Era vazia a casa sem ela. Não havia mais riso nem brincadeiras e lentamente a alegria ia se esvaindo. Por dias a finco, Irene tentou pensar em todas as possibilidades possíveis para a partida da mãe. Tudo na tentativa de consolar o pai e manter a esperança de que ela voltaria. Tudo em vão.
Seu pai tentava levar a vida. Pelas manhãs Marvin conseguia apenas beber seu café puro, e mal comia alguma coisa, preocupando a filha cada vez mais.
-Pai-dizia ela-você tem que se alimentar, mamãe deve ter partido para resolver algo urgente e não teve tempo de nos avisar. Deve ter sido isso. Tem que estar bem para quando ela voltar.
-Irene você já tem 16 anos-replicou o pai-por mais que me doa te dizer minha querida mas conheço sua mãe o suficiente pra saber que ela não vai voltar.
-Eu me recuso a perder a esperança e você também deveria fazer isso-Irene disse com sensibilidade.
O tempo foi passando e o espírito dos Adler foi ficando cada vez mais abalado. Marvin mal falava, já não assistia os filmes nem lia os livros que tanto amava. Começou a ter dificuldades no trabalho. Errava um cálculo aqui e ali que era relevado pelos patrões, mas então a maioria das suas contas precisavam de correção e as diferenças eram gritantes.
Sem terem escolha, seus patrões o demitiram.
Naquele dia ele voltou completamente desolado para casa. Não queria e nem conseguia prestar atenção às coisas ao seu redor. Era o que Missy tinha lhe ensinado e o que mais queria agora era esquecê-la.
-Pai-Irene o recebeu em casa preocupada-demorou mais que o costume. O que aconteceu?
-Me demitiram filha-confessou ele, cansado-eu não consigo mais fazer direito a única coisa em que sou bom, o que eu vou fazer?
-É tudo culpa dela!-explodiu Irene com raiva-se ela não nos deixasse não estaríamos nessa situação!
-Shhhh-pediu Marvin se sentindo esgotado-você pode ter razão minha filha, mas no fundo eu já sabia que algo assim poderia acontecer e nada do que façamos pode trazê-la de volta. Ela só vai voltar se e quando quiser.
-Então não somos nada pra ela?-rebateu Irene-ela simplesmente pode fazer o que quiser e fica por isso mesmo?
-Não duvide do amor da sua mãe por nós-seu pai a alertou-independente de ter acabado ou não, por um tempo isso foi real e verdadeiro.
-Se fosse real ela não teria ido embora-a moça afirmou mais uma vez-você não merece passar por isso.
Sem emprego e com uma filha adolescente para criar, entrou em desespero.
Chorava e seu único alento era o consolo que a filha oferecia.
Já Irene, acostumou-se a viver sem a mãe, sua esperança tornando-se rancor. A maior parte de seus colegas de escola tinham uma mãe amorosa e preocupada, que fazia de tudo pelos filhos. Era assim que uma mãe deveria ser para Irene, mas a sua própria mãe não era assim. Missy os havia deixado porque simplesmente queria. E se era assim que sua mãe tinha agido, Irene também agiria assim. Faria tudo que pudesse para conseguir o que queria, menos magoar Marvin como Missy tinha feito. Seu pai não merecia estar sofrendo assim.
Marvin então decidiu que não devia se entregar àquela tristeza e preocupação. Afinal a filha só tinha ele agora. Viajou com Irene até Londres, em busca de um emprego. A possibilidade de se mudarem para lá trouxe um pouco de esperança, ali poderiam recomeçar e reconstruir tudo. Contrataram-no como operário em uma fábrica. Deram-lhe alguns dias para que organizasse tudo em Bristol e se mudassem. Pai e filha deixariam a velha cidade para trás esperando também deixar perdidas as lembranças de Missy.
