que você cozinhava frango. Vai preparar o quê? Ovos fritos? rsrsrsrsrs – disse rindo e indo atrás de Ikki e sentando-se num banco atrás do balcão que separava a cozinha da sala, tendo visão total do leonino. Não entendia ainda, mas Ikki estava se mostrando muito atencioso com ele e isso o alegrou um pouco.
Ikki alegrou-se mais em ver que estava se saindo bem em distrair o aquariano.
─Pra seu governo pato, eu sou um excelente cozinheiro, até mais que o Shun, afinal sou eu que cuido dele, e você vai comer sim, precisa jantar ou pode acabar com uma gastrite desse jeito, fora que você não comeu nada desde o almoço e ainda por cima bebeu na boate.
─Tá bom, tá bom, e o que você vai preparar então? – perguntou dando-se por vencido.
─Um espaguete. – disse cheio de orgulho. ─Meu molho é o melhor de todos, você vai ver quando provar. – disse sorrindo e já pegando os ingredientes.
─Vamos ver isso então. Nunca imaginei que você cozinhasse frango, deve ser um espetáculo e tanto. – disse Hyoga rindo.
─Você sabe muito pouco sobre mim pato. – disse mais pra si mesmo de forma melancólica.
─Então me mostre quem é você de verdade frango. – disse sério olhando o leonino de costas virado pro fogão. Ele parecia triste agora, mas continuava na defensiva, sempre foi assim, por isso preferia não se aproximar muito dele.
Ikki se virou e olhou pro loiro atentamente.
─Que visão você tem de mim Hyoga? – disse o olhando nos olhos.
Hyoga se surpreendeu com aquela pergunta. E ficou calado por um tempo tentando formular uma resposta, deixando Ikki angustiado pela demora, o loiro o olhava intensamente querendo desvenda-lo.
─Você me passa a visão de alguém determinado e seguro de si, que não tem medo de nada e que a simples presença pode ser intimidadora pra algumas pessoas, mas que se preocupa com todos em volta, embora tente disfarçar para não parecer sentimental e fraco. Admiro sua postura firme, que o torna dono da situação, e você parece lidar muito bem com qualquer coisa, mas eu posso ver em seus olhos que alguma coisa o perturba. – disse o loiro depois de um tempo analisando o leonino.
Ikki ficou sem palavras, aquele loiro parecia conhecê-lo mais do que ele pensava, nunca achou que o russo o admirasse, estava surpreso com aquela informação também, fora a parte de ele perceber alguma perturbação com ele, será que deixou transparecer assim sua agonia? – pensou.
Hyoga sorriu pra ele como que para tranquiliza-lo, um sorriso que o encantou. ─Isso é só uma breve opinião frango, não se preocupe com o que digo, posso estar sendo precipitado. – disse tentando aliviar a tensão que o leonino parecia ter adquirido com o que ele disse.
─Você diz isso depois de fazer uma de suas analises de detetive pato? – perguntou com um sorriso irônico pra disfarçar seu nervosismo.
─Não, digo isso como um amigo de muito tempo. – disse mais serio.
Ikki engoliu o seco, o aquariano o olhava intensamente e isso o desconcertava, e ainda o considerava um amigo, ele só foi começar a usar essa designação para o loiro depois que fizeram a trégua. Mas o loiro falava como se sempre o tivesse considerado assim, e isso o alegrava um pouco, mesmo com as brigas do passado ele já o considerava um amigo.
─Não sou tão forte assim quanto você pensa Hyoga. – disse baixando o olhar.
─Ninguém é... Pra isso que existem os amigos, pra completar as forças que necessitamos. – disse com um sorriso consolador.
─Eu não tenho muitos amigos, só vocês quatro e o meu irmão. – disse o leonino triste.
─Isso não é verdade Ikki, muitos outros admiram você, e te consideram um grande amigo, você só tem que deixa-los se aproximar. – disse o loiro ainda sorrindo.
─É difícil... – disse mais baixo.
─Nem tanto, como foi que você me deixou aproximar então? – disse o loiro o olhando serio agora. Ikki nunca tinha se aberto tanto pra ele então tentaria passar a confiança que ele parecia necessitar muito agora.
─Bom, você é um caso a parte, sempre convivemos juntos no passado, mesmo as avessas, mas ainda assim era uma convivência, por isso foi mais fácil. – disse depois de um tempo o olhando.
─Era mesmo, mas isso não importa agora... Estou aqui pra lhe dar as forças que precisar... Afinal sou seu amigo certo? – disse abrindo um lindo outro sorriso que o leonino nunca cansava de ver.
─S-sim.
─Então pode sempre contar comigo frango. – disse o loiro.
─Ah, er... obrigado. – disse bastante vermelho. ─Po-pode contar comigo também pato. – disse olhando pro lado.
─Ok, vou lembrar disso. – disse sorrindo, estava muito feliz em saber disso.
─Vou preparar o molho. – disse virando-se de novo pra fugir daquela conversa senão ficaria a noite toda olhando pra aquele loiro hipnotizador, se ele soubesse que ele queria muito mais do que aquela amizade...
Hyoga apenas assentiu e ficou observando o leonino preparar a macarronada em silencio. Mas não era um silencio constrangedor ou repreendedor, era um silencio tranquilo que ambos entendiam, era uma concordância que só eles tinham e sempre entendiam quando ocorria. Ikki era sempre serio também, sempre decidido e intimidador... Até mesmo... bonito, mas não era a mesma beleza de Shun, era diferente, mais másculo, mais sensual. ─MAS O QUÊ? Só posso estar ficando louco, pensar algo assim de um homem, um HOMEM, está errado, muito errado, o Shun eu admito que é bonito, eu sempre achei isso, mas sempre foi na maior inocência já que ele é mesmo... mas nunca tinha visto Ikki dessa forma também, logo o Ikki... NÃO, tem alguma coisa errada comigo, tem que haver... Deve ser a bebida batendo, minha mente está confusa depois que eu descobri os sentimentos de Shun... Preciso dormir um pouco, descansar a mente, já estou começando a pensar besteiras demais. – pensou o loiro balançando a cabeça pra afastar esses pensamentos idiotas. Mas o leonino nem notou por estar de costas e concentrado.
Deixou o macarrão cozinhando e foi tomar um banho enquanto isso o loiro ficou esperando na cozinha. Voltou e preparou o molho e não demorou muito a comida já estava pronta, eles foram sentar-se a mesa e começaram a comer.
─Nossa, isso tá bom mesmo. – disse Hyoga surpreso.
─Eu te falei que eu era um bom cozinheiro pato. – disse com um sorriso, deve ser o dia em que ele mais sorria desde muito tempo, só pela simples presença daquele aquariano.
─Você é muito convencido viu frango... Fique sabendo que não é só você que tem dons culinários, eu também sou especialista em preparar macarrão instantâneo e fritar ovo. – disse rindo e fazendo o leonino rir também, estava à vontade e nem se preocupava mais com a chuva forte lá fora ou com os problemas com os sentimentos de Shun.
─Você é um caso perdido na cozinha mesmo pato, nem sei como sobrevive sozinho, mas pelo menos sabe usar o micro-ondas pra não morrer de fome. – disse o leonino rindo abertamente e o loiro notou o modo descontraído que o leonino falava. – desde quando ele é assim tão encantador? MAS QUE DROGA, lá vai eu de novo com idiotices. – pensou e desviou o olhar do leonino, alguma coisa errada estava acontecendo com ele, muito errada mesmo.
─Verdade, mas pra quê que existem os restaurantes e as comidas congeladas heim? – disse sorrindo e comendo, tinha que admitir que realmente estava muito bom, ele estava sem fome antes mas aquele espaguete do leonino lhe abriu o apetite.
─Eles são a salvação pra quem não sabe cozinhar... é disso que você sobreviveu todos esses anos? – disse o leonino.
─Na verdade eu nunca tinha um horário certo pra comer, tinha sempre muito trabalho... Eu investigava várias cenas de crimes e isso tomava muito do meu tempo já que eu pegava vários casos ao mesmo tempo, quando eu tinha um tempo livre ou quando a fome enfim batia eu resolvia ir a um restaurante ou lanchonete ou comprava alguma coisa pra comer em casa... Houve várias vezes que eu ficava o dia inteiro sem comer e nem percebia... meu parceiro notava isso também e me arrastava pra ir com ele a algum restaurante ou qualquer outra coisa, ele se preocupava muito comigo, por isso é bom ter alguém assim por perto de vez em quando. – disse o loiro que prendia a atenção do leonino a cada palavra que falava, o loiro mesmo estava estranhando por falar tanto assim com o leonino, nunca foi acostumado a falar muito, a maioria das vezes ele só ouvia.
─Você tinha um parceiro? – perguntou o olhando atentamente, estava feliz pelo aquariano não estar falando por monossílabos, e comentar coisas de sua vida, estava até animado.
─Sim, ele era recém chegado da academia, era um ano mais novo do que eu e cheio de energia, eu gostava muito da companhia dele, já até sinto falta, ele era sempre imperativo e determinado, parecia o Seiya e consequentemente me fazia lembrar de vocês também... Mas ele só me acompanhava nos meus horários normais, ele não sabia que eu era um detetive tão conhecido, quase ninguém sabe... Somente os superintendentes sabiam, pois eu usava um codinome quando lidava com casos de fora.
─Qual codinome?
─Cisne.
─Apropriado. Você é uma espécie de super-herói pato? – disse rindo.
─rsrsrsrsrsrsrs. Não, longe disso, não faço nada de mais, só me dedico quase em tempo integral ao meu trabalho, por isso resolvo os casos tão rápido.
─Tempo integral é? Mas você não saia? Não se divertia? – disse o olhando curioso, estava transformando aquela conversa num interrogatório, mas o loiro parecia não se importar.
─Er... Não, embora às vezes eu fosse arrastado pra algum lugar pelos outros detetives, eram boas companhias... New York é uma cidade que nunca para, há sempre uma agitação em algum lugar, por isso não faltaram oportunidades pra me arrastarem, mas eu sempre ficava pouco tempo, não aguento beber muito também, e eu não me sentia a vontade com eles, mesmo que eles fossem muito amigáveis, sempre tive dificuldade de me enturmar.
─É mesmo? Sempre te achei tão enturmado com todos.
─Como voce disse 'as aparências enganam' frango. – disse com o olhar triste.
─Bom, pelo menos você lida melhor com as pessoas, a maioria das pessoas quando me veem tem medo de se aproximar, como se eu fosse tirar pedaço. – disse fazendo uma careta.
─Não é bem assim, eu procuro parecer um pouco mais suscetível a conversas, embora a maioria das vezes eu mais escuto do que falo, mas se a pessoa quer falar eu não irei interrompê-la, por isso me acham mais enturmado, quando na verdade eu mal falo... e você fica muito na defensiva e isso é como uma mensagem subliminar para as pessoas se afastarem, por isso eu até pensei que gostasse de ficar sozinho. – disse o olhando curioso.
─A maioria da vezes sim, mas como nós dissemos pato 'as aparências enganam'... é sempre bom ter companhia... E eu não fico sempre na defensiva.
─Fica sim, por isso eu procurava não me aproximar tanto, achava que não iria gostar de ter alguém como eu por perto. – disse com o olhar triste .
─Alguém como você? Como assim?
─Bom, pensei que me odiasse, parecia que tudo em mim você detestava. – disse com um sorriso triste.
─Eu nunca te odiei pato... eu achava que era você que me detestava, sempre foi tão reservado mas ainda assim era mais aberto com qualquer outro, menos comigo – disse serio.
─Acho que passei uma mensagem errada com você também... Nunca chegamos a nos conhecer de verdade... Desculpe. – disse baixando o olhar.
─Para com isso pato, você sempre assume a culpa por tudo, não é só por sua causa, você tem que entender que tudo tem dois lados e ninguém nunca é responsável inteiramente por alguma coisa, há sempre uma serie de fatores que influenciam nos acontecimentos... eu também fui culpado por passar uma postura errada diante de você, muitas vezes fui rude e o destratei, sinto muito... mas estou feliz agora que tenho sua companhia e possamos enfim nos conhecer. – disse o olhando intensamente.
─Também estou feliz por isso. – disse sorrindo.
─Sabe pato, eu sempre quis entender o porquê de você ter se afastado todos esses anos, percebi que algo o incomodava antes de partir, e que ainda te atormenta. O que há de errado?
─Prefiro não falar sobre isso frango... Desculpe. – disse olhando pro prato.
─Tudo bem. – disse olhando o loiro que se incomodou com aquele assunto, talvez fosse isso que causasse aquela dor nos olhos dele, mas ainda não entendia muito bem, e não o forçaria a nada.
─Quer dizer que todos gostam de mim e sentiram minha falta? – disse o loiro voltando a conversa e perguntou recobrando a postura serena e um pouco alegre.
─Sim. Por quê?
─Até mesmo você frango? – disse sorrindo de novo.
─E-eu? Bom, er... Eu tinha, tinha saudades de implicar com você só isso.
─Então você tinha saudades de mim de algum jeito. – disse rindo.
─N-não... arg, você tá distorcendo minhas palavras pato. – disse desviando o olhar do dele.
─rsrsrsrsrsrs Só estou deduzindo, é o meu trabalho... eu digo uma coisa que deixa o suspeito confuso e atordoado, é uma maneira de distorcer a mente dele e faze-lo confessar, fiz muitas interrogações em todos esses anos e sou muito bom nisso, posso até confirmar que você tá escondendo alguma coisa frango, isso é suspeito. – disse piscando pro leonino e rindo deixando-o mais nervoso ainda.
─Para de me sondar, não estou escondendo nada. – disse se fazendo de ofendido.
─Certo, certo vou parar, mas que você está escondendo alguma coisa, isso você tá. – disse rindo mais ainda pelo nervosismo do leonino.
─Hunf. E aí? O que tá achando da comida? – disse querendo mudar logo de assunto, aquele loiro era esperto, se continuasse o sondando iria descobrir alguma coisa. ─Já vai admitir que sou o melhor cozinheiro que você já viu? – disse sorrindo.
─Mas nem pensar frango, tá muito bom sim, mas não é lá essas maravilhas que você falou não. - disse o loiro rindo.
─Mas como reclama heim, queria um banquete de mestre cuca por acaso? - disse fingindo estar ofendido.
─Mas é claro que sim, pelo jeito que você se gabou da sua macarronada eu achava que seria um manjar dos deuses. - disse o loiro.
─Pois é isso mesmo, você que não tá sabendo apreciar, tem que sentir o molho na sua boca. Mastiga direito pra sentir o gosto melhor pato, parece que tá só engolindo. - disse Ikki.
─Eu sei comer viu. - disse dando de ombros.
─Sabe nada... Anda, mastiga devagar. - disse insistindo.
─Tá bom, tá bom. - e assim o fez, e realmente fazia diferença, inconscientemente ele comia com pressa talvez por conta da vida agitada que sempre teve, e saborear o gosto da comida devagar era muito bom, e realmente o gosto ficava bem melhor e apurado.
─Eu admito, está bom.
─Só bom?
─Está ótimo.
─Só ótimo? – disse rindo.
─Ah, aí você já está forçando a barra. Mas tudo bem... Parabéns frango, sua comida é espetacular, estupenda, magnifica, gloriosa, merece até um premio. - disse rindo e batendo palmas pro leonino que riu mais ainda.
─Obrigado, obrigado. Rsrsrsrsrs - disse fazendo reverencia de agradecimento, estava tão feliz, nunca foi de brincar assim com o loiro. - Devia parar de me subestimar pato, tá igual quando você duvidou do meu talento de fotografo.
─Ah, mas isso aí eu ainda não comprovei. - disse o loiro.
─Então você vai comprovar hoje mesmo, espera só a gente terminar de jantar que eu te mostro meu portfólio com as fotos, aí você vai fazer a faixa que combinamos, pensa que eu esqueço é? - disse sorrindo, fazia gestos o tempo todo, estava muito animado pelo russo estar se soltando com ele.
─Certo, certo, eu me lembro da faixa. - sorria o tempo todo também, nem lembrava quando foi a ultima vez que riu assim, e nunca imaginava que faria isso com Ikki. O leonino estava o fazendo esquecer seus problemas e isso era muito bom, não tinha se divertido nenhum pouco assim na boate, achou até bom agora ter ficado preso ali com Ikki.
Terminaram de jantar e Hyoga ajudou o leonino a lavar a louça, nunca tinham ficado tanto tempo perto um do outro, e estavam se sentindo muito bem assim.
Terminaram e Hyoga foi sentar-se na sala enquanto Ikki pegava o portfólio com suas fotos.
─Agora pode planejar as letras e a cor da faixa pato. - disse sorrindo e trazendo o portfólio pra Hyoga que estava sentado de pernas cruzadas no sofá assistindo qualquer coisa na televisão.
─Deixa eu ver isso primeiro frango, me dá aqui. - disse estendendo a mão. Apoiou o portfólio em seu colo e começou a folheá-lo.
Começou a observar atentamente, folheava e parava minutos em uma única pagina, parecia querer ver algo que estava além das fotos, não queria ver o que estava estampado, mas sim o que o leonino quis capturar realmente. Havia fotos de lugares lindos, de pessoas, de grandes salões, de cidades, e definitivamente tinha que admitir, o leonino era mesmo talentoso, todas as fotos transmitiam algum tipo de sentimento, ou será que era só ele que imaginava aquilo? Ikki esperava a opinião do loiro numa expectativa tremenda, nunca imaginou que ficaria tão tenso naquela situação, e o aquariano estava serio, perecia que mostrava suas fotos a um perito, e até tinha que admitir, o loiro ficava sexy daquele jeito serio, analítico, nunca deixou de notar isso nele, sempre o observou assim quando ainda moravam todos na mansão, quando ele ficava lendo alguma coisa, e parecia mergulhar tanto na historia... Sempre tão concentrado e sério, e com aquele ar salaz, e era assim que ele estava agora. Concentrado em seu trabalho, e como nos livros ele parecia querer mergulhar nas fotos, parecia querer estar nos lugares que elas mostravam, e pode notar que ele tinha o olhar distante nelas, melancólico, e um tanto sonhador.
Finalmente levantou o olhar pro leonino e esboçou um sorriso sincero.
─São lindas Ikki. Onde as tirou? - disse e isso desconcertou o leonino.
─Er... E-eu, eu tirei em minhas viagens.
─Você visitou todos esses lugares?
─Sim, eu viajei por um ano pelo mundo, visitei vários lugares na época, foi aí que adquiri essa paixão por fotografar. - disse o leonino olhando pro portfólio nas mãos do loiro, se ele soubesse que essas viagens foram pra fugir das lembranças sobre o loiro que o perseguiam.
─É serio? Deve ter sido muito legal, eu também gostaria de viajar assim algum dia, é libertador, sem preocupações, sem se importar com mais nada, você deve ter conhecido muitas pessoas também, deve ter aprendido muitas coisas. - disse sorrindo abertamente, parecia querer saber mais.
─Realmente foi libertador, conheci muitas pessoas interessantes e realmente aprendi muitas coisas... Passei por situações engraçadas e tristes... O mundo é muito grande e diversificado pato, na verdade nunca conhecemos esse mundo que tanto lutamos e sacrificamos pra proteger. – disse com o olhar distante lembrando-se das várias experiências que adquiriu nessas viagens.
─Bom, eu conheci também... Conheci a parte cruel e desumana desse mundo, nunca imaginei que os seres humanos normais fossem tão cheios de amargura e ódio... Quer dizer, sempre lidamos com vilões assim, com ambição e amargura, mas eles não eram normais, eles tinham um poder sobrehumano que não se compara a nada que as pessoas normais já tenham visto, e era um fator pra torna-los aptos a querer mais poder, pra se sentirem ainda mais superiores... Mas as pessoas normais são só normais, são iguais umas as outras e mesmo assim são cheias de sentimentos ruins e querem derrubar elas mesmas mesmo sabendo que são a mesma criatura, elas tem um coração cruel que é alimentado dia a dia nesse mundo que está se perdendo na maldade que ele mesmo criou, e não há mais vilão ou qualquer ameaça do tipo em que se possa colocar a culpa, só os próprios humanos, o mundo está apodrecendo, isso tem que parar. – disse sério e cheio de amargura, parecia querer impor justiça de alguma forma e a força... estranho, nunca tinha discutido aquele assunto com mais ninguém além de Atena, mas de alguma forma o leonino parecia lhe dar confiança pra dizer tudo que pensava.
─Nossa pato, esse pensamento é um tanto egocêntrico, você fala como se toda a sociedade fosse repleta de maldade e que você tivesse o dever de puni-la. – disse o leonino um tanto assustado com aqueles pensamentos do loiro, era amargurado e cheio de senso de justiça de alguém que se considera superior, pois pra querer tanto assim que o mundo se ordene a pessoa tem que se achar digno o suficiente de ser a própria justiça. – o que era aquilo afinal de contas? O loiro nunca foi de falar muito e nunca sequer pensou em ter esse tipo de conversa com ele algum dia, e ainda estava assustado pelo aquariano ter toda essa amargura no coração.
─Você não entende Ikki... eu vi coisas horríveis nesse trabalho policial e cheio de investigações, e vi também que quanto mais eu afundava pra encontrar a verdade mais podridão eu achava. – suspirou. ─Eu sei o que está pensando frango, que eu estou me tornando uma espécie de carrasco que quer punir pessoalmente essas abominações, e que isso me torna igual a eles, pois esse parece ser um pensamento de superioridade dos vilões que enfrentamos e de um senso de justiça atenuado demais.
─Hm. Foi isso mesmo que eu pensei. – disse o olhando surpreso. – nossa, ele é bom mesmo. – pensou.
─Mas acontece que você não viu o que eu vi frango... o quanto o ser humano pode ser cruel, o quanto o coração deles pode perder a capacidade de amar, de sentir compaixão, de perdoar... vi atrocidades de assassinos que foram condenados à morte e mesmo assim mantiveram a crueldade em seus corações até o fim, sem um pingo de arrependimento... é assim que o mundo está Ikki, o ser humano está perdendo a capacidade de amar, e isso infecta até mesmo as pessoas boas que em nada tem a ver com isso, e as torna podres também, o medo as torna inseguras e prontas pra fazer o que for preciso pra banir o mal que os cerca, ao ponto de eles mesmo tornarem-se os próprios vilões.
─Preste bastante atenção no que você está falando pato... Você diz que a sociedade se livra ela mesma da maldade e acaba se corrompendo, por medo do mundo que de alguma forma ela mesma criou. Mas não é bem assim Hyoga, se você pensar bem vai ver que você mesmo está se tornando uma dessas pessoas com esses pensamentos, e não tem que ser assim... Entendo que queira fazer o bem e livrar as pessoas boas desse tipo de preocupação que possa torna-las suscetíveis a maldade que as cerca. Mas elas têm o discernimento Hyoga, são elas que escolhem, o mundo pode estar cercado de más influencias, mas as pessoas só se rendem a elas se quiserem, a decisão é delas, podem escolher serem corrompidas ou não, e isso você não pode impedir ou controlar pato, isso é o livre arbítrio, se a sociedade se corromper por causa disso vai ser por decisão dela mesma... o que acontece é que você está confundindo isso com utopia, não existe e nunca irá existir uma sociedade perfeita, sempre haverá o bem e o mal, e mesmo que o mal se sobressaia vez ou outra, sempre saberemos que o bem persistirá até o final, temos experiências nisso, o bem sempre vence. Tem que ter mais fé nas pessoas pato.
─Só que ultimamente é o mal que está se sobressaindo frango... e é difícil acreditar nas pessoas de novo depois de tudo que vi. – disse bastante melancólico.
─Ainda há pessoas em que você pode confiar... Ainda existem pessoas boas e honradas que jamais seriam corrompidas tão facilmente. Lutamos muitas vezes por esse mundo crendo que valeria a pena... e eu ainda acredito que nisso... E você tem que acreditar também, Atena jamais deixaria que a maldade persistisse no mundo, ela sabe o que faz. – disse tentando animar o loiro.
─Você sabe que embora eu lute por Atena minhas crenças são outras...
─Isso não importa, dá no mesmo... Olha, eu viajei muito e conheci o lado ruim do mundo também, talvez não tanto quanto você, mas o importante é que eu conheci um mundo que é repleto de bondade também, que as pessoas se importam umas com as outras, que se amam incondicionalmente, que se dedicam a família e acreditam que o esforço e o trabalho duro vale a pena... Ainda existe um mundo bom Hyoga, você só tem que tentar enxerga-lo de novo... o mundo ruim que você presenciou o cegou pra bondade que ainda existe.
─Pode até ser verdade frango, mas eu não consigo mais enxergar bondade assim tão livremente, minha experiência diz que sempre tenho que me manter atento a qualquer coisa suspeita, então eu vivo prestando atenção em tudo, e posso dizer que a maldade ainda existe em toda parte.
─Mas acontece que não há ninguém inteiramente bom, ou inteiramente mau pato, todos temos esse dois lados que duelam por autonomia, apenas temos que saber controlar o lado mal e fazer prevalecer o bom, todos temos defeitos, não existe um ser humano tão puro assim. – mas que tipo de pensamento era aquele do loiro, tinha que convence-lo do contrario era uma meta agora.
Hyoga ficou quieto digerindo todas aquelas palavras, o leonino realmente o estava convencendo, ele ficou tanto tempo no isolamento que afetou seu lado humano também, nem lembrava quando foi a ultima vez que tinha sentido o amor, o carinho de alguém próximo, o contato físico mais intenso, sua frieza estava tomando patamares altos que o limitavam a somente sentir o que há de ruim e o fez esquecer como era sentir algo bom como a simples presença de alguém amado, e embora o leonino estivesse o repreendendo e discordando dele o tempo todo, nunca se sentiu tão bem, parecia que Ikki o fazia sentir um tanto mais confortado, afinal ele mesmo se sentia parte do lado mal da sociedade por causa da dor de culpa que o atormentava, ele sentia-se extremamente culpado por tantas mortes que causou então se via como um vilão também, mas isso era algo que ele abominava, por isso fazia o que fazia, seu trabalho o aliviava um pouco da culpa que o instigava, como se realmente estivesse pagando uma divida. Mas tudo aquilo que Ikki disse até que fazia sentido, ninguém é inteiramente bom ou mal, é o lado que escolhemos que predomina, e ele não queria se sentir o mal, por isso fazia o que fazia, era uma maneira de tolerar a si mesmo, uma forma de consolo... Atena sempre disse que ele nunca foi culpado de nada do que aconteceu, que tudo foi inevitável e muitas outras mortes foram evitadas por causa do sacrifício que ele teve que fazer, mas ele nunca acreditou naquilo, será mesmo que sua mãe, seu mestre e seu amigo tinham que morrer? Ele sempre se sentia culpado e ponto final, nada nem ninguém o convencia do contrario, mas as palavras de Ikki eram um consolo e de alguma forma ele queria realmente acreditar naquilo tudo agora, talvez estivesse se culpando todo esse tempo a toa, mas ainda não estava totalmente convencido.
─Talvez você possa ter razão. – disse o loiro bem baixinho com os olhos marejados tentando convencer a si mesmo, aquilo era demais pra ele, lembrar-se de toda a dor que o atormentava dia e noite e que só aliviava em momentos em que ele se mantinha distraído e com a mente livre era bom, mas uma hora ou outra ele se lembrava de seus pecados a culpa voltava a atormenta-lo e toda aquela conversa direcionava pra aquilo, o assunto sempre voltava pra ele, por isso ele evitava falar naquilo com quem quer que fosse, mas Ikki o estava lembrado embora ao mesmo tempo consolando sem nem ter noção disso.
─Eu sempre tenho razão de tudo pato, você que é teimoso demais. – disse sorrindo pra aliviar a tensão do loiro, ele parecia perdido em seus pensamentos, melancólico. Viu o olhar triste dele, e aquilo era o cumulo, ele sempre deixava o aquariano triste mesmo sem querer, tinha que fazer alguma coisa.
Hyoga sorriu, Ikki era mesmo um amigo, mesmo que inconscientemente ele o estava consolando.
─Você é convencido demais. – disse com um leve sorriso e baixando o olhar de novo pra fotos, tinha os olhos marejados, parecia realmente querer acreditar naquelas palavras, parecia lutar contra ele mesmo em seu interior... estava carente, triste e lindo ao mesmo tempo, gostaria de ter uma câmera agora pra fotografar aquele quadro do loiro tão belo embora tão triste.
─Sou mesmo, e não é à toa, afinal razão pra mim é o que não falta. – disse sorrindo.
Hyoga suspirou e sorriu, mas continuou perdido naquelas fotos. Ikki não aguentou mais, não queria ver tristeza naqueles olhos, não queria vê-lo sofrer, então se levantou e foi se aproximando do aquariano.
Hyoga levantou o olhar e estranhou aquela aproximação, o leonino se aproximou dele e tirou o portfólio de suas mãos e o colocou no sofá ao lado loiro. Segurou o rosto dele e começou a acaricia-lo. Mas o que era aquilo afinal de contas? Percebeu o mesmo olhar do leonino na boate quando estavam no bar bebendo... Ele tinha o olhar consolador, mas não era só isso, tinha algo mais que o loiro ainda não sabia decifrar. Sentiu um frio na barriga quando Ikki o puxou pelo braço de repente e o levantou do sofá, o colocando de pé e enfim o abraçando, do mesmo jeito que o abraçou na reunião, era intenso e cheio de sentimento.
Ikki não sabia o que fazia seu corpo só se mexia e parecia que ele não tinha controle sobre ele, onde ele estava com a cabeça em ultrapassar as barreiras do aquariano e abraça-lo daquele jeito? Mas o loiro parecia tão vulnerável, tão carente que ele não suportou e tinha que fazer alguma coisa, tinha que mostrar que estava ali, e que podia dar algum tipo de conforto. Hyoga deveria ser a pessoa mais surpresa e confusa da face da terra, pois o leonino nunca o tinha abraçado até a reunião e era algo que ele parecia querer a muito tempo, e agora ele repetia o ato e o surpreendia de novo. O loiro estava tão surpreso que não teve reação de retribuir aquele abraço, estava inerte e sem palavras, apenas ficou quieto deixando-se abraçar e extremamente vermelho com aquele contato, estava envergonhado e nem sabia por quê. ─O que está acontecendo? Porque Ikki está fazendo isso? E por que eu estou permitindo?-pensou o loiro.
─I-Ikki?
─Calma, calma, estou aqui. – disse o acolhendo o loiro como se ele fosse uma criança assustada.
O leonino apenas continuou ali o abraçando, nem sabia de onde tinha tirado coragem pra fazer aquilo, apenas o fez e não se arrependia. Hyoga foi relaxando aos poucos, aceitaria aquele contato, embora se sentisse um tanto vulnerável ainda mais por te sido Ikki quem rompeu suas barreiras, passou por sentir o calor de Ikki, era um abraço terno, cheio de carinho e consolo que mesmo ele se sentindo vulnerável, ainda se sentia protegido de alguma forma, pois não eram suas próprias barreiras que o protegiam e sim os braços de Ikki que o acolhiam completamente, não tinha sentido essa proteção tão intensa nem mesmo quando Atena o abraçou. E o mais estranho ainda era se sentir seguro logo com o leonino que sempre foi o mais distante dele.
Nem lembravam quanto tempo ficaram ali se abraçando sentindo o contato um do outro, apenas queriam sentir o momento, e Ikki estava extremamente feliz pelo loiro não o ter repelido ainda, ele retribui, aceitou seu afeto e percebeu que aos poucos estava conquistando a confiança do loiro. Foram se afastando aos poucos, o loiro olhou o leonino nos olhos pra tentar entender o que se passava, mas eles nada diziam apenas o consoava.
─Obrigado por ser meu amigo agora Ikki. – disse olhando pra um canto e bastante vermelho.
─Eu é que agradeço. – disse sorrindo, não tinha palavras pra definir sua felicidade, o loiro retribuiu, ele estava feliz por tê-lo perto e o acolhido, talvez nunca tivesse a chance de ter o amor do loiro, mas ao menos ele tinha aquela amizade que parecia estar se fortalecendo, eles finalmente estavam se conhecendo, se dando uma chance.
Sentaram-se de novo, com Hyoga ainda vermelho. – mas por que eu estou tão envergonhado afinal de contas? Foi só um abraço. – pensou, mas já sabia a resposta, era por que foi com Ikki, talvez tivesse que ficar aborrecido por o leonino ter ousado se aproximar tanto sem avisar, mas não era isso que sentia, muito pelo contrario, estava feliz por Ikki ter sido ousado, feliz por estar se tornando amigo dele, e aquele não foi um simples abraço, foi algo que ele precisava muito e nem sabia, de um abraço que o acolhia e o confortava, e não era o que sentia quando abraçava qualquer outro de seus amigos, somente com Ikki tinha sentido algo assim tão intenso.
Continuaram calados por mais alguns minutos. Até Ikki quebrar o silencio.
─Gostou mesmo das fotos? – disse sorrindo pra esconder seu nervosismo.
─Muito, você realmente tem talento. – começou a folhear o portfolio de novo e a comentar uma foto ou outra e o leonino o ouvia atentamente e se surpreendia cada vez mais pelo loiro estar enxergando tudo que ele queria transmitir naquelas fotos, tanto o que estava estampado quanto os sentimentos por trás delas, ninguém nunca tinha dado uma opinião tão detalhada sobre suas fotos, só diziam que estavam ótimas, mas nunca enxergavam o que tinha além delas, nem mesmo seu irmão, e agora aquele aquariano que era o enigma em pessoa parecia desvendar tudo que ele colocou naquelas fotos, pois eram seus sentimentos que estavam nelas, e o loiro as detalhava como se sentisse a mesma coisa, como se ele fosse um livro aberto, com se fosse um idioma diferente e que só Hyoga conseguia ler.
─Ótimo, agora pode mandar fazer a faixa. – disse sorrindo.
─Tá bom eu admito, mas é melhor procurar outra punição, porque colocar uma faixa na frente da minha casa não vai pegar muito bem. – disse sorrindo também.
─Vou pensar em alguma outra coisa então, mas pode ter certeza que não vou pegar leve com você. – disse rindo.
─Pode mandar, desde que não seja nada chamativo demais. – disse sorrindo abertamente de novo, estava relaxado e quem passava toda essa confiança era o leonino a sua frente.
Ficaram um tempo em silencio, até que Ikki tem uma ideia.
─Que tal uma foto? – disse depois de pensar um pouco.
─O que? – o loiro perguntou confuso.
─Uma foto sua, eu tenho foto de todos menos a sua, o Shun me pediu pra tirar e colocou tudo em quadros e espalhou pelo apartamento, como pode ver. – disse mostrando em volta, e o apartamento era repleto de fotos de seus amigos, até mesmo de todos eles juntos, mas a única pessoa que não tinha nenhuma foto ali era o loiro.
─É mesmo, eu vi, mas não prestei muita atenção. – disse olhando em volta, como não tinha notado isso antes? Talvez pela pressa que entrou e saiu do apartamento, as viu depois só que não deu muita importância, e pode ver que todos estavam felizes nas fotos e tinha retratos de todos até mesmo dos cavaleiros de ouro, era como uma galeria fotos de todos os cavaleiros.
─Foi o Shun que quis assim, eu tirei as fotos e ele escolheu os quadros e os lugares onde estão... Ele vai gostar de ter uma foto sua aqui, vai ser um modo de pagar sua divida comigo também. rsrsrsrsrsrsrsrs. – disse rindo e pedindo como se fosse pra Shun, mas na verdade ele queria muito ter uma foto de Hyoga, queria apreciar um retrato dele sempre que quisesse, e então teve essa ideia.
─Pode ser, e até que tá barato, pensei que você pensaria em algo pior.
─Tipo o quê? – disse o leonino com um sorriso irônico.
─Sei lá, talvez me colocar pra lavar seu carro, limpar seu apartamento, dar banho no cachorro, cortar suas unhas dos pés... – disse rindo.
─hahahaha. Cortar as unhas dos pés já é abusar, talvez só das mãos quem sabe, e nem cachorro eu tenho pato, você tem cada ideia heim. – disse piscando e rindo, aquele loiro tinha cada ideia, como se ele fosse mesmo coloca-lo pra fazer isso tudo.
─Sei lá... talvez eu tenha uma imaginação muito fértil. – disse rindo e coçando a cabeça.
─Até demais. – disse o leonino sorrindo. ─Então estamos de acordo?
─Sim, uma foto não faz mal, vai tirar agora?
─Nem pensar, com você feio desse jeito não, vai ter que se arrumar melhor se quiser tirar a foto pato. – disse olhando pro jeito que o loiro estava vestido, com suas roupas mas que ficaram muito largas nele, e parecia que ele era um garotinho com roupas grandes, estava bonitinho mas não retratava o que ele queria do loiro.
─O que tem de errado comigo? Estou um tanto mazelado desse jeito, mas dá pra sair uma foto boa, é só tirar no escuro. – disse rindo.
─Quem sabe eu tiro a foto e coloco na porta pra afastar ladrão. – disse rindo, era o contrario do que pensava, aquele loiro continuaria bonito mesmo com as piores roupas do mundo.
─Ei não humilha não que você não é nenhum galã não viu frango... – disse só pra irrita-lo, mas achava Ikki bonito também, nunca tinha reparado nisso antes, mas tinha que admitir. ─E eu sou bonito sim, o Afrodite que disse. – disse jogando o cabelo pra trás fazendo graça.
─Aquele tambaqui fala demais, mas se ele disse isso mesmo eu é que não vou discutir. – disse rindo displicentemente.
─Peraí, você também me acha bonito? – disse o loiro surpreso.
─Er, e-eu não disse isso, só disse que não ia discutir.
─Se não discute é porque concorda... – disse colocando a mão no queixo numa expressão de suspeita.
─Já falei pra você parar de me analisar. – disse olhando pro lado, tinha que parar de ter esses deslizes com aquele aquariano, ele era esperto demais e era só escorregar num simples comentário que ele percebia.
─Certo, certo. Mas tudo bem que você concorde, eu sei que sou lindo mesmo, ninguém pode negar. – disse alisando os cabelos, fazendo charme e rindo logo depois. Nem parecia o Hyoga de sempre, mas na presença daquele leonino ele sentia-se livre, alegre e suas preocupações pareciam sumir.
─Não sabia que você tinha senso de humor pato. – disse o olhando melhor, ele estava rindo mais, brincando, tranquilo, nem lembrava a ultima vez que o tinha visto assim, e era lindo, encantador. Estava mais feliz ainda pelo loiro estar assim na presença dele, sentia até orgulho de ter sido ele a ter feito o loiro sorrir mais e livra-lo das tantas preocupações que ele parecia ter.
─Faz muito tempo que eu não rio assim... Na verdade eu não me divirto assim faz um bom tempo. - disse baixando o olhar sorrindo. ─Você me conhece muito pouco frango... Mas estou feliz que estejamos nos conhecendo agora. – disse o olhando de novo e sorrindo sincero.
─Eu também. – disse sorrindo, estavam realmente dando uma chance de aquela amizade dar certo, talvez encontrassem bem mais coisas que pudessem ter em comum.
Sentaram-se de novo e começaram a assistir a televisão que estava ligada todo esse tempo e comentar algo sobre o que passava nela, ao mesmo tempo começaram a falar de banalidades, sobre as fotos de Ikki e os lugares nelas, sobre seus amigos, enfim estavam se conhecendo e nem perceberam que a chuva forte já estava parando.
Já passavam da duas da madrugada e Hyoga não resistiu mais e cedeu ao cansaço daquele dia, dormiu sentado no sofá, com a cabeça apoiada no encosto, parecia exausto. Ikki ainda estava aos lado dele, estavam próximos já que viam as fotos juntos, ele ficou olhando o loiro dormindo tão tranquilamente e naquela posição, realmente parecia um anjinho, seus cabelos ainda estava um pouco úmidos pela chuva que ele pegou e suas roupas largas pareciam um pijama, só que de um jeito mais infantil, aquele ar tranquilo dele o deixava adorável e fofo. Levantou pra pegar um cobertor e deitar o loiro adequadamente. Voltou e tentou ajeitar o loiro, mas ele se mexeu levemente e pendeu a cabeça pro lado quase caindo, e Ikki o amparou antes disso em seu peito e o acolheu em seus braços, parecia a cena do loiro com Shun na boate, e o leonino ficou vermelho imediatamente, o loiro continuava dormindo, mexeu a cabeça levemente no peito do leonino levantou a mão e segurou a camisa de Ikki, suspirou um pouco e continuou a dormir ali mesmo.
O leonino não soube o que fazer, se se mexesse iria acordar o loiro, e não queria fazer isso já que ele dormia tão tranquilamente e parecia no limite de suas energias, seria judiação, mas tinha que ajeita-lo melhor no sofá senão acordaria todo dolorido no dia seguinte, ficou ali um tempo pensando no que ia fazer e observou o loiro aconchegado em seu peito, ainda estava envergonhado com aquilo, nunca imaginou que seria possível ter o loiro tão perto assim, levou sua mão à face dele e retirou os fios loiros dos olhos dele, começou a acaricia-lo, e como era bom senti-lo, entendia perfeitamente o que Shun sentia quando o abraçava, ele era realmente confortável, quente, suave, foi descendo mais suas mãos pro pescoço do loiro, levantou levemente seu queixo pra poder vê-lo melhor, observou cada traço daquela face e decorava cada detalhe. Vistoriava aquele anjo, o analisando, claro que ele não era feio, era lindo, estonteantemente lindo, como era possível ser assim tão hipnotizante?... Parou naqueles lábios pequenos, queria tanto senti-los, aproximou-se mais ainda e estava prestes a beija-lo quando ouve um resmungo vindo do aquariano, ele estava acordando, como explicaria aquela proximidade agora?
