Era muito comum Irene fazer suas tarefas de matemática ao lado do pai enquanto ele fazia seus cálculos de contabilidade.
De hora em hora, trocavam ajuda um com o outro. Missy os observava tomando um café forte. Irene já tinha 16 anos agora, era determinada, astuta mas tinha uma compaixão comovente por qualquer um que precisasse.
Nos últimos tempos, Missy sentia uma inquietação dentro de si, como se algo lhe faltasse. Ela tinha tudo que queria, Marvin faria tudo que queria e Irene também, mas ela queria mais.
Em algumas vezes, eles viram desfiles com a família real pela televisão e o jeito como a rainha era referenciada por todos, à sua volta e longe dela. A uma ordem dela, fariam tudo que ela pedisse. Era disso que Missy sentia falta, poder, controlar ao seu bel prazer quem quisesse e como quisesse. Marvin e Irene já eram controlados por ela, ao mesmo tempo, ela desejaria que os dois vivessem suas vidas como quisessem. Ela os amava e por isso lhes concederia essa certa liberdade.
-Mãe?-Irene a chamou distante-Mãe!
-O que foi Irene?-Missy replicou um pouco surpresa.
-Estou te chamando faz tempo-disse a jovem-eu e papai estamos planejando ver Ameaça Fantasma hoje. Você vai vir conosco não é?
-Pensei que iriam só no fim de semana-Missy se lembrou.
-Mas mãe é hoje o dia da estreia!-Irene disse empolgada-Vai ser a primeira vez que eu vou ver um filme de Star Wars no cinema! Acha que eu vou aguentar esperar?
-O seu pai te mima desse jeito-Missy cortou o assunto um pouco azeda.
-Não meu amor, tenho que discordar-Marvin se manifestou-ela já fez a sua tarefa, me ajudou com o serviço de casa e até corrigiu um erro nas minhas contas. Ela mais que merece ir ver Star Wars mais cedo.
-Realmente merece-Missy teve que reconhecer-mas há coisas que tem que conquistar a qualquer custo em vez de fazer por merecer.
-Não entendi-Irene se preocupou.
Não era a primeira vez que sua mãe dizia uma frase mandona e narcisista. Fazia parte de sua personalidade.
-Mas enfim minha querida vamos lá ver o pequeno Darth Vader e se ele parece com você quando era criança-a mãe de Irene deu um sorriso.
-Legal!-a menina a abraçou espontaneamente, agradecida.

Os Adler compraram a pipoca e se acomodaram na sala de cinema. Pai e filha mal continham a animação, já a mãe começou a achar tudo aquilo entediante, por mais que amasse Star Wars.
O filme começou, a trilha de abertura empolgando toda a plateia, a aparição de Jar Jar Binx causou múltiplos sentimentos no sr. e srta. Adler. Marvin se espelhou em Qui Jon Jiin e o jovem Obi Wan enquanto Anakin causou suspiros por sua fofura e ousadia. Ao fim da sessão a personagem favorita de Irene era Padmé Amidala. Os Adler ficaram curiosos sobre como a história de Anakin prosseguiria até se tornar Darth Vader.
Missy observava as pessoas ao seu redor e cada vez mais pensava como seria se cada um daqueles espectadores estivessem sob seu controle.
"Humanos tolos tão comuns presos a sua vidinha idiota e entediante" pensou Missy enquanto voltavam pra casa "estariam tão melhores se estivessem presos na minha mão, conquistando poder cada vez mais em meu nome".
"Mas você amava essa vidinha" parte dela dizia "Levaria Marvin e Irene com você em sua busca por poder?"
"Eles nunca viriam comigo e nunca entenderiam que eu preciso governar, não só essa Terra simplória, mas galáxias, constelações, seres que me serviram como sua verdadeira rainha..."
O lado conquistador acabou a vencendo.
A família Adler jantou com o assunto sendo A Ameaça Fantasma.
-Eu não sei se gostei do Jar Jar Binx-Marvin disse num tom incomodado.
-Pai!-Irene reclamou-confessa logo que ele é irritante e desnecesário sim.
-É, talvez-disse ele-mas eu me incomodei mais com uma coisa, o que é esse tal de midchlorians? A força é simplesmente a força, não precisa de outra explicação.
-Não é?-apontou Irene-mas o jeito que o filme foi montado, ficou um pouco confuso.
-Também achei-Marvin concordou e notou o silêncio incomum da esposa-não vai falar nada meu amor?
-Ah hoje estou mais pra ouvir-ela deu um sorriso sinistro.
À essa altura, Marvin já estava acostumados com ele.
Irene e Marvin continuaram conversando e rindo e quanto mais observava mais via o quanto eles não faziam parte do seu plano conquistador. Ela queria que continuassem com sua vida pacata e segura. Irene terminou seu jantar e depois de desejar boa noite aos pais, retirou-se para dormir.
Missy apenas se aproximou lentamente do marido e deu-lhe um longo beijo, as mãos dela estavam firmes em seu pescoço.
-Eu te amo -sussurrou Missy.
-Eu também-Marvin sorriu surpreso. Depois, passando pelo quarto de Irene, beijou a testa da filha ainda adormecida.
Depositou delicadamente um papel sobre seu criado mudo.
Saiu para o quintal e contemplou a velha TARDIS. Entrou na nave e, ao partir, ouviu aquele som rouco característico, que marcaria o desespero da família que tinha deixado pra trás.