No dia seguinte, ao acordar, Marvin se sentia mais familiarizado com a presença de Missy. Ele gostava dela e queria considerá-la uma amiga, mas algo o ainda não fazia confiar totalmente nela. Afinal, ela era uma foragida, no entanto, Marvin a olhava e não sentia perigo iminente, mas uma sensação de segurança e encanto.

"É eu sou um idiota mesmo" pensava ele.

Missy pelo contrário, em vez de descansar, leu ferozmente toda a coleção novinha da série de livros O Cemitério dos Livros Esquecidos, que pertencia a Marvin, durante toda a noite.

-Bom dia Missy-cumprimentou o dono da casa.

Foi aí que ele notou seus livros que nem tinha lido ainda, arrumados ao lado de sua hóspede. -Bom dia flor do dia-ela se espreguiçou-o que tem pra comer?

-Você leu tudo isso numa noite?-Marvin ignorou o que ela disse.

-Ah sim eu li-ela respondeu como se fosse algo fácil de fazer-e olha eu entendi porque você fica tão fissurado nessas histórias.

Marvin a olhou com uma cara de pateta apaixonado. "Ah droga... ela é perfeita mesmo" disse a si mesmo em pensamento.

-Senta aqui e me conta mais-Marvin a convidou com entusiasmo e ela, quase que na mesma empolgação se juntou a ele.

-Sabe no começo achei o Daniel um bobão porque a Clara é mais velha que ele e nada a ver com ele mas é coisa de primeiro amor mesmo-Missy começou a tagarelar sobre as obras-mas ele é tão determinado em ir ao fundo do que quer saber sem se importar com as consequências, sem falar em toda a história da vida do Julián Carax, aí quando vai pro David Martín e como as histórias são conectadas pelos...

-Missy Missy Missy-Marvin tentou contê-la e acabou tocando a mão dela, o que a fez sentir um leve arrepio-não me conta spoilers tá? Eu ainda não terminei O Jogo do Anjo.

-Spoiler?-Ela ergueu as sobrancelhas-isso me lembra a esposa do meu melhor amigo. Não se preocupe, pra não perder a graça pra você não conto nada, prometo.

-Obrigada-agradeceu ele aliviado-ach primeira vez q fala de conhecidos seus. Quem é seu melhor amigo?

-Ah... Theta Sigma-Missy sorriu-esse era um apelido da Academia mas ele gostava de ser chamado de Doctor Who. Era o único tão inteligente como eu, mas tão tolinho a maioria das vezes...

Marvin teve que admitir a si mesmo que sentiu inveja do jeito que Missy falou do seu amigo. Mas o que ele poderia fazer? Se declarar logo a Missy? Esperar que ela o correspondesse? Talvez essa segunda opção nunca aconteceria. Por ora ele decidiu aproveitar o pouco que tinha, desfrutar da companhia dela.

-Que foi bo...-ela se interrompeu ao perceber que o apelido dado a Marvin fazia seu coração reagir de forma estranha-Marvin? Está aonde hein?

-Nada Missy-ele sorriu sem graça-nada... eu estou preocupado, tô me atrasando pro trabalho. Olha já que gostou tanto dos meus livros, pode ler minhas outras coleções, ou quem sabe maratonar alguns filmes hein?

-O que me sugere?-perguntou genuinamente curiosa.

-Bom, como você vem do espaço pode ver Star Wars e me dizer o que está certo e errado e o que você achou-respondeu Marvin finalizando com um sorriso sem graça.

Ele comeu apressadamente sob o olhar de sua hóspede. Missy encontrava um sentimento reconfortante em ficá-lo observando. E de novo veio aquela compaixão repentina, só que agora, ao perceber sua agonia e frustração sobre alguma coisa, veio a ela a vontade de abraçá-lo, afagar suas costas, acariciar seus cabelos escuros, mostrar a ele... o que ela sentia, mas o que é que ela sentia afinal? Não queria descobrir, ou será que Missy já sabia o que era tudo aquilo? Quando Marvin se despediu dela, não conseguiu resistir ao impulso de lhe dar um beijo na bochecha, o que causou ao pobre homem uma leve tremedeira. Marvin já tinha saído e ela não queria que ele fosse embora.

"Ah mais que raiva daqueles sentimentos tontos!" Ela pensou. Ela só não queria que o coitado ficasse tão solitário. No fim das contas ela decidiu ir assistir o tal do Star Wars.