I

As luzes do quarto estavam apagadas, mas Jeffrey havia acendido velas vermelhas em forma de rosa por toda parte. O lençol de seda estava coberto por pétalas de rosas e havia uma garrafa de vinho e duas taças no móvel ao lado da cama. Jeffrey estava completamente nu sentado numa poltrona contra a janela. A luminosidade da lua cheia se infiltrava pela cortina lançando uma luz pálida sobre o quarto e mantendo a fisionomia de Jeffrey nas sombras. Chad teve que respirar fundo para não pular em cima de seu lobo implorando para que ele o tomasse.

– Gostou? – Jeffrey perguntou numa voz rouca e sensual.

– Como eu poderia não gostar?

Chad se despiu lentamente diante do olhar faminto de Jeffrey. Amava tirar a roupa para ele. Jeffrey sempre o olhava de um jeito... Era quase como se ele fosse a visão do paraíso. Chad se sentia lindo, sexy e amado quando Jeffrey o olhava desse jeito. Quando suas roupas estavam todas no chão, Chad foi até Jeffrey e se inclinou para beijá-lo nos lábios. O lobo branco havia enchido as taças de vinho. Chad apanhou uma e se sentou sobre as pernas de Jeffrey. Tomou um gole e se deliciou tanto com o sabor da bebida em sua boca quanto com a carícia suave que Jeffrey fazia em suas costas. As pontas dos dedos dele deslizavam de sua nuca à linha da espinha fazendo sua pele nua se arrepiar.

– Eu te amo tanto... – Jeffrey sussurrou enquanto beijava seu pescoço.

– Também amo você, Jeffrey. – Chad passou um braço em torno do pescoço dele. – Tanto que não quero que ninguém mais tenha você.

– Você tem algo que ninguém mais terá, Chad. – Jeffrey buscou seus olhos com os dele. – Você tem meu coração.

– Eu tenho o seu coração, mas o seu corpo...

– Meu corpo é só uma casca, amor... – Jeffrey disse. – Já ouviu falar da lenda dos companheiros?

– Lenda? – Chad não conhecia nenhuma lenda assim.

– Acho que deve ser algo que existe apenas entre os lobos brancos... A lenda diz que às vezes, dois lobos já nascem destinados um para o outro e que quando eles se encontram a atração é imediata, irresistível e irreversível. Esses lobos nunca poderiam ser separados. Se não me engano, é por isso que existe a tradição de se reivindicar uma companheira ou companheiro. Para fazer com que a lenda seja verdade.

– Quando eu te vi pela primeira vez, fiquei atraído imediatamente. – Chad confessou. – Parecia mágica...

– E era, amor. – Jeffrey lhe disse sorrindo. – A mágica do destino.

Chad tirou a taça da mão de Jeffrey e a colocou sobre o criado junto com a sua. Depois ele beijou Jeffrey profundamente. Se aquilo era mágica, destino ou apenas uma atração natural, Chad não sabia e nem se importava. Tudo o que era importante no momento era que ele e Jeffrey estavam ali e que eles se amavam.

Jeffrey começou a deslizar os dedos até sua entrada apertada. Chad ergueu um pouco o corpo para facilitar a tarefa do lobo de prepará-lo. O lobo introduziu um dedo dentro dele movendo-o lentamente. Chad continuava a beijá-lo. Quando Jeffrey acrescentou mais um dedo, Chad começou a rebolar. Quando se sentiu preparado, colou os lábios na orelha de Jeffrey e sussurrou:

– Esse é o nosso ritual da lua cheia, amor... Preciso de você agora.

Chad se levantou um pouco enquanto Jeffrey se ajeitava numa posição em que pudesse tê-lo sentado sobre ele. O lobo branco, então, o olhou nos olhos antes de sentar de pernas abertas em seu colo recebendo-o todo dentro dele.

– Calma, amor... – Jeffrey pediu. – Não precisa ter pressa. Essa noite, não vou a lugar algum...

– Vai sim, querido. – Chad disse começando a rebolar. – Vou te levar ao paraíso.

Jeffrey não foi capaz de dizer nada. Apenas deixou a cabeça tombar para trás enquanto gemia baixinho. Chad continuava a rebolar em seu colo levando-o a loucura. As mãos de Chad estavam em seus ombros lhe dando apoio e sua cabeça estava jogada para trás. Seus gemidinhos baixos e roucos eram um verdadeiro afrodisíaco. Nunca se sentira tão bem com nenhuma outra pessoa.

Amava ver o rosto perfeito de Chad pintado de prazer. Quando fazia sexo, Chad deixava os olhos, já muito estreitos, meio fechados. Apenas uma fresta do azul de seus olhos podia ser visto. Jeffrey achava aquilo muito sexy. Chad era sensualidade pura. Quando seu lobinho começou a rebolar mais rápido, Jeffrey entendeu que ele estava quase lá. Jeffrey, então, o segurou pela cintura firmando-o no mesmo lugar e começou a se mover rápido, de um jeito que fazia Chad chacoalhar em seu colo. Os gemidinhos baixos de Chad foram substituídos por gritinhos de prazer. Não demorou até que ambos gozassem ao mesmo momento.

Ainda ficaram abraçados mais um tempo, apenas apreciando o contato um com o outro. Jeffrey estava triste pela expulsão das duas mulheres. Tinha pena delas. Mas no fundo, ele estava feliz por poder passar aquela noite com Chad, que era seu grande amor. Escutou o ressonar suave de Chad e notou que ele dormia. Sem muito esforço, Jeffrey o carregou e o deitou na cama. Esperara tanto para ter Chad ali. Tanto que às vezes custava a acreditar que aquilo era real. Amava Chad com todas as forças. Se ao menos pudesse reivindicá-lo logo...

II

– Chad, eu vou ir sem você! – Dabria gritou.

– Só mais um minuto! – Chad gritou de volta. Estava em frente ao espelho tentando dar o nó na gravata. Raramente em toda a sua vida fora obrigado a usar terno. Agora estava ali, se sentindo um deslocado dentro daquele terno cinza que Jeffrey lhe comprara. Após a décima tentativa, Chad desistiu de tentar domar a gravata. Saiu do quarto e desceu até a cozinha espumando de raiva. – Odeio gravatas! – Disse atirando-a sobre a mesa ao lado das torradas que Jeffrey comia.

– Quê isso, lobinho? – Jeffrey se levantou apanhando a gravata. – É só uma questão de prática... – Ao dizer isso, Jeffrey passou a gravata pelo pescoço de Chad e deu um nó perfeito. – Pronto.

– Você faz parecer tão simples... – Chad queixou-se.

– Café? – Jeffrey ofereceu.

– Chad, eu vou te deixar aí! – Dabria ameaçou. Chad revirou os olhos.

– Eu tomo no caminho. – Chad deu um beijinho em Jeffrey e saiu para encontrar a moça na varanda. Ela vestia um terninho cinza e usava botas de trilha. Seus saltos estavam enfiados dentro da bolsa.

– Me dê seus sapatos. – Ela pediu. Chad, que usava botas de trilha também, passou os sapatos sociais para Dabria que os enfiou na bolsa. – Vamos.

Os dois atravessaram a vila até chegarem à floresta. Chad suspirou. Estava ali há alguns dias e não se transformara nenhuma vez. Seu lobo já começava a se sentir acuado. Lobos brancos eram criaturas noturnas, mas lobos madeira preferiam correr durante o dia. Aquela manhã estava excepcionalmente agradável e convidativa para uma corrida. Mas ao invés de correr, Chad iria com Dabria a Seattle negociar o trabalho de um lobo da Matilha do Sul. Chad podia ser um lobo, mas não possuía nenhum dom mágico como os lobos brancos. Então ficou decidido que ele seria um intermediário como as mulheres, até encontrarem uma ocupação melhor para ele.

– Não fique assim. – Dabria o guiava pela trilha na floresta. – É por pouco tempo. Tenho certeza que o alfa vai encontrar algo melhor para você fazer.

– Sei... – Na Matilha de Stª. Bárbara, como beta, Chad não tinha nenhuma obrigação dentro da matilha a não ser protegê-la e ajudar Jared a tomar decisões. Mas ali, na Matilha do Sul, todos tinham que trabalhar para o bem da matilha.

– Vai ser divertido. – A moça tentou animá-lo.

– Assim eu espero...

Após uma longa caminhada, Chad e Dabria chegaram à fazenda do velho que guardava os carros da matilha. O velho abriu o celeiro e Dabria tirou um carro de lá. Chad havia imaginado que Dabria usaria o mesmo carro que Jeffrey usara para trazê-lo, mas a moça dirigia um Land Rover branco. Quando Chad se sentou no banco de passageiros, percebeu que ela já havia tirado as botas e agora usava os saltos. Chad a imitou.

– Vai demorar? – Chad não pôde evitar a pergunta. Ele queria muito voltar para casa e ficar com Jeffrey.

– Só um pouco. – Dabria sorriu. – Vamos passar em Moonville antes. – Ela avisou. – Será bem rapidinho.

Os dois entraram na vila humana e pararam em uma oficina mecânica. Um homem loiro, de olhos verdes profundos saiu do interior da loja. Chad franziu as sobrancelhas. Queria ser um mico de circo se aquele homem não era parente do alfa e de Jensen e Kenzie de algum modo. Ao vê-lo se aproximando, Dabria corou um pouco.

– Ei! – O homem abriu um sorriso ao parar ao lado da janela do motorista. – A que devo a honra?

– Só um barulhinho estranho no motor. – Dabria disse sorrindo de um modo encantador. Chad não parava de olhar dela para o homem. – Você pode dar uma olhadinha, Josh?

– Claro! – O sorriso de Josh murchou quando ele reparou em Chad no banco do passageiro. Ao perceber o olhar do mecânico, Dabria se apressou em fazer as apresentações.

– Ah, esse é o Chad, meu padrasto. Chad, esse é o Josh, o melhor mecânico da vila.

– Prazer. – Chad sorriu amistosamente para o homem, mas ele ainda parecia desconfiado.

– Você não disse que morava com o seu pai? – Josh perguntou. – Como ele pode ser seu padrasto?

– Pois, é. Ele está namorando o meu pai. – Dabria disse sem o menor constrangimento, o que deixou Chad comovido.

– Ah! – Josh pareceu sem graça. – Então... Vou dar uma olhada no motor.

– Certo. – Dabria disse descendo do carro. – Enquanto isso, eu e o Chad vamos ali tomar um café.

Chad seguiu Dabria a um café do outro lado da rua. Assim que passaram seus pedidos à garçonete, Chad decidiu perguntar.

– Quem é aquele cara? Ele é parente do alfa?

– É o filho mais velho do alfa. – Dabria disse fingindo indiferença. – Um não lobo.

– Pensei que vocês mandassem seus não lobos para longe.

– E mandamos. – Dabria disse lançando um olhar triste em direção à oficina. – Mas o destino, às vezes, os traz de volta. Josh chegou aqui há dois meses. É claro que ele não se lembra de nada sobre a matilha, mas toda vez que via Kenzie, ele fazia perguntas. São tão parecidos... Agora ele não pergunta mais. Já se acostumou.

– O alfa sabe que ele está morando aqui?

– Sabe, mas prefere evitar vir à vila para não se encontrar com ele. – Dabria deu de ombros. – É doloroso para ele.

– Se é assim tão doloroso, para começar, ele não deveria ter mandado o filho para longe.

Chad odiava o modo como os lobos brancos lidavam com os filhos não lobos. Mesmo após a explicação do alfa, Chad continuava a achar sem sentido o que eles faziam.

– Eu concordo com você, Chad. É errado agir assim com nossos filhos só por que não são lobos, mas é a tradição e a tradição só pode ser quebrada por um alfa e o Alfa Roger nunca fará isso. Vejamos como o Luck, ou o outro filho lobo previsto para o nosso alfa, fará quando tomar a frente da matilha.

Chad se sentiu tentado a perguntar se Dabria gostava de Josh, mas aquilo era bem óbvio. Mas aquele era um amor proibido. Como uma filha de lobo, Dabria só poderia se unir a um lobo. Caso contrário, seria expulsa da matilha. Chad sentiu pena dela. Não era a toa que Dabria não gostava do Ritual da Lua Cheia.

Quando voltaram à oficina, Josh explicou que o carro tinha um problema simples e que Dabria poderia ir à Seattle tranquilamente e deixar o carro na oficina quando voltasse. Dabria e Chad visitaram uma família rica de Seattle que alegava que havia um fantasma na casa. Dabria combinou de levar Steve Carlson no dia seguinte. Após deixarem o carro na oficina, Chad e Dabria seguiram a pé até a fazenda e de lá até a vila dos lobos na floresta.

Ao invés de ir para casa, Dabria foi se encontrar com a filha do alfa na casa dela. Chad foi para casa sozinho. Jeffrey o esperava com o almoço pronto.

– E como foi, lobinho? – Jeffrey perguntou indo beijá-lo.

– Interessante. – Chad disse se sentando à mesa. – Posso te fazer uma pergunta?

– Claro. – Jeffrey serviu risoto ao namorado.

– Você sabe sobre o Josh?

– O filho não lobo do alfa? – Jeffrey pareceu não se importar muito. – Sei sim. O que tem ele?

– Você sabe que Dabria gosta dele? – Chad tentou estudar a expressão no rosto de Jeffrey, mas o lobo não pareceu surpreso.

– Sei sim. – Jeffrey o encarou. – Uma pena ela não ter coragem de fazer o que deve...

– E o que ela deveria fazer? Esquecer o homem que ama só por que ele não é lobo e ir participar do ridículo Ritual da Lua cheia? – Se Jeffrey achava que a filha deveria se curvar docilmente às tradições, então, o amor que o lobo dizia sentir por ele talvez não fosse tão forte. Afinal, a situação dos dois não era muito diferente da dela.

– Não. – Jeffrey respondeu tranquilamente. – Eu acho que ela deveria esquecer a matilha e ir viver o amor dela.

– O quê?! – Chad estava surpreso.

– É o que eu teria feito se o alfa não tivesse aceitado você.

– Você...? – Chad não conseguia acreditar. – Você largaria tudo por mim?

– Claro que largaria. – Jeffrey disse surpreso pelo espanto de Chad. – Você é o amor da minha vida, lembra? Desde adolescente eu sabia que me apaixonaria por um lobo madeira, então, eu sabia que havia a possibilidade de ter que sair da matilha para viver esse amor. Isso me deixou meio que preparado. Mas a Dabria... Ela ainda é muito encantada com a matilha para abandoná-la. Sem falar que ela ficaria desprotegida.

– Não há nada que possamos fazer por ela? – Chad sentia pena da enteada.

– O nosso alfa já mudou muitas das tradições antigas que o pai dele defendeu até a morte. Ele é bem mais liberal que os alfas anteriores, mas essa tradição ele não vai mudar. – Jeffrey suspirou pesadamente. – O problema é que o número de lobos vem diminuindo muito nos últimos anos. Da geração de Luck, temos apenas mais dois lobos. Se continuar assim, nossa matilha será extinta...

– E quanto a Kenzie? – Chad quis saber. – Ela parece gostar do Steve. Ele é lobo, não é?

– A Kenzie não acredita no Ritual da Lua. – Jeffrey explicou. – Ela não acha certo um lobo dormir com ela só por que o ritual manda. Se o Steve quiser ficar com ela, ele terá que fazer isso por que a ama e não por que o ritual manda assim.

– Pobres meninas... – Chad lamentou.

– Eu sei, mas não há nada que a gente possa fazer por elas. – Jeffrey afagou o ombro de Chad. –Essa noite, lobinho, você ficará sozinho. É a minha vez de fazer a ronda.

– Por quê?

– Eu queria curtir mais a nossa lua de mel, mas não temos muitos lobos, sabe... Temos que revezar.

– Droga! – Chad fechou a cara. Não custava nada lhe darem ao menos mais uma semana com seu lobo. Aquilo deveria ser a lua de mel deles.

– Vamos, lobinho... Não fique emburrado assim. Dabria e Kenzie te farão companhia.

– Sessão pipoca... – Chad desdenhou.

– De manhã eu estarei de volta.

Jeffrey o puxou para um beijo lento e doce. Chad se deixou arrebatar pelo beijo. Quando decidiu abandonar sua matilha para viver com Jeffrey, sabia que nem tudo seria um mar de rosas. Podia não gostar da idéia, mas não ia ficar emburrado como um garotinho só por que Jeffrey tinha que cumprir a obrigação dele.

III

Fazia menos de meia hora que Jeffrey saíra quando Kenzie entrou pela porta vestida de um jeito que deixava claro que ela não ficaria em casa assistindo filmes e comendo pipoca. Dabria e Chad se entreolharam e sem esperar as ordens da filha do alfa, eles correram para se arrumar. Voltaram para sala e encontraram Kenzie a olhá-los com satisfação.

– E onde é a festa? – Chad perguntou animado.

– Você vai ver... – Kenzie sorriu com malícia. – Peguem suas botas de trilha.

Só então, Chad e Dabria repararam que a filha do alfa usava botas que não combinavam nada com sua saia de renda ou com as meias de seda.

– Kenzie... – Havia um tom de alerta na voz de Dabria.

– Qual é, lobinha? Quer ficar em casa em plena sexta-feira à noite? – Kenzie cruzou os braços. – E essa nem é nossa primeira fuga...

– Nós não podemos ir e vir da matilha quando bem quisermos? – Chad perguntou espantado.

– Durante o dia, sim. – Dabria respondeu. – À noite, só com a permissão do alfa e acompanhadas por algum lobo.

– Bem, eu sou um lobo. – Chad disse.

– É, mas não temos a permissão do alfa. – Kenzie disse. – E se fôssemos lá pedir, duvido que ele permitiria nossa empreitada.

– E o que vamos fazer? – Dabria perguntou desconfiada.

– Vamos nos encontrar com o terceiro mosqueteiro.

– Ah! – A compreensão se espalhou pela face de Dabria. – Seu pai não permitiria nunca.

– Ei! Do que vocês duas estão falando? – Chad quis saber. Detestava se sentir excluído da conversa.

– Você verá, d'artagnam... – Kenzie disse se dirigindo a porta.

Chad e Dabria correram para calçar as botas. Dabria pegou uma bolsa onde enfiou seus saltos e os sapatos de Chad. Os dois se encontraram com Kenzie na varanda e juntos os três se esgueiraram até a entrada da vila.

– Certo. – Kenzie cochichou. – Essa é uma noite amena, quase não tem vento, sem chance de eles captarem nosso cheiro. Acho que se passarmos pela trilha velha, poderemos despistá-los.

– Não sei, não... – Dabria estava receosa. – É lua negra. Não tem luz para nos orientarmos...

– Para isso eu vim prevenida. – Kenzie tirou três lanternas de dentro da bolsa. Entregou uma a Dabria e estendeu outra para Chad que recusou.

– Sou um lobo. – Chad as lembrou. – Enxergo bem no escuro, mesmo em forma humana.

– Tinha esquecido. – Kenzie guardou de volta a terceira lanterna. – Vamos.

Os três se esgueiraram pela floresta fazendo o mínimo de barulho possível. Geralmente, mesmo com sua super audição de lobo madeira, Chad não conseguia detectar direito os lobos brancos. Eles tinham um modo de se mover encobrindo o som de seus passos com o sussurrar do vento e o farfalhar das folhas de árvores que os deixavam quase inaudíveis. Mas como aquela era uma noite sem vento, Chad sempre sabia onde as sentinelas estavam e com isso ele conseguia desviar da direção delas guiando as meninas por um caminho seguro.

Quando chegaram à fazenda, Kenzie foi até o velho acordá-lo para que abrisse o celeiro. De mau humor e já usando pijamas, o velho abriu o celeiro para que pegassem o carro. Chad se surpreendeu quando Kenzie abriu a porta de um Camaro para ele entrar.

– Esse carro é seu?

– É da matilha. – Ela disse com indiferença.

Chad foi para o banco de trás e Dabria se sentou ao lado de Kenzie na frente. Rodaram por cerca de duas hora até Chad se dar conta de onde estavam indo.

– Kenzie, dê meia volta. – Pediu. – Estamos quase entrando nos limites da Matilha de Stª. Bárbara.

– Relaxa, Chad. – Kenzie disse simplesmente.

– É sério. – Chad a alertou. – Se os outros lobos madeira nos virem, não vão me ver como companheiro e sim como um invasor trazendo, ainda por cima, duas filhas de lobos brancos.

– D'Artagnam, relaxa. – Dabria sorria. – Não vamos entrar, tá?

Como se quisesse confirmar as palavras da amiga, Kenzie estacionou o carro num antigo posto de gasolina desativado. Chad já iria perguntar o que as meninas queriam ali, quando ouviu passos apressados. Olhou com atenção para um dos lados da rua e viu um vulto correndo em direção ao Camaro. Preocupado, Chad se preparou para se transformar, mas Dabria se virou e pôs a mão em seu ombro.

– Relaxa, d'Artagnam. – Ela sorria. – É só o terceiro mosqueteiro.

Chad farejou o ar e reconheceu o cheiro. Antes que o vulto entrasse na luz fosca que o poste velho projetava na rua escura, Chad abriu a porta do carro para Jensen entrar.

– Vocês são loucas, lobinhas! – Jensen disse sorrindo indo se sentar ao lado de Chad após dar um beijo no rosto de cada menina. – E você também é louco. – Jensen olhou com falsa zanga para o lobo madeira. – Que idéia a de trazer as duas maluquinhas até aqui... Aposto que vocês não tiveram a aprovação do alfa, não é mesmo?

– E você, Jensen? – Chad o olhou com desconfiança. – O Jared sabe que você está aqui?

– Felizmente o Jared está fazendo a ronda lá do outro lado. – Jensen disse com displicência. – Vamos?

Kenzie deu a partida e logo o Camaro dava meia volta. Chad pensou que eles voltariam para Moonville, mas Kenzie os levou por outro caminho. Seguiram pela rodovia até virarem numa estradinha de terra que dava para um lago. Kenzie mal parou o carro e Jensen e Dabria saíram correndo até o píer. Estava muito escuro, mas mesmo assim eles conseguiram forrar no chão uns mantos que haviam trazido. Kenzie passou a Chad algumas velas que o lobo acendeu num circulo em torno dos mantos. Kenzie trouxe uma garrafa de vinho e quatro taças.

– Ah, esse vinho seria melhor gelado... – Ela comentou.

– Sem problema.

Jensen correu de volta ao carro e tirou do porta-malas uma bacia de bronze. Depois ele foi até a beirada do píer e se inclinou para encher a bacia com água. Dabria abriu um lugar entre as taças para Jensen colocar a bacia. Depois o ômega mergulhou a garrafa de vinho na água.

– Nessa época do ano, a água do lago fica super gelada. – Ele explicou. – É só esperar um pouquinho e o vinho gela...

– Isso meio que parece um ritual de bruxaria... – Chad comentou ao ver a bacia de bronze rodeada por quatro taças de vidro. As meninas e os dois lobos estavam sentados em torno da bacia e um círculo de velas acesas os rodeava.

Os quatro olharam em volta, depois se entreolharam e logo caíram na gargalhada. Não eram bruxos. Eram lobos. Ainda que houvesse magia entre os lobos brancos, Chad era um lobo madeira, Kenzie e Dabria não eram lobos e Jensen era um ômega que ainda não descobrira suas habilidades. Mesmo que aquela fosse uma noite de lua negra, quando a magia dos ômegas ficava mais forte, nenhuma bruxaria sairia dali. Era o que pensavam.

Ficaram conversando amenidades até que o vinho gelasse um pouco. Jensen serviu o vinho. Eles beberam e conversaram mais um pouco, até que Chad os lembrou que os turnos da ronda dos lobos madeira não duravam a noite toda. Eles voltaram para o carro e Kenzie dirigiu de volta até o posto. Chad não se surpreendeu ao ver Jared ali de braços cruzados e com uma expressão de pura fúria no rosto, em geral, sorridente. Ao lado dele estava Jim, igualmente furioso. Misha estava mais atrás e parecia levemente constrangido. Chad imaginou acertadamente que havia sido o lobo branco quem ajudara Jensen em sua escapulida.

– Está encrencado, irmãozinho? – Kenzie perguntou preocupada.

– Não muito... – Jensen beijou as garotas e saiu do carro. – Me liguem.

Chad assistiu Jensen ir arrastando os pés até o alfa. O ômega teve o bom senso de parecer arrependido, mas pelo pouco tempo que Chad passara com ele naquela noite, sabia que era tudo fingimento. O cara deveria ser ator. Chad escutou Jared dando uma bronca em Jensen. Nada muito pesado. Jared não estava com raiva por Jensen ter saído sem sua permissão, mas por ter se exposto ao perigo saindo sem nenhuma escolta. Jensen escutou calado, apenas revirando os olhos de vez em quando. Isso parecia enfurecer Jared ainda mais.

Ao ver seu antigo alfa e seu melhor amigo de longe, Chad sentiu um aperto no peito. Tinha saudade, mas não podia voltar. Havia feito uma escolha.

– Quer ir lá? – Kenzie perguntou.

– O quê?! – A ideia já havia passado pela cabeça de Chad, mas ele a descartara por temer a reação de Jared. – Melhor não.

– Não seja medroso. – Dabria provocou. – Vá lá dar um abraço no seu amigo.

– Rápido por que temos que voltar para casa antes que meu pai descubra que escapuli. – Kenzie alertou.

Com um pesado suspiro, Chad se forçou a sair do carro. Temia que Jared lhe virasse as costas e, assim como o Alfa Ackles havia falado de Jensen, dissesse que ele não era mais da sua matilha. Quando Jared o viu se aproximando, parou de xingar Jensen e ficou parado olhando para ele. Chad se aproximou mais. Quando estava a menos de um metro de Jared, ele parou. Queria abrir a boca e dizer alguma coisa. Ao menos se desculpar por ter ajudado Jensen a fugir. Mas sua voz não saia. Jared, então, o puxou para um abraço apertado.

– Que saudade, irmão! – Jared disse ainda o mantendo em seus braços. – Que saudade!

– Também senti sua falta, Jay. – Chad estava quase chorando.

– Você está bem? – Jared rompeu o abraço para olhá-lo. – Estão te tratando bem lá?

– Estão sendo gentis comigo...

– Mas... – Jared havia enfiado a mão dentro de sua camisa e a passado pelos seus ombros. – Cadê a marca de reivindicação? Onde o Jeffrey te mordeu?

– Bom... Em lugar nenhum. – Chad baixou o olhar. – Ele ainda não me reivindicou.

– Como assim ele ainda não te reivindicou? – Jared parecia estar furioso de novo. – Ackles me pediu você por que Jeffrey iria reivindicá-lo. Se ele não reivindicou, não tem sentido nenhum você continuar lá.

– Ele vai reivindicar, Jay. – Chad justificou. – Só não pode fazer isso agora...

– Por quê?

– É complicado explicar...

– Eu vou ligar para Ackles para saber o que está acontecendo.

– Não faça isso! – Chad pediu desesperado. – Se você ligar para o alfa, ele saberá que eu as meninas saímos essa noite.

– Você não pode sair? – Jared parecia cada vez mais furioso. – Você é um prisioneiro, Chad?

– Não é isso... – Chad não sabia como explicar para Jared sem comprometer os segredos dos lobos brancos. Afinal, ele não podia contar que o sangue das mulheres era mágico e que por isso elas sempre tinham que estar escoltadas por um lobo. – É complicado explicar.

– Chad, eu não estou gostando do modo como estão te tratando. – Jared disse num tom firme. – Chega! Você não vai voltar para a Matilha do Sul. Eu estou pegando você de volta.