Irene adormeceu no sofá da sala de espera. Não tinha para onde ir e nem sabia o que fazer. No momento o que restava era esperar.
Foi no meio da manhã, quando ela ainda estava com sono e gastava os últimos trocados com um café da manhã comprado na cantina do hospital que a avisaram que o pai já tinha acordado e que talvez faria bem a ele ver a filha agora. Aquilo foi suficiente para animar o espírito de Irene.
Marvin ainda estava abatido quando Irene o viu. Curativos cobriam sua testa e parte do rosto, os olhos piscavam lentamente.
-Senhor sua filha está aqui-anunciou a enfermeira que acompanhava a jovem.
-Filha...-disse Marvin não a chamando mas duvidando-perdão mas, eu não tenho filha.
Irene entrou em pânico internamente e sua vontade foi de espernear e gritar e chorar descontroladamente, mas não o fez.
-Não se lembra de nada?-perguntou ela com cuidado.
-Lembro que meu nome é Marvin Robert Adler, tenho 39 anos, sou contador da Saunders e Cia-ele disse-sinto muito mas é só isso que me lembro.
-Eu... eu...-Irene suspirou tentando aguentar o choque daquela situação-eu... sou sua filha biológica, estávamos nos mudando de Bristol para Londres quando aconteceu o acidente que tirou parte da sua memória.
-Eu também não me lembrava disso-ele falou-me perdoe por isso, eu vi que está triste...
-Não, não-ela tomou a mão do pai-não se sinta culpado... você é uma vítima, eu vou ter paciência e esperar que se recupere.
-Olha se precisar de ajuda, qualquer uma que precisar -Marvin se compadeceu-conte comigo, assim que eu sair daqui.
Irene apenas sorriu concordando, seu pobre coração estava como que esmagado em migalhas. Tudo que ela sabia era que ia esperar e que toda aquela situação era culpa de sua mãe.
Realizaram exames neurológicos no cérebro de Marvin e constataram que a perda parcial da memória era permanente.
Irene teve toda paciência de esperar que o tratamento terminasse. Não tinha coragem de chamar Marvin de pai na frente dele, ele ainda estranhava o termo, o que a deixava ainda mais chateada.
Porém não o culpava, como dizia, seu pai tinha sido vítima como sempre fora.
-Olha Irene-Marvin a chamou uma vez-eu sei que não tem mais parentes além de mim, mesmo que eu não me lembre, não quero que fique sozinha. Você foi a única que me fez companhia todo esse tempo e se for preciso, digo que lembro que sou seu pai e vou cuidar de você, está bem?
-Obrigada-ela murmurou aliviada.
-Além disso, pode me contar sobre a minha, quer dizer nossa vida-avisou Marvin.
Mas o que Irene queria era que o pai vivesse em paz. Após ser liberado do hospital, ela contou a ele sobre os planos de se mudar pra Londres. Apesar de estranhar isso, Marvin acabou se estabelecendo na capital.
Contudo, por mais que Marvin cuidasse de Irene e acreditasse na sua história, era difícil aceitar em seu interior que a menina era sua filha. Irene o entendia, mas não podia deixar de se entristecer pela situação.
Por sorte Marvin perguntou sobre a mãe de sua filha apenas uma vez, no que Irene respondeu categoricamente que ela estava morta, por mais que fosse uma mentira, que o manteria feliz.
